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TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana11 de 30

Lição 11: A revelação especial e sua preservação

Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 1

Diego Gonçalves25 min de leitura4.998 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 1: Introdução: teologia, revelação e Escritura.

Objetivos da lição

  • Definir a revelação especial e distinguir revelação, inspiração, inscrituração, preservação e iluminação.
  • Identificar os modos pelos quais Deus se revelou, com os termos hebraicos e gregos que os descrevem.
  • Compreender por que Jesus Cristo é a Palavra definitiva do Pai, ao mesmo tempo revelador e conteúdo da revelação.
  • Examinar a passagem da revelação oral à Escritura e o modo como Deus preservou a sua palavra.
  • Situar a posição arminiana e wesleyana diante das outras tradições e dos modelos modernos de revelação.

Introdução

Em muitas famílias brasileiras existe um caderno de receitas da avó: capa engordurada, folhas amareladas, letra inclinada de quem aprendeu a escrever tarde. Enquanto ela viveu, ninguém precisava dele, porque a receita estava nas mãos dela, no ponto da massa que ela conhecia pelo tato. Um dia, porém, alguém teve o cuidado de escrever tudo, e foi por causa daquele caderno, copiado mais de uma vez quando as folhas começaram a se desfazer, que os netos que nunca a viram cozinhar ainda fazem o mesmo bolo de fubá.

A lição 10 tratou da revelação geral, que alcança todas as pessoas pela criação, pela consciência e pela história e as torna responsáveis, sem salvá-las. Esta lição trata da revelação especial: o modo como Deus falou ao seu povo, em palavras e em atos, até falar de uma vez por todas no seu Filho, e o modo como fez registrar e guardar essa palavra. As lições 12 a 14 tratarão da inspiração e da autoridade da Escritura, do cânon e da interpretação.

Da versão anterior deste texto conservamos o fio do argumento: a iniciativa é de Deus, a revelação culmina em Cristo, e Deus providenciou que ela não se perdesse. O assunto tem endereço certo entre nós, onde há igrejas em que alguém “recebeu uma revelação” toda semana e casas em que a Bíblia fica aberta no Salmo 91 sobre a estante, como objeto de proteção, e quase nunca é lida.

1. Os termos

1.1 Revelação especial

Chamamos revelação especial o ato livre e gracioso pelo qual Deus se dá a conhecer, de modo particular e redentor, a pessoas determinadas, em momentos determinados da história, para a salvação do mundo. Ela é especial quanto aos destinatários, porque foi dada a Abraão e à sua descendência, aos profetas e aos apóstolos; e quanto ao conteúdo, porque anuncia o que a criação não pode dizer: o nome de Deus, a sua aliança, o perdão dos pecados e a obra redentora que culmina em Cristo. A. B. Langston, teólogo batista que formou gerações de pastores brasileiros, define a revelação cristã como “a manifestação de Deus na pessoa e no trabalho de Jesus Cristo” e na preparação para a sua vinda (Esboço de teologia sistemática, cap. 8).

1.2 Palavra e ato

O hebraico dābār significa “palavra”, mas também “coisa” e “acontecimento”; quando “a palavra do SENHOR veio” a um profeta (Jeremias 1:4), algo aconteceu. O grego logos herda essa densidade. Geerhardus Vos, teólogo reformado, observa que na Escritura a “ato-revelação” caminha ao lado da “palavra-revelação”, e que os atos de Deus nunca são deixados falar sozinhos: “primeiro a palavra, então o fato, depois de novo a palavra interpretativa” (Teologia bíblica, introdução). Assim foi com o êxodo, anunciado a Moisés, vivido pelo povo e interpretado na Lei; assim foi com a cruz, anunciada pelos profetas, cumprida em Jerusalém e interpretada pelos apóstolos.

1.3 Cinco termos que não se confundem

A revelação é o ato pelo qual Deus tira o véu (apokalyptō) e se dá a conhecer. A inspiração é a ação do Espírito sobre os autores sagrados, pela qual o que escreveram é palavra de Deus (lição 12). A inscrituração (do latim inscripturatio, termo da ortodoxia protestante) é a passagem da revelação, dada primeiro de forma oral e histórica, para a forma escrita. A preservação é o cuidado providencial com que Deus guardou essa palavra ao longo dos séculos. A iluminação é a obra do Espírito que abre o entendimento de quem lê (Lucas 24:45). Nem tudo o que Deus revelou foi escrito (João 20:30), e nem tudo o que foi escrito chegou ao autor por revelação direta, porque Lucas se informou “com exatidão desde o princípio” junto às testemunhas (Lucas 1:3); ainda assim, tudo o que a Escritura contém é inspirado. H. Orton Wiley guarda a mesma distinção entre a revelação, comunicação da verdade, e a inspiração, que assegura a sua transmissão fiel (Christian Theology, vol. 1).

2. Os modos da revelação especial

2.1 “Muitas vezes, e de muitas maneiras”

O texto clássico abre a Epístola aos Hebreus:

Deus falou antigamente muitas vezes, e de muitas maneiras, aos ancestrais pelos profetas. Mas nestes últimos dias falou a nós por meio do seu Filho, a quem constituiu por herdeiro de todas as coisas, e pelo qual também fez o universo. O Filho é o resplendor da sua glória, a expressa imagem da sua pessoa, e sustenta todas as coisas pela palavra de poder. E, depois de fazer por si mesmo a purificação dos pecados, sentou-se à direita da Majestade nas alturas;

Hebreus 1:1-3

Os advérbios polymerōs kai polytropōs significam “em muitas partes” e “de muitos modos”: uma revelação dada aos pedaços, em épocas sucessivas, e por formas variadas. Wesley comenta que Deus foi revelando cada vez mais, em tempos e graus diversos, por visões, sonhos e outros meios, em contraste com a revelação inteira e perfeita que fez por Jesus Cristo (Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Hebreus 1:1).

2.2 Teofanias, sonhos e visões

A teofania é uma aparição visível e temporária de Deus: diante de Abraão “apareceu um fogo fumegando, e uma tocha de fogo que passou por entre os animais divididos” (Gênesis 15:17); Moisés viu a sarça que “ardia em fogo, e a sarça não se consumia” (Êxodo 3:2); Jacó, em Peniel, disse: “vi a Deus face a face, e foi livrada minha alma” (Gênesis 32:30). Destaca-se ainda o anjo do SENHOR, que se distingue de Deus e fala como Deus (Gênesis 16:7-13; 22:11-18). Vos chama de “sacramental” a intenção dessas aparições, pelas quais Deus assegurava a sua presença sem dar a entender que a sua natureza fosse corpórea, e vê na encarnação “a expressão máxima” desse arranjo.

Deus falou também por sonhos e visões, e o próprio Senhor os distingue de um modo mais alto:

E ele lhes disse: Ouvi agora minhas palavras: se tiverdes profeta do SENHOR, lhe aparecerei em visão, em sonhos falarei com ele. Não assim a meu servo Moisés, que é fiel em toda minha casa: Face a face falarei com ele, e às claras, e não por figuras; e verá a aparência do SENHOR: por que pois não tivestes temor de falar contra meu servo Moisés?

Números 12:6-8

Havia ainda meios ligados ao culto, como o Urim e Tumim no peitoral do sumo sacerdote (Êxodo 28:30).

2.3 A profecia e os atos poderosos

O modo mais característico do Antigo Testamento é a profecia. O profeta é a boca de Deus: “Eis que tenho posto minhas palavras em tua boca” (Jeremias 1:9); e “o Senhor DEUS não fará coisa alguma sem ter revelado seu segredo a seus servos os profetas” (Amós 3:7). Pedro explica que “a profecia jamais foi produzida pela vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus conduzidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21). O particípio pheromenoi, “conduzidos”, vem do verbo que Lucas usa para o navio arrastado pelo vento na tempestade (Atos 27:15): os profetas não deixaram de ser eles mesmos, mas a força que os movia não vinha deles.

Deus se revelou ainda pelos seus atos poderosos, sobretudo pelo êxodo: “Vós vistes que falei desde o céu convosco” (Êxodo 20:22). Os milagres de Jesus são “sinais” (sēmeia), porque apontam para além de si (Hebreus 2:3-4).

2.4 A tríplice maneira em Armínio e o caráter progressivo

Armínio, no discurso O autor e o objetivo da teologia (1603), resume essa variedade segundo as faculdades humanas: Deus se revela pelos sentidos externos, com imagem ou discurso audível; pela imaginação, em sonho ou visão; e pela mente, à qual às vezes se dirige “de uma maneira inefável, que é chamada inspiração” (As obras de Armínio, vol. 1). Deus fala à criatura pelos caminhos que ele mesmo lhe deu.

Essa revelação foi progressiva, e Vos insiste em que o progresso é orgânico, como da semente à árvore: “nós não dizemos que, qualitativamente, a semente é menos perfeita do que a árvore”. O progresso não vai do erro à verdade, mas do menos claro ao mais claro, e por isso o Antigo Testamento se lê como o leu Jesus no caminho de Emaús, que “começando de Moisés, e por todos os profetas, lhes declarava em todas as Escrituras o que estava escrito sobre ele” (Lucas 24:27).

3. Cristo, a Palavra definitiva do Pai

3.1 A Palavra que se fez carne

O prólogo de João leva a revelação ao seu ponto mais alto:

No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Esta estava no princípio junto de Deus. Por esta foram feitas todas as coisas, e sem ela não se fez coisa nenhuma do que foi feito.

João 1:1-3

A Bíblia Livre traduz logos por “Palavra”, e a tradição consagrou também “Verbo”. Ela “se fez carne, e habitou entre nós” (João 1:14), isto é, armou a sua tenda (eskēnōsen), como no tabernáculo. João conclui: “o unigênito Deus, que está no seio do Pai, ele o declarou” (1:18). O verbo é exēgēsato, de onde vem “exegese”; o Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento registra a leitura de Cristo como a exegese do Pai e conclui que o versículo trata de “uma revelação exata, clara e plena de Deus” (verbete “explicar”). Hebreus chama o Filho de charaktēr, “a expressa imagem” do ser de Deus (1:3), a marca que o sinete deixa na cera; o mesmo dicionário diz que Cristo é aquele sobre quem Deus “carimbou ou imprimiu o Seu Ser”. Jesus pôde dizer: “Quem a mim tem visto, já tem visto ao Pai” (João 14:9).

3.2 Revelador e conteúdo da revelação

Os profetas traziam a palavra; o Filho é a Palavra. Os profetas apontavam para a salvação; o Filho a realiza. Nele o revelador e o revelado coincidem: “ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho, e a quem o Filho o quiser revelar” (Mateus 11:27). Armínio desenvolve o ponto com cuidado trinitário: o Pai manifesta o evangelho pelo Filho, enviado como Mediador, “o Verbo feito carne”, e pelo Espírito, que é “o Espírito de Cristo”; e não é de admirar que Cristo, sendo o objeto do evangelho, “deva ser, igualmente, o seu revelador”. No mesmo discurso, chama o evangelho de “o ponto extremo e a perfeita conclusão de toda a revelação” (O autor e o objetivo da teologia). Neste sentido, as teofanias anunciavam a presença, os sonhos anunciavam a comunicação, a profecia anunciava a palavra, e em Jesus presença, comunicação e palavra são uma só pessoa.

3.3 Uma revelação completa, testemunhada pelos apóstolos

“Nestes últimos dias” (Hebreus 1:2) é expressão escatológica: o Filho não é mais um profeta numa série que continua, mas a palavra final do Pai, e a fé “de uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3). Armínio tirou daí a doutrina da perfeição da Escritura: contra as “inspirações, visões, sonhos e outras coisas novas e entusiásticas”, afirma que, desde Cristo e os apóstolos, nenhuma inspiração de coisa necessária para a salvação foi dada a ninguém que não esteja plenamente contida nas Escrituras; a igreja, “em um estado adulto”, pode crescer no conhecimento, mas não é “capaz de receber acesso a novos artigos” (Debates privados, VII).

Jesus prometeu aos apóstolos que o Espírito os faria lembrar “tudo quanto tenho dito” (João 14:26) e os guiaria “em toda verdade”, tomando do que é de Cristo para anunciar-lhes (16:13-14). Paulo diz que o mistério de Cristo “foi revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas” (Efésios 3:5), e João escreve o que ouviu, viu e tocou “quanto à Palavra da vida” (1 João 1:1). O testemunho apostólico pertence à própria revelação: é o Espírito de Cristo interpretando, pelos apóstolos, a obra que Cristo realizou.

4. Da revelação à Escritura: a inscrituração

4.1 “Escreve isto para memória em um livro”

A revelação foi primeiro vivida e falada; depois, por ordem de Deus, foi escrita. “O SENHOR disse a Moisés: Escreve isto para memória em um livro” (Êxodo 17:14); no Sinai, “Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR” (Êxodo 24:4); e no fim da vida deixou o livro junto da arca:

E quando acabou Moisés de escrever as palavras desta lei em um livro até concluir, Mandou Moisés aos levitas que levavam a arca do pacto do SENHOR, dizendo: Tomai este livro da lei, e ponde-o ao lado da arca do pacto do SENHOR vosso Deus, e esteja ali por testemunha contra ti.

Deuteronômio 31:24-26

A Jeremias, o Senhor manda escrever num rolo “todas as palavras que falei a ti” (Jeremias 36:2); e quando o rei Jeoaquim lança o rolo ao fogo, Deus manda escrever tudo de novo, e Baruque o faz, com “muitas outras palavras semelhantes” (36:27-32). O rei queimou o rolo, mas não conseguiu queimar a palavra. No Novo Testamento, Lucas escreve “em ordem” para que Teófilo conheça “a certeza das coisas” que aprendeu (Lucas 1:3-4), e João declara: “estes estão escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; e para que crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:31).

4.2 Por que Deus fez escrever

Armínio responde com precisão: Deus usou primeiro a palavra falada e, depois, a escrita, “como um meio mais seguro contra a corrupção e o esquecimento”, e concluiu a revelação por escrito, de modo que agora temos “a Palavra infalível de Deus em nenhum outro lugar, além das Escrituras”, chamadas por isso “o instrumento da religião”; a causa principal desses livros é “Deus, em seu Filho, pelo Espírito Santo” (Debates privados, V). Daí se tiram cinco razões. Em primeiro lugar, a memória, porque o que não se escreve se esquece. Em segundo lugar, a fidelidade, porque o texto fixo resiste melhor à corrupção do que a lembrança. Em terceiro lugar, a universalidade, porque “todas as coisas que foram escritas com antecedência foram escritas para o nosso ensino” (Romanos 15:4). Em quarto lugar, o exame público, como fizeram os bereanos, “examinando a cada dia as escrituras” (Atos 17:11). Por fim, a aliança, cujo livro ficava junto da arca “por testemunha”.

Wesley resume essa história no prefácio às Notas (1755): a palavra do Deus vivo, que dirigiu os primeiros patriarcas, foi escrita no tempo de Moisés; a ela se acrescentaram os escritos dos outros profetas; depois, os apóstolos e evangelistas escreveram o que o Filho pregou e o que o Espírito falou por eles. “Isto é o que nós agora chamamos de Escritura Sagrada”, conclui, “a palavra de Deus que permanece para sempre” (Coletânea da teologia de João Wesley, cap. 1).

4.3 Revelação ou testemunho da revelação?

Langston, ao lembrar que Deus se manifestou “primeiro na vida e depois nas Escrituras”, chama a Bíblia de “as atas das reuniões de Deus com os homens”, mas acrescenta que elas “são também revelações de Deus a nós” (cap. 8.1). Karl Barth entendeu a Bíblia como testemunho da revelação, que se torna palavra de Deus quando Deus fala por ela (McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 7). A posição wesleyana acolhe o centro cristológico de Barth, mas não separa a Escritura da palavra de Deus: Wesley a chama de “o mais sólido e precioso sistema de verdade divina”, em que todas as partes são “dignas de Deus”. Ela aponta para Cristo, como Lutero dizia ao chamá-la de faixas e manjedoura onde Cristo está deitado (Prefácio ao Antigo Testamento, 1523), e não fica letra morta, porque “o Espírito de Deus não só inspirou aqueles que a escreveram, mas inspira continuamente e assiste de modo sobrenatural àqueles que a lêem com sincera oração” (Wesley, nota a 2 Timóteo 3:16).

5. A preservação da revelação

5.1 A providência, o texto e a tradução

“A erva se seca, as flores caem; porém a palavra do nosso Deus continua firme para sempre” (Isaías 40:8). Essa permanência não se deu por um milagre que dispensasse as mãos humanas, mas pela providência que se serviu delas. O rei de Israel devia escrever “uma cópia desta lei” e lê-la “todos os dias de sua vida” (Deuteronômio 17:18-19); escribas copiaram os rolos contando as letras. Houve tempos de esquecimento, como no reinado de Josias, quando o livro da lei foi achado na casa do SENHOR (2 Reis 22:8), e tempos de redescoberta, quando Esdras e os levitas leram a Lei “explicando o sentido” (Neemias 8:8).

Não possuímos os autógrafos, mas milhares de cópias. Em 1947, em Qumran, apareceu um rolo de Isaías cerca de mil anos mais antigo que os manuscritos hebraicos medievais, em concordância substancial com eles. A crítica textual, que compara os manuscritos, é um serviço à igreja; o próprio Wesley corrigiu nas Notas a tradução inglesa autorizada à luz do grego, seguindo Johann Albrecht Bengel. Nenhuma doutrina da fé depende de uma leitura duvidosa. Wesley contava entre as evidências da Escritura “o cuidado providencial tão manifesto em todos os tempos na transmissão de diversos livros” (Compêndio de filosofia natural, em Coletânea, cap. 1).

A tradução também é preservação (Atos 2:8-11). O Novo Testamento em português foi traduzido por João Ferreira de Almeida, pastor reformado em Batávia, e publicado em 1681; dessa tradição vem a Bíblia Livre, que usamos neste curso.

5.2 A igreja guarda, mas não cria

O Concílio de Trento (1546) afirmou que a verdade do evangelho está nos livros escritos e nas tradições não escritas, a serem recebidos “com igual afeto de piedade e reverência”, e o Vaticano II ensinou que Tradição e Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus confiado à igreja (Dei Verbum, 10); o mesmo documento afirma que não se deve esperar nova revelação pública antes da manifestação gloriosa de Cristo (Dei Verbum, 4), no que concordamos. Armínio respondeu com firmeza que a autoridade da Escritura depende só de Deus: a própria igreja, diz ele, “está em dívida com essa palavra, por toda a sua autoridade”; o seu testemunho produz uma fé humana, “que pode ser preparatória para a produção da fé divina”, e é, entre as provas, “a mais fraca” (Debates privados, VI). A igreja reconheceu os livros que Deus deu; não os criou. O cânon será estudado na lição 13.

Langston lembra, ainda, que a verdade revelada se conserva quando é vivida (cap. 8.2.1). As classes metodistas, com a leitura constante da Escritura, foram uma forma dessa preservação viva, e Wesley se apresentava como “homem de um só livro”: “Oh, dai-me esse livro! A qualquer preço, dai-me o livro de Deus!” (prefácio aos Sermões, 1746, § 5).

6. A doutrina na história

Irineu de Lião (c. 180) descreveu a inscrituração em termos que a igreja nunca abandonou: o evangelho que os apóstolos primeiro pregaram, depois, “pela vontade de Deus, nos transmitiram nas Escrituras, para ser fundamento e coluna da nossa fé” (Contra as heresias, III, 1, 1); e resumiu que o Pai é o invisível do Filho, e o Filho, o visível do Pai (IV, 6, 6). A Confissão Belga (1561), sob a qual Armínio exerceu o ministério, ensina que Deus, pelo cuidado especial que tem pela nossa salvação, ordenou aos profetas e apóstolos que pusessem por escrito a palavra revelada (art. 3).

Armínio dedicou à Escritura uma sequência de disputas, sobre a palavra de Deus, a sua autoridade, a sua perfeição, a sua clareza e a sua interpretação (Debates privados, V a IX), e no discurso A certeza da teologia sagrada argumentou que a revelação é necessária pela própria bondade de Deus, que só comunica o seu bem dando-se a conhecer, e pela obra de Cristo, que ninguém poderia honrar “a menos que Ele seja revelado”. A Confissão Remonstrante (1621), de Simão Episcópio, abre com a doutrina da Sagrada Escritura, sinal da herança protestante que os remonstrantes reivindicavam.

Wesley viveu no século do deísmo, que reduzia a religião às verdades da razão. Randy Maddox mostra que ele, embora influenciado pelo Iluminismo, se manteve “firmemente comprometido com a possibilidade da revelação especial”, recusando o entusiasmo que despreza a razão e o racionalismo que despreza o sobrenatural (Responsible Grace, cap. 1). Watson dedicou a primeira parte dos Theological Institutes (1823-1829) às evidências da autoridade divina da Escritura, sobretudo milagres e profecias; Pope tratou o Filho como mediador de toda revelação, da criação à encarnação; Wiley falou de Cristo como a Palavra pessoal, de quem a Palavra escrita dá testemunho.

No século XX, McGrath descreve quatro modelos: a revelação como doutrina, comunicada em proposições; como presença, no encontro pessoal de Emil Brunner; como experiência, na linha de Friedrich Schleiermacher; e como história, em Wolfhart Pannenberg. McGrath os considera complementares (cap. 7), e a Escritura confirma o que há de verdadeiro em cada um; o da experiência, porém, inverte a ordem quando faz do sentimento a fonte da doutrina.

No Brasil, a questão aparece nas “revelações” das igrejas. Walter Brunelli, teólogo pentecostal, defende o dom de profecia, mas afirma: “A autoridade bíblica está acima de tudo e de todos”, e a profecia “nunca, sob pretexto algum”, pode sobrepujar as Escrituras (Teologia para pentecostais, volume de pneumatologia). Aparece também na distinção popular entre logos, a Bíblia escrita, e rhēma, uma palavra nova e pessoal; o Novo Testamento não a sustenta, porque Pedro usa rhēma para o próprio evangelho: “a palavra do Senhor permanece para sempre” (1 Pedro 1:25).

7. A posição arminiana clássica e wesleyana

7.1 A revelação especial como graça que vem antes

A tradição arminiana e wesleyana afirma que a revelação especial é obra da iniciativa graciosa de Deus do começo ao fim. Deus falou antes de qualquer busca humana: chamou Abraão quando Terá e os seus “serviam a deuses estranhos” (Josué 24:2-3) e enviou o Filho quando ainda éramos pecadores. Na lição 10 vimos que mesmo a revelação geral só é percebida pela graça preveniente; a revelação especial é a forma mais plena dessa graça que vem antes, porque nela Deus diz o seu nome, faz a sua promessa e entrega o seu Filho.

A recepção também é obra da graça. Armínio ensina que o necessário para a salvação está na Escritura com tal clareza que os mais simples podem percebê-lo, mas que só é claro para os que, “iluminados e esclarecidos pela luz do Espírito Santo”, têm olhos para ver (Debates privados, VIII). E essa graça pode ser recusada: Estêvão, depois de recontar toda a história da revelação, concluiu: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo! Tal como vossos pais foram, assim também sois vós!” (Atos 7:51). Ninguém recebe a palavra por força própria, e ninguém é forçado a recebê-la.

7.2 Comparação com outras tradições

Com a tradição reformada concordamos na necessidade, no centro cristológico, na conclusão e na inscrituração da revelação, como mostram a Confissão Belga e Vos; a divergência está na aplicação, porque para o reformado a iluminação salvadora é eficaz e irresistível nos eleitos, e para o arminiano o Espírito ilumina e chama seriamente todos os que ouvem, e pode ser resistido. Com a tradição católica concordamos em que a revelação pública se encerrou com os apóstolos; divergimos ao subordinar a tradição à Escritura, pois nenhuma autoridade eclesiástica pode impor a sua interpretação como autêntica, com exceção dos profetas e apóstolos (Armínio, Debates privados, IX). Com a tradição luterana partilhamos a convicção de que a palavra é meio de graça. Com a tradição pentecostal concordamos em que nenhuma profecia está acima da Escritura; os dons servem à “edificação, convencimento, e consolação” (1 Coríntios 14:3), e não acrescentam artigos de fé. Da teologia liberal divergimos frontalmente: a experiência é o lugar onde a revelação é recebida, e não a sua origem.

7.3 Dois contrastes: Finney e Cheung

Charles Finney, na primeira aula da sua Teologia sistemática (1847), afirma: “Por si, a Bíblia não é estrita e propriamente uma revelação para o homem. É, mais propriamente, uma história de revelações antes feitas a certos homens.” As suas verdades só se tornariam revelação quando o Espírito as levasse “para o campo da visão espiritual”, onde a razão as intui. Finney acerta ao exigir a obra do Espírito, mas enfraquece a palavra escrita e engrandece a razão humana, no mesmo movimento que o levará a uma doutrina do pecado afastada da fé histórica (lição 26).

Vincent Cheung erra no sentido oposto: a Bíblia é “a única revelação divina objetiva e pública”, a revelação é “verbal ou proposicional”, e conhecer a Deus se reduz a conhecer proposições sobre ele (Teologia sistemática). A revelação comunica, de fato, verdades que se podem afirmar, e a tradição wesleyana nunca desprezou a doutrina; mas a Escritura dá testemunho de uma Pessoa, e o seu fim é a comunhão: “isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai, e com o seu Filho Jesus Cristo” (1 João 1:3). Entre os dois extremos, a posição wesleyana afirma que a Escritura é a palavra de Deus escrita e que, pela ação do Espírito, conduz quem a lê ao encontro com o Deus que nela fala.

8. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, somos chamados à gratidão. Deus não estava obrigado a falar, e falou; não estava obrigado a vir, e veio. Isso vale para todos nós, que tantas vezes abrimos a Bíblia com a familiaridade distraída de quem já sabe o que vai encontrar.

Em segundo lugar, somos chamados a ler toda a Escritura a partir de Cristo. Se o Filho é a Palavra definitiva do Pai, nenhum texto se entende plenamente fora dele, e nenhum versículo pode ser usado contra aquilo que ele revelou do Pai.

Em terceiro lugar, somos chamados ao discernimento. Onde as “revelações” se multiplicam, a atitude dos bereanos continua necessária, e isso não é falta de fé no Espírito, mas fidelidade ao Espírito, que não contradiz o que ele mesmo inspirou.

Em quarto lugar, a preservação da palavra também é tarefa nossa. O rei copiava a lei, Esdras a explicava, Almeida a traduziu longe de casa. A igreja que deixa de ler, de ensinar e de obedecer à Bíblia pode tê-la em todas as estantes e repetir o tempo de Josias, quando o livro estava dentro do templo e ninguém sabia dele.

Voltemos ao caderno de receitas. Foi o cuidado de quem escreveu, e depois de quem copiou, que permitiu aos netos fazer o bolo que a avó fazia. Há, porém, uma diferença que a imagem não alcança: a avó já não está ali para explicar o ponto da massa, e o Autor das Escrituras está. O mesmo Espírito que conduziu os profetas e os apóstolos assiste os que leem com oração, e o Filho, a quem todo o livro aponta, vive e fala por ele. Que o Senhor nos livre de guardar a Bíblia como relíquia de família, e nos conceda abri-la como quem ouve a voz daquele que “nestes últimos dias falou a nós por meio do seu Filho” (Hebreus 1:2).

Síntese

  1. A revelação especial é o ato gracioso pelo qual Deus se dá a conhecer, de modo particular e redentor, em palavras e em atos, para a salvação do mundo; distingue-se da inspiração, da inscrituração, da preservação e da iluminação.
  2. Deus se revelou “muitas vezes, e de muitas maneiras”, por teofanias, sonhos e visões, pela profecia e pelos seus atos na história, numa revelação progressiva e orgânica.
  3. Jesus Cristo é a Palavra definitiva do Pai, revelador e conteúdo da revelação; nele a revelação está completa, e o Espírito conduziu os apóstolos a dar dela o testemunho autorizado.
  4. Por ordem de Deus, a revelação foi posta por escrito, como meio mais seguro contra a corrupção e o esquecimento, e hoje temos a palavra infalível de Deus nas Escrituras.
  5. Deus preservou a sua palavra pela providência, servindo-se de copistas, tradutores e da igreja, que a guarda e reconhece sem lhe conferir autoridade, e a conserva viva quando a obedece.
  6. Na perspectiva arminiana e wesleyana, a revelação especial é graça que vem antes, recebida pela iluminação do Espírito, que pode ser resistida; contra Finney, a Escritura é palavra de Deus, e não mero registro; contra Cheung, comunica verdades a serviço da comunhão.

Questões para revisão

  1. Qual é a diferença entre revelação, inspiração, inscrituração, preservação e iluminação?
  2. O que significam polymerōs e polytropōs em Hebreus 1:1, e qual é o contraste central de Hebreus 1:1-3?
  3. Que modos de revelação o Antigo Testamento apresenta, e o que Números 12:6-8 ensina sobre eles?
  4. Em que sentido Cristo é revelador e conteúdo da revelação? Explique com João 1:18 e Hebreus 1:3.
  5. Que razões Armínio e a Escritura dão para a passagem da revelação oral à escrita?
  6. Como Deus preservou o texto bíblico, e qual é o papel da crítica textual e da tradução?
  7. Qual é a relação entre Escritura e igreja segundo Armínio, e em que ela difere de Trento e do Vaticano II?
  8. Em que a posição wesleyana difere das de Finney e de Cheung?

Bibliografia

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  • BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Rio de Janeiro: Central Gospel.
  • BURTNER, Robert W.; CHILES, Robert E. (orgs.). Coletânea da teologia de João Wesley.
  • CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática. Monergismo.com, 2003. (Apenas como contraste.)
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Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 10: A revelação geral. Próxima: Lição 12: A doutrina da Escritura: inspiração e autoridade.

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