
TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana2 de 23
Lição 2: Para que serve a teologia sistemática
Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 1
Neste texto
- Objetivos da lição
- Introdução
- 1. A pergunta pela finalidade
- 1.1 Objeto, fim e uso
- 1.2 Três finalidades e uma só ordem
- 1.3 “A letra mata”?
- 2. A finalidade doxológica
- 2.1 Glória e culto racional
- 2.2 A doxologia na história da igreja
- 2.3 A teologia cantada dos wesleyanos
- 3. A finalidade pastoral
- 3.1 Pastores e mestres
- 3.2 A tradição pastoral da teologia
- 3.3 Wesley e os sistemáticos metodistas
- 3.4 Uma teologia que cura
- 4. A finalidade apologética
- 4.1 Dar a razão da esperança
- 4.2 Defesa diante dos de fora e correção dentro da igreja
- 4.3 A apologética na tradição arminiana
- 4.4 Um contraste: a apologética sem mansidão
- 4.5 A apologética na igreja brasileira
- 5. A unidade das três finalidades
- 6. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 1: Introdução: teologia, revelação e Escritura.
Objetivos da lição
- Compreender por que a pergunta pela finalidade da teologia pertence à própria definição da disciplina.
- Explicar a finalidade doxológica da teologia sistemática, ordenada à glória de Deus e ao culto.
- Explicar a finalidade pastoral da teologia sistemática, ordenada à edificação da igreja e à cura da alma.
- Explicar a finalidade apologética da teologia sistemática, ordenada à defesa da fé diante dos de fora e à correção dos erros dentro da igreja.
- Reconhecer a ordem entre as três finalidades na tradição arminiana e wesleyana e os desvios que surgem quando essa ordem se perde.
Introdução
Nas casas do interior, o fogão a lenha costumava ser o centro da cozinha e, muitas vezes, da casa inteira. Ninguém o acendia por enfeite. O fogo cozinhava o feijão da família, aquecia o cômodo onde todos se reuniam nas noites frias, e a fumaça que subia pela chaminé avisava a quem passava pela estrada que ali havia gente e fogo aceso. Um fogão bem areado, mas apagado, não servia para nada.
A pergunta desta lição é semelhante: para que serve a teologia sistemática? Há quem a julgue fria, feita de termos latinos para acadêmicos fechados em bibliotecas; há quem repita, em muitas igrejas brasileiras, que “a letra mata” e que o estudo da doutrina apaga o fervor espiritual; e há quem a transforme em arma para vencer discussões nas redes sociais. As três atitudes têm em comum um equívoco sobre a finalidade da teologia: a primeira não vê para que ela serve, a segunda teme que ela sirva para o mal, e a terceira a põe a serviço de si mesma.
Na lição anterior, vimos com Armínio que a teologia é uma ciência prática, cujo fim é a união do ser humano com Deus. Esta lição desenvolve essa afirmação. A tradição reconhece na teologia três finalidades: a doxológica, voltada a Deus e ao culto; a pastoral, voltada à igreja e à vida dos crentes; e a apologética, voltada à defesa da fé diante dos que a contestam. Procuraremos mostrar que elas formam um só movimento, que começa em Deus e termina em Deus.
1. A pergunta pela finalidade
1.1 Objeto, fim e uso
Os teólogos do período da Reforma aprenderam com a escolástica a descrever uma ciência pelo seu objeto (aquilo de que trata), pelo seu autor e pelo seu fim (aquilo para que existe). O grego do Novo Testamento tem para o fim uma palavra precisa, telos, que designa ao mesmo tempo o termo e o propósito de uma coisa. Paulo a emprega numa frase que poderia servir de lema a este curso: “O fim do mandamento é o amor que vem de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida” (1 Timóteo 1:5). Uma doutrina que não chega a esse fim errou o alvo, ainda que esteja correta nas suas proposições.
Armínio tratou do assunto na oração que pronunciou em Leiden sobre o autor e o objetivo da teologia (1603). Como Deus é o primeiro ser e o sumo bem, ele é ao mesmo tempo o autor, o objeto e o objetivo da teologia; e, como o sumo bem não está em prometê-lo nem em desejá-lo, mas em recebê-lo, “o fim da Teologia pode, com a maior propriedade, ser chamado de a união de Deus com o homem” (As obras de Armínio, vol. 1). Na teologia evangélica, acrescenta, esse objetivo inclui “a visão e o desfrute” de Deus e de Cristo, “para a glória de Cristo e também de Deus”. William Burt Pope abre o Compendium of Christian Theology (1880) com uma fórmula que resume a tradição: Deus é a fonte, o objeto e o fim da teologia. Neste sentido, perguntar para que serve a teologia equivale a perguntar o que ela é, pois uma ciência prática se define pelo uso a que se destina.
1.2 Três finalidades e uma só ordem
Da finalidade única, a união com Deus para a sua glória, decorrem três usos da teologia. O primeiro é o doxológico (do grego doxa, glória, e logos, palavra): a teologia nasce do louvor e conduz ao louvor. O segundo é o pastoral: a teologia alimenta, forma, corrige e consola o povo de Deus. O terceiro é o apologético (do grego apologia, defesa): a teologia dá razão da esperança cristã aos que a pedem e responde aos que a atacam.
A ordem entre eles importa. Randy Maddox observa que, para Wesley, a tarefa definidora do teólogo não era construir um sistema elaborado nem defendê-lo diante dos seus “desprezadores cultos”, mas formar a visão de mundo que molda o temperamento e a conduta dos crentes; a apologética e a coerência doutrinária tinham lugar na medida em que servissem a essa tarefa central (Responsible Grace, introdução). Pope, por sua vez, reserva a polêmica para a última parte do estudo de cada doutrina. E Don Thorsen lembra que a fé cristã não se reduz à ortodoxia (crença reta), mas inclui a ortopraxia (ação reta) e a orthokardia (coração reto) (Calvin vs. Wesley).
1.3 “A letra mata”?
Quem desconfia da teologia costuma citar Paulo: “porque a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6). O contexto, porém, não opõe o estudo ao Espírito. Paulo contrasta duas alianças: a “letra” é a lei gravada em pedra, que condena, e o “Espírito” é a nova aliança, em que Deus escreve a sua lei no coração (2 Coríntios 3:3-11; Jeremias 31:33). O apóstolo que escreveu essa frase é o mesmo que pediu a Timóteo os livros e os pergaminhos (2 Timóteo 4:13) e que passou três sábados em Tessalônica argumentando “pelas Escrituras” (Atos 17:2).
A. B. Langston, o teólogo batista que formou gerações de pastores brasileiros, observava que o ser humano “não pode deixar de ter uma teologia” (Esboço de teologia sistemática). A escolha está entre uma teologia examinada à luz da Escritura e uma teologia recebida sem exame, feita de frases de efeito e de cânticos mal compostos. Wesley, acusado de ensinar os metodistas a renunciar à razão, respondeu que o princípio deles era o contrário: “o renunciar à razão é renunciar à religião”, e “toda a religião sem a razão é falsa” (carta ao Sr. Rutherforth, 1768, em Coletânea da teologia de João Wesley, cap. 2). No sermão “O caso da razão imparcialmente considerado”, porém, adverte que a razão não produz fé, esperança nem amor, que se recebem “como dádiva de Deus”. A teologia não substitui o Espírito, mas é um dos instrumentos de que ele se serve para conduzir a igreja à verdade.
2. A finalidade doxológica
2.1 Glória e culto racional
A palavra doxa significava, no grego clássico, opinião ou reputação. Na tradução grega do Antigo Testamento, passou a verter o hebraico kabod, cuja raiz indica peso: a glória de Deus é o peso da sua presença. “Doxologia” é a palavra que dá a Deus esse peso, ou seja, o louvor que reconhece quem ele é. Paulo une o culto e a mente num texto que todo estudante de teologia deveria guardar de memória:
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com a presente era; mas transformai-vos pela renovação da vossa mentalidade, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.
“Culto racional” traduz logikē latreia: latreia é o serviço sagrado devido a Deus, e logikē o qualifica como próprio de criaturas dotadas de razão. O versículo seguinte fala da renovação do nous, a mente. A adoração que Deus pede envolve o entendimento, e a teologia, quando cumpre a sua finalidade, é parte desse culto. Por isso Paulo passa da exposição doutrinária ao louvor sem mudar de assunto, como ao fim de Romanos 11 ou de Efésios 3, onde pede que os crentes conheçam “o amor de Cristo, que excede o entendimento” e conclui: “a ele seja a glória na Igreja, e em Cristo Jesus, por todas as gerações para todo o sempre, Amém!” (Efésios 3:19-21). No Apocalipse, a doutrina da criação é cantada diante do trono: “Digno és tu, Senhor, de receberes glória, honra e poder; porque tu criaste todas as coisas” (Apocalipse 4:11). E os discípulos de Emaús descreveram o efeito da exposição das Escrituras feita pelo próprio Senhor com uma pergunta: “Por acaso não estava nosso coração ardendo em nós, quando ele falava conosco pelo caminho, e quando nos desvendava as Escrituras?” (Lucas 24:32).
2.2 A doxologia na história da igreja
Alister McGrath lembra que Atanásio, contra Ário, argumentou a partir da adoração: se Cristo fosse a mais alta das criaturas, a igreja que sempre o adorou seria idólatra (Teologia sistemática, histórica e filosófica). No século V, Próspero de Aquitânia formulou o princípio conhecido como lex orandi, lex credendi (“a lei da oração estabelece a lei da fé”). O contexto interessa a este curso: Próspero o usou contra os semipelagianos, observando que a igreja ora pela conversão dos incrédulos e, portanto, crê que o começo da fé é obra da graça, e não do esforço humano. A tradição arminiana subscreve o argumento e acrescenta que a igreja ora “por todas as pessoas”, porque Deus “quer que todas as pessoas se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:1-4). A oração da igreja confessa, ao mesmo tempo, a prioridade da graça e o alcance universal da vontade salvadora de Deus.
Anselmo redigiu o Proslógio (1077-1078) como uma prece de “fé que busca entendimento” (fides quaerens intellectum). A tradição reformada, pela sua própria autocompreensão, abre o Breve Catecismo de Westminster (1647) afirmando que “o fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”, e os arminianos confessam o mesmo sem dificuldade; a frase lembra de perto a oração de Armínio, pronunciada mais de quarenta anos antes.
2.3 A teologia cantada dos wesleyanos
Nenhuma tradição protestante levou a finalidade doxológica tão longe quanto o metodismo, que aprendeu a sua doutrina cantando. John Wesley descreveu a Coleção de hinos para o uso do povo chamado metodista (1780), quase toda de Charles Wesley, como “um pequeno corpo de divindade experimental e prática”: uma teologia em forma de hinário, ordenada segundo as etapas da vida cristã, do despertamento à perfeição no amor. Paulo já unia as duas coisas ao pedir que a igreja se ensinasse e se advertisse mutuamente e cantasse “a Deus com salmos, hinos, e cânticos espirituais” (Colossenses 3:16). O teólogo metodista Geoffrey Wainwright retomou essa herança em Doxology (1980), uma teologia sistemática escrita a partir do culto.
A igreja brasileira conhece essa pedagogia. Gerações de crentes aprenderam a doutrina da graça nos hinos do Salmos e Hinos (1861), dos Kalley, e da Harpa Cristã (1922), das Assembleias de Deus, antes de abrir qualquer manual. Por isso mesmo, quando o repertório do culto se esvazia de doutrina, a igreja desaprende cantando o que antes aprendia cantando (veja Adoradores da adoração: quando o palco esconde a cruz).
Daí duas consequências para o método. A primeira é que o estudo deve terminar em adoração, e o teólogo que domina as categorias da doutrina e permanece frio diante de Deus fracassou no essencial. A segunda é que o culto serve de prova para a doutrina, embora não seja a sua norma. McGrath observa que a autoridade relativa da lex orandi e da lex credendi continua em debate; a resposta protestante é que a Escritura julga tanto o que cremos quanto o que cantamos, mas que uma doutrina que não podemos confessar com verdade diante de Deus, em oração, merece ser reexaminada.
3. A finalidade pastoral
3.1 Pastores e mestres
O pastor (poimēn) é quem apascenta o rebanho; a edificação (oikodomē) é a construção de uma casa, aplicada ao crescimento da igreja; o ensino (didaskalia) é a transmissão da doutrina, que as cartas pastorais chamam de “sã”, isto é, capaz de dar saúde. O texto central está em Efésios:
E ele mesmo deu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, e outros como pastores e instrutores. para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do serviço, para a edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, à maturidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo. O fim disso é que não mais sejamos crianças inconstantes, levadas de um lado para outro por todo vento de doutrina, pelo engano das pessoas que, para enganar, usam de fraudes com astúcia. Pelo contrário, sigamos a verdade em amor, e cresçamos em tudo naquele que é a cabeça: Cristo.
No grego, “pastores e instrutores” estão unidos sob um só artigo (tous de poimenas kai didaskalous): quem pastoreia ensina, e quem ensina pastoreia. A finalidade é dupla, a maturidade dos santos e a firmeza diante do erro, e o modo é prescrito: “a verdade em amor”. Paulo, que adverte que “o conhecimento incha de orgulho, mas o amor edifica” (1 Coríntios 8:1), ordena a Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nessas coisas; porque, se fizeres isso, salvarás tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1 Timóteo 4:16). Salvar, aqui, não atribui ao pastor o que pertence a Cristo; indica que Deus se serve do ensino fiel como meio de graça.
3.2 A tradição pastoral da teologia
Agostinho ensinou que quem julga ter entendido as Escrituras, mas não edifica com isso o duplo amor a Deus e ao próximo, ainda não as entendeu (A doutrina cristã, I, 36, 40). Gregório Magno chamou o governo das almas de “arte das artes” (Regra pastoral, I, 1) e ensinou que a mesma verdade deve ser aplicada de um modo ao soberbo e de outro ao tímido. Melanchthon advertiu que “conhecer Cristo é conhecer os seus benefícios” (Loci communes, 1521). E o puritano William Ames, adversário dos remonstrantes em Dort, definiu a teologia como “a doutrina de viver para Deus” (Medulla theologiae, 1623); nesse ponto, calvinistas e arminianos falam a mesma língua.
A teologia de Armínio, por sua vez, nasceu no púlpito antes de chegar à cátedra. De 1588 a 1603 ele foi pastor da igreja reformada de Amsterdã, e as primeiras controvérsias surgiram das séries de sermões que pregou sobre Romanos 7 e Romanos 9. Já professor, na oração Sobre a reconciliação das dissensões religiosas entre cristãos (1606), pediu que cessassem os “textos cheios de amargura” e que fossem pregados sermões “calculados para estimular a mente das pessoas ao amor e ao estudo da verdade, caridade, misericórdia, tolerância e concórdia” (As obras de Armínio, vol. 1).
3.3 Wesley e os sistemáticos metodistas
Os padrões doutrinários que Wesley deixou aos metodistas não foram um tratado sistemático, mas os seus sermões e as Notas explicativas sobre o Novo Testamento, escritos para formar pregadores e alimentar o povo. Ele editou os cinquenta volumes da Biblioteca cristã (1749-1755), com extratos das “principais obras de teologia prática” publicadas em inglês, e organizou os convertidos em classes e bandas para que a doutrina se tornasse vida. Maddox conclui que, para Wesley, o praticante por excelência da teologia era o pastor-teólogo que conduz discípulos no mundo (Responsible Grace, introdução).
Isso não fazia de Wesley um inimigo do estudo. No Discurso ao clero (1756), ele pergunta aos ministros se conhecem toda a Escritura, o contexto de cada texto, as línguas originais, a história e a lógica, e se o ministro que não as conhece não deveria ficar “coberto de vergonha” (citado por Santos, Manual de teologia arminiana). Os sistemáticos posteriores escreveram com a mesma intenção: os Theological Institutes de Richard Watson foram por meio século o manual dos pregadores metodistas, e H. Orton Wiley escreveu Christian Theology para a formação de pastores da Igreja do Nazareno (veja as biografias de Richard Watson e de H. Orton Wiley).
3.4 Uma teologia que cura
Maddox mostra que Wesley chamava Deus de “Médico das almas” e entendia a salvação de modo terapêutico, sem abandonar o seu aspecto jurídico. Na Ulterior apelação aos homens de razão e religião (1745), Wesley escreveu que entendia por salvação não apenas o livramento do inferno, mas “um livramento presente do pecado, uma restauração da alma à sua saúde primitiva”. A teologia sistemática, neste sentido, é a ciência do remédio: descreve a doença (o pecado e a depravação total), o Médico (Cristo), o remédio (a graça, que vem antes, perdoa e transforma) e a saúde para a qual o paciente é chamado (a santidade e a perfeição no amor). Um diagnóstico benevolente demais mata o paciente, e por isso a tradição arminiana nunca atenuou a doutrina do pecado; um remédio reservado a poucos deixaria o pastor sem resposta diante de quem não sabe se pode ir a Cristo, e por isso ela afirma que Cristo morreu por todos e que a graça alcança a todos.
Charles Finney oferece aqui um contraste instrutivo. Nas Conferências sobre avivamentos de religião (1835), afirmou que o avivamento não é um milagre em nenhum sentido, mas o resultado puramente filosófico do uso correto dos meios estabelecidos. A intenção era pastoral, despertar igrejas acomodadas, mas a frase reduzia a obra de Deus a uma técnica cujo êxito depende do método humano, e essa redução acompanha a sua doutrina do pecado como ato voluntário, e não como corrupção da natureza, que estudaremos nas lições sobre o pecado. A teologia wesleyana conhece os meios de graça, mas os entende como canais pelos quais Deus age, e a igreja brasileira, tentada a medir a vida espiritual por métodos, campanhas e números, precisa dessa distinção.
4. A finalidade apologética
4.1 Dar a razão da esperança
Apologia era um termo do tribunal: a defesa que o réu apresenta diante do juiz. Paulo descreve o seu ministério como “defesa e confirmação do Evangelho” (Filipenses 1:7), e Pedro escreveu o texto clássico da apologética cristã:
Mas santificai a Cristo como Senhor em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e respeito a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós, tendo uma boa consciência; para que, naquilo que sois malfalados, os que insultam o vosso bom comportamento em Cristo sejam envergonhados.
Três observações se impõem. Em primeiro lugar, a apologética começa na adoração: antes de responder, o crente santifica Cristo como Senhor no próprio coração. Em segundo lugar, o que se defende é uma “razão” (logos), uma explicação inteligível da esperança, e por isso o crente precisa saber o que crê e por que crê. Em terceiro lugar, o modo é prescrito: “com mansidão e respeito”. A defesa da fé que humilha o interlocutor contradiz o texto que pretende obedecer.
Paulo dá a razão teológica dessa mansidão: o servo do Senhor deve “instruir com mansidão aos que se opõem, pois talvez Deus lhes dê arrependimento para conhecerem a verdade” (2 Timóteo 2:25). O arrependimento é dom de Deus, e não produto de um argumento vitorioso. O Espírito Santo é quem “convencerá ao mundo do pecado, e da justiça, e do juízo” (João 16:8), e a graça preveniente, que alcança todas as pessoas, ilumina o entendimento e liberta a vontade para que alguém possa crer. O Espírito pode servir-se de um argumento honesto, como se serve da pregação; mas nenhum argumento, por si, produz a fé. O apologeta responde às objeções, e a obra da salvação continua sendo de Deus.
4.2 Defesa diante dos de fora e correção dentro da igreja
A apologética tem duas direções, que Paulo distingue ao exigir do presbítero que seja capaz “tanto para exortar na sã doutrina, como também para mostrar os erros dos que falam contra ela” (Tito 1:9). A primeira volta-se para os de fora: no século II, Aristides e Justino Mártir escreveram apologias aos imperadores e, como observa McGrath, procuraram crenças comuns a cristãos e pagãos para mostrar, a partir delas, a verdade do evangelho. A segunda volta-se para dentro: é a polêmica contra as heresias, como a de Ireneu de Lião em Contra as heresias (c. 180) e a de Atanásio contra o arianismo. Judas exorta a “batalhar pela fé que de uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3), e o objeto da luta é a fé recebida, e não uma opinião particular. Para uma introdução, veja Apologética cristã: o que é e para que serve.
4.3 A apologética na tradição arminiana
O arminianismo nasceu numa controvérsia. Na oração de 1606, Armínio pediu “escritos cheios de moderação, em que as questões controversas possam, sem acepção de pessoas, ser claramente explicadas e provadas, por argumentos convincentes”, examinadas num sínodo livre que determinasse “o que a Palavra de Deus declara”. A Declaração de Sentimentos (1608) é uma apologia nesse sentido: Armínio expõe a sua doutrina diante dos Estados da Holanda para responder às acusações que circulavam contra ele.
Wesley defendeu o avivamento na Sincera apelação aos homens de razão e religião (1743) e fundou em 1778 The Arminian Magazine, cujo título anunciava a defesa da redenção universal. No Discurso ao clero, pergunta aos ministros se conhecem as objeções que “judeus, deístas, papistas, socinianos e todos os outros sectários” fazem a partir da Escritura e se estão preparados “para oferecer respostas satisfatórias”. Richard Watson abriu os Theological Institutes com as evidências da autoridade divina da Escritura, contra o deísmo do seu tempo. Ao mesmo tempo, Wesley desconfiava da controvérsia como fim em si: Flávyo Henrique Costa Santos registra a sua frase de que “Deus fez a teologia prática e o diabo fez a da controvérsia” (Manual de teologia arminiana).
4.4 Um contraste: a apologética sem mansidão
Vincent Cheung, teólogo reformado de tendência hipercalvinista, afirma no prefácio da sua Teologia sistemática que estudá-la é “a tarefa mais importante que um cristão pode realizar”, porque ela “governa o objeto e o modo da oração”. A preocupação com o anti-intelectualismo é legítima, mas a ordem se inverteu: a teologia deixa de servir ao culto e passa a governá-lo. A consequência aparece na apologética, quando Cheung escreve que todo não cristão “é moral e intelectualmente defeituoso”. Ainda que o pecado obscureça o entendimento (Romanos 1:21), o apóstolo manda responder “com mansidão e respeito”, e a tradição arminiana acrescenta que o incrédulo diante de nós é alguém por quem Cristo morreu e a quem a graça de Deus já alcança, ainda que ele a resista.
4.5 A apologética na igreja brasileira
No Brasil e no mundo lusófono, a igreja precisa dar razão da esperança diante do ateísmo, do espiritismo kardecista e das religiões afro-brasileiras, ouvindo cada interlocutor com respeito. Dentro da igreja, precisa distinguir o evangelho das teologias da prosperidade e da confissão positiva, que prometem bênçãos sem a cruz. O arminianismo, por exemplo, é frequentemente acusado de semipelagianismo nas redes sociais; a resposta adequada é a exposição serena do que Armínio e Wesley de fato ensinaram, com as fontes, e não a polêmica amarga. A apologética arminiana não acusa os irmãos calvinistas de heresia: marca a divergência como divergência e a discute com a Escritura aberta.
5. A unidade das três finalidades
As três finalidades não são compartimentos. A teologia que adora é a mesma que alimenta e a mesma que defende, como o fogo do fogão aquece, cozinha e sinaliza ao mesmo tempo. Há entre elas, contudo, uma ordem. A finalidade doxológica é a mais alta, porque Deus é o fim de todas as coisas; a pastoral é a mais imediata, porque a teologia existe para a igreja; e a apologética protege as outras duas.
Quando essa ordem se perde, cada finalidade isolada degenera. A apologética sem a doxologia vira gosto pela controvérsia, e o teólogo passa a precisar de inimigos. A finalidade pastoral sem a doxologia vira pragmatismo, e a pergunta “isso é verdade?” cede lugar à pergunta “isso funciona?”. A doxologia sem a doutrina vira sentimentalismo, um culto intenso e vago, que não sabe a quem adora. Os quatro serviços que a versão anterior desta lição atribuía à teologia (proteger contra as heresias, ligar a igreja à sua história, orientar a vida e servir à adoração) cabem nesta ordem.
Armínio exprimiu essa unidade ao dizer que o objetivo da teologia é a união de Deus com o ser humano, “para a salvação do homem e a glória de Deus”. A salvação do ser humano e a glória de Deus não competem: Deus é glorificado quando salva, e o ser humano é salvo para glorificá-lo. Por isso a teologia arminiana, que confessa que a obra da salvação é de Deus do começo ao fim, entende a própria teologia como fruto da graça, devolvido a Deus em louvor. A próxima lição mostrará como essa compreensão determina a ordem trinitária deste curso.
6. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, o estudo da teologia deve começar e terminar em oração. Quem estuda doutrina sem orar corre o risco de saber muito sobre Deus e pouco de Deus; quem ora sem estudar corre o risco de adorar uma imagem de Deus feita à medida dos próprios desejos.
Em segundo lugar, a teologia sistemática deve servir à igreja local. A Escola Bíblica Dominical, que formou gerações de crentes no Brasil, é um dos lugares em que a finalidade pastoral da teologia se cumpre ou se perde, e o professor estuda doutrina para que os alunos não sejam levados “por todo vento de doutrina”.
Em terceiro lugar, a defesa da fé deve ser feita com mansidão e respeito, na família, na escola, no trabalho e nas redes sociais. O apologeta cristão não precisa vencer o debate, mas dar testemunho fiel e confiar que o Espírito convence. Confesso que esta é, para mim, a exigência mais difícil desta lição, porque a vontade de ter razão costuma falar mais alto do que o desejo de que o outro conheça a Cristo. Isso vale para todos nós.
Em quarto lugar, a teologia deve terminar em louvor, como Paulo, que interrompe o testemunho da misericórdia recebida para adorar: “Ao Rei dos tempos, imortal, invisível, o único Deus, seja a honra, e a glória, para todo o sempre, amém!” (1 Timóteo 1:17).
Voltemos, por fim, ao fogão a lenha. Ele existia para cozinhar o alimento da casa, para aquecer os que se reuniam ao seu redor e para mostrar aos de fora, pela fumaça na chaminé, que ali havia fogo. A teologia sistemática serve à igreja do mesmo modo: alimenta os que estão em casa, aquece o coração para a adoração e dá razão da esperança a quem bate à porta. Que o Senhor acenda o seu fogo no nosso estudo, como fez com os discípulos de Emaús, para que o nosso coração arda enquanto ele nos desvenda as Escrituras e para que todo o conhecimento adquirido neste curso volte a ele em louvor.
Síntese
- Como ciência prática, a teologia se define pelo seu fim, que é a união do ser humano com Deus, para a salvação do homem e a glória de Deus.
- A finalidade doxológica ordena a teologia ao culto: o conhecimento de Deus é parte do “culto racional” (Romanos 12:1), a oração da igreja confessa a prioridade da graça (lex orandi, lex credendi), e a tradição wesleyana ensinou a doutrina cantando.
- A finalidade pastoral ordena a teologia à edificação: o ensino existe para a maturidade dos santos, para a firmeza diante do erro e para a cura da alma.
- A finalidade apologética ordena a teologia à defesa da fé, diante dos de fora e contra os erros de dentro, sempre “com mansidão e respeito”, na consciência de que só o Espírito convence e de que a fé é obra da graça.
- As três finalidades formam um só movimento, em que a doxologia é o fim, a edificação é o uso imediato e a apologética é a proteção; quando a ordem se perde, surgem o gosto pela controvérsia, o pragmatismo e o sentimentalismo.
Questões para revisão
- Por que, segundo Armínio, a pergunta pela finalidade da teologia é inseparável da sua definição?
- Como responder à objeção de que “a letra mata” (2 Coríntios 3:6)?
- Explique o sentido de logikē latreia em Romanos 12:1 e a sua importância para a finalidade doxológica da teologia.
- Qual é a origem da fórmula lex orandi, lex credendi, e por que o seu uso contra os semipelagianos interessa à teologia arminiana?
- Segundo Efésios 4:11-15, quais são as finalidades do ministério de pastores e mestres?
- Em que sentido a teologia wesleyana é terapêutica, e por que a tese de Finney sobre os avivamentos contrasta com ela?
- Que três observações sobre a apologética podemos extrair de 1 Pedro 3:15-16, e por que a doutrina da graça preveniente pede uma apologética mansa?
- Qual é a ordem entre as três finalidades, e que desvios surgem quando cada uma é isolada das outras?
Bibliografia
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Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 1: Introdução à teologia sistemática. Próxima: Lição 3: A arquitetura da doutrina cristã e a ordem deste curso.
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