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Adoradores da adoração: Quando o palco esconde a cruz

Quando a música vira fim em si mesma: O altar pede renúncia, não exibição

Diego Gonçalves4 min de leitura825 palavras

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Neste texto

Uma das armadilhas mais sutis que tomaram conta das igrejas evangélicas brasileiras nas últimas décadas é a transformação da adoração em um fim em si mesma. Criamos uma cultura gospel tão obcecada por iluminação cênica, timbres de guitarra caros, afinação computadorizada e dinâmicas milimetricamente calculadas para emocionar a plateia que muitos cultos deixaram de ser reuniões do povo de Deus em temor e viraram festivais de autoindulgência musical. Em vez de adoradores de Cristo, estamos formando “adoradores da adoração”.

O cantor e compositor Adhemar de Campos, um dos pioneiros da música congregacional no Brasil, tocou nesse nervo com uma frase certeira: “Na plataforma de uma igreja fluem apenas dois poderes: o poder de Deus ou o poder do homem. Ou você sobe ali para glorificar o Senhor, ou sobe para se vangloriar das suas próprias habilidades”.

Pintura de Cristo crucificado entre a Virgem Maria e o apóstolo João, ao pé da cruz, sob um céu escuro
Hendrick ter Brugghen, A crucificação com a Virgem e são João, c. 1625. Museu Metropolitano de Arte, Nova York. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Essa advertência desmonta a ilusão de neutralidade no serviço da igreja. Quando um líder ou instrumentista sobe à plataforma sem um coração quebrantado (Salmo 51:17) e sem os olhos postos em Jesus, o lugar de consagração vira palanque de autorrealização.

A idolatria da experiência

O ser humano foi criado com uma sede incurável de adoração. Se não fixarmos o coração no Deus verdadeiro, a nossa mente fabrica ídolos num estalar de dedos. E o ídolo mais fácil de construir dentro de um templo não é uma estátua de gesso; é a própria atmosfera da reunião.

Há quem não ame a Palavra, não viva em arrependimento secreto, não pratique generosidade com os necessitados e não aguente trinta minutos de pregação bíblica expositiva, mas chore copiosamente quando a banda toca os mesmos quatro acordes lentos com um sintetizador suave ao fundo. A emoção pode ser sincera, mas não prova a presença do Espírito Santo, que dá testemunho de Cristo (João 15:26).

Adorar o “mover”, adorar o ambiente sonoro, adorar o estilo da banda ou adorar a própria sensação de estar arrepiado é uma forma requintada de idolatria. Adoramos a nós mesmos e às nossas emoções, e o nome de Deus vira desculpa para validar a experiência. Jesus disse que o Pai procura adoradores que o adorem “em espírito e em verdade” (João 4:23).

O altar exige renúncia, não exibição

O caminho do discipulado bíblico sempre foi o caminho do arrependimento, da renúncia e da morte para o ego (Lucas 9:23). Se alguém não está disposto a ser diminuído para que Cristo apareça, não deveria segurar um microfone nem pôr as mãos em um instrumento diante da congregação.

Davi, que era um harpista de mão cheia e compôs os cânticos mais sublimes de Israel, conhecia o perigo que o talento musical representa para o coração do artista. No Salmo 19:13, ele faz um pedido desesperado: “Também retém a teu servo de arrogâncias, para que elas não me controlem; então eu serei sincero, e ficarei limpo de grande transgressão” (Salmos 19:13, Bíblia Livre). Davi sabia que o talento atrai aplausos, os aplausos alimentam o orgulho e o orgulho afasta o coração da glória de Deus.

Quando a igreja passa a tolerar músicos e cantores arrogantes só porque eles tocam muito bem tecnicamente, ela está trocando a unção pelo entretenimento. O critério bíblico para o serviço sagrado nunca foi o virtuosismo técnico, mas o caráter irrepreensível, a humildade de servo e a pureza de motivos. Habilidade qualquer escola de música ensina; santidade e temor do Senhor nascem no chão secreto da oração, pela graça de Deus.

O retorno à centralidade da cruz

A cura para essa doença do exibicionismo começa em voltarmos os olhos para Jesus Cristo.

A glória de Jesus não se parece com o espetáculo dos palcos modernos. O evangelho nos mostra o Rei do universo nascendo em um cocho de animais, sendo tentado no deserto em jejum e silêncio, lavando os pés empoeirados dos seus discípulos e morrendo nu e desfigurado em uma cruz de madeira áspera por pecadores que o cuspiam. O Cordeiro de Deus fez expiação pelo nosso pecado pelo caminho da humilhação e da entrega voluntária (Filipenses 2:6-8). Somos salvos pela graça, mediante a fé (Efésios 2:8-9), e não pelo brilho do nosso louvor.

Se o nosso louvor não aponta para esse Cordeiro crucificado e ressurreto, a nossa música é só barulho que cansa os céus (Amós 5:23). A igreja não precisa de mais celebridades do louvor disputando espaço nas redes sociais; a igreja precisa de homens e mulheres que saibam sair da frente do palco para que a cruz seja a única coisa visível na congregação.

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