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Capítulo 30: A doutrina do Espírito Santo

Teologia Sistemática, Parte 6: O Espírito Santo

Diego Gonçalvesatualizado 27 min de leitura5.425 palavras

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Neste texto

O Espírito Santo é a pessoa da Trindade de quem menos se fala e que menos se entende. No entanto, ele é de vital importância para a nossa vida como cristãos. Quem é o Espírito Santo, e o que ele faz?

Quem É o Espírito Santo

No capítulo anterior, vimos o que Cristo fez por nós na cruz. Mas uma pergunta fica no ar: como aquilo que aconteceu em Jerusalém, há dois mil anos, chega até nós hoje? A resposta da Bíblia é o Espírito Santo. O Pai planejou a nossa salvação, o Filho a conquistou, e o Espírito a aplica em nós.

Deus Pai parece ser o foco do Antigo Testamento, enquanto Deus Filho é o foco dos Evangelhos. Mas, desde o Pentecostes, é o Espírito Santo quem está mais à vista. Ele trabalha no mundo para trazer convicção de pecado. Ele também age dentro dos crentes, nos faz nascer de novo, nos torna santos e nos mantém ligados a Deus.

Durante boa parte da história da Igreja, falou-se pouco do Espírito. A Reforma voltou a dar ênfase a ele, tanto na aplicação da graça ao crente quanto na ajuda para entender as Escrituras. E, no século 20, o pentecostalismo, hoje tão forte no Brasil, voltou a atenção de muitas igrejas para o Espírito Santo.

Pintura barroca de Pentecostes: os discípulos e Maria reunidos num salão de colunas, com línguas de fogo e raios de luz descendo sobre eles
Jean II Restout, Pentecostes, 1732. Museu do Louvre, Paris. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Os Nomes do Espírito

A palavra hebraica para espírito é ruach, e a grega é pneuma. As duas querem dizer também “vento” e “sopro”. Jesus usou esse duplo sentido quando conversou com Nicodemos: “O vento sopra onde quer, e ouves o seu som; porém não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (João 3:8). Não vemos o vento, mas vemos o que ele faz. Com o Espírito acontece o mesmo.

A Bíblia dá ao Espírito vários nomes, e cada um mostra alguma coisa sobre ele. Ele é o “Espírito de Deus” (Gênesis 1:2) e o “Espírito de Cristo” (Romanos 8:9), porque vem do Pai e do Filho. É o “Espírito de verdade” (João 14:17), porque nos guia na verdade. É o “Espírito de adoção” (Romanos 8:15), porque nos faz saber que somos filhos de Deus. E é, sobretudo, o Espírito Santo. Esse nome diz que ele é santo em si mesmo e diz também que ele é aquele que nos faz santos.

Jesus deu ao Espírito um nome especial: parakletos, que traduzimos por Consolador ou Advogado, “alguém chamado para ficar ao lado”. Jesus disse: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique sempre convosco” (João 14:16). A palavra “outro” é importante. Jesus tinha sido o Consolador dos discípulos enquanto estava com eles. Agora viria alguém como ele para ocupar o seu lugar.

Sua Divindade

Poucas passagens da Bíblia declaram numa só frase que o Espírito Santo é Deus, mas várias o mostram com clareza.

Ele é Chamado de Deus

Uma das passagens mais claras está em Atos 5. Ananias e sua mulher venderam uma propriedade, ficaram com parte do dinheiro e fingiram entregar tudo aos apóstolos. Pedro o confronta:

“E Pedro disse: Ananias, por que Satanás encheu teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e escondesses parte do valor da propriedade? Se mantivesses tua propriedade, ela não seria mantida contigo? E, tendo sido vendida, o dinheiro da venda não estava em teu poder? Por que decidiste isto em teu coração? Não mentiste aos seres humanos, mas sim a Deus.”

(Atos 5:3-4, Bíblia Livre)

No versículo 3, Ananias mentiu “ao Espírito Santo”. No versículo 4, mentiu “a Deus”. Pedro usa os dois nomes para a mesma pessoa.

Ele Tem o que Só Deus Tem

O Espírito tem as qualidades que pertencem só a Deus. Ele sabe tudo: “o Espírito investiga todas as coisas, até as profundezas de Deus” (1 Coríntios 2:10). Ele está em toda parte: “Para onde eu escaparia de teu Espírito? E para onde fugiria de tua presença?” (Salmos 139:7). E ele é eterno, pois Cristo se ofereceu a Deus “pelo Espírito eterno” (Hebreus 9:14).

Ele Faz o que Só Deus Faz

O Espírito também faz o que só Deus pode fazer. Ele cria: “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me deu vida” (Jó 33:4). Ele faz nascer de novo (João 3:5-6). Ele ressuscitará os mortos (Romanos 8:11). João Calvino achava esse argumento o mais forte de todos, porque é aquele que o próprio crente conhece por experiência:

O que a Escritura atribui ao Espírito, e o que nós mesmos aprendemos pela experiência segura da piedade, não cabe a nenhuma criatura. Pois é ele quem, espalhado por toda parte, sustenta e dá vida a todas as coisas no céu e na terra.

(João Calvino, Institutas, I.13.14, tradução nossa)

Ele Está ao Lado do Pai e do Filho

Em Mateus 28:19, 2 Coríntios 13:14 e 1 Pedro 1:2, vemos os três membros da Trindade mencionados juntos, e cada vez numa ordem diferente. Os escritores do Novo Testamento não hesitam em colocar o Espírito Santo no mesmo nível do Pai e do Filho. Ninguém batizaria “em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo” se o terceiro nome fosse de uma criatura.

Sua Personalidade

Há uma tentação de ver o Espírito Santo como uma força impessoal, algo como a eletricidade que acende as lâmpadas de uma casa. As Testemunhas de Jeová, por exemplo, chamam o Espírito de “força ativa” de Deus. Mas o Espírito Santo é tanto uma pessoa quanto Deus Pai e Deus Filho. Uma força se usa; com uma pessoa, nos relacionamos.

Ele Pensa, Sente e Decide

Uma pessoa tem inteligência, sentimentos e vontade. A Bíblia mostra as três coisas no Espírito. Ele conhece as coisas de Deus (1 Coríntios 2:11). Ele pode ser entristecido: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus” (Efésios 4:30). E ele decide: os dons são repartidos “particularmente a cada um como quer” (1 Coríntios 12:11). A eletricidade não fica triste, e o vento não escolhe nada.

Ele Age como Pessoa

O Espírito ensina e faz lembrar (João 14:26). Ele dá testemunho de Cristo (João 15:26). Ele guia, ouve e fala (João 16:13). Ele dá ordens: “Separai-me a Barnabé e a Saulo, para a obra para a qual eu os tenho chamado” (Atos 13:2). Ele ora por nós (Romanos 8:26). E as pessoas podem tratá-lo como se trata uma pessoa. Podem mentir para ele (Atos 5:3), resistir a ele (Atos 7:51) e blasfemar contra ele (Mateus 12:31).

Há também um detalhe da língua grega. A palavra pneuma é neutra, e o normal seria usar com ela um pronome neutro, algo como “isso”. Mas em João 16:13-14 o apóstolo usa o pronome masculino, “ele”. João fala de alguém, e não de alguma coisa.

Jacó Armínio resumiu bem o que a Bíblia ensina. Ele dizia que não devemos tentar definir o Espírito, pois isso estaria acima de nós, mas podemos descrevê-lo segundo as Escrituras:

Ele é a Pessoa que subsiste na santa e indivisível Trindade, que é a terceira na ordem, procede do Pai e é enviado pelo Filho, […] um Espírito infinito, eterno, ilimitado, e da mesma Divindade com Deus o Pai e o Filho.

(Jacó Armínio, Debates públicos, VI.3)

O Espírito na Trindade

No ano de 381, o Concílio de Constantinopla ampliou o Credo de Niceia para tratar do Espírito Santo. Havia grupos que negavam que o Espírito fosse Deus, e a Igreja respondeu assim:

Cremos no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, que procede do Pai; que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado; que falou pelos profetas.

(Credo Niceno-Constantinopolitano, 381)

O credo não chama o Espírito de “Deus” com essa palavra. Mas diz que ele é “Senhor”, que dá a vida e que recebe a mesma adoração que o Pai e o Filho. Ora, só Deus pode ser adorado. Essa confissão tornou-se a posição de todas as igrejas cristãs: ortodoxas, católica e protestantes.

Mais tarde, no Ocidente, acrescentou-se ao credo a expressão “e do Filho” (em latim, filioque): o Espírito procede do Pai e do Filho. As igrejas ortodoxas nunca aceitaram esse acréscimo. Os protestantes herdaram a fórmula ocidental. Mas, fora isso, todos estão de acordo. O assunto foi estudado no Capítulo 16: A Trindade.

Aqui basta uma distinção simples. Uma coisa é a relação eterna do Espírito com o Pai e com o Filho, que a teologia chama de processão. Outra coisa é o envio do Espírito ao mundo, na história, para uma obra, que a teologia chama de missão. Jesus fala das duas em João 15:26: “quando vier o Consolador, que eu do Pai vos enviarei, aquele Espírito de verdade, que sai do Pai, ele testemunhará de mim”. O Espírito “sai do Pai” desde sempre e é “enviado” pelo Filho no Pentecostes. Ser enviado não faz dele um Deus menor, assim como o Filho não ficou menor ao ser enviado pelo Pai.

Os Símbolos do Espírito

A Bíblia usa várias imagens para falar do Espírito. Nenhuma delas diz tudo, mas cada uma ajuda a entender um aspecto da sua obra.

A Pomba

No batismo de Jesus, o Espírito desceu “como uma pomba” (Mateus 3:16). A pomba lembra paz e pureza.

O Fogo e o Vento

No Pentecostes, houve “um ruído do céu, como de um vento forte e violento”, e apareceram sobre os discípulos “línguas repartidas como que de fogo” (Atos 2:2-3). O fogo era sinal da presença de Deus, como na sarça ardente (Êxodo 3:2), e também purifica. O vento lembra o poder do Espírito e a liberdade com que ele age.

A Água

Jesus prometeu que, de quem crê nele, “rios de água viva correrão do interior de seu corpo”. E João explica: “E ele disse isto do Espírito que receberiam aqueles que nele cressem” (João 7:38-39). A água mata a sede, limpa e faz brotar a vida no chão seco.

O Óleo

No Antigo Testamento, os sacerdotes e os reis eram ungidos com óleo. Esse óleo apontava para o Espírito, que capacita para o serviço. Por isso Jesus se chama Cristo, isto é, “Ungido” (Lucas 4:18).

O Selo e o Penhor

Paulo diz que Deus “nos selou, e nos deu o penhor do Espírito em nossos corações” (2 Coríntios 1:22). O selo marcava a quem uma coisa pertencia. O penhor era o sinal pago numa compra, que garante o resto. Voltaremos a essa imagem mais adiante.

A Obra do Espírito Santo

O Espírito não começou a agir no Novo Testamento. Ele age desde o começo da criação. Mas a sua obra cresce ao longo da história, até o derramamento no Pentecostes.

Na Criação

O nome “Espírito Santo” não é usado com frequência no Antigo Testamento. Mais frequentemente, o Espírito de Deus é usado para se referir a ele. Gênesis 1:2 é um exemplo disso, onde vemos que “o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”. Antes que o mundo tivesse forma, o Espírito já estava ali, como uma ave que cobre o ninho. Ele também sustenta a vida que existe: “Tu envias o teu fôlego, e logo são criados; e assim tu renovas a face da terra” (Salmos 104:30). Cada respiração de cada ser vivo depende de Deus.

No Antigo Testamento

Falando Através dos Profetas

O Espírito Santo esteve envolvido no ministério dos profetas no Antigo Testamento. Em Ezequiel 2:2, o profeta diz que o Espírito entrou nele e o pôs de pé, e então ouviu aquele que lhe falava. E Pedro nos diz: “Porque a profecia jamais foi produzida pela vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus conduzidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21). É por isso que a Bíblia é Palavra de Deus, como vimos no Capítulo 10. O mesmo Espírito que inspirou os escritores ilumina hoje os leitores, para que entendam o que leem (1 Coríntios 2:12-14).

Capacitando para o Serviço

No Antigo Testamento, também encontramos o Espírito Santo capacitando pessoas para o serviço. Deus escolhe Bezalel para a construção do tabernáculo:

“Olha, eu chamei por seu nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá; e o enchi de espírito de Deus, em sabedoria, e em inteligência, e em conhecimento, e em todo artifício.”

(Êxodo 31:2-3, Bíblia Livre)

O mesmo acontece com os juízes, como Gideão e Sansão (Juízes 6:34; 14:6), e com os reis Saul e Davi (1 Samuel 10:10; 16:13).

Presença Interior

O Espírito Santo também habitava em pelo menos algumas pessoas no Antigo Testamento. No salmo de arrependimento de Davi, ele clama a Deus: “Não me rejeites de tua face, e não tires teu Espírito Santo de mim” (Salmos 51:11). Davi tinha visto o Espírito se afastar de Saul (1 Samuel 16:14) e tinha medo de que o mesmo acontecesse com ele.

Não parece que o Espírito Santo estava dentro de todos os membros do povo. Ele trabalhava naqueles que Deus tinha ungido para uma tarefa especial. Moisés já sonhava com algo maior: “Bom seria se todos do povo do SENHOR fossem profetas, que o SENHOR pusesse seu Espírito sobre eles” (Números 11:29).

A Promessa

Os profetas transformaram esse desejo em promessa. Ezequiel anunciou um tempo em que o Espírito não só capacitaria para uma tarefa, mas mudaria o coração:

“E vos darei um novo coração, e porei um novo espírito dentro de vós; e tirarei de vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei meu Espírito dentro de vós, e farei com que andeis em meus estatutos, guardeis meus juízos, e os pratiqueis.”

(Ezequiel 36:26-27, Bíblia Livre)

E Joel anunciou que o Espírito seria derramado “sobre toda carne”: filhos e filhas, velhos e jovens, servos e servas (Joel 2:28-29). O dom que antes era de poucos seria de todo o povo de Deus.

Na Vida de Jesus

Na sua encarnação, Jesus viveu como homem verdadeiro e dependeu do Espírito Santo em cada passo. O Espírito esteve envolvido na sua concepção: “O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lucas 1:35). Veio sobre ele no seu batismo (Mateus 3:16). Depois, Jesus, “cheio do Espírito Santo”, foi levado pelo Espírito ao deserto, onde foi tentado (Lucas 4:1). Voltou para a Galileia “no poder do Espírito” (Lucas 4:14) e expulsou demônios “pelo Espírito de Deus” (Mateus 12:28).

O Espírito também esteve presente na cruz, pois Cristo, “pelo Espírito eterno, ofereceu a si mesmo, imaculado, a Deus” (Hebreus 9:14). E esteve presente na ressurreição, pois Paulo fala do “Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus” (Romanos 8:11).

Jesus continuou sendo Deus o tempo todo. Mas o Filho, feito homem, viveu como nós devemos viver: em obediência ao Pai e no poder do Espírito. E aquele que viveu cheio do Espírito é o mesmo que, depois de subir ao céu, o derramou sobre a Igreja. Pedro disse no Pentecostes: “tendo sido exaltado à direita de Deus, e recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que agora estais vendo e ouvindo” (Atos 2:33).

No Pentecostes

Jesus tinha dito aos discípulos que era melhor para eles que ele fosse embora, porque só assim o Consolador viria (João 16:7). João explica que “o Espírito Santo ainda não era vindo, porque Jesus ainda não havia sido glorificado” (João 7:39). O Espírito sempre existiu, é claro. Mas o derramamento prometido por Joel dependia de a obra de Cristo estar terminada.

Na festa de Pentecostes, a promessa se cumpriu (Atos 2:1-4). Os discípulos foram cheios do Espírito, e Pedro pregou com uma coragem que antes não tinha. Ele explicou que aquilo era o cumprimento de Joel e disse à multidão: “Arrependei-vos, e batize-se cada um de vós no nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e vós recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38). Assim como a cruz, o Pentecostes não se repete. Ele marca o começo de uma nova fase, em que o Espírito habita em todo o povo de Deus.

No Mundo

O Espírito Santo começa sua obra trazendo a convicção do pecado. Jesus ensinou:

“E vindo ele, convencerá ao mundo do pecado, e da justiça, e do juízo. Do pecado, porque não creem em mim; E da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; E do juízo, porque o Príncipe deste mundo já está julgado.”

(João 16:8-11, Bíblia Livre)

A palavra grega traduzida por “convencer” era usada nos tribunais. Quer dizer provar a culpa de alguém. O Espírito mostra ao mundo que o grande pecado é não crer em Cristo, que Jesus era justo e foi aprovado pelo Pai, e que o diabo já foi derrotado. Ninguém se arrepende sozinho. Se uma pessoa sente o peso do seu pecado e a atração de Cristo, é porque o Espírito já está trabalhando nela. Estudamos esse texto com mais calma em Espírito Santo em João 16:1-15.

Todos os protestantes concordam que ninguém crê sem a obra do Espírito. A discordância está no modo como essa graça age. A tradição reformada ensina que, nos eleitos, o chamado do Espírito é eficaz e não pode ser frustrado. A tradição luterana ensina que o Espírito age pela Palavra e pode ser rejeitado. A tradição arminiana e wesleyana ensina que o Espírito alcança todas as pessoas com a graça que vem antes de qualquer resposta humana, liberta a vontade presa pelo pecado e torna a pessoa capaz de crer, sem forçá-la. A posição do site é esta última: a salvação é toda obra de Deus, e a graça do Espírito, dada a todos, pode ser resistida, como Estêvão disse aos seus ouvintes: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51). O assunto está desenvolvido em Arminianismo: É Tudo Sobre a Graça e será retomado na Parte 7 do livro.

Na Vida do Crente

A obra do Espírito Santo é mais visível na vida do crente. O Espírito Santo é a presença de Deus dentro de nós, que nos capacita a viver a vida para a qual somos chamados. João Calvino abriu a parte das Institutas sobre a vida cristã justamente com essa verdade:

Enquanto há separação entre Cristo e nós, tudo o que ele sofreu e fez para a salvação dos homens é inútil e sem proveito para nós. […] Em resumo: o Espírito Santo é o vínculo pelo qual Cristo nos une eficazmente a si.

(João Calvino, Institutas, III.1.1, tradução nossa)

John Wesley disse a mesma coisa de outro jeito. Assim como todo o mérito está em Cristo, todo o poder está no Espírito:

O autor da fé e da salvação é só Deus. […] Não há mais poder do que mérito no homem; mas como todo mérito está no Filho de Deus pelo que Ele fez e sofreu por nós, assim todo o poder está no Espírito de Deus.

(John Wesley, Outro apelo aos homens sensatos e religiosos, I.6)

Vejamos, então, o que o Espírito faz em quem crê.

Novo Nascimento

Jesus disse a Nicodemos que “aquele que não nascer de água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus” (João 3:5). A pessoa que estava morta para Deus recebe uma vida nova. Paulo diz que Deus “nos salvou pelo banho do novo nascimento, e da renovação do Espírito Santo” (Tito 3:5). Não nascemos de novo por esforço próprio, assim como ninguém escolheu nascer da primeira vez.

Habitação

No período do Antigo Testamento, o Espírito Santo parecia trabalhar na vida de apenas algumas pessoas. Em contraste, agora o Espírito Santo habita em todos os crentes. Paulo é direto: “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não lhe pertence” (Romanos 8:9). Não existe cristão sem o Espírito. Por isso o corpo do crente é “templo do Espírito Santo” (1 Coríntios 6:19). Isso nos dá consolo, porque Deus nunca está longe. E nos dá responsabilidade, porque o que fazemos com o nosso corpo, fazemos no templo de Deus.

Selo e Garantia

Quando creram no evangelho, os crentes de Éfeso foram “selados com o Espírito Santo da promessa, que é a garantia da nossa herança” (Efésios 1:13-14). O selo mostra que pertencemos a Deus. A garantia aponta para o futuro: o que temos agora do Espírito é uma amostra do que teremos na glória.

Os protestantes discordam sobre um ponto ligado a isso. Para os reformados, o selo do Espírito garante que o verdadeiro crente nunca cairá da graça. Para a tradição arminiana e wesleyana, o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e as advertências da Bíblia contra o abandono da fé são reais (Hebreus 3:12-14). A posição do site é a segunda, com uma certeza verdadeira para quem está em Cristo, como explica Arminianismo: a segurança da salvação. O tema volta no capítulo sobre a perseverança.

Adoção

O Espírito nos faz filhos de Deus e também nos faz saber que somos filhos:

“Pois não recebestes o espírito de escravidão, para voltardes ao medo; mas recebestes o Espírito de adoção como filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai! O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus.”

(Romanos 8:15-16, Bíblia Livre)

Aba era a palavra com que uma criança chamava o pai em aramaico. O Espírito nos ensina a falar com Deus com a confiança de um filho, e não com o medo de um escravo. Calvino dizia que é por isso que ele se chama “Espírito de adoção”: ele nos dá testemunho do amor gratuito do Pai e nos anima a orar com confiança (Institutas, III.1.3). Voltaremos a esse assunto na Parte 7.

Ensino

Sozinhos, entendemos pouco das coisas de Deus. Mas Jesus prometeu que o Espírito Santo “vos ensinará tudo, e tudo quanto tenho dito vós, ele vos fará lembrar” (João 14:26). Ele não traz revelações novas, acima da Bíblia. Ele ensina aquilo que Cristo já disse: “tomará do que é meu, e vos anunciará” (João 16:14). O Espírito abre os nossos olhos para a Palavra que ele mesmo inspirou.

Intercessão

Também somos limitados na capacidade de orar. Muitas vezes não sabemos nem o que há no nosso próprio coração, nem como dizer a Deus o que precisamos. Aqui também o Espírito Santo vem nos ajudar. Em Romanos 8:26-27, Paulo nos mostra isso:

“E da mesma maneira também o Espírito ajuda em nossas fraquezas. Pois não sabemos orar como se deve, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito, pois ele intercede pelos santos, segundo a vontade de Deus.”

(Romanos 8:26-27, Bíblia Livre)

Cristo intercede por nós à direita de Deus (Romanos 8:34). O Espírito intercede por nós no nosso coração. Quando as palavras faltam, a oração continua.

Santificação

O Espírito Santo nos capacita a viver vidas santas. O oitavo capítulo de Romanos, especialmente os primeiros 17 versículos, enfatiza a importância de viver pelo Espírito. Paulo diz que “todos quantos são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Romanos 8:14). O Espírito Santo nos guiará, mas ainda assim devemos segui-lo. Devemos, “pelo Espírito”, fazer “morrer as ações do corpo” (Romanos 8:13). Ele não faz isso sem nós, e nós não conseguimos fazer isso sem ele.

Ser guiado pelo Espírito produz sinais visíveis em nossas vidas. Paulo diz: “o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gálatas 5:22-23). O Espírito vai nos transformando aos poucos na imagem de Cristo, “de glória em glória” (2 Coríntios 3:18).

Até onde essa obra pode chegar nesta vida é uma questão discutida entre protestantes, e a trataremos no capítulo sobre a santificação. O fruto do Espírito será estudado no próximo capítulo.

Capacitação para o Serviço

Por conta própria, somos fracos e incapazes de ser as pessoas que Deus quer que sejamos. Mas não somos deixados sozinhos nessa tarefa. Em Atos 1:8, Jesus diz aos discípulos: “vós recebereis poder do Espírito Santo, que virá sobre vós; e vós sereis minhas testemunhas”. O poder do Espírito serve para testemunharmos de Cristo, e não para nos exibirmos.

O Espírito também nos capacita para o serviço dentro da igreja. 1 Coríntios 12 trata dos dons dentro do corpo de Cristo. No versículo 7, Paulo nos diz que “a cada um é dada a manifestação do Espírito, para o que for conveniente”. Há dois pontos importantes nesse versículo. O primeiro é que o Espírito Santo dá “a cada um”: todos nós recebemos algum dom para servir. O segundo é que os dons são dados para o bem de todos: ninguém recebe um dom para proveito próprio, mas para o bem do corpo inteiro. Os dons, e a pergunta sobre se todos eles continuam hoje, são o assunto do próximo capítulo.

Na Igreja

O Espírito não trabalha só em pessoas isoladas. Ele forma um povo. A igreja reunida é o templo de Deus: “Não sabeis vós, que sois o templo de Deus? E que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Coríntios 3:16). Em Efésios 2:22, Paulo diz que somos “edificados para serdes morada de Deus em Espírito”.

O Espírito também é a fonte da unidade da igreja. Paulo pede: “Procurai guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo, e um só Espírito” (Efésios 4:3-4). Repare que Paulo não manda criar a unidade, mas guardá-la. Quem cria a unidade é o Espírito; a nós cabe não destruí-la com brigas e divisões.

Perguntas sobre o Espírito Santo

O Batismo no Espírito Santo

João Batista anunciou que Jesus batizaria “com o Espírito Santo e com fogo” (Mateus 3:11), e Jesus repetiu a promessa antes de subir ao céu: “vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muitos dias depois destes” (Atos 1:5). Mas o que é esse batismo, e quando ele acontece? Aqui os evangélicos não estão de acordo.

No Momento da Conversão

Muitos reformados, batistas e outros evangélicos ensinam que o batismo no Espírito acontece no momento em que a pessoa crê. O texto principal é 1 Coríntios 12:13: “Porque também todos nós somos batizados em um só Espírito, para um só corpo”. Paulo fala de “todos nós”, inclusive dos coríntios, que tinham muitos problemas. Nessa visão, o batismo no Espírito é a obra pela qual o Espírito une o crente a Cristo e à Igreja. Ninguém precisa buscá-lo depois, porque ele já aconteceu com todo crente.

Uma Experiência Posterior

Os pentecostais clássicos, como a Assembleia de Deus, ensinam que o batismo no Espírito é uma experiência diferente do novo nascimento e posterior a ele. Ele seria um revestimento de poder para o testemunho, e a evidência inicial seria falar em línguas. Eles apontam para os discípulos, que já criam em Jesus antes do Pentecostes, e para os samaritanos, que creram e só depois receberam o Espírito (Atos 8:14-17).

Purificação do Coração

No movimento de santidade do século 19, muitos ligaram o batismo no Espírito a uma obra da graça posterior à conversão, que purifica o coração “pela fé” (Atos 15:9) e o enche de amor.

A Posição do Site

A posição do site é que todo crente recebe o Espírito Santo ao crer (Romanos 8:9; Efésios 1:13) e é chamado a ser cheio dele sempre de novo (Efésios 5:18). O site crê também numa obra posterior da graça, a inteira santificação, recebida pela fé, que enche o coração de amor a Deus e ao próximo. Mas não a prende ao falar em línguas nem faz das línguas a prova de que alguém tem o Espírito. Veja Sede perfeitos: o que Wesley ensinou sobre perfeição cristã.

A Plenitude do Espírito

Se há discordância sobre o batismo no Espírito, há acordo sobre a plenitude. Paulo dá uma ordem a todos os crentes: “E não fiqueis bêbados com vinho, em que há devassidão, mas enchei-vos do Espírito” (Efésios 5:18).

A comparação com o vinho ajuda. O bêbado é controlado pela bebida. O crente deve ser controlado pelo Espírito. No grego, o verbo está num tempo que indica ação contínua: “continuai sendo cheios”. Não se trata de uma experiência única. Os mesmos discípulos que foram cheios no Pentecostes foram cheios de novo pouco depois, quando oraram em meio à perseguição (Atos 4:31).

Como somos cheios do Espírito? A Bíblia não dá uma fórmula, mas dá algumas ordens. Não devemos entristecer o Espírito com o pecado (Efésios 4:30), nem apagá-lo (1 Tessalonicenses 5:19). E devemos andar no Espírito, isto é, viver o dia a dia sob a sua direção (Gálatas 5:16). O resultado aparece numa vida que dá fruto, num culto cheio de gratidão (Efésios 5:19-20) e na coragem para falar de Cristo.

A Blasfêmia contra o Espírito Santo

Jesus fez uma advertência séria:

“Por isso eu vos digo: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos seres humanos; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. E qualquer um que falar palavra contra o Filho do homem lhe será perdoado; mas qualquer um que falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem na era presente, nem na futura.”

(Mateus 12:31-32, Bíblia Livre)

Muitos cristãos já tiveram medo de ter cometido esse pecado. Por isso é importante olhar para o contexto. Jesus tinha acabado de libertar um homem possuído por demônios. Os fariseus viram o milagre e não podiam negá-lo. Então disseram que Jesus expulsava demônios pelo poder do diabo. Marcos explica por que Jesus falou daquele jeito: “Pois diziam: ‘Ele tem espírito imundo’” (Marcos 3:30). Eles viram a obra clara do Espírito de Deus e a chamaram, de propósito, de obra de Satanás.

Alguns intérpretes acham que esse pecado só podia ser cometido enquanto Jesus estava na terra fazendo milagres. Outros acham que ele pode ser cometido hoje, por quem rejeita de forma consciente e definitiva a obra do Espírito que aponta para Cristo. Nas duas leituras, ele não se confunde com uma palavra dita num momento de raiva, com uma dúvida ou com um pecado de que a pessoa se arrependeu. É o pecado de um coração tão endurecido que chama a luz de trevas e não quer mais perdão.

Por isso, quem tem medo de ter cometido esse pecado mostra que não o cometeu. Esse medo é sinal de que o Espírito ainda está trabalhando na pessoa. E a promessa continua de pé: “todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens” (Marcos 3:28) que se voltam para Cristo.

Como Saber se é o Espírito

A Bíblia nos manda provar “se os espíritos são da parte de Deus” (1 João 4:1). O critério é simples: o Espírito sempre aponta para Cristo. Jesus disse: “Ele me glorificará” (João 16:14). Por isso, uma experiência, um ensino ou uma profecia que tira Cristo do centro, que contradiz a Bíblia ou que não produz o fruto do Espírito não vem do Espírito Santo, por mais forte que pareça. Ele inspirou as Escrituras e nunca vai contra elas.

Conclusão

O Espírito Santo é Deus, igual ao Pai e ao Filho, e merece a mesma adoração. Ele é uma pessoa, e não uma força: pensa, sente, decide, ensina, ora por nós e pode ser entristecido. A Igreja confessa, desde o Credo de 381, que ele é o Senhor que dá a vida.

A sua obra atravessa toda a Bíblia. Ele pairava sobre as águas na criação, falou pelos profetas, capacitou líderes em Israel e foi prometido para todo o povo. Ele acompanhou Jesus do nascimento até a ressurreição e foi derramado sobre a Igreja no Pentecostes. Hoje ele convence o mundo do pecado, faz nascer de novo, habita no crente, nos faz saber que somos filhos de Deus, ensina, ora por nós, nos torna santos, nos capacita para servir e une a Igreja num só corpo.

Tudo o que Cristo conquistou na cruz chega até nós pelo Espírito. Por isso não podemos tratá-lo como um recurso que usamos quando precisamos de poder. Ele é o Senhor a quem nos entregamos. Como Deus disse a Zorobabel: “Não se fará por força, nem por violência, mas sim por meu espírito, diz o SENHOR dos exércitos” (Zacarias 4:6).

No próximo capítulo, veremos com mais detalhe duas marcas da presença do Espírito na Igreja: os dons que ele reparte e o fruto que ele produz.

Fontes

  • Armínio, Jacó. Debates públicos, VI: Sobre o Espírito Santo. Em As obras de Armínio, vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. I.13.14; III.1.1-3.
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
  • Wesley, John. Outro apelo aos homens sensatos e religiosos (1745), I.6. Em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
  • Credo Niceno-Constantinopolitano (381).

Teologia Sistemática, Parte 6: O Espírito Santo. Capítulo anterior: Capítulo 29: A expiação. Próximo capítulo: Capítulo 31: Os dons e o fruto do Espírito.

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