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Capítulo 28: Os três ofícios de Cristo
Teologia Sistemática, Parte 5: Jesus Cristo
Neste texto
- O Ungido de Deus
- O que Quer Dizer “Cristo”
- O que É um Ofício
- Por que Três Ofícios
- Cristo, o Profeta
- O Profeta Prometido
- Mais do que um Profeta
- O que o Profeta Fez
- O Profeta Continua Falando
- Cristo, o Sacerdote
- O que Faz um Sacerdote
- Sacerdote Segundo a Ordem de Melquisedeque
- O Sacrifício
- A Intercessão
- Um Só Sacerdote
- Um Povo de Sacerdotes
- Cristo, o Rei
- O Filho de Davi
- Um Rei Diferente
- O Rei Exaltado
- Um Reino Espiritual
- O que o Rei Faz
- Os Três Ofícios Juntos
- Uma Só Pessoa
- A Doutrina na História
- Cristo Inteiro
- O que os Três Ofícios Nos Ensinam
- Ouvir, Confiar e Obedecer
- Todos Somos Ungidos
- Conclusão
- Fontes
O nome “Cristo” quer dizer “ungido”. Em Israel, eram ungidos os profetas, os sacerdotes e os reis, e Jesus reúne em si essas três funções. Mas o que ele fez, e continua fazendo, como profeta, como sacerdote e como rei?
O Ungido de Deus
No capítulo anterior, acompanhamos o caminho de Cristo da manjedoura até o trono. Agora a pergunta é outra. Queremos saber o que ele fez por nós nesse caminho. A teologia protestante responde a essa pergunta com a doutrina dos três ofícios: Cristo é o nosso profeta, o nosso sacerdote e o nosso rei.
O que Quer Dizer “Cristo”
“Cristo” parece um sobrenome de Jesus, mas é um título. A palavra grega Christos vem do verbo “ungir” e traduz a palavra hebraica mashiach, de onde vem “Messias”. Quando André encontrou Jesus, correu para contar ao irmão: “Já achamos ao Messias (que traduzido, é o Cristo)” (João 1:41). Quando Pedro disse “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” (Mateus 16:16), ele estava confessando que Jesus era o Ungido que Israel esperava.
Ungir era derramar azeite sobre a cabeça de alguém. No Antigo Testamento, esse gesto separava uma pessoa para um serviço que Deus lhe dava. Moisés derramou o azeite sobre Arão para que ele fosse sacerdote (Êxodo 29:7). Samuel ungiu Davi para que ele fosse rei, e “desde aquele dia em diante o espírito do SENHOR tomou a Davi” (1 Samuel 16:13). E Deus mandou Elias ungir Eliseu “para que seja profeta em lugar de ti” (1 Reis 19:16). O azeite era um sinal do Espírito de Deus, que capacitava a pessoa para a tarefa.
Jesus nunca foi ungido com azeite por um sacerdote do templo. A unção dele foi o próprio Espírito, que desceu sobre ele no batismo. Pedro diz que “Deus o ungiu com o Espírito Santo, e com poder” (Atos 10:38). E o próprio Jesus, na sinagoga de Nazaré, leu Isaías 61 como uma descrição da sua missão:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres, me enviou para proclamar liberdade aos cativos e dar vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, para proclamar o ano agradável do Senhor. […] Hoje esta escritura se cumpriu em vossos ouvidos.”
(Lucas 4:18-19, 21, Bíblia Livre)
O que É um Ofício
Aqui a palavra “ofício” quer dizer uma função pública que alguém recebe de uma autoridade e exerce em nome dela, e não uma profissão. Ninguém se fazia sacerdote em Israel por conta própria. O autor de Hebreus lembra que “ninguém toma para si esta honra, a não ser aquele que é chamado por Deus, como Arão. Assim também Cristo não glorificou a si mesmo para se fazer Sumo Sacerdote” (Hebreus 5:4-5). Jesus foi enviado e constituído pelo Pai.
Os três ofícios têm algo em comum: são funções de quem está no meio, entre Deus e o povo. Por isso a Bíblia chama Jesus de Mediador: “há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os seres humanos: o humano Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5). No capítulo 25, vimos que ele pode ser esse Mediador porque é ao mesmo tempo Deus e homem. Agora veremos o que esse Mediador faz.
Por que Três Ofícios
Em Israel, essas funções ficavam separadas. O profeta falava a palavra de Deus ao povo. O sacerdote apresentava o povo e os seus sacrifícios a Deus. O rei governava o povo em nome de Deus. Moisés foi profeta, mas não foi rei. Arão foi sacerdote, mas não foi um profeta como Moisés. Davi foi rei e chegou a profetizar nos salmos, mas não podia oferecer sacrifícios no altar. Em Jesus, as três funções se encontram numa só pessoa. O Moody Handbook resume bem a importância disso:
Esses três ofícios de Cristo, como Profeta, Sacerdote e Rei, são a chave para entender o propósito da encarnação. O ofício profético tinha a ver com a revelação da mensagem de Deus; o sacerdotal, com a sua obra de salvação e de intercessão; o real lhe deu o direito de reinar.
(Paul Enns, The Moody Handbook of Theology, tradução nossa)
John Wesley mostrou que os três ofícios correspondem a três necessidades que todos nós temos. Comentando a palavra “Cristo” em Mateus 1:16, ele escreveu:
Se olharmos para dentro de nós, veremos que precisamos de Cristo em todos esses aspectos. Por natureza, estamos longe de Deus e sem acesso a ele. Por isso precisamos de Cristo no seu ofício de sacerdote. Em nós mesmos, encontramos trevas e ignorância de Deus. Por isso precisamos dele como profeta. E encontramos uma estranha desordem de desejos e paixões. Por isso precisamos dele como rei, para reinar no nosso coração.
(John Wesley, Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Mateus 1:16, tradução nossa)
Somos ignorantes, e o profeta nos ensina. Somos culpados, e o sacerdote nos reconcilia. Somos escravos do pecado, e o rei nos governa e nos liberta. Nenhum dos três ofícios basta sozinho.
Cristo, o Profeta
O Profeta Prometido
Antes de morrer, Moisés deu ao povo uma promessa: “O SENHOR teu Deus suscitará para ti um Profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele deverás ouvir” (Deuteronômio 18:15). E Deus acrescentou: “porei minhas palavras em sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe mandar” (Deuteronômio 18:18).
Israel ficou esperando esse profeta. Quando Jesus multiplicou os pães, o povo disse: “Este é verdadeiramente o Profeta que havia de vir ao mundo!” (João 6:14). Depois do Pentecostes, Pedro aplicou a promessa de Moisés a Jesus: “O Senhor, vosso Deus, levantará dentre vossos irmãos um profeta como eu; a ele ouvireis em tudo o que ele vos falar” (Atos 3:22). E os dois discípulos que iam para Emaús descreveram Jesus como “um homem profeta, poderoso em obras e em palavras, diante de Deus, e de todo o povo” (Lucas 24:19).
O próprio Jesus se via como profeta. Quando foi rejeitado em Nazaré, disse: “Não há profeta sem honra, a não ser em sua terra, e em sua casa” (Mateus 13:57). E, a caminho de Jerusalém, disse que “um profeta não pode morrer fora de Jerusalém” (Lucas 13:33).
Mais do que um Profeta
Jesus foi profeta, mas não foi apenas mais um na lista. Os profetas antigos diziam “assim diz o Senhor”. Jesus dizia “porém eu vos digo” (Mateus 5:22). Os profetas recebiam a palavra de fora. Jesus falava como quem tinha a palavra em si mesmo. Por isso as multidões ficavam admiradas, “porque ele os ensinava como tendo autoridade, e não como os seus escribas” (Mateus 7:29). Até os guardas mandados para prendê-lo voltaram dizendo: “Ninguém jamais falou assim como este homem” (João 7:46).
A carta aos Hebreus começa justamente com essa diferença:
“Deus falou antigamente muitas vezes, e de muitas maneiras, aos ancestrais pelos profetas. Mas nestes últimos dias falou a nós por meio do seu Filho, a quem constituiu por herdeiro de todas as coisas, e pelo qual também fez o universo.”
(Hebreus 1:1-2, Bíblia Livre)
Os profetas eram mensageiros. O Filho é a própria mensagem. João diz que “a Deus nunca ninguém o viu; o unigênito Deus, que está no seio do Pai, ele o declarou” (João 1:18). O verbo grego traduzido por “declarou” deu origem à palavra “exegese”, e quer dizer explicar, dar a conhecer em detalhe. Jesus é a explicação de Deus. Por isso ele pôde dizer a Filipe: “Quem a mim tem visto, já tem visto ao Pai” (João 14:9).
O que o Profeta Fez
Como profeta, Jesus pregou o Reino de Deus. Ele disse: “é necessário que eu anuncie a outras cidades o evangelho do Reino de Deus; pois para isso fui enviado” (Lucas 4:43). Ele explicou a lei de Moisés e a livrou das interpretações que a tinham deformado, como vemos no Sermão do Monte. Ele chamou o povo ao arrependimento. E anunciou coisas que iam acontecer, como a sua morte, a sua ressurreição e a destruição do templo.
Jacó Armínio, professor de teologia em Leiden, observou que o assunto principal desse ensino foi o evangelho e a nova aliança, embora Jesus também tenha explicado a lei. Disse também que, no batismo, a voz do Pai e a descida do Espírito foram como cartas de apresentação de um embaixador. Diante de todos, Deus mostrou que aquele homem falava em seu nome (Debates privados, XXXVI.2 e 7).
Jesus confirmou o que ensinava de várias maneiras. Confirmou com a santidade da sua vida, que combinava perfeitamente com as suas palavras. Confirmou com milagres. E confirmou com a sua morte. Muitos o ouviram e creram. Muitos outros o rejeitaram e o levaram à cruz. Armínio comenta que Deus já sabia disso e usou essa rejeição para preparar o Profeta, pelos sofrimentos, para os outros dois ofícios (Debates privados, XXXVI.12-13). O profeta rejeitado se tornou o sacerdote que se ofereceu e o rei que foi exaltado.
O Profeta Continua Falando
O ofício profético de Cristo não terminou na ascensão. Antes de partir, Jesus prometeu o Espírito Santo: “ele vos guiará em toda verdade. […] Ele me glorificará, porque tomará do que é meu, e vos anunciará” (João 16:13-14). Pelo Espírito, Cristo ensinou os apóstolos, e o ensino deles ficou registrado no Novo Testamento. Hoje, quando a Escritura é lida e pregada com fidelidade, é o próprio Cristo quem continua ensinando a sua Igreja.
Isso tem uma consequência importante. Se Deus falou de modo final no Filho, “nestes últimos dias”, nada pode ser acrescentado ao evangelho como se fosse uma revelação nova e de igual autoridade. Judas fala da “fé que de uma vez foi entregue aos santos” (Judas 1:3). Paulo foi ainda mais duro: “ainda que nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos anunciamos, maldito seja” (Gálatas 1:8). João Calvino tirou essa conclusão da voz do Pai no monte da transfiguração:
Com a perfeição da doutrina que ele trouxe, Cristo pôs fim a todas as profecias. Por isso, os que não se contentam com o evangelho e lhe acrescentam alguma coisa de fora diminuem a autoridade dele. Aquela voz que trovejou do céu, “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi”, o colocou acima de todos os outros.
(João Calvino, Institutas, II.15.2, tradução nossa)
Os protestantes discordam entre si sobre o dom de profecia nas igrejas de hoje. Mas todos concordam neste ponto: nenhuma palavra que um líder diga ter recebido de Deus está acima da Escritura ou ao lado dela. Toda palavra deve ser provada pela Palavra que o Profeta já nos deu. Quando um pregador diz “Deus me revelou” algo que contraria a Bíblia ou que toma o lugar dela, ele está falando contra o próprio Cristo.
Cristo, o Sacerdote
O que Faz um Sacerdote
O profeta fala da parte de Deus para o povo. O sacerdote faz o caminho inverso: representa o povo diante de Deus. Hebreus explica que “todo sumo sacerdote tomado dentre os homens é constituído em prol das pessoas nas coisas relativas a Deus, para apresentar tanto ofertas como sacrifícios pelos pecados” (Hebreus 5:1).
O sacerdote fazia duas coisas principais. Oferecia sacrifícios pelos pecados do povo, e intercedia pelo povo diante de Deus. Jesus faz as duas coisas, mas de um jeito que nenhum sacerdote de Israel podia fazer.
Sacerdote Segundo a Ordem de Melquisedeque
Há uma dificuldade aqui. Pela lei de Moisés, os sacerdotes vinham da tribo de Levi. Jesus era da tribo de Judá, a tribo dos reis. Ele nunca serviu no templo de Jerusalém. Como, então, pode ser sacerdote?
A resposta está no Salmo 110: “O SENHOR jurou, e não se arrependerá: Tu és Sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque” (Salmos 110:4). Melquisedeque aparece em Gênesis 14, quando abençoa Abraão. Ele era “rei de Salém” e, ao mesmo tempo, “sacerdote do Deus altíssimo” (Gênesis 14:18). Nele, o trono e o altar estavam juntos. A lei de Moisés separou essas duas funções entre Judá e Levi, mas Deus prometeu um sacerdote de outra ordem, mais antiga e mais alta. O profeta Zacarias anunciou que o Messias “se sentará e dominará em seu trono, e será sacerdote em seu trono” (Zacarias 6:13).
Hebreus mostra por que o sacerdócio de Jesus é superior ao dos levitas:
“Dos outros, são muitos os que se tornaram sacerdotes, pois pela morte foram impedidos de continuar; mas ele, porque permanece para sempre, tem um sacerdócio definitivo. Portanto, ele também pode salvar de maneira completa os que se aproximam de Deus por meio dele, visto que ele vive para sempre para interceder por eles. Pois nos era conveniente tal Sumo Sacerdote: santo, inocente, incontaminado, separado dos pecadores, e feito mais elevado que os céus; que não precisasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer sacrifícios diariamente, primeiramente pelos seus próprios pecados, e depois pelos do povo. Pois ele fez isto de uma vez por todas quando ofereceu a si mesmo.”
(Hebreus 7:23-27, Bíblia Livre)
Os sacerdotes de Israel morriam e precisavam ser substituídos. Jesus vive para sempre. Eles eram pecadores e ofereciam sacrifícios por si mesmos. Jesus é santo e não precisa disso. Eles ofereciam animais todos os dias. Jesus ofereceu a si mesmo uma única vez.
O Sacrifício
Aqui está a grande novidade. Nos sacrifícios antigos, o sacerdote era uma pessoa e a vítima era outra. Na cruz, o sacerdote e a vítima são a mesma pessoa. Jesus entrou no santuário do céu “não pelo sangue de bodes e bezerros, mas sim, pelo seu próprio sangue”, e “obteve uma redenção eterna” (Hebreus 9:12). E “com uma só oferta ele aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14).
Por que esse sacrifício era necessário? Calvino responde que o pecado nos afastou de Deus e nos colocou debaixo da justa condenação da lei. Por isso, para que um sacerdote nos levasse a Deus, era preciso primeiro tirar a nossa culpa. Mesmo no Antigo Testamento, o sumo sacerdote não podia entrar no Santo dos Santos sem sangue. Assim, diz Calvino, para entender o sacerdócio de Cristo, é preciso começar pela sua morte (Institutas, II.15.6).
O sacrifício de Cristo é o centro de todo o ofício sacerdotal, e por isso merece um capítulo inteiro. No próximo capítulo, vamos estudar a expiação: por que ela era necessária, como os cristãos a explicaram ao longo da história e por quem Cristo morreu. Por enquanto, basta dizer o que todas as igrejas protestantes confessam: o sacrifício de Cristo foi único, completo e suficiente. Ele não precisa ser repetido nem completado por nós.
A Intercessão
O sacrifício terminou na cruz, mas o trabalho do sacerdote continua. Jesus subiu ao céu “para agora comparecer por nós diante da face de Deus” (Hebreus 9:24). Paulo pergunta: “Quem os condenará? Cristo Jesus é o que morreu; além disto é o que também ressuscitou; o que também está à direita de Deus, e que intercede por nós” (Romanos 8:34). E João consola os seus leitores: “se alguém pecar, temos um advogado com o Pai: Jesus Cristo, o justo” (1 João 2:1).
Interceder é falar a favor de alguém. Isso não quer dizer que o Pai esteja de má vontade e precise ser convencido, pois foi o próprio Pai quem enviou o Filho. A intercessão quer dizer que temos diante de Deus um representante que é um de nós, e cujo sacrifício está sempre diante do Pai. Por isso podemos orar com confiança:
“Pois não temos um Sumo Sacerdote que não possa se compadecer das nossas fraquezas; mas, sim, um que foi provado em tudo, conforme a nossa semelhança, porém sem pecado. Portanto, acheguemo-nos com confiança ao trono da graça, para que possamos receber misericórdia e encontrar graça para sermos socorridos no tempo adequado.”
(Hebreus 4:15-16, Bíblia Livre)
Um Só Sacerdote
Se Cristo é o sacerdote da nova aliança, quem ocupa o lugar dele na terra? A resposta protestante é: ninguém. Armínio escreveu que Cristo, no ofício sacerdotal, “não tem nenhum sucessor, representante nem associado” (Debates privados, XXXV.9). E concluiu que o Cristo vivo é apresentado ao Pai somente no céu, e por isso não é oferecido de novo na missa.
Aqui todos os herdeiros da Reforma estão juntos. Luteranos, reformados, anglicanos, metodistas, batistas e pentecostais rejeitam a ideia de que a missa repita ou renove o sacrifício da cruz. Hebreus diz que Jesus “ofereceu um sacrifício pelos pecados” e depois “assentou-se para sempre à direita de Deus” (Hebreus 10:12). O sacerdote que se senta é o sacerdote que terminou o seu trabalho. Também não precisamos de santos, de anjos ou de líderes religiosos que nos levem a Deus. Há um só Mediador.
Um Povo de Sacerdotes
Mesmo assim, ainda há sacerdotes na nova aliança: todo o povo de Deus. Pedro escreve aos cristãos comuns: “vós sois a geração escolhida, o sacerdócio real, a nação santa” (1 Pedro 2:9). E João louva a Cristo, que “nos amou, e em seu sangue nos lavou de nossos pecados; e nos fez reis e sacerdotes a Deus e seu Pai” (Apocalipse 1:5-6). Martinho Lutero chamou isso de sacerdócio de todos os crentes. Calvino explicou assim:
Cristo faz o papel de sacerdote não só para tornar o Pai favorável a nós, mas também para nos associar a ele numa honra tão grande. Pois nós, que em nós mesmos somos impuros, feitos sacerdotes nele, oferecemos a Deus a nós mesmos e tudo o que fazemos, e entramos com ousadia no santuário do céu.
(João Calvino, Institutas, II.15.6, tradução nossa)
Os nossos sacrifícios não tiram pecado nenhum. Isso só o sacrifício de Cristo fez. Mas eles são aceitos por Deus “por meio de Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5). O Novo Testamento fala de três tipos de sacrifício. O primeiro é o louvor: “por meio dele, ofereçamos continuamente sacrifício de louvor a Deus” (Hebreus 13:15). O segundo é a nossa própria vida, entregue a Deus como “sacrifício vivo, santo e agradável” (Romanos 12:1). O terceiro é o cuidado com os outros: “não vos esqueçais de fazer o bem e de compartilhar, pois Deus se agrada com tais sacrifícios” (Hebreus 13:16). Quando oramos uns pelos outros, também fazemos um trabalho de sacerdote.
Cristo, o Rei
O Filho de Davi
O ofício de rei começa com uma promessa feita a Davi. Deus lhe disse: “será firmada tua casa e teu reino para sempre diante de teu rosto; e teu trono será estável eternamente” (2 Samuel 7:16). Os reis que vieram depois de Davi falharam, e o reino acabou destruído pelos babilônios. Mas os profetas continuaram anunciando um rei da família de Davi cujo governo não teria fim:
“Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; e o governo está sobre seus ombros; e seu nome se chama Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. À grandeza de seu governo e à paz não haverá fim, sobre o trono de Davi, e sobre seu reino, para o firmar e fortalecer com juízo e justiça desde agora e para sempre.”
(Isaías 9:6-7, Bíblia Livre)
O anjo Gabriel disse a Maria que essa promessa se cumpriria no filho dela: “o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu ancestral. E reinará eternamente na casa de Jacó; o seu reino não terá fim” (Lucas 1:32-33).
Um Rei Diferente
Mas esse rei era diferente dos outros. Ele entrou em Jerusalém “manso, e sentado sobre um jumento” (Mateus 21:5), e não num cavalo de guerra. Quando Pilatos lhe perguntou se ele era rei, Jesus respondeu: “Meu Reino não é deste mundo; se meu Reino fosse deste mundo, meus trabalhadores lutariam, para que eu não fosse entregue aos Judeus” (João 18:36). E ensinou aos discípulos que, no seu Reino, as coisas funcionam ao contrário do mundo:
“Os reis dos gentios os dominam, e os que exercem autoridade sobre eles são chamados de benfeitores; mas não seja assim entre vós; antes o maior de vós seja como o menor; e o que lidera, como o que serve. […] Porém eu estou entre vós como aquele que serve.”
(Lucas 22:25-27, Bíblia Livre)
O único trono que Jesus aceitou em Jerusalém foi a cruz. E ali, sem saber o que fazia, Pilatos mandou escrever a verdade: “JESUS NAZARENO, REI DOS JUDEUS” (João 19:19).
O Rei Exaltado
Na humilhação, o reinado de Jesus esteve escondido. Na exaltação, ele foi anunciado a todos. No dia de Pentecostes, Pedro disse: “Saiba então com certeza toda a casa de Israel, que Deus o fez Senhor e Cristo a este Jesus, que vós crucificastes” (Atos 2:36). E o Ressuscitado disse aos discípulos: “Todo o poder me é dado no céu e na terra” (Mateus 28:18).
Paulo diz que Deus colocou Cristo à sua direita, “acima de todo governo, autoridade, poder, domínio, e de todo nome que se nomeia”, e “sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés, e o constituiu por cabeça sobre todas as coisas para a Igreja” (Efésios 1:21-22). Cristo reina agora. Ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele, mas o seu reinado já começou e vai continuar “até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés” (1 Coríntios 15:25). No dia da sua volta, todos verão que ele é “Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores” (Apocalipse 19:16). A forma desse reinado no fim da história, e a questão do milênio, ficam para a última parte deste livro.
Paulo também diz que, no fim, Cristo vai entregar “o Reino ao Deus e Pai”, “para que Deus seja tudo em todos” (1 Coríntios 15:24, 28). Isso não quer dizer que ele vá deixar de ser rei, já que Gabriel disse que o seu reino “não terá fim”. Calvino explicou que o que vai mudar é a maneira de governar. Hoje Cristo governa a Igreja como Mediador, no meio das lutas desta vida. Quando a obra de salvação estiver completa, essa forma de governo terá cumprido o seu papel (Institutas, II.15.5).
Um Reino Espiritual
Os teólogos costumam distinguir três aspectos desse único reinado. O reino de poder é o governo de Cristo sobre todas as coisas: a natureza, a história e as nações. O reino de graça é o governo de Cristo sobre a sua Igreja e sobre o coração dos que creem, pois o Pai “nos tirou do domínio das trevas, e nos transportou para o reino do seu amado Filho” (Colossenses 1:13). E o reino de glória é o que será visto por todos quando ele voltar. Sobre a relação entre esse Reino e a Igreja, veja também Reino de Deus e Igreja: como os dois se relacionam.
Calvino insistiu que o reino de Cristo é espiritual. Com isso ele não queria dizer que o reino seja irreal, mas que os seus bens são outros. Paulo diz que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas sim justiça, paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17). Calvino escreveu:
A felicidade que nos é prometida em Cristo não está em vantagens exteriores, como uma vida tranquila, muita riqueza, segurança contra todo mal e prazeres para a carne. […] Por isso concluímos que ele reina mais para nós do que para si mesmo, por dentro e por fora.
(João Calvino, Institutas, II.15.4, tradução nossa)
Essa palavra é muito atual. Há pregações que transformam o reinado de Cristo numa promessa de dinheiro, de saúde garantida e de sucesso. O Rei verdadeiro nos dá coisas melhores: o perdão, o Espírito Santo, a força para resistir ao pecado e a certeza de que ele nunca vai nos abandonar, mesmo na pobreza, na doença e na perseguição.
O que o Rei Faz
O que Cristo faz como rei? Armínio fez uma lista simples (Debates privados, XXXVII.3-7). Primeiro, o Rei chama os pecadores ao arrependimento e à fé no evangelho. Segundo, ele dá leis ao seu povo, mostrando como os seus súditos devem viver. Terceiro, ele concede as bênçãos da salvação: o perdão dos pecados, o testemunho do Espírito de que somos filhos de Deus, a luz para entender a verdade, a força contra as tentações e a lei de Deus escrita no coração. Quarto, ele protege o seu povo contra os inimigos. E, por fim, ele julgará todos os seres humanos no último dia.
E como Cristo governa? Sem exércitos e sem a força do Estado. Ele governa pela Palavra e pelo Espírito Santo:
Os meios pelos quais Cristo administra o seu reino […] são a palavra e o Espírito Santo, que jamais devem ser separados. Pois esse Espírito emprega, comumente, a palavra, ou o significado da palavra, em sua pregação externa; e a palavra apenas, sem o esclarecimento e a inspiração do Espírito Santo, é insuficiente.
(Jacó Armínio, Debates privados, XXXVII.9, em As obras de Armínio, vol. 2)
Por isso a Igreja não deve buscar poder político para impor o evangelho. O Rei faz o seu Reino avançar quando a Palavra é pregada e o Espírito convence os corações. E os que governam na Igreja devem lembrar que são servos do Rei, e não donos do rebanho.
Os Três Ofícios Juntos
Uma Só Pessoa
Estudamos os três ofícios um por um, mas eles não são três partes separadas de Cristo. É a mesma pessoa que ensina, que se oferece e que reina. A cruz mostra isso muito bem. Ali Jesus foi profeta, porque a cruz é a mensagem mais clara do amor de Deus. Foi sacerdote, porque ofereceu a si mesmo pelos nossos pecados. E foi rei, porque venceu ali os poderes do mal, e o título sobre a sua cabeça dizia a verdade.
Os três ofícios também atravessam os dois estados de Cristo que vimos no capítulo anterior. O Breve Catecismo de Westminster diz que Cristo, como nosso Redentor, exerce os ofícios de profeta, de sacerdote e de rei, tanto no estado de humilhação como no de exaltação (pergunta 23). Na terra, ele ensinou, se ofereceu e anunciou o Reino. No céu, ele ensina pelo Espírito, intercede por nós e governa todas as coisas.
A Doutrina na História
A ideia de que Jesus reúne os três ofícios é antiga. No começo do século IV, Eusébio de Cesareia escreveu que os ungidos de Israel apontavam para o verdadeiro Cristo, o único sumo sacerdote, o único rei de toda a criação e o maior dos profetas do Pai (História eclesiástica, I.3). Mas foi Calvino quem deu à doutrina a forma que as igrejas protestantes conhecem (Institutas, II.15). O Catecismo de Heidelberg a ensinou a gerações de crianças: Cristo foi ungido pelo Espírito para ser o nosso supremo profeta e mestre, o nosso único sumo sacerdote e o nosso rei eterno (pergunta 31).
A doutrina foi recebida por luteranos, anglicanos, batistas e metodistas. Armínio dedicou um debate a cada ofício (Debates privados, XXXV a XXXVII). Wesley ensinava que é pela fé que recebemos Cristo “em todos os seus ofícios, como nosso Profeta, Sacerdote e Rei” (O caminho bíblico da salvação, II.1). Neste ponto, as igrejas da Reforma estão unidas. É uma herança comum.
Cristo Inteiro
Wesley pedia muitas vezes aos seus pregadores que pregassem Cristo “em todos os seus ofícios”. Ele sabia que, quando um dos ofícios é esquecido, a fé fica torta. O teólogo Randy Maddox resume a preocupação de Wesley assim: pregar o Profeta sem o Sacerdote leva ao legalismo, e pregar o Sacerdote sem o Rei leva a uma graça que perdoa mas não transforma (Responsible Grace, cap. 4).
Podemos ver esses desvios nas igrejas de hoje. Quem apresenta Jesus só como profeta faz dele um grande mestre de moral, um exemplo a seguir, mas esquece que somos pecadores e precisamos de perdão. Quem apresenta Jesus só como sacerdote oferece um perdão que não pede mudança de vida, como se Cristo nos salvasse da culpa e nos deixasse escravos do pecado. E quem apresenta Jesus só como rei vitorioso esquece a cruz e promete um trono sem sofrimento. Precisamos de Cristo inteiro: o profeta que nos ensina, o sacerdote que nos perdoa e o rei que nos governa e nos transforma.
O que os Três Ofícios Nos Ensinam
Ouvir, Confiar e Obedecer
Cada ofício pede de nós uma resposta. Ao Profeta respondemos ouvindo. O Pai disse no monte: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado; a ele ouvi” (Mateus 17:5). Ouvir Cristo é ler a Bíblia, aprender dela e crer no que ele diz, mesmo quando contraria o que pensamos.
Ao Sacerdote respondemos confiando. Não precisamos de outro sacrifício além do dele, nem de outro mediador além dele. Quando caímos, não fugimos de Deus. Corremos para o trono da graça, porque temos lá um advogado.
Ao Rei respondemos obedecendo. Jesus perguntou: “por que me chamais: ‘Senhor!’, ‘Senhor!’, e não fazeis o que eu digo?” (Lucas 6:46). Chamar Jesus de Senhor e viver como se ele não governasse a nossa vida é uma contradição. Mas o jugo desse rei é leve: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mateus 11:29).
Todos Somos Ungidos
O Catecismo de Heidelberg faz uma pergunta interessante: por que você é chamado cristão? E responde: porque, pela fé, sou membro de Cristo e participo da sua unção (pergunta 32). “Cristão” quer dizer pessoa de Cristo, ligada ao Ungido. O crente participa, a seu modo, dos três ofícios. Como profeta, ele confessa o nome de Cristo e anuncia o evangelho. Como sacerdote, ele oferece a si mesmo a Deus e ora pelos outros. Como rei, ele luta contra o pecado e contra o diabo, e um dia reinará com Cristo.
João diz a todos os crentes, e não só aos líderes: “Vós, porém, tendes a unção do Santo” (1 João 2:20). Isso corrige um erro comum. Em alguns ambientes, a frase “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105:15) é usada para colocar certos líderes acima de qualquer crítica ou correção. Mas, no Novo Testamento, o Ungido é Cristo, e todos os que estão nele recebem a unção do Espírito. Na Igreja, não existe uma classe de ungidos e outra de pessoas comuns. Os pastores são servos do único Ungido, e as suas palavras devem ser provadas pela Escritura como as de qualquer outro irmão.
Conclusão
“Cristo” quer dizer “Ungido”. Em Israel, Deus ungia profetas, sacerdotes e reis, e cada um deles mediava entre Deus e o povo de um jeito. Em Jesus, ungido pelo Espírito Santo, essas três funções se encontram numa só pessoa.
Como profeta, Jesus revelou o Pai de modo final, e continua ensinando a sua Igreja pelo Espírito e pela Escritura. Nenhuma revelação nova pode ser colocada ao lado do que ele já disse. Como sacerdote, ele ofereceu a si mesmo uma única vez como sacrifício pelos pecados, e agora intercede por nós à direita do Pai. Ele não tem sucessor, e fez de todo o seu povo um povo de sacerdotes. Como rei, ele reina desde a sua exaltação, governa a Igreja pela Palavra e pelo Espírito, protege os seus e julgará o mundo quando voltar.
Os três ofícios andam juntos. Quem recebe Cristo pela fé precisa recebê-lo inteiro, como mestre, como salvador e como Senhor.
No próximo capítulo, vamos estudar mais de perto o centro do ofício sacerdotal: a expiação, isto é, o que Cristo fez na cruz pelos nossos pecados.
Fontes
- Armínio, Jacó. Debates privados, XXXV a XXXVII. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. II.15.
- Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
- Maddox, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Mateus 1:16; O caminho bíblico da salvação, II.1. Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works. Nashville: Abingdon, 1982.
- Eusébio de Cesareia, História eclesiástica, I.3; Catecismo de Heidelberg (1563), perguntas 31 e 32; Breve Catecismo de Westminster (1647), pergunta 23.
Teologia Sistemática, Parte 5: Jesus Cristo. Capítulo anterior: Capítulo 27: Os estados de Cristo: humilhação e exaltação. Próximo capítulo: Capítulo 29: A expiação.
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