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SermõesSermões em Mateus10 de 27

Sermão do Monte: a ética do Reino de cabeça para baixo

O Sermão do Monte: a ética do Reino de cabeça para baixo

Diego Gonçalves6 min de leitura1.153 palavras

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Neste texto

Quando Jesus subiu à encosta junto ao mar da Galileia, sentou-se e começou a ensinar os Seus discípulos (Mateus 5 a 7), Ele não estava apenas proferindo um belo discurso moral. Ele estava promulgando a constituição de uma nova realidade: o Reino de Deus.

Historicamente, o Sermão do Monte sofre com dois erros de interpretação opostos. De um lado, há quem o reduza a um manifesto político ou a uma cartilha de boas maneiras humanistas, ignorando que o sermão exige uma transformação espiritual que homem nenhum consegue operar por conta própria. Do outro lado, há quem afirme que as exigências de Jesus são tão elevadas e inalcançáveis que só serviriam para uma era futura imaginária, esvaziando completamente a sua aplicação para a vida prática de hoje.

Jesus, no entanto, não falou para teóricos nem para utopistas. Ele falou para pescadores, camponeses, cobradores de impostos e pessoas comuns que viviam sob o jugo pesado do Império Romano e sob o fardo moralista dos líderes religiosos da época. O Sermão do Monte é o retrato vivo de como se parece uma vida humana quando ela é governada pela graça de Deus.

As Bem-Aventuranças: o choque com os valores do mundo

O sermão começa virando a lógica do mundo de cabeça para baixo. Qualquer sociedade humana, seja a Roma do primeiro século ou o Ocidente do século XXI, define o homem bem-sucedido e feliz pela força, pelo poder de consumo, pela influência e pela capacidade de se impor sobre os outros.

Jesus abre a boca e declara que os verdadeiros felizes e abençoados pelo Reino são exatamente o oposto:

  • Os pobres de espírito (Mt 5:3): não quem é financeiramente desprovido por definição, mas quem tem a lucidez de reconhecer a própria falência espiritual diante de Deus. A porta de entrada do Reino é a admissão humilde de que não temos mérito algum para apresentar ao Criador.
  • Os que choram (Mt 5:4): aqueles que sentem a dor do pecado, a ruína do mundo e o peso do sofrimento, e por isso encontram o consolo verdadeiro de Deus.
  • Os mansos (Mt 5:5): não os frouxos ou covardes, mas aqueles que têm a força sob controle e recusam a violência e a arrogância para conquistar seus espaços na marra.
  • Os que têm fome e sede de justiça (Mt 5:6): os inconformados com a iniqüidade deste mundo, que anseiam pela retidão de Deus como quem precisa de pão para não morrer.
  • Os misericordiosos, os limpos de coração e os pacificadores (Mt 5:7-9): aqueles que refletem no convívio diário o caráter gracioso, transparente e reconciliador do próprio Pai.

A radicalização da Lei: o coração além da aparência

No capítulo 5, Jesus estabelece um confronto direto com a religiosidade dominante do Seu tempo: “Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos céus” (Mt 5:20).

Os escribas e fariseus eram peritos na conformidade externa. Eles contavam passos no sábado, lavavam as mãos cerimonialmente e cuidavam para que a fachada parecesse impecável diante da sociedade. Jesus desmonta essa encenação mostrando que o padrão da Lei de Deus nunca foi a mera casca dos atos, mas a intenção profunda do coração.

Ele usa a fórmula repetida: “Ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo”:

  • Não matarás? Jesus afirma que a raiz do homicídio é a ira descontrolada, o rancor guardado e o insulto que destrói a honra do irmão (Mt 5:21-22).
  • Não adulterarás? Jesus mostra que o adultério começa muito antes da cama: ele nasce na cobiça cultivada no olhar e na imaginação (Mt 5:27-28).
  • Amar o próximo? Jesus radicaliza o amor cristão ao nível do escândalo: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44). Amar quem nos elogia e retribui carinho até os ímpios fazem; o distintivo dos filhos de Deus é amar onde não há reciprocidade.

Desmascarando a hipocrisia da piedade pública

No capítulo 6, Jesus examina as três grandes práticas da piedade judaica: a esmola, a oração e o jejum.

Em cada uma delas, o diagnóstico é cirúrgico:

  • Ao ajudar quem precisa, não toque trombeta nas esquinas para ser elogiado pelos outros. Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita.
  • Ao orar, não fique de pé em praça pública ostentando vocabulário rebuscado. Entre no seu quarto, feche a porta e fale com o Pai que vê em secreto.
  • Ao jejuar, não desfigure o rosto com cara de sofrimento para que todos notem a sua penitência. Lave o rosto, unja a cabeça e viva a disciplina diante de Deus.

O aviso de Jesus é categórico: se o motivo de qualquer ato de bondade ou disciplina espiritual for receber o aplauso dos homens, esse aplauso terreno é toda a recompensa que a pessoa jamais terá. Deus não remunera atores religiosos.

É nesse contexto que Jesus ensina a oração do Pai Nosso, curta, direta, livre de repetições vazias, e desafia a ansiedade que sufoca o dia a dia. Ao apontar para as aves do céu e os lírios do campo (Mt 6:25-34), Ele nos lembra de que o antídoto contra o desespero financeiro não é o acúmulo avarento de tesouros na terra, mas a confiança no cuidado providente de um Pai celestial que conhece perfeitamente cada uma das nossas necessidades.

Convivência lúcida: o cisco e a rocha

No capítulo 7, Jesus aborda o discernimento nas relações humanas.

O conhecido “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mt 7:1) costuma ser citado fora de contexto como se fosse uma proibição total de avaliar condutas éticas. O próprio capítulo logo em seguida manda tomar cuidado com os falsos profetas e examiná-los pelos seus frutos.

O que Jesus condena não é o bom senso, mas o espírito censor hipócrita: a postura daquele que se coloca como juiz implacável dos outros, gastando energia para apontar o cisco de poeira no olho do irmão enquanto carrega uma tona de madeira atravessada na própria visão.

O ápice prático das relações sociais é sintetizado na Regra de Ouro: “Tudo quanto quereis que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles; pois esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7:12).

Praticantes e ouvintes

Jesus encerra o Sermão do Monte com uma história marcante: dois homens que construíram casas. O que ouviu as palavras e as colocou em prática é comparado ao homem prudente que cavou fundo e assentou os alicerces sobre a rocha; o que ouviu as mesmas palavras, achou bonitas, mas não as praticou, construiu sobre a areia.

Quando a tempestade desabou — e ela vem para ambos —, a casa sobre a rocha permaneceu firme, enquanto a outra ruiu com grande estrondo (Mt 7:24-27).

O evangelho não nos convida a admirar o Sermão do Monte de longe como uma obra de arte intocável. Ele nos convoca a encarnar essas palavras no trabalho, na família e no trânsito, sabendo que a única fé que resiste ao teste da vida e da eternidade é aquela que brota do quebrantamento e se traduz em obediência real a Cristo.