
Sermões52 Histórias da Bíblia26 de 27
Bem-aventuranças de Jesus: o primeiro elo em Mateus 5
O primeiro elo
Neste texto
- O Reino que chegou e ainda não chegou
- Bem-aventurado quer dizer aprovado
- O primeiro elo: os pobres em espírito
- Os elos que olham pra Deus
- Os que choram
- Os humildes
- Os que têm fome e sede de justiça
- Os elos que olham pro outro
- Os misericordiosos
- Os puros de coração
- Os pacificadores
- Os perseguidos
- Conclusão
- Versículo para memorizar
Texto-base: Mt 5:1-10
Versículo-chave: Mt 6:33
Na semana passada, vimos Jesus vencendo a tentação no deserto. Logo depois disso, ele começa a pregar.
Sabe aquela correntinha de ouro bem fininha, de usar no pescoço? Olha ela de pertinho. Ela é feita de elo. Um elo engatado no outro. Nenhum elo fica no ar sozinho: cada um está pendurado no de trás. E aí que tá. Se o primeiro elo abre, não adianta o resto estar perfeito. A corrente escorrega e vai inteira pro chão.
Hoje a gente vai olhar pra uma corrente assim. Só que feita de palavras de Jesus.
O Reino que chegou e ainda não chegou
Mas antes, deixa eu mostrar em que momento ele fala isso. Quando Jesus sai do deserto, a primeira coisa que ele prega é esta: “Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo.” (Mt 4:17) A mensagem dele não era sobre como ser feliz, nem sobre como ir pro céu quando morrer, mas sobre o Reino.
E que que é o Reino? Reino, aqui, não quer dizer um pedaço de terra, como Israel ou Roma, mas o governo de Deus. Onde Deus governa, ali está o Reino dele.
Com Jesus, esse Reino já chegou. Pecado perdoado, doente curado, o poder de Satanás quebrado. Só que ele ainda não chegou por inteiro. Ainda tem morte, ainda tem dor, ainda tem pecado. A gente vive no meio disso: no já e no ainda não. Tipo o Dia D na Segunda Guerra: a batalha decisiva já foi vencida, mas a guerra ainda não acabou.
E aí Jesus sobe um monte, senta e prega o sermão mais famoso que ele pregou. São três capítulos: Mateus 5, 6 e 7. O Sermão do Monte é o manifesto do Rei. Ele mostra como é a vida debaixo do governo de Deus. Jesus não entrega um regulamento pra gente ser salvo, mas descreve como vive quem já foi salvo e transformado.
E esse sermão entrou tanto na nossa língua que tem gente que fala em dar a outra face, em ser sal da terra, em não jogar pérolas aos porcos… e nunca abriu Mateus 5.
O John Stott escreveu um livro inteiro sobre esse sermão, e ele abre dizendo algo assim: o Sermão do Monte talvez seja a parte mais conhecida do ensino de Jesus, mas também a menos entendida e, com certeza, a menos obedecida. E aí eu preciso parar e me perguntar: e eu? Quanto disso eu sei de cor e não obedeço?
O manifesto do Rei começa com uma corrente.
Bem-aventurado quer dizer aprovado
Vamos olhar para Mt 5:1-10. Antes de entrar em cada frase, repara numa palavra que aparece oito vezes: bem-aventurado. É dela que vem o nome “bem-aventuranças”. Se você olhar a nota de rodapé da NVI, ela explica: “como são felizes”. E aí muita gente lê e pensa em sorriso, em estar de bem com a vida. Só que, na nossa língua, feliz virou sentimento, e a palavra aqui fala de uma coisa mais firme. Bem-aventurado quer dizer aprovado. Aprovado por Deus.
Quem é aprovado por Deus pode até estar sorrindo. Só que a pergunta das bem-aventuranças não é se eu estou sorrindo, mas se Deus me aprova. Ou seja, elas mostram como a gente encontra a aprovação de Deus. E depois mostram como essa aprovação aparece na vida, na segunda, na terça, na quarta…
O primeiro elo: os pobres em espírito
Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.
(Mt 5:3)
A palavra que Jesus usou pra “pobre” é a mesma do mendigo, de quem não tem nada.
Que que é ser pobre em espírito? É reconhecer que eu não consigo ser aprovado por Deus sozinho. É olhar pro meu pecado e dizer: “eu não tenho o que fazer com isso”. É olhar pra distância entre mim e Deus e dizer: “eu não tenho como atravessar”.
Pobre em espírito é quem descobriu que está falido espiritualmente. Chega diante de Deus de mão vazia, sem nada que mereça perdão e sem nada que pague a salvação.
O Stott lembra de um hino antigo, do século dezoito, que diz mais ou menos assim: “Nada em minhas mãos eu trago, só à tua cruz me agarro. Nu, eu venho pra me vestir. Sem forças, espero a tua graça. Sujo, corro pra fonte. Lava-me, Salvador, ou eu morro.”
Isso é pobreza de espírito. O contrário de se achar autossuficiente. Quem é pobre em espírito descobriu que suficiente mesmo é Cristo.
E repara que Jesus coloca essa em primeiro lugar. De propósito. Esse é o primeiro elo. As outras sete ficam penduradas nele, e o sermão inteiro também.
Todo discípulo de Jesus começa aqui. Todo. Se alguém acha que pode negociar a salvação, que pode dar uma mãozinha pra Deus, que de algum jeito merece… essa pessoa ainda não virou discípula de Jesus. Porque tudo começa com a gente dizendo: “eu estou falido, eu não tenho nada pra oferecer”.
Confesso que tem dia que eu chego pra orar como quem entrega currículo: “olha, Senhor, essa semana eu fui bem”. E aí o primeiro elo me corrige.
A promessa: “deles é o Reino dos céus”. Mateus fala “Reino dos céus” porque, como bom judeu, evita ficar repetindo o nome de Deus. Mas é o mesmo Reino de Deus. O governo de Deus sobre a criação. E o governo de Deus sobre a minha vida. Quando ele reina em mim, aí sim eu sou bem-aventurado.
Os elos que olham pra Deus
Tem um autor que chama as bem-aventuranças de corrente de ouro. Cada uma engatada na de trás, puxando dela. Depois do primeiro elo, Jesus começa a mostrar o que sai de um coração pobre em espírito.
Os que choram
Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.
(Mt 5:4)
Deixa eu tirar uma confusão logo de cara. Choro não salva ninguém. Você pode chorar o quanto quiser pelos seus pecados e continuar do lado de fora do Reino. E só reconhecer o pecado também não coloca ninguém pra dentro.
Só que quem entende que está falido não fica só no “é, eu sou pecador”. Isso mexe com a pessoa. Vira choro. A confissão vira contrição: tristeza de verdade pelo pecado, daquela que faz a gente mudar de direção. É o “arrependam-se” que Jesus pregou quando saiu do deserto. Tem gente que confessa e segue a vida igualzinho: “é, eu sei que eu erro, todo mundo erra”. Isso é confissão sem contrição.
Tiago fala disso de um jeito duro. Ele manda o pecador limpar as mãos e purificar o coração, e diz: “Troquem o riso por lamento e a alegria por tristeza.” (Tg 4:9) Esse é o choro bíblico.
E esse choro não para no meu pecado. A gente chora também pela dor do mundo. Pela morte, pela injustiça, pela doença. Porque o Reino já chegou, mas ainda não chegou por inteiro.
E a promessa? “Serão consolados.” Ou seja, esse vazio tem fim. O que está quebrado pode ficar inteiro. Você não precisa morar no choro.
Só que ninguém chega lá com pregação de autoajuda, dessas que querem que você se sinta bem consigo mesmo quando a vida está uma bagunça. Quem leva a gente pelo choro até o consolo é Deus. E talvez, se a gente ainda não foi consolado por inteiro, seja porque a gente ainda não chorou por inteiro.
Lembra de Paulo em Romanos 7? Ele está falando do pecado que continua aparecendo na vida dele. O bem que ele quer fazer, ele não faz. O mal que ele não quer, esse ele faz. E chega uma hora que parece que ele põe a mão na cabeça: “Miserável homem eu que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?” (Rm 7:24) Isso é chorar. E ele mesmo responde: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7:25) Isso é ser consolado.
O consolo completo fica pro ainda não. Mas Jesus promete consolo já, aqui. Pra quem está atravessando o quebrantamento, tem inteireza do outro lado.
Os humildes
Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança.
(Mt 5:5)
O mundo diz: feliz de quem se impõe. Jesus diz: bem-aventurado o humilde.
Pensa comigo, minha gente. Quem se reconhece falido a ponto de chorar vai ser orgulhoso? Não vai. Mas também não vai ser capacho.
A NVI traduz “humildes”, e muita Bíblia traduz “mansos”. A palavra junta as duas coisas: força sob controle. Quem é humilde assim tem força, só que ela está debaixo do controle de Deus. E tem uma noção certa de quem é, por isso não precisa ficar se impondo. O Stott descreve essa pessoa como alguém que vive espantado de Deus e as pessoas pensarem tão bem dele e tratarem ele tão bem.
O humilde olha pra alguém caído no pecado e pensa, “se não fosse a graça de Deus, esse seria eu”. O orgulhoso olha pro mesmo pecador e diz, “obrigado, Senhor, porque eu não sou como esse aí”.
A promessa: “receberão a terra por herança”. Exatamente o contrário do que a gente espera, né? A gente acha que o humilde não chega a lugar nenhum. Jesus diz que é ele que recebe a terra por herança.
O manifesto do Rei vai na contramão o tempo todo. Os primeiros vão ser os últimos. O maior vai ser o menor. Quem quer ser grande serve. Não à toa, o livro do Stott se chamava, no original, “Contracultura cristã”.
Os que têm fome e sede de justiça
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.
(Mt 5:6)
Na nossa língua, “justiça” lembra tribunal, lembra justiça social. Aqui, justiça quer dizer ser justo diante de Deus.
O humilde olha pra si mesmo e vê que não tem justiça própria nenhuma. Então ele não sai dizendo: “vou fazer isso, vou fazer aquilo, e Deus vai ter que me aceitar”. Ele tem fome da justiça que só Deus pode dar.
E a promessa: “serão satisfeitos”. O salmo diz que Deus mata a sede de quem tem sede e enche de coisa boa quem tem fome (Sl 107:9). E Jesus diz: “Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede.” (Jo 6:35)
Aí vem a pergunta que dói. Se Jesus não é a sua maior alegria, se você tem fome e continua com fome, se tem sede e continua com sede… talvez seja porque a gente anda beliscando a justiça de Deus, bebericando, em vez de desejá-la de verdade.
O Salmo 42 começa assim: “Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti, ó Deus.” (Sl 42:1) Imagina uma corça sendo caçada. Correndo no meio do mato, sem parar. Chega uma hora que ela está quase morrendo de sede. Mesmo com o caçador atrás, ela precisa parar e beber. É dessa fome e dessa sede que Jesus está falando.
Mais pra frente, no mesmo sermão, Jesus volta nessa palavra: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas.” (Mt 6:33) Ter fome e sede de justiça é isso: buscar primeiro.
A gente canta no domingo que não existe nada maior do que conhecer Jesus. Será que a gente acredita nisso? Ou será que a gente está beliscando?
E repara numa coisa, pessoal. Quando você junta a primeira bem-aventurança com a quarta, você tem o evangelho inteiro. Primeiro, admitir: eu sou pecador, meu pecado me separou de Deus, e eu não tenho nada na mão. Depois, crer: a morte de Jesus na cruz pagou o preço do meu pecado, e a justiça dele pode ser minha, de graça.
Se você está aqui hoje e ainda não é discípulo de Jesus, essa primeira frase precisa te colocar de joelhos. Você vai ter que parar de dizer, “eu faço isso e Deus me deixa entrar no céu”. Vai ter que parar de dizer, “eu não sou tão ruim quanto fulano”. Pobre em espírito, com fome da justiça que vem da cruz. Esse é o evangelho.
Os elos que olham pro outro
Até aqui, Jesus falou de como o cidadão do Reino se relaciona com Deus. Agora ele vira pro lado.
Se você entendeu que está falido, se isso te levou a chorar, se você tem fome da justiça de Cristo e não da sua… como é que você vai tratar as pessoas?
Os misericordiosos
Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia.
(Mt 5:7)
Misericórdia quer dizer compaixão com quem está precisando. Se eu entendi a minha falência, como é que eu não vou ter compaixão do outro? E quando a gente dá misericórdia, ela volta. De Deus e das pessoas.
Agora, se eu trato as pessoas com arrogância, com raiva… Talvez eu ainda não tenha entendido nem a minha pobreza nem a justiça de Deus.
Os puros de coração
Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus.
(Mt 5:8)
Sabe gasolina batizada? Tem cor, cheiro e preço de gasolina. Só que tem mistura. E o carro sente.
Puro, aqui, quer dizer sem mistura. Inteiro. O contrário de hipocrisia, de ter duas caras. Puro de coração é o discípulo que é fiel ao Rei por inteiro. Que não dá um pedaço do tempo pro mundo e outro pedaço pra Deus.
Jesus fala disso logo no capítulo seguinte: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro.” (Mt 6:24) E a gente tenta, né? Um pedaço do coração pra Deus, um pedaço guardado pra mim.
Só que repara. Não tem promessa de ver a Deus pra discípulo de meio período nem de fim de semana. A promessa é pros puros de coração. Eles verão a Deus.
Os pacificadores
Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus.
(Mt 5:9)
Quem é misericordioso, quem é puro de coração, não vai sair procurando briga. Vai parecer com o Rei. Deus é Deus de paz. E os filhos dele fazem paz.
Isso não quer dizer paz a qualquer preço. Tem coisa que a gente não pode negociar: o pecado, a verdade do evangelho, o jeito que Deus chamou a gente pra viver. Paulo diz: “Façam todo o possível para viver em paz com todos.” (Rm 12:18) Todo o possível, da minha parte. Só que, por mais que a gente tente, vai ter hora que a paz não vem. E é disso que fala o último elo.
Os perseguidos
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus.
(Mt 5:10)
Agora repara na promessa. É a mesma do primeiro elo: “deles é o Reino dos céus”. A lista começa e termina no Reino. Tudo o que está no meio é a vida de quem vive debaixo do governo de Deus.
Jesus sabe que isso é difícil de engolir. Por isso, logo depois da nossa leitura, ele explica: bem-aventurados vocês quando, por causa dele, insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês (Mt 5:11). Por causa dele. Ou seja, a promessa é pra quem é perseguido por ser discípulo de Jesus de coração inteiro, e não pra quem é perseguido porque é chato.
Em João 15, Jesus diz que, se o mundo odeia a gente, é porque odiou ele primeiro. Se a gente fosse do mundo, seria amada. Só que Jesus escolheu a gente e tirou a gente de lá. “Se me perseguiram, também perseguirão vocês.” (Jo 15:20)
E o que a gente faz quando é perseguido? Jesus diz: “Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus.” (Mt 5:12) O Stott diz que, perseguido, o cristão não revida como quem não conhece Deus, não fica emburrado como criança nem lambe a ferida com pena de si mesmo; não trinca os dentes pra aguentar nem finge que está gostando. Ele se alegra.
Por quê? Porque a recompensa no céu é grande: a gente pode perder tudo aqui e herdar tudo lá. Porque a perseguição é sinal de que a fé é de verdade. E principalmente porque é “por minha causa”, como Jesus disse.
Os apóstolos aprenderam isso. Apanharam, foram ameaçados pelo Sinédrio e saíram de lá alegres por terem sido considerados dignos de sofrer afronta pelo nome de Jesus (At 5:41). O Stott chega a chamar essas feridas de medalhas de honra.
Tomara que a nossa igreja fique conhecida assim. Não por ter um louvor bonito, nem porque “lá a Bíblia é pregada”, mas por ser gente que se sabe falida diante de Deus. Gente que chora pelo próprio pecado e pela dor do mundo, que é humilde por saber quem é em Cristo e que tem fome e sede da justiça dele. E que, por isso, vive na contramão, como peregrinos, a ponto de ser perseguida.
Conclusão
Isso parece difícil demais pra fazer sozinho? E é. Impossível, na verdade. É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que alguém salvar a si mesmo. Por isso Jesus disse a Nicodemos: “Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo.” (Jo 3:3)
A gente só enxerga a própria pobreza quando Deus trabalha no coração da gente. É o Espírito que faz a gente admitir o pecado, que atrai a gente pra perto de Deus e ajuda a gente a crer que a morte de Jesus pagou o preço. É ele que dá força pra gente buscar a justiça de Deus. E é o mesmo Espírito que chama a gente pra viver na contramão, como filhos e filhas do Rei.
Lembra da correntinha? Dá pra tentar ser misericordioso, ser pacificador, aguentar perseguição… Mas sem o primeiro elo, a corrente não para no pescoço de ninguém. Vai tudo pro chão. E esse primeiro elo quem fecha é Deus, quando a gente chega de mão vazia.
Onde começa o choro que consola, a fome que é satisfeita, a misericórdia e a coragem de ser perseguido? No primeiro elo. Onde começa o Reino? No primeiro elo.
De mão vazia diante de Deus. De mão aberta diante do outro.
Versículo para memorizar
Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas.
(Mt 6:33)
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