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Sermões52 Histórias da Bíblia10 de 27

Levítico 1a santidade de Deus e o holocausto

A santidade de Deus

Diego Gonçalves10 min de leitura1.940 palavras

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Neste texto

Texto-base: Lv 1:1-4

Quando a visita avisa que vem, a casa inteira muda de ritmo. A gente passa pano no chão, troca a toalha do banheiro, tira a pilha de roupa do sofá. E sempre sobra um canto onde a bagunça não cabe. Aí a gente empurra a louça suja pra dentro do forno e fecha a porta, torcendo pra ninguém abrir.

Com a visita comum, funciona. Com Deus, não dá pra esconder louça no forno.

É esse choque que a gente encontra logo na primeira página de Levítico. E eu sei que muita gente, só de ouvir o nome, já sente vontade de pular. Ele tem fama de livro de regra estranha, de sangue, de animal, de coisa que “não tem mais nada a ver comigo”. Só que Jesus citou Lv 19:18 (“Ame o seu próximo como a si mesmo”) como um dos dois maiores mandamentos (Mt 22:37-40), e o Novo Testamento volta a esse livro o tempo todo para explicar quem Jesus é e o que ele fez. Quem deixa Levítico de lado perde as palavras que os primeiros cristãos usavam para falar da cruz.

Vamos ler o começo:

Da tenda do encontro, o SENHOR chamou Moisés, falou com ele e lhe ordenou:

— Diga o seguinte aos israelitas: “Quando alguém dentre vocês trouxer uma oferta ao SENHOR, escolha um animal dos rebanhos de gado bovino, ovino ou caprino.

“Se o holocausto for de gado, oferecerá um macho sem defeito. Ele o apresentará à entrada da tenda do encontro para que seja aceito diante do SENHOR. Ele porá a mão sobre a cabeça do animal para o holocausto, e este será aceito para fazer expiação por ele.

(Lv 1:1-4, NVI)

Onde estamos na história

Para entender de onde vem esse texto, a gente precisa lembrar do que veio antes. Israel saiu do Egito, atravessou o mar Vermelho e chegou ao Sinai. Ali Deus fez aliança com o povo (Êx 19-24), deu os Dez Mandamentos e mandou construir um tabernáculo, uma tenda onde ele habitaria no meio do acampamento (Êx 25:8). O livro de Êxodo termina com uma cena impressionante: a nuvem da glória cobre a tenda, e Moisés não consegue entrar (Êx 40:34-35).

Pensa na situação. O Deus que criou o universo agora mora a poucos metros das barracas das famílias. É o maior privilégio que um povo já recebeu. Mas surge uma pergunta que Êxodo deixa sem resposta: como um povo pecador pode viver tão perto de um Deus santo sem ser consumido?

Levítico é a resposta. E repare no jeito como ela começa: “o SENHOR chamou Moisés”. Quem toma a iniciativa é Deus. O povo não inventou um jeito de se aproximar. Deus falou primeiro e disse como seria possível chegar até ele.

1. Um Deus que chama, e que é santo

Esse equilíbrio entre proximidade e santidade percorre o livro inteiro. Deus quer morar no meio do povo, e por isso mesmo a vida do povo precisa ser diferente. A palavra “santo” é o fio condutor, e vai ficar famosa na frase que se repete: “Sejam santos, porque eu, o SENHOR, o Deus de vocês, sou santo” (Lv 19:2).

Santo quer dizer separado, diferente de tudo o que existe. Não é só “muito bom”, é de outra categoria. Quando Isaías vê o Senhor no templo, os serafins nem conseguem dizer outra coisa: “Santo, santo, santo” (Is 6:3). E a primeira reação do profeta não foi sentir-se à vontade. Foi exclamar: “Ai de mim!” (Is 6:5).

O próprio Levítico mostra que essa proximidade não é brincadeira. Dois filhos de Arão, Nadabe e Abiú, ofereceram fogo que Deus não havia mandado, e morreram ali mesmo (Lv 10:1-3). Moisés lembrou então que Deus tinha dito que mostraria a sua santidade entre os que se aproximam dele. Ou seja, quem se aproxima de Deus precisa fazer isso do jeito que ele indicou.

E aqui a gente tem que ser honesto. Hoje existe uma tendência de achar que Deus é um conhecido simpático, sempre disponível, que não se importa muito com a nossa bagunça. Só que a Bíblia mostra outra coisa. Deus é bom, é amoroso, mas é santo. E um Deus santo não aceita que a gente esconda a louça suja no forno.

2. O que o holocausto ensinava

O primeiro conjunto de instruções trata do holocausto. Em hebraico, o nome dessa oferta quer dizer “aquilo que sobe”, porque o animal era queimado por inteiro no altar e a fumaça subia. Nas outras ofertas, parte do animal ficava para os sacerdotes ou para quem trazia. Aqui não. Tudo era de Deus.

O texto fala de três tipos de animal: do gado (Lv 1:3-9), do rebanho de ovelhas e cabras (Lv 1:10-13) e das aves (Lv 1:14-17). Esse detalhe é bonito. Deus sabia que as pessoas tinham condições diferentes. Quem não podia trazer um boi trazia uma ovelha, e quem não podia trazer uma ovelha trazia uma ave. Maria e José, anos depois, trouxeram duas pombinhas (Lc 2:22-24), o que mostra que eram pobres. Ninguém era barrado do altar por falta de dinheiro.

Mas todos os três têm o mesmo princípio: o animal precisava ser sem defeito. Não podia ser o bicho doente que já estava quase morrendo. Era o melhor que a pessoa tinha. Adorar a Deus custa alguma coisa.

Depois vem um gesto que parece pequeno e é decisivo: “Ele porá a mão sobre a cabeça do animal” (Lv 1:4). Aquela mão dizia que o bicho estava ali no lugar de quem o trazia. A pessoa não fazia só um ritual; identificava-se com o sacrifício. E o texto acrescenta o resultado: o animal “será aceito para fazer expiação por ele”. Ou seja, a morte dele cobria a culpa de quem o trazia.

Três vezes o capítulo diz que o sacrifício era “aroma agradável ao SENHOR” (Lv 1:9, 13, 17). Não porque Deus gostasse de cheiro de carne queimada, mas porque aquele gesto, de entrega total e de confiança na provisão dele, agradava o coração de Deus.

3. O que isso diz sobre a gente

O que Levítico 1 ensina para quem não vai mais levar um boi ao altar?

Primeiro, que o pecado é sério. Quando você via o sangue, a fumaça e o animal que morria no seu lugar, ninguém precisava te explicar que ele tem preço. Essa lição ficou gravada na memória de Israel por séculos, manhã e tarde (Êx 29:38-42), enquanto os sacerdotes mantinham o fogo do altar sempre aceso (Lv 6:12-13). Hoje, a gente fala de pecado com a leveza de quem comenta o tempo. Levítico recoloca o peso.

Segundo, que adorar é entregar tudo. O holocausto era queimado por inteiro, e é por isso que Paulo usa essa imagem quando escreve aos romanos: “ofereçam os seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12:1). Hoje o altar não pede animal, mas a vida. Não só as horas do domingo, mas a agenda, o dinheiro, o trabalho, o casamento, a boca, tudo. Sei como é fácil chegar com as sobras. Sei como é fácil abrir a porta do forno quando Deus chega. Mas o holocausto pergunta: tem alguma coisa que você está guardando de fora do altar?

4. O substituto que Deus providenciou

Só que há um problema que Levítico não esconde: sacrifício de bicho nenhum resolve o pecado de gente. Dia após dia, ano após ano, o sangue de touros e bodes corria sem parar. O autor de Hebreus vai direto ao ponto: “é impossível que o sangue de touros e bodes tire pecados” (Hb 10:4). Aqueles sacrifícios apontavam para algo maior.

Imagina um israelita naquela época. Ele cresceu ouvindo o balido dos animais, sentindo o cheiro de fumaça, vendo gente trazer ofertas de manhã e de tarde. Ele aprendeu a entender o que é cordeiro, o que é sacrifício, o que é substituto. Então, um dia, aparece João Batista, aponta para um homem de Nazaré e diz: “Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1:29).

Quem conhecia Levítico entendeu imediatamente o que João queria dizer.

Jesus é o cordeiro que não tinha defeito. Pedro escreve que fomos resgatados “pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito” (1Pe 1:18-19). Ele é o holocausto que se entregou por inteiro. E Paulo usa de propósito a linguagem de Levítico 1 quando diz:

“Vivam em amor, como também Cristo nos amou e se entregou por nós como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus.”

(Ef 5:2, NVI)

O autor de Hebreus explica que, em Cristo, o sacrifício foi oferecido uma só vez, e isso basta (Hb 10:10-14). Não é preciso trazer outro cordeiro. Mas o gesto de Lv 1:4 continua cheio de sentido: quando a gente confia na cruz, é como se pusesse a mão sobre a cabeça do Cordeiro e dissesse: “Ele está aqui no meu lugar.” A minha culpa foi parar nele, e o aroma agradável dele passou a ser meu diante do Pai.

5. Perdoados para sermos santos

Seria um erro parar por aqui, como se Levítico só falasse de perdão. O livro insiste em outra coisa: o povo perdoado precisa viver como povo de Deus. “Sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 11:44). E Pedro retoma exatamente essa frase para os cristãos: “assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem” (1Pe 1:15-16).

Ou seja, o sangue do Cordeiro não nos dá licença para continuar do jeito que estávamos. Ele nos abre a porta para uma vida nova, em que o Espírito de Deus vai nos mudando de dentro pra fora, no dia a dia. A graça que perdoa é a mesma que transforma. Quem entende que o Cordeiro foi imolado em seu lugar não quer mais guardar louça suja no forno. Quer abrir a casa inteira.

E aqui está a promessa mais bonita de todo o livro: “Eu serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo” (Lv 26:12). O Deus santo quer morar com gente. E ele mesmo providenciou o jeito.

Conclusão

Voltemos à visita que vai chegar. Quando a gente não consegue arrumar a casa a tempo, o jeito é esconder a bagunça. Com Deus, não precisa. Ele já sabe o que está no forno. E, em vez de exigir que a gente limpe tudo sozinho antes de entrar, ele mandou o Cordeiro.

O Cordeiro limpa, cobre e nos apresenta ao Pai como filhos, e não como visitas com medo de sujar o tapete.

Tomara que a gente nunca mais leia Levítico como um livro estranho, e comece a ler como o livro que ensinou o povo de Deus a entender a cruz. E tomara que cada vez que a gente pensar na santidade de Deus não sinta só medo, mas também gratidão por ele mesmo ter providenciado o caminho.

Oração: Pai santo, a gente reconhece que não consegue se aproximar de ti por esforço próprio. Obrigado por teres tomado a iniciativa, falado primeiro e providenciado o Cordeiro. Perdoa-nos quando guardamos coisas do lado de fora do altar. Faz de nós um povo inteiramente teu, que ama a tua santidade e descansa na obra de Jesus. Em nome dele, amém.

Perguntas para reflexão

  1. O que mais chama a sua atenção na ideia de que Deus tomou a iniciativa de ensinar o povo como se aproximar dele?
  2. Em que áreas da sua vida você costuma “esconder a louça suja no forno” diante de Deus?
  3. O holocausto era queimado por inteiro. O que significa, na prática, oferecer a vida inteira a Deus hoje?
  4. Por que o autor de Hebreus diz que o sangue de touros e bodes não tira pecados? O que isso muda na forma como lemos Levítico?
  5. Como a frase “Sejam santos, porque eu sou santo” se une à ideia de perdão e graça no seu dia a dia?