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Sermões52 Histórias da Bíblia19 de 27

Isaías 6a santidade de Deus e a visão do trono

Isaías: santidade ao Senhor

Diego Gonçalves19 min de leitura3.831 palavras

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Neste texto

Texto-base: Is 6:1-8

Hoje estudaremos o profeta Isaías e sua doutrina sobre a santidade de Deus. Na próxima semana, veremos Isaías 52, 53 e 54, abordando as doutrinas da salvação, da restauração e do Servo Sofredor.

Contexto de Isaías

Cerca de cem anos depois da época de Elias, a situação espiritual de Israel continuava piorando.

O Reino do Norte teve uma sucessão de reis perversos, talvez com exceção de Jeú. Finalmente, esse reino foi conquistado pela Assíria. Os assírios desceram do norte, conquistaram Babilônia e Samaria, nome pelo qual Israel passou a ser conhecido, em 721 a.C.

Se você quiser ler esse relato, ele está em 2 Reis 17. O autor deixa absolutamente claro que os assírios conquistaram o povo de Deus porque Israel se tornara idólatra. O povo tinha quebrado a aliança, e a paciência divina chegara ao limite. Deus não é apenas o Deus da aliança; Ele também é o Deus que julga o pecado.

Os israelitas foram deportados, e a maioria foi reassentada em outras regiões. Ao mesmo tempo, estrangeiros foram trazidos para habitar a terra de Israel. Assim, o sincretismo religioso passou a dominar completamente a região. Por exemplo, 2Rs 17:33 afirma:

“Temiam ao Senhor, mas também serviam aos seus próprios deuses, segundo o costume das nações de onde haviam sido trazidos.”

(2Rs 17:33)

Esses povos estrangeiros chegaram trazendo seus próprios deuses e aceitaram o Senhor (Yahweh) apenas como mais um entre muitos deuses. Essa mistura de povos e religiões deu origem ao grupo que, no Novo Testamento, ficou conhecido como os samaritanos. É justamente daí que surgiu a profunda hostilidade entre judeus e samaritanos.

O Reino do Sul, Judá, não teve um destino muito melhor. Ali houve uma alternância entre bons e maus reis, mas a história acaba se concentrando em quatro deles.

O primeiro foi Azarias, também chamado Uzias, seguido por Jotão. Ambos foram bons reis na maior parte do tempo, mas cometeram um erro importante: se tornaram orgulhosos e não destruíram todos os altares pagãos. Esse é um tema recorrente em toda essa narrativa. Embora fossem considerados bons reis, permitiram que o sincretismo religioso continuasse. Não eliminaram os lugares altos, onde o povo misturava a adoração ao Senhor com cultos pagãos.

Depois deles veio Acaz, um rei perverso que, entre outras atrocidades, chegou a sacrificar o próprio filho. Em seguida surgiu Ezequias, um dos maiores reis de Judá. Ele destruiu os lugares altos e confiou verdadeiramente no Senhor.

Esses quatro reis, Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, governaram aproximadamente entre 792 e 686 a.C. Foi nesse período que exerceram seu ministério os profetas Amós, Oséias, Miqueias e Isaías.

Ao que tudo indica, Isaías pertencia a uma família aristocrática. Era um homem extremamente instruído. Seu vocabulário é extraordinariamente rico, chegando dar muito trabalho para os estudiosos e tradutores. Eles dizem que Isaías é provavelmente o livro mais difícil do Antigo Testamento para traduzir devido ao seu vocabulário. Ao mesmo tempo, é um dos mais citados no Novo Testamento.

Ele é dominado por temas como:

  • a santidade de Deus;
  • o julgamento divino;
  • a redenção.

Além disso, apresenta a descrição mais clara de Cristo e do que significa segui-Lo em todo o Antigo Testamento.

A visão da sala do trono de Deus

Isaías 6 talvez seja o capítulo mais conhecido e poderoso de todo o livro. Nele, Isaías recebe uma visão da sala do trono celestial e lhe é permitido contemplar o próprio Deus. Ele escreve:

“No ano da morte do rei Uzias (740 a.C.), eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e a aba de suas vestes enchia o templo.”

(Is 6:1)

Essa é uma imagem de autoridade absoluta, de poder supremo, de majestade incomparável. E, francamente, trata-se de uma cena que ultrapassa a capacidade das palavras. As palavras simplesmente não conseguem descrever aquilo que, por natureza, é indescritível.

Observe que Isaías praticamente não tenta explicar o que viu. Ele apenas relata: “Foi isso que eu vi.” E, de certa forma, parece dizer: “Daqui em diante, as palavras já não conseguem ir.”

Essa passagem me lembra imediatamente Êxodo 19, quando Deus estava prestes a descer sobre o monte Sinai para entregar os Dez Mandamentos. Em Êx 19:16, Moisés escreve:

“Ao amanhecer do terceiro dia houve trovões, relâmpagos, uma espessa nuvem sobre o monte e um fortíssimo som de trombeta. Todo o povo que estava no acampamento tremeu.

Então Moisés conduziu o povo para fora do acampamento a fim de encontrar-se com Deus, e eles permaneceram ao pé do monte.

O monte Sinai estava coberto de fumaça, porque o Senhor havia descido sobre ele em fogo.

A fumaça subia como a fumaça de uma grande fornalha, e todo o monte tremia intensamente.

À medida que o som da trombeta aumentava cada vez mais, Moisés falava, e Deus lhe respondia por meio do trovão.

Então o Senhor desceu sobre o monte Sinai, no topo do monte.”

(Êx 19:16-20)

O Deus da glória

Mais uma vez encontramos um retrato semelhante da glória e do poder de Deus. E, novamente, as palavras falham. Tudo o que Isaías consegue fazer é dizer: “Foi isso que eu vi.” Confesso que fiquei frustrado tentando encontrar palavras capazes de descrever aquilo que é, por definição, indescritível. Por fim, desisti.

Isaías continua tentando descrever aquilo que viu:

“Serafins estavam por cima dele. Cada um tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas cobriam os pés e com duas voavam. E clamavam uns aos outros, dizendo: ‘Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.’

Ao som das suas vozes, os umbrais das portas tremeram, e o templo ficou cheio de fumaça.”

(Is 6:2-4)

Esses serafins de seis asas não aparecem em nenhum outro lugar das Escrituras. Talvez os seres mais semelhantes a eles sejam os quatro seres viventes descritos em Apocalipse 4, que exercem uma função parecida e proclamam a mesma verdade sobre Deus. A palavra “serafim” significa literalmente “os ardentes” ou “os que queimam”. A ideia é que estejam associados ao fogo: são resplandecentes, poderosos e gloriosos.

Eles permanecem diante da presença imediata de Deus. Voam ao redor do Seu trono. Sua própria existência comunica majestade. E, ainda assim, por mais extraordinários que sejam, nem eles conseguem contemplar plenamente a glória de Deus. Em reverência, cobrem os próprios pés com duas asas. Em humildade, cobrem também o rosto com outras duas. Mesmo seres tão gloriosos reconhecem que a santidade de Deus ultrapassa toda criatura.

Mas veja bem, são tão poderosos que, quando falam, os próprios fundamentos do templo estremecem. Contudo, toda essa força serve apenas para destacar uma realidade ainda maior: Deus é infinitamente mais glorioso do que eles. Eles proclamam continuamente:

“Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos.”

(Is 6:3)

Observe que eles não dizem apenas: “Deus é santo.” Nem mesmo: “Deus é muito santo.” A repetição tripla é uma forma hebraica de expressar intensidade máxima. É como se toda a linguagem humana fosse insuficiente e, por isso, recorresse à repetição para tentar comunicar algo impossível de medir. As palavras alcançam seu limite.

“Santo.” “Santo.” “Santo.”

É uma tentativa, ainda que limitada, de transmitir a plenitude da majestade, da beleza, da perfeição e do poder de Deus. Nós, olhando para essa passagem à luz de toda a revelação bíblica, também reconhecemos nessa repetição um eco da Trindade.

Agora, o que significa dizer que Deus é santo? “Santidade” é uma das palavras mais difíceis da Bíblia para definir. Seu significado básico é ser separado para o uso exclusivo de Deus. Quando a Bíblia fala de pessoas, objetos ou até partes do nosso corpo como sendo santos, ela quer dizer duas coisas. Negativamente, foram separados do pecado; positivamente, foram totalmente dedicados ao serviço de Deus.

É relativamente fácil entender isso quando a palavra é aplicada às pessoas. Mas e quando a Bíblia afirma: “Deus é santo”? Como explicar isso? Em certo sentido, significa que Deus está completamente separado de tudo aquilo que é pecado. Mas há um aspecto ainda mais profundo. A santidade de Deus significa que Ele é totalmente dedicado à Sua própria glória.

Tal afirmação pode parecer estranha à primeira vista. Nós jamais poderíamos dizer isso de nós mesmos, porque não somos dignos desse tipo de devoção. Mas Deus é. Não existe ninguém acima dEle, nada maior, mais belo, mais excelente, mais poderoso ou mais digno de adoração. Portanto, Deus age para a Sua própria glória porque não existe bem maior do que Ele mesmo.

Tudo o que é perfeito encontra sua fonte nEle: toda beleza, verdade e bondade, toda justiça e sabedoria. Ele é absolutamente perfeito em todos os Seus atributos.

Há um sermão de John Piper sobre essa passagem. Pensei: “Se alguém consegue encontrar palavras para explicar isso, certamente é John Piper.” Mas até ele reconhece que chegou ao limite. Ele escreve:

“As possibilidades da linguagem para comunicar o significado de Deus acabam se esgotando e transbordam para além dos limites do mundo conhecido, entrando no vasto desconhecido.

A santidade nos conduz até essa fronteira. Dali em diante, a experiência de Deus está além das palavras. No fim, a linguagem se esgota. Na palavra ‘santo’, chegamos ao fim do mundo conhecido e permanecemos em absoluto silêncio, tomados de reverência, admiração e temor.”

Em seguida, Piper cita Hc 2:20:

“O Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra.”

(Hc 2:20)

Há momentos em que o silêncio expressa mais do que qualquer discurso.

Os serafins não dizem apenas que Deus é santo. Eles também proclamam:

“Toda a terra está cheia da sua glória.”

(Is 6:3)

A palavra “glória” talvez seja mais fácil de compreender do que “santidade”, mas ambas representam dois lados da mesma realidade. A glória é a manifestação visível da santidade de Deus. Sempre que a Bíblia descreve pessoas tendo um vislumbre do Deus santo, o que elas percebem aparece como luz intensa, como fogo, como relâmpagos e trovões, como uma presença que faz toda a criação tremer.

Podemos dizer assim: a santidade é a glória em sua essência invisível. Quando Deus a torna perceptível às criaturas, nós a chamamos de glória.

Os serafins afirmam que toda a terra está cheia dessa glória. Não apenas alguns lugares. Não apenas Israel. Não apenas o templo. Toda a criação anuncia continuamente quem é o seu Criador. Cada canto do universo proclama que Deus é santo e glorioso.

Pense nos milhares de informações genéticas armazenadas na dupla hélice do DNA presente em cada célula do seu corpo. Pense nos inúmeros peixes das profundezas do oceano, muitos dos quais provavelmente jamais veremos, e que carregam sua própria luz. E nas incontáveis espécies de flores, cada uma diferente da outra, exibindo uma diversidade impressionante de formas, cores e perfumes. Toda essa variedade revela um Criador generoso, um Deus que não cria apenas o necessário, mas cria com abundância, beleza e criatividade. Onde quer que olhemos, encontramos evidências da Sua glória.

Se ao menos tivéssemos olhos de fé para enxergar e ouvidos de fé para ouvir… Quando contemplamos a imponência das montanhas, escutamos os inúmeros cantos dos pássaros ou observamos a riqueza da criação, tudo isso deveria nos conduzir à adoração. Toda a terra está cheia da glória de Deus.

Agora, tudo isso nos leva a perguntar: quão grande é o seu Deus? Essa é a pergunta que Isaías nos faz. Quão grande é o seu Deus?

Se realmente compreendêssemos o que Isaías viu, dificilmente pensaríamos em Deus de maneira pequena. Mas frequentemente fazemos exatamente isso, por causa do pecado, das limitações da nossa natureza e da nossa falta de visão espiritual. Deus vai parecendo menor: menos poderoso, menos presente e até irrelevante. Começamos a agir como se Ele tivesse dificuldade para salvar, não se envolvesse na nossa vida diária e só fosse importante aos domingos, e mesmo assim quando não temos outros compromissos. Entregamos nossa alma, mas não nossa vida, como se as duas coisas pudessem ser separadas.

Mas o Deus de Isaías 6 é o Deus da criação, que trouxe toda a realidade à existência simplesmente falando. É o mesmo Yahweh que enviou o dilúvio e cobriu os mais altos montes com água, que libertou Israel do Egito, abriu o mar Vermelho e ressuscita os mortos, e que, um dia, destruirá este mundo e criará novos céus e nova terra. É diante dEle que os serafins proclamam:

“Santo, santo, santo.”

(Is 6:3)

E apenas suas vozes fazem os fundamentos do templo tremerem.

Mais uma vez, a pergunta permanece: quão grande é o seu Deus? E será que Ele realmente ocupa, na sua vida, o lugar de um Deus de glória?

O Deus do juízo

Bem, pessoal, até aqui vimos Isaías contemplando a glória de Deus. Mas essa visão não produz apenas admiração. Ela provoca uma reação muito mais profunda. Deus não é apenas o Deus da glória e da santidade. Ele também é o Deus do juízo.

Observe como Isaías reage em Is 6:5:

“Ai de mim! Estou perdido! Porque sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de lábios impuros; e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos.”

(Is 6:5)

Confesso que sinto dificuldade ao falar sobre esse texto. As palavras simplesmente não conseguem expressar tudo o que essa passagem comunica. Minha oração é que Deus esteja operando em nosso coração enquanto refletimos sobre ela. Posso continuar falando, mas minhas palavras jamais serão suficientes para descrever quem Deus é. Somente o Espírito Santo pode fazer essa verdade penetrar em nosso coração. Por isso, enquanto você me ouve, peço que também escute a voz dEle.

Volte ao texto e veja: o que acontece quando Isaías contempla Deus? Algo muito interessante. Sua atenção não se volta para as falhas das outras pessoas. Ele não começa a pensar nos pecados da nação nem faz comparações. Ele olha para si mesmo. A luz da glória de Deus ilumina imediatamente sua própria condição espiritual.

É como acender uma luz fortíssima em um ambiente escuro. De repente, toda a sujeira aparece. Da mesma forma, quando contemplamos a santidade de Deus, passamos a enxergar nosso pecado com clareza. Enquanto Deus permanece distante apenas em nossas ideias, o pecado parece pequeno. Mas quando Deus se torna real diante de nós, ele revela toda a sua gravidade. Por isso, quem o trata como algo sem importância demonstra que ainda não conhece verdadeiramente a Deus. É impossível contemplar o Senhor exaltado em Seu trono e concluir que o mal é inofensivo.

Isaías compreendeu isso imediatamente. Essa resposta não é exclusiva de Isaías. Ela aparece repetidamente nas Escrituras.

Quando Deus desceu sobre o monte Sinai, o povo de Israel ficou aterrorizado. Depois que Moisés recebeu os Dez Mandamentos, Êx 20:18-19 relata:

“Todo o povo presenciava os trovões, os relâmpagos, o som da trombeta e o monte fumegando. Diante disso, tremeram de medo e ficaram à distância.

Então disseram a Moisés: ‘Fale você conosco, e ouviremos. Mas que Deus não fale diretamente conosco, para que não morramos.’”

(Êx 20:18-19)

Eles compreenderam que estavam diante do Deus santo. Sabiam que não podiam tratá-Lo com leviandade.

Agora, há um detalhe muito interessante. Existem diferentes teorias sobre a localização do monte Sinai. Uma delas afirma que há uma região onde o granito parece ter sido derretido por um calor extraordinário. Independentemente da localização exata, a mensagem permanece a mesma: a presença de Deus é absolutamente impressionante.

Mais tarde, Moisés pediu algo extraordinário: “Mostra-me a tua glória” (Êx 33:18). Deus respondeu colocando-o na fenda de uma rocha. Quando Sua glória passou diante dele, Deus disse: “Você verá apenas as minhas costas” (Êx 33:23). Isso aconteceu em Êxodo 33 e 34. E qual foi a reação de Moisés? Ele imediatamente inclinou o rosto até o chão e adorou. Não houve autoconfiança. Não houve orgulho. Apenas reverência.

Quando Ezequiel recebeu sua visão de Deus, lemos em Ez 1:28: “Caí com o rosto em terra.” Essa foi sua resposta.

Depois da ressurreição, o apóstolo Tomé viu Jesus diante dele. Viu as marcas dos cravos em Suas mãos e em Seus pés. Sua reação foi imediata: “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20:28). Esse é o efeito do verdadeiro encontro com Deus.

Será que realmente queremos ver Deus?

Às vezes cantamos: “Eu vejo o Senhor, alto e sublime…” Mas será que realmente desejamos isso? Provavelmente nunca veremos Deus nesta vida da mesma forma que Isaías O viu. Jesus afirma que ninguém jamais contemplou plenamente o Pai. Ainda assim, a pergunta permanece. Se realmente víssemos Deus exaltado em toda a Sua glória, qual seria nossa reação?

A Bíblia responde. Nós cairíamos com o rosto em terra. Confessaríamos nossos pecados. Reconheceríamos nossa completa indignidade. Diríamos exatamente o que Isaías disse: “Ai de mim! Sou impuro. E vivo no meio de um povo igualmente impuro” (Is 6:5). Essa é a resposta bíblica diante da santidade de Deus.

O Deus de Isaías 6 é o Deus da glória. Mas Ele também é o Deus que julga o pecado. Sua santidade não tolera o mal. E quanto mais nos aproximamos dEle, mais passamos a odiar aquilo que O desagrada. Isso muda completamente nossa maneira de enxergar a vida. O pecado deixa de ser um simples erro. Deixa de ser uma fraqueza aceitável. Passa a ser aquilo que ofende o Deus infinitamente santo.

E é justamente nesse ponto que o evangelho começa a brilhar. Porque, se Isaías termina o versículo 5 dizendo: “Estou perdido…”, a história não termina aí. O Deus que revela nossa culpa é o mesmo Deus que oferece perdão. Aquele que expõe nosso pecado também providencia a purificação. É exatamente isso que veremos a seguir.

O Deus da salvação e da restauração

Depois de contemplar a santidade de Deus e reconhecer sua própria culpa, Isaías percebe que não tem esperança em si mesmo. Ele não tenta se justificar. Não promete mudar de vida. Não apresenta boas obras. Ele apenas reconhece sua condição: “Ai de mim! Estou perdido!” É justamente nesse momento que Deus age.

Porque Deus não é apenas o Deus da glória e do juízo. Ele também é o Deus da salvação e da restauração. Na próxima semana veremos esse tema desenvolvido em Isaías 52 e 53, especialmente na profecia do Servo Sofredor. Mas a semente dessa mensagem já aparece aqui, em Is 6:6-8. O texto diz:

“Então um dos serafins voou até mim trazendo na mão uma brasa viva, que havia tirado do altar com uma tenaz. Tocou com ela a minha boca e disse: ‘Veja, isto tocou os seus lábios; a sua culpa foi removida, e o seu pecado foi perdoado.’

Então ouvi a voz do Senhor, que dizia: ‘A quem enviarei? E quem irá por nós?’

Eu respondi: ‘Eis-me aqui. Envia-me!’”

(Is 6:6-8)

Não deixe que o simbolismo dessa passagem passe despercebido. O serafim, um dos “ardentes”, toma uma brasa ardente do altar de Deus e toca os lábios de Isaías. O resultado é imediato: sua culpa é removida; seu pecado é expiado; ele é purificado.

E então acontece algo extraordinário. Depois da purificação, Deus o chama para servi-Lo. Perceba a ordem dos acontecimentos: primeiro vem a graça, depois o chamado; primeiro Deus purifica, depois envia. Nunca o contrário.

Veja só… O próprio Deus, em toda a Sua santidade, majestade, glória e perfeição, providencia o meio pelo qual o pecado pode ser removido. Isaías não faz absolutamente nada. Ele não merece o perdão nem contribui para recebê-lo, e Deus nem sequer pede o seu auxílio. Por mais que se esforçasse, não poderia oferecer qualquer ajuda. Tudo o que o profeta pode fazer é reconhecer sua miséria e depender inteiramente da graça.

O mesmo acontece conosco. Não existe nada que possamos acrescentar à obra de Deus para remover nossa culpa. Não somos capazes de apagar nossos pecados. Não conseguimos produzir justiça suficiente para nos tornar aceitáveis diante dEle. Tudo o que podemos fazer é clamar por misericórdia. Assim como Isaías.

Então, quando Deus purifica Isaías, algo muda completamente em seu coração. Antes, ele dizia: “Ai de mim!” Agora ele diz: “Eis-me aqui. Envia-me” (Is 6:8). Essa é sempre a sequência do evangelho. A graça produz gratidão, a gratidão gera obediência e a obediência se desdobra em serviço. Quem foi alcançado pela misericórdia de Deus deseja viver para Sua glória.

Mas, infelizmente, nem todos respondem dessa maneira. Cerca de setecentos anos depois da visão de Isaías, esse mesmo Deus santo entrou na história humana. Veio ao mundo como um bebê, para trazer juízo e oferecer salvação. Mas o que fizeram com Ele? Cuspiram em Seu rosto, espancaram-no, torturaram-no e o crucificaram. E, ainda assim, Deus O ressuscitou dentre os mortos.

O Jesus que Isaías contemplou em glória é o mesmo Jesus que veio ao mundo em humildade. E será o mesmo Jesus diante de quem todos nós compareceremos um dia. Chegará o dia em que estaremos diante desse mesmo Senhor. Os livros serão abertos. Cada pessoa prestará contas da própria vida.

Por isso faço um convite, a você e a mim mesmo. Precisamos nos preparar para esse dia. Como? Respondendo da mesma maneira que Isaías respondeu: reconhecendo nosso pecado, confessando nossa culpa, recebendo, pela graça, o perdão que Deus oferece e ouvindo Seu chamado. Minha oração é que cada um de nós possa responder: “Eis-me aqui. Envia-me.”

Envia-me como missionário, ao meu vizinho, aos meus colegas de trabalho e à minha família, para onde Tu quiseres. Mas concede-me o privilégio de anunciar Tua majestade, Tua glória e Teu poder. Mesmo que minhas palavras sejam insuficientes, que o Teu Espírito fale através delas. Que estejamos preparados para aquele grande dia. E que, quando ouvirmos a voz do Senhor, respondamos como Isaías respondeu: “Eis-me aqui. Envia-me.”

Amém!

Perguntas para reflexão

  1. Qual foi a principal mensagem desta pregação?
  2. De que maneiras podemos descrever o poder, a autoridade e a majestade de Deus sem recorrer apenas a expressões religiosas já muito familiares?
  3. Como você descreveria a glória e a santidade de Deus sem usar essas próprias palavras? Que imagens ajudam você a compreender essas realidades?
  4. A glória de Deus está presente em toda a criação. Saia para um lugar ao ar livre, nem que seja o seu quintal, e identifique vinte coisas que você vê, ouve, cheira ou toca e que, quando observadas com os olhos da fé, proclamam a glória do Criador. Depois compartilhe essa experiência com um amigo, colega ou familiar.
  5. Quão grande é o seu Deus? Quais tendências pessoais fazem Deus parecer menor para você? A preocupação? A correria? Feridas do passado? O que você pretende fazer a respeito?
  6. Você já teve um momento em que a grandeza de Deus revelou claramente o seu pecado? O que aconteceu? Hoje você continua sensível ao pecado ou essa consciência foi se enfraquecendo com o tempo?
  7. Compartilhe com alguém a história da sua conversão. Seus filhos conhecem esse testemunho? Seus vizinhos? Seus amigos? Você tem agradecido a Deus pelo perdão, pela salvação e pela restauração que recebeu? Sua salvação tem levado você a viver uma vida de serviço ao Rei, independentemente da profissão que exerce?
  8. Como seria sua vida se você dissesse sinceramente a Deus: “Eis-me aqui. Envia-me.” e Ele realmente respondesse a essa oração?