
Sermões52 Histórias da Bíblia20 de 27
Isaías 53o Servo Sofredor que levou o nosso pecado
O Servo Sofredor
Neste texto
Texto-base: Is 52:13-53:12
Imagina a cena. Você junta a papelada toda, respira fundo e vai até o banco tentar renegociar uma dívida que virou bola de neve. Você sabe que não tem como pagar. Ensaiou o que ia falar, ensaiou até a cara de aflito. Aí a atendente digita alguma coisa, olha pra tela e diz: “Esse débito já foi quitado.”
Você pergunta quem pagou. E ela responde: “Alguém assumiu a conta no seu lugar. Pagou tudo, até o último centavo.”
É mais ou menos isso que Isaías anuncia setecentos anos antes de a conta ser paga. E a gente precisa ouvir com calma, porque o texto de hoje é um dos mais profundos da Bíblia inteira.
Uma promessa que atravessa o Antigo Testamento
Existe um fio de promessa que corre pelas Escrituras de ponta a ponta. Ele começa logo no jardim, depois da queda. Deus diz à serpente que um descendente da mulher esmagaria a sua cabeça (Gn 3:15). Ou seja, desde o começo da história do pecado, Deus já avisava que alguém viria para resolver o problema.
Em Isaías, esse alguém ganha um nome: o Servo do Senhor. Ele aparece em quatro poemas (Is 42:1-4; 49:1-6; 50:4-9; 52:13-53:12). No quarto, o mais longo e o mais forte, descobrimos que ele vai sofrer. Por isso muita gente o chama de Servo Sofredor.
Alguns chamam essa passagem de “o evangelho no Antigo Testamento”. O Novo Testamento volta a ela várias vezes para explicar quem Jesus é e o que aconteceu na cruz (Mt 8:17; At 8:32-35; 1Pe 2:24-25). Se você abrir uma Bíblia com referências cruzadas, vai ver quase cada versículo ligado a um acontecimento da vida de Jesus.
O poema tem cinco estrofes. Hoje a gente vai percorrer as cinco, mas vai parar mais tempo no meio, que é o coração do texto.
1. O Servo que ninguém quis olhar (Is 52:13-53:3)
O poema começa pelo fim da história. Antes de falar de sofrimento, Isaías mostra o destino do Servo:
“Vejam, o meu servo agirá com sabedoria; ele será engrandecido, elevado e muitíssimo exaltado. Assim como houve muitos que ficaram pasmados diante dele, pois a sua aparência estava tão desfigurada, que ele se tornou irreconhecível como homem, não parecia um ser humano, assim ele aspergirá muitas nações, e reis calarão a boca por causa dele. Pois aquilo que não lhes foi dito verão, e o que não ouviram compreenderão.”
(Is 52:13-15, NVI)
Repare nos dois movimentos na mesma frase. De um lado, gente horrorizada com o rosto desfigurado. Do outro, nações purificadas e reis sem palavras. O Servo é rebaixado e exaltado, e as duas coisas fazem parte do mesmo plano.
Paulo descreve esse mesmo caminho quando escreve aos filipenses:
“Que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!”
(Fp 2:6-8, NVI)
E logo depois vem a virada: “Por isso Deus o exaltou à mais alta posição” (Fp 2:9). A cruz não foi o fim da história de Jesus, mas o caminho até o trono.
Só que, no capítulo 53, Isaías volta para o ponto de vista de quem estava ali na hora. E o profeta começa com uma pergunta quase desanimada:
“Quem creu em nossa mensagem? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Ele cresceu diante dele como um broto tenro, e como uma raiz saída de uma terra seca. Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada havia em sua aparência para que o desejássemos. Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de dores e experimentado no sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima.”
(Is 53:1-3, NVI)
Pensa em como a gente escolhe líderes. A gente olha currículo, aparência, presença, simpatia. O Servo não tinha nada disso. Ninguém o escolheria. Era um broto numa terra seca, alguém de quem as pessoas escondiam o rosto.
E aqui eu preciso me incluir. Esconder o rosto não é coisa só de quem estava no Calvário. A gente também faz isso. Muda de assunto quando a conversa chega na cruz. Prefere o Jesus que ajuda a gente a ter um dia bom ao Jesus que foi esmagado. A cruz incomoda, e é mais fácil olhar pra outro lado.
Mas é exatamente pra esse Servo que o texto manda a gente olhar. Porque o que vem agora é o centro de tudo.
2. O Servo que carregou o que era nosso (Is 53:4-6)
Quando você ler a próxima estrofe, preste atenção nos pronomes. Eles vão e voltam o tempo todo:
“Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças; contudo nós o consideramos castigado por Deus, por Deus atingido e afligido. Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Todos nós, como ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou para o seu próprio caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós.”
(Is 53:4-6, NVI)
“Ele” levou “nossas” doenças; “ele” foi esmagado por “nossas” iniquidades. O que era nosso foi parar nele. Esse é o jeito de Isaías explicar o que a teologia chama de expiação substitutiva: alguém ocupou o nosso lugar.
Olha só o que o texto diz sobre o nosso erro de leitura: “nós o consideramos castigado por Deus”. Quem viu a cena de longe achou que estava vendo o castigo de um fracassado. Só que aquela conta não era dele. Era nossa.
Paulo diz isso de um jeito quase assustador: “Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” (2Co 5:21). Jesus nunca pecou (Hb 4:15). Mas ele tomou o lugar do pecador e carregou o peso da nossa culpa. E tem um segundo lado nesse versículo que a gente costuma esquecer: o objetivo é que a justiça de Deus apareça na vida da gente. Deus não quer só trocar os papéis no tribunal, mas fazer de gente pecadora gente nova.
Muitos séculos depois, um pregador inglês chamado John Bunyan descreveu na autobiografia Graça Abundante uma noite de angústia por causa dos próprios pecados. Ele conta que, de repente, as palavras de Rm 3:24 (“justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus”) ganharam vida. Foi como se Deus dissesse a ele: “Olha pro meu Filho. É pra ele que eu olho, e não pra você.” Bunyan entendeu que a aceitação dele diante de Deus não dependia do quanto ele conseguia melhorar, mas de quem tinha tomado o lugar dele.
Isaías ainda diz que o castigo que estava sobre ele trouxe paz pra gente. Paz de verdade, daquelas que mudam a nossa situação diante de Deus (Rm 5:1), e que não se resolve com remendo. Quem já tentou consertar um cano estourado com fita adesiva sabe a diferença entre remendar e trocar a peça. A cruz não pôs um curativo na nossa alma. “Pelas suas feridas fomos curados” (1Pe 2:24).
E a gente precisa lembrar que isso foi caro e foi real. Em 1968, arqueólogos encontraram em Jerusalém os restos de um homem crucificado no tempo de Jesus. No osso do calcanhar dele ainda estava um cravo de ferro, com uns onze centímetros. Quando você pensa em “foi transpassado por causa das nossas transgressões”, não está pensando numa figura de linguagem, mas numa dor concreta, que alguém sentiu por você.
Em Mt 27:46, o Servo grita: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Ele está citando o Salmo 22, que começa em lamento, mas termina em confiança. Mesmo no escuro mais fundo, o Filho sabia como a história acabava.
E repare na última palavra da estrofe: “todos”. “Todos nós, como ovelhas, nos desviamos.” Não existe exceção. Seu bom vizinho, seu amigo correto, a pessoa mais moral que você conhece, todos se desviaram (Rm 3:10-12). Só que a solução também vem com a mesma palavra. O Novo Testamento diz que Jesus experimentou a morte em favor de todos (Hb 2:9) e que ele é o sacrifício pelos pecados do mundo inteiro (1Jo 2:2). O problema é universal, e a oferta também. Ninguém nasceu longe demais do alcance da cruz.
3. O Servo que fez a obra até o fim (Is 53:7-12)
As duas últimas estrofes voltam a falar da humilhação e depois da vitória do Servo. E aqui os detalhes ficam impressionantes.
Isaías diz que ele foi levado como um cordeiro ao matadouro e não abriu a boca (Is 53:7). Jesus calou diante dos acusadores (Mt 27:12-14). Fala também que ele seria contado entre os transgressores (Is 53:12), e ele foi crucificado entre dois criminosos (Mt 27:38; Lc 22:37). Anuncia que ele intercederia por eles, e do alto da cruz Jesus pediu: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23:34). Prevê que ele ficaria com os ricos na sepultura (Is 53:9), e Jesus foi sepultado no túmulo novo de José de Arimateia, um homem rico (Mt 27:57-60).
Tem uma cena do livro de Atos que mostra o poder desse texto. Um oficial da Etiópia voltava para casa lendo justamente Isaías 53 e não entendia de quem o profeta estava falando. O evangelista Filipe subiu na carruagem, “começando por essa passagem das Escrituras, anunciou-lhe as boas novas a respeito de Jesus” (At 8:35). Em poucos minutos, aquele homem pediu pra ser batizado.
E o final do poema é de esperança: “Depois do sofrimento de sua alma, ele verá a luz e ficará satisfeito” (Is 53:11). Isaías abre a porta para o que viria depois da cruz. O Servo não ficou na sepultura. Ele terminou o trabalho, e a última palavra dele na cruz foi: “Está consumado” (Jo 19:30). Em outras palavras, a conta foi paga por inteiro.
4. E agora, o que a gente faz com isso?
Isaías é tão claro que dá pra resumir a resposta em três passos.
Em primeiro lugar, reconhecer. Dizer com o próprio nome o que o profeta diz de todos nós: “Eu me desviei. Fui por um caminho que eu mesmo escolhi.” Quem não admite a dívida não consegue receber a quitação.
Em segundo lugar, crer. Confiar que a morte de Jesus na cruz pagou o que eu devia. Não adianta tentar completar o pagamento com esforço, com tradição, com boas intenções. A salvação é pela graça, mediante a fé, e é dom de Deus (Ef 2:8-9). Ele carregou a iniquidade, e a minha parte é confiar nele.
Em terceiro lugar, seguir. Jesus não só perdoa; ele convida a andar com ele. “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lc 9:23). E Paulo explica que Cristo se entregou por nós para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que seja dele (Tt 2:14). Ou seja, o perdão é a porta de entrada de uma vida transformada, e não um ponto final.
Se você está com a sensação de que o seu passado é grande demais, ou de que você já falhou demais no mesmo pecado, escuta isso: a cruz não tem lista de exceções. Não existe pecado que te coloque fora do alcance do Servo. E não existe outro caminho. Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (Jo 14:6). E Pedro afirma que “debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4:12). Há um só Servo, e só ele carregou esse peso.
Conclusão
Volta pra cena do banco. A pessoa chega aflita, achando que vai ter que se explicar, e descobre que a dívida já foi paga. A reação mais natural é perguntar: “Quem fez isso por mim? E por quê?”
Isaías responde com setecentos anos de antecedência: foi o Servo. Ele nos viu desviados, cada um no seu caminho, e pôs sobre si a conta de todos nós. Fez isso por amor e fez até o fim.
Tomara que a gente nunca mais olhe pra cruz como quem vira o rosto. Tomara que a gente olhe como quem recebe um recibo com o próprio nome, escrito com o sangue de outra pessoa.
Oração: Senhor, perdoa-nos por tantas vezes termos escondido o rosto da cruz. Obrigado porque o teu Servo tomou o nosso lugar, carregou o que era nosso e terminou a obra. Faz com que a gente descanse nessa graça e viva como gente que foi comprada por um preço alto. Em nome de Jesus, amém.
Perguntas para reflexão
- Qual frase de Isaías 53 mais chamou a sua atenção hoje, e por quê? ¶
- Setecentos anos separam Isaías de Jesus. Como você explicaria a um amigo cético que tantos detalhes se cumpriram? ¶
- Por que é tão fácil esconder o rosto da cruz? Em que situações você faz isso? ¶
- Com as suas palavras, o que quer dizer que Jesus morreu “no nosso lugar”? ¶
- Você conhece alguém que acha que o passado dele é grande demais para ser perdoado? Como Isaías 53 ajuda você a responder? ¶
- De que maneiras as pessoas tentam pagar a própria dívida diante de Deus? Como você pode apontar para o Servo que já pagou? ¶
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