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Sermões52 Histórias da Bíblia17 de 27

Jó e o sofrimento: confiar em Deus quando ele se cala

Quando Deus fica em silêncio: Jó e o sofrimento humano

Diego Gonçalves26 min de leitura5.117 palavras

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Neste texto

Texto-base: Jó 42:1-6 | Versículo para guardar no coração: Jó 19:25

Na semana passada nós falamos de sabedoria, de Provérbios e de Eclesiastes. E eu tentei mostrar que esses dois livros precisam andar juntos.

Provérbios nos ensinou que a vida tem seus caminhos. Existe o caminho da sabedoria e o da tolice, a pessoa que ouve conselho e a que despreza correção. Há também a colheita da diligência, da humildade e da justiça. “O temor do Senhor é o princípio da (hokmah) sabedoria” (Pv 9:10). Provérbios olha para a vida e diz: “Meu filho, escuta. Deus criou um mundo moral. Não viva como tolo.”

Só que Eclesiastes entra depois e fala: “Sim, mas tem dias em que essa conta não fecha tão rápido.” Porque, debaixo do sol, tem fumaça e vapor, tem hevel (vaidade), tem coisas que você tenta segurar a todo custo mas que inevitavelmente escapam da sua mão. Às vezes o justo sofre o que o perverso merecia, e o perverso recebe o que o justo esperava (Ec 8:14).

Então, se Provérbios nos dá a estrada, Eclesiastes nos mostra a neblina que cobre o caminho. Por isso, eu pensei em falar de Jó hoje, porque Jó nos mostra um homem caído no meio dessa estrada, tentando entender onde Deus está no meio da névoa. Isso é um bom resumo para o livro de Jó. Jó é quando a teologia e as pregações que a gente aprende na igreja precisam atravessar uma temporada inteira de lutas e perrengues.

Talvez você nunca tenha passado por algo como isso. Graças a Deus. Mas todo mundo, de alguma forma, um dia descobre que a vida não está tão presa nas nossas mãos quanto imaginávamos. Nossa fragilidade é percebida às vezes no corpo, às vezes no casamento, às vezes nos filhos, às vezes numa notícia que chega…

E aí a pergunta que Jó nos deixa não é apenas: “Por que existe sofrimento no mundo?” Ela vira: “Senhor, posso confiar em ti quando eu não sei o que o Senhor está fazendo?” Essa é a questão de Jó.

Deus é digno da nossa confiança quando Ele não nos dá todas as respostas? E da nossa adoração, quando a cerca de proteção cai? E da nossa fé, quando a vida está cheia de dor? Hoje nós vamos caminhar por Jó pensando nisso: será que dá para confiar em Deus?

Vamos ler Jó 42:1-6.

“Então Jó respondeu ao Senhor e disse: Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Quem é aquele que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia. Escuta-me, pois, havias dito, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.”

(Jó 42:1-6)

Guarde essas duas frases.

“Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2).

“Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42:5).

Para entender como Jó chegou a essa confissão, precisamos voltar ao começo.

Jó é o estudo de caso da sabedoria

O livro começa assim: “Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1:1). Preste atenção nessa descrição. Jó é o tipo de pessoa que Provérbios elogiaria. Ele teme a Deus, evita o mal, é íntegro, cuida espiritualmente da casa e oferece sacrifícios pelos filhos (Jó 1:5). Jó leva Deus a sério. Se existe alguém que exemplifica Pv 9:1 melhor que Jó, eu desconheço. “O temor do Senhor é o princípio da (hokmah) sabedoria” (Pv 9:10).

E a vida de Jó também parece confirmar Provérbios. Ele é abençoado, tem família grande, possui muitos bens, é respeitado, e o texto diz que ele era “o maior de todos os do Oriente” (Jó 1:3). Até aqui, parece que a conta fechou. O homem teme a Deus, anda em sabedoria, e sua vida floresce.

Mas Jó não está na Bíblia apenas para confirmar Provérbios, e sim para aprofundá-lo depois que Eclesiastes levantou a mão e disse: “E quando a vida não fizer sentido?” Essa é a importância de Jó. Ele não destrói a sabedoria de Provérbios, mas impede que a gente a transforme em uma caixinha de promessas.

Afinal, muita gente lê Provérbios com essa ótica: faça o bem e nada ruim acontecerá; eduque os filhos e eles nunca se desviarão; trabalhe direito e nunca passará necessidade; ore bastante e nunca ficará doente; sirva a Deus e sua família estará blindada. Só que a própria Bíblia não nos deixa ler assim.

Lembra da semana passada? Provérbios nos mostra a ordem moral do mundo de Deus. A sabedoria e a obediência são muito importantes, o pecado destrói tudo e a tolice cobra caro. Por outro lado, Eclesiastes lembra que vivemos debaixo do sol, em um mundo ferido, onde nem sempre a colheita aparece do jeito e no tempo que esperamos.

Assim, Jó coloca essas duas coisas dentro de uma só história. Jó é sábio, mas sofre; teme a Deus, mas perde tudo; é íntegro e acaba envolto em cinzas. Um homem de Provérbios atravessando uma experiência de Eclesiastes.

Então, se a nossa fé não consegue ler Provérbios, Eclesiastes e Jó juntos, a nossa fé é frágil demais para a vida real. Sem Provérbios, a gente perde a direção; sem Eclesiastes, fica ingênuo; sem Jó, não sabe o que fazer quando passa pelos sufocos da vida. E é aqui que o livro começa.

A acusação: Jó ama Deus ou ama a cerca?

Nós, leitores desta história, vemos uma cena no céu. Mas Jó não vê. Os amigos não veem. A esposa de Jó não vê. Os filhos de Deus se apresentam diante do Senhor, e Satanás também aparece (Jó 1:6). Deus pergunta de onde ele vem, e Satanás responde que vinha de rodear a terra e passear por ela (Jó 1:7).

Então Deus fala de Jó: “Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal” (Jó 1:8). Se eu estivesse perto de Jó, eu diria: “Jó, vigia, cara! Estão de olho em você.”

A Bíblia continua. Satanás então faz uma pergunta: “Porventura Jó teme a Deus debalde?” (Jó 1:9). “Debalde” quer dizer de graça, sem pagamento, sem troca. A acusação é mais ou menos assim: “Claro que Jó te serve. Olha a vida que ele tem: a família, os bens, a saúde. Você colocou uma cerca ao redor dele. Tira a cerca, e ele vai te amaldiçoar.”

Então veja: Satanás não está acusando apenas Jó. Ele está acusando Deus também. Ele está dizendo que Deus não é amado por quem Ele é. Deus é apenas usado por aquilo que dá.

Essa é uma pergunta muito séria para nós. Eu sirvo a Deus porque Ele é Deus ou porque gosto da cerca? Ela pode ser muita coisa: saúde, família, ministério, ou o sonho de uma vida sem grandes perdas. É tudo aquilo que Deus dá e que, aos poucos, pode tomar o lugar do próprio Deus no nosso coração.

Agora, minha gente: não é pecado amar os presentes de Deus. Ame sua família, cuide da saúde, seja grato pelo trabalho e dê graças pelos dias bons. A Bíblia não manda desprezar as dádivas. O problema começa quando o presente vira o centro. Quando a dádiva vira ídolo. Quando eu só consigo chamar Deus de bom enquanto Ele mantém a cerca em pé.

Essa é a pergunta de Jó. Deus é digno quando a cerca cai?

A Bíblia continua. Satanás diz: “Toque em tudo que ele tem, e ele te amaldiçoará na tua face” (Jó 1:11). Deus permite o teste, com limites. Satanás pode tocar nos bens de Jó, mas não nele mesmo (Jó 1:12). Então, em um único dia, Jó perde quase tudo. Perde os bois e as jumentas (Jó 1:14-15), as ovelhas (Jó 1:16), os camelos (Jó 1:17), e os filhos (Jó 1:18-19). Enquanto um mensageiro ainda falava outro chegava e o caos só aumentava. Tem dias em que a dor não espera a alma respirar.

E Jó responde de um jeito que eu leio com temor. Ele se levanta, rasga o manto, raspa a cabeça, lança-se em terra e adora (Jó 1:20). Não pula o luto, não faz pose de forte, não age como se nada tivesse acontecido. Ele cai no chão e, no chão, adora.

Os pentecostais amam essa parte: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1:21). Agora, pessoal, como igreja, não podemos usar essa frase para ser jogada em cima de alguém que acabou de sofrer uma perda. Não use Jó 1:21 como pedra. Essa frase saiu do chão, de um homem enlutado, de alguém sem explicação.

Tanto que Jó começa pelo dom: “O Senhor o deu.” Antes de falar do que foi tirado, ele reconhece que tudo tinha sido recebido. Isso é sabedoria. Porque uma das coisas que o sofrimento revela é que muito do que chamávamos de “meu” era graça o tempo todo. Meu corpo, meu coração, minha família, minha agenda, meus planos, meu próximo domingo, minha próxima respiração. Tudo isso é recebido por graça. Então, Jó está certo em não se gloriar dessas coisas.

Depois Satanás volta e diz: “Ele ainda não te amaldiçoou porque você não tocou no corpo dele.” Deus permite que Satanás toque no corpo de Jó, mas não tire sua vida (Jó 2:6). Então Jó é ferido com úlceras malignas desde a planta do pé até o alto da cabeça (Jó 2:7). Ele se senta em cinzas e raspa as feridas com um caco (Jó 2:8). Agora a dor está na pele.

A esposa dele diz: “Amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2:9). É exatamente a frase que Satanás queria ouvir. Mas Jó responde: “Receberemos de Deus o bem e não receberíamos também o mal?” (Jó 2:10). E o texto diz que, em tudo isso, Jó não pecou com seus lábios.

Aqui estão as duas primeiras grandes lições. Coisas ruins podem acontecer com pessoas justas. E Deus é digno de confiança mesmo quando não recebemos as explicações que gostaríamos.

O lamento: a fé também geme

Depois disso, Jó fica sete dias em silêncio com seus amigos. Então, no capítulo 3, ele rompe o silêncio. E quando Jó fala, não fala bonito. Ele amaldiçoa o dia do nascimento. Deseja nunca ter nascido. Pergunta por que a vida é dada a quem sofre tanto (Jó 3:1-26). Isso é pesado. Se Jó 1 mostra adoração no chão, Jó 3 mostra lamento no escuro. E as duas coisas estão no mesmo livro.

Isso é importante para nós, porque às vezes a gente acha que fé verdadeira só fala frases fortes: canta, declara, vence, diz “está tudo bem”. Jó nos mostra que a fé, às vezes, geme.

A Bíblia não tem vergonha de registrar o lamento dos santos. Jeremias também desejou não ter nascido (Jr 20:14-18). Os Salmos perguntam: “Até quando, Senhor?” (Sl 13:1). O próprio Jesus clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27:46; Sl 22:1). Então cuidado com uma espiritualidade que não permite lágrimas. A fé bíblica não é anestesia emocional. A fé bíblica leva a dor para Deus.

Aqui há uma diferença importante. Jó lamenta diante de Deus. Não abandona a conversa, não foge para outro deus, não para de buscar o Senhor. O lamento dele é confuso, sim, dolorido, e às vezes passa do ponto. Mas ainda é uma dor colocada diante de Deus.

Talvez você precise ouvir isso hoje: ore como conseguir. Se a oração sair pequena, ore pequena. Se vier com raiva, leve isso a Deus com temor; se vier com lágrimas, ore com lágrimas. Se tudo que você conseguir dizer for “Senhor, tem misericórdia”, isso já é oração. Deus não despreza coração quebrantado (Sl 51:17).

Elisabeth Elliot, em O Sofrimento Nunca É em Vão, insiste nessa ideia de que aquilo que entregamos a Deus não é desperdiçado por Ele. A linguagem dela nos ajuda porque ela nos chama a entregar a Deus o que não conseguimos controlar.

E essa é uma palavra difícil. A maioria de nós, quando a gente sofre, a primeira coisa que a gente quer não é entregar. A primeira coisa que quer é entender. Jó também queria.

Os amigos: teologia sem humildade machuca

Então entram os amigos: Elifaz, Bildade e Zofar. Eles vêm para consolar Jó (Jó 2:11). E, no começo, eles acertam. Quando veem Jó de longe, quase não o reconhecem. Eles choram, rasgam as vestes, jogam pó sobre a cabeça e se sentam com ele no chão por sete dias e sete noites. Ninguém dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande (Jó 2:12-13).

Esse talvez tenha sido o melhor momento deles: sete dias de silêncio. Hoje, às vezes, a gente não aguenta sete segundos. A pessoa começa a contar a dor e a gente já quer resolver tudo, explicar tudo, contar nossa experiência e mandar três versículos e um áudio de cinco minutos.

Mas há dores em que o primeiro ministério é sentar junto. Romanos diz: “Chorai com os que choram” (Rm 12:15). Isso é mandamento. Chorar com quem chora não é falta de fé. É obediência.

O problema é que, depois, os amigos começam a falar. E quando falam, viram consoladores miseráveis. Essa expressão é de Jó: “Todos vós sois consoladores molestos” (Jó 16:2). A teologia deles é muito simples: se Deus é justo; o pecado traz sofrimento; e Jó está sofrendo; logo Jó deve ter pecado. A lógica é arrumada. O problema é que está errada.

Não porque Deus não seja justo. Deus é justo. Não porque o pecado não traga consequências. Traz. No começo do culto nós lemos que Deus não deixará nossa desobediência e idolatria sem punição. Efésios diz que por causa dessas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência (Ef 5:6). O problema dos amigos é que eles pegam uma verdade geral e transformam em explicação total para uma dor que eles não entendem.

Eles olham para Jó e dizem: “Confesse. Tem pecado escondido. A conta precisa fechar.” Mas nós, leitores, já sabemos que a conta deles está errada. Jó não está sofrendo por causa de uma vida secreta de perversidade. Há um mistério acontecendo que eles desconhecem. E aqui está o perigo. Quando eu não aceito o mistério, começo a inventar explicações. E explicações inventadas machucam.

Bildade chega a sugerir que os filhos de Jó morreram por causa de seus próprios pecados (Jó 8:4). Imagine dizer isso para um pai enlutado. Zofar diz que Jó recebeu menos do que merecia (Jó 11:6). Elifaz acusa Jó de pecados graves sem prova (Jó 22:5-11). Com amigos assim, quem precisa de inimigos?

A gente ri, mas talvez já tenha feito algo parecido em menor escala. Quando alguém sofre, nós queremos saber o motivo; quando cai, a falha; quando adoece, alguns procuram uma brecha. E diante de uma família que sofre, sempre tem quem tente descobrir a lição escondida. Às vezes Deus vai revelar pecado, sim. Às vezes o sofrimento é disciplina, sim. Hebreus fala da disciplina do Senhor (Hb 12:5-11). Mas Jó nos obriga a dizer: eu não sei tudo. Eu não vejo tudo. Eu não tenho acesso ao conselho secreto de Deus.

No final, Deus dirá aos amigos: “Não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó” (Jó 42:7). Isso deveria nos deixar com medo de falar demais. Porque Jó falou coisas duras, mas falou com Deus. Os amigos falaram sobre Deus com segurança demais e compaixão de menos.

Então, para a igreja, fica uma aplicação muito prática. Quando alguém sofrer, não tente ser advogado de Deus com arrogância. Seja irmão, seja irmã: sente no chão, se for preciso, ore sem fazer discurso, leve comida, mande mensagem depois de alguns dias. Fique perto e chore com quem chora. A verdade de Deus não precisa da nossa frieza para continuar sendo verdade.

Jó ultrapassa uma linha

Agora, Jó estava certo em rejeitar a explicação dos amigos, porque não sofria pelos motivos que eles diziam. Também estava certo em lamentar. A Bíblia dá espaço para isso. Jó ainda mostra fé no meio da dor. Ele pede que Deus o ensine: “Ensinai-me, e eu me calarei; dai-me a entender em que errei” (Jó 6:24). Ele sente falta de um mediador: “Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós ambos” (Jó 9:33). Ele afirma esperança no Redentor: “Eu sei que o meu Redentor vive” (Jó 19:25). Há muita fé em Jó.

Mas, aos poucos, Jó começa a escorregar. A linguagem dele vai ficando cada vez mais jurídica. Jó quer uma audiência para apresentar sua causa e ouvir Deus responder. Em Jó 31:35, ele diz: “Ah! Quem me dera um que me ouvisse!” Ele quer chamar Deus para o tribunal.

Aqui existe uma linha delicada. Clamar a Deus em dor é uma coisa; colocá-lo no banco dos réus é outra. Levar perguntas a Ele é uma coisa; exigir que se submeta à minha compreensão de justiça é outra. Deus é grande o suficiente para ouvir nossa dor, mas não deixa de ser Criador porque a criatura está sofrendo.

Em Jó 40:8, o Senhor dirá: “Acaso, anularás tu o meu juízo? Condenar-me-ás, para te justificares?” Essa é a linha que Jó atravessou. Ele não errou por chorar, lamentar ou pedir socorro. Errou quando, para preservar sua própria justiça, começou a falar como se Deus precisasse provar a dEle.

E eu entendo Jó. De verdade. Dizemos: “Senhor, me mostra por que isso aconteceu, o que o Senhor está fazendo e quando vai acabar. Me mostra como isso vai fazer sentido.” Só que Jó vai aprender que Deus não nos deve explicação. E isso é duro, porque a gente acha que confiar seria mais fácil se Deus explicasse primeiro. Mas Jó nos ensina que a fé começa quando eu volto ao meu lugar de criatura.

Eliú: quando o problema muda de lugar

Antes de Deus falar, aparece Eliú. Ele é mais jovem. Ficou calado enquanto os mais velhos falavam. Depois, nos capítulos 32 a 37, ele entra na conversa. Eliú não é perfeito. Ele também fala algumas coisas erradas. Mas ele enxerga algo que os outros não tinham enxergado bem. Ele percebe que Jó começou a se justificar mais do que justificar Deus. Jó 32:2 diz que Eliú se irou contra Jó porque Jó “se justificava a si mesmo, e não a Deus”.

Então, o que tava acontecendo é o seguinte: o problema não era mais apenas a dor de Jó. Era o lugar onde Jó estava se colocando diante de Deus. Eliú insiste em uma verdade que sustenta o restante do livro: “Longe de Deus o praticar ele a perversidade, e do Todo-Poderoso o cometer injustiça” (Jó 34:10). Ele continua: “Na verdade, Deus não procede maliciosamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo” (Jó 34:12).

Guarde isso: mesmo quando eu não entendo, Deus não se tornou injusto. Mesmo quando dói, Deus não se tornou mau. Mesmo quando falta informação, Ele não perdeu o caráter. Isso não responde tudo emocionalmente, não tira a dor em cinco segundos, não é botão mágico. Mas sustenta. Porque, se Deus só é justo quando eu entendo, então minha mente virou a medida da justiça de Deus.

Eliú prepara o terreno. Então Deus fala.

Deus responde com perguntas

Então vemos que Jó queria respostas. Quando Deus vem, em vez de fornecer as respostas, Deus aparece com perguntas. “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?” (Jó 38:4). Eu fico feliz por não ser Jó nessa hora. Jó queria interrogar Deus. Agora Deus interroga Jó.

“Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes?” (Jó 38:5). “Acaso, deste ordens à madrugada?” (Jó 38:12). “Entraste nos tesouros da neve?” (Jó 38:22). “Caças presa para a leoa?” (Jó 38:39). “Sabes tu o tempo em que dão cria as cabras monteses?” (Jó 39:1).

Eu gosto dessa pergunta das cabras monteses. Jó está falando de justiça, dor e tribunal, e Deus fala de cabras selvagens. Parece que Deus mudou de assunto. Mas não mudou: está mostrando para Jó que ele não governa nem a parte da criação que consegue ver. Como poderia exigir compreender todo o governo invisível de Deus?

Jó não comanda a manhã nem mede a terra. Não controla o mar, não alimenta os leões, não domestica Beemote, nem puxa Leviatã com anzol. Deus mostra que sua sabedoria e seu poder são infinitamente maiores que os de Jó.

Mas veja: Deus não faz isso para esmagar Jó como se Jó fosse lixo. O Deus que governa o universo está falando com um homem ferido. O Deus que sustenta as constelações está respondendo a um servo sentado em cinzas. Isso também é graça. Deus está recolocando Jó no lugar de criatura. Não para desprezá-lo, mas para salvá-lo da ilusão de que ele poderia viver como juiz do Criador.

A criatura não enxerga tudo, não entende tudo e não tem o direito de exigir que Deus se explique como réu diante dela. Paulo diz algo parecido em Rm 9:20: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?” Essa pergunta nos diminui do jeito certo. Não para destruir nossa dignidade. Para curar nossa arrogância.

Porque fé começa quando eu aceito que Deus é Deus e eu não sou.

A resposta que não veio como informação

Agora chegamos ao ponto central. Deus respondeu a Jó? Sim e não. Se a pergunta for: “Jó recebeu a explicação dos capítulos 1 e 2? Deus contou a Jó sobre Satanás? Jó ficou sabendo por que tudo aquilo foi permitido?”, a resposta é não. Até onde sabemos, Jó nunca soube dos bastidores. Deus não disse: “Jó, sente-se aqui. Vou explicar a reunião celestial. Satanás fez uma acusação, eu permiti por esta razão, e agora você vai entender todo o plano.” Nada disso.

Deus não responde com informação. E isso é frustrante para nós, porque nós queremos informação: o porquê, o prazo, a lógica. Queremos saber qual é a lição, quando vai acabar e como essa dor entra no plano de Deus.

Mas Deus responde Jó de outro modo. Deus responde com Ele mesmo. Deus mostra sua sabedoria, seu poder, sua majestade, sua liberdade, sua grandeza. É como se Deus dissesse: “Jó, a resposta final não é informação sobre mim. Sou Eu.”

Isso talvez seja uma das coisas mais difíceis de aceitar na vida cristã. Porque nós queremos Deus mais explicação. Às vezes Deus nos dá a explicação. Muitas vezes, não. E nesses casos Ele ainda se oferece a nós: sua presença, sua Palavra, seu Espírito, graça para hoje e promessa para amanhã. E, acima de tudo, seu Filho.

A pessoa que exige que Deus responda todas as perguntas antes de confiar serve a um deus pequeno demais.

Jó queria fatos, e Deus lhe deu uma visão; queria tribunal, e recebeu um redemoinho; ansiava por entender todos os bastidores, e Deus abriu uma fresta da sua glória. E quando Jó vê, ele se curva.

O arrependimento de Jó

Voltamos então ao texto inicial. “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2). Cabe dizer que essa não é a frase de alguém que finalmente entendeu tudo. É a frase de alguém que voltou ao lugar certo diante de Deus.

Depois Jó diz: “Na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia” (Jó 42:3). Jó não está confessando o pecado secreto que os amigos tentaram arrancar dele. Deus mesmo já tinha dito que Jó era íntegro. Jó está reconhecendo que falou além dos limites da criatura. A dor, o lamento e as perguntas eram reais. Mas suas conclusões passaram da linha.

Então ele diz: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42:5). Gente, conhecer Deus de ouvir já é graça. A fé vem pelo ouvir (Rm 10:17). Muitos de nós conhecemos Deus porque alguém nos falou. Uma mãe, uma avó, um pastor, uma Bíblia aberta. Mas existe um momento em que aquilo que ouvimos precisa se tornar chão. E às vezes esse chão aparece no vale: no hospital, no luto, na espera, no silêncio.

Jó não recebeu todas as informações. Recebeu Deus. E quando Deus se torna maior que a pergunta não respondida, a alma começa a encontrar repouso.

Não estou dizendo que tudo para de doer. Seria mentira. Há perdas que seguem doendo, memórias que voltam e saudades que aparecem sem avisar. Mas a dor deixa de ser a única intérprete da vida.

Jó viu Deus. E isso reordenou sua alma.

O Redentor que Jó viu de longe

Jó sentiu falta de um mediador. Em Jó 9:33, ele lamenta que não haja entre ele e Deus um árbitro, alguém que ponha a mão sobre ambos. Jó desejou um defensor. Em Jó 16:21, ele deseja que alguém pleiteie pelo homem diante de Deus. E em Jó 19:25, ele diz: “Eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra.”

Jó quer um Redentor: alguém que se levante por ele, diga a palavra final, defenda sua causa e esteja vivo quando tudo parece pó.

Nós sabemos o nome desse Redentor. Jesus Cristo.

Jó era íntegro, mas Cristo é santo. Jó sofreu sem merecer a acusação dos amigos, Cristo sofreu sem pecado algum. Um sentou-se no pó, o outro desceu até a morte. Jó desejou um mediador, e Cristo é o único Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2:5). No final, Jó intercedeu pelos amigos (Jó 42:8-10); na cruz, Cristo orou pelos que o crucificavam: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23:34).

E aqui está o evangelho. Deus não nos respondeu sobre sofrimento apenas com argumentos. Ele entrou no sofrimento. Jesus clamou na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27:46). O Filho de Deus entrou na escuridão. Carregou pecado real. Sofreu abandono real. Tomou sobre si o castigo que nos traz a paz (Is 53:5).

No começo do culto, nós ouvimos que Deus não deixará o pecado impune. Isso é verdade. A cruz confirma isso. O pecado é tão sério que o Filho teve que morrer. Mas a cruz também nos mostra que Deus não abandona pecadores que se refugiam em Cristo. Para todos os que creem, o juízo caiu sobre o Redentor. Cristo é o Justo que sofreu pelos injustos para nos conduzir a Deus (1Pe 3:18).

Então, em Cristo, Jó 19:25 ganha ainda mais luz: “Eu sei que o meu Redentor vive.” Ele vive porque ressuscitou, e vive para interceder por nós (Rm 8:34), sustentar os cansados, perdoar os arrependidos, levantar os mortos e fazer novas todas as coisas.

Quando Deus restaura Jó no fim do livro (Jó 42:10), é como se isso apontasse para o dia em que Deus enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, nem luto, nem pranto, nem dor (Ap 21:4).

Jó nos leva até esse horizonte. Provérbios nos ensinou a andar no caminho. Eclesiastes nos ensinou a reconhecer a fumaça. Jó nos ensina a sofrer sem soltar Deus. Cristo nos mostra que Deus não soltou a nossa mão nem quando entrou na morte por nós.

Então, como os justos devem sofrer?

Agora vamos trazer isso para a nossa semana. A pergunta de Jó não é apenas: por que os justos sofrem? Jó também pergunta: como os justos devem sofrer? E eu queria deixar algumas respostas simples, sem fingir que são fáceis.

Primeiro: sofra diante de Deus, não longe dele. Jó lamenta, pergunta, chora, fala com dor. Mas ele continua levando sua causa a Deus. Faça isso. Não desapareça de Deus quando sofrer. Não suma da comunhão. Não pare de orar porque sua oração não está saindo bonita. Ore como conseguir. Deus não está esperando uma redação perfeita. Às vezes a oração mais verdadeira da semana será: “Senhor, tem misericórdia.”

Segundo: sofra como criatura. Isso significa reconhecer limites. Você não vê nem sabe tudo, não entende todas as conexões da providência e não tem acesso à sala do conselho de Deus. Isso não diminui sua dor, apenas a coloca no lugar certo diante de Deus. Clame, chore, pergunte. Mas não coloque Deus no banco dos réus.

Terceiro: sofra sem virar amigo de Jó para os outros. Se alguém está sofrendo perto de você, cuidado com sua pressa. Não explique o que Deus não explicou. Não acuse sem saber. Não transforme uma verdade bíblica em peso sobre um coração esmagado. Chore com quem chora (Rm 12:15). Às vezes o amor de Cristo chega em forma de silêncio, visita, sopa ou abraço.

Quarto: sofra examinando seus amores. A pergunta de Satanás ainda nos examina: “Jó teme a Deus de graça?” (Jó 1:9). Eu sigo a Deus por quem Ele é ou só pela cerca? Essa pergunta não deve ser respondida rápido. Leve para casa. Ore sobre ela. Deixe o Espírito Santo sondar. Talvez a dor revele que algumas dádivas tomaram espaço demais no coração. E Deus, em sua misericórdia, pode usar até o vale para nos devolver ao centro.

Quinto: sofra olhando para o Redentor vivo. Não olhe apenas para Jó, olhe para Cristo. Jó nos mostra um homem justo no pó; Cristo nos mostra o Justo na cruz. Jó desejou um mediador e confessou um Redentor vivo; Cristo é o Mediador e ressuscitou.

Então, quando você não tiver todas as respostas, segure essa: “Eu sei que o meu Redentor vive” (Jó 19:25). Talvez você diga isso com voz forte, ou fraca, ou chorando, ou sem sentir quase nada. Diga mesmo assim. Porque a fé nem sempre é sentir tudo. Às vezes a fé é continuar segurando a confissão quando o coração ainda está tremendo.

Deus, não apenas informações sobre Deus

Jó é o estudo de caso depois de Provérbios e Eclesiastes. Provérbios disse: “Tema ao Senhor e ande em sabedoria.” Eclesiastes disse: “Lembre-se de que, debaixo do sol, há vapor.” Jó diz: “Quando o justo sofre e a vida não faz sentido, Deus continua digno de confiança.”

Mas Jó não descobre isso recebendo todos os fatos. Jó não recebe a ata do céu, nem todos os porquês, nem todas as informações. Jó recebe Deus.

“Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42:5).

E nós recebemos ainda mais luz que Jó. Recebemos Cristo. O Deus que falou do redemoinho é o mesmo que se revelou na cruz. O Deus que não deve explicações à criatura é quem deu o próprio Filho por pecadores. O Deus que perguntou a Jó “onde você estava?” é quem, em Cristo, veio até onde nós estávamos.

Então, quando Deus parecer em silêncio, olhe para Cristo. Quando a vida não fizer sentido ou o coração estiver assustado, olhe para Cristo. Quando você não tiver informação suficiente, lembre-se: você tem o Redentor vivo.

E porque Ele vive, dá para confiar.

Amém.