
Sermões52 Histórias da Bíblia24 de 27
João Batista: arrependimento e frutos em Mateus 3
Preparem o caminho do Senhor
Neste texto
- Oração de abertura
- Um povo cercado de promessas
- Preparem o caminho
- Quando a religião se torna nossa segurança
- Mãos vazias
- Produzam fruto digno de arrependimento
- Mas e a graça?
- O machado à raiz
- João aponta para outro
- Espírito e fogo
- Deus não tem netos
- O ladrão que viu um Rei
- Santificação: a graça continuando sua obra
- A pergunta de João
- Conclusão
- Oração
- Versículo para memorizar
- Perguntas para reflexão
- Perguntas para discussão (10)
Texto-base: Mt 3:1-12
Oração de abertura
Pai, nós te pedimos que sejas engrandecido entre nós. Que o teu nome seja glorificado não apenas pelas palavras que saem de nossos lábios, mas pela vida que levamos diante de ti.
Jesus disse: “Nisto é glorificado meu Pai: que vocês deem muito fruto; e assim mostrarão que são meus discípulos.” (Jo 15:8)
Por isso, Senhor, não queremos oferecer-te apenas palavras de louvor, mas uma vida. Que tu sejas glorificado naquilo que fazemos e naquilo que, por amor a ti, recusamos fazer; no que falamos e nas palavras que, por temor do Senhor, escolhemos calar.
Não permita que nossa fé seja uma roupa que vestimos no domingo e guardamos durante o restante da semana. Faz de nossa vida um culto. Quando houver pecado, dá-nos humildade para confessar. Quando houver graça, dá-nos gratidão para louvar. Quando tua Palavra nos confrontar, dá-nos coragem para não fugir dela.
Nós te agradecemos pelos profetas que levantaste, inclusive por homens como João Batista, cuja mensagem não procurava agradar aos ouvidos, mas despertar consciências.
Concede-nos a graça de ouvir. E depois de ouvir, obedecer. Em nome de Jesus. Amém.
Um povo cercado de promessas
Para entender João Batista, precisamos compreender aquilo que Israel estava esperando. O Antigo Testamento não termina com todas as perguntas respondidas. Ele termina olhando para frente.
Deus havia prometido a Abraão: “Em você serão benditas todas as famílias da terra.” (Gn 12:3) Mais tarde, Deus reafirmaria sua aliança, prometendo-lhe uma descendência e estabelecendo com ele uma relação de aliança (Gn 15:1-6; 17:1-8).
Por meio do profeta Joel, Deus anunciou o Dia do Senhor e prometeu: “Derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade.” (Jl 2:28-32)
Isaías anunciou que Deus viria salvar o seu povo e que alguém prepararia o caminho diante dele:
Voz do que clama no deserto: ‘Preparem o caminho do Senhor! Endireitem no ermo uma estrada para o nosso Deus!’
(Is 40:3)
E Ezequiel falou de uma transformação que não poderia ser produzida pela simples força humana:
Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo […] Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos.
Então chegamos a Malaquias. E é impressionante perceber que o Antigo Testamento praticamente fecha sua porta ainda deixando uma luz acesa para o futuro:
Eis que eu lhes enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor. Ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais.
(Ml 4:5-6)
E depois disso, Israel esperou. Uma geração passou, depois outra, e outra. Impérios mudaram, reis surgiram e desapareceram, Jerusalém viu exércitos estrangeiros entrarem por suas portas. O povo conheceu domínio persa, influência grega e, finalmente, o peso de Roma.
Mas as promessas continuavam ali. Deus havia falado. E se Deus falou, tá falado. Daí é a nossa fé que precisa aprender a esperar.
Existe alguma palavra de Deus sobre sua vida?
Por séculos, nenhuma nova voz profética como as antigas foi acrescentada às Escrituras de Israel. Então, um dia, no deserto da Judeia, ouviu-se novamente uma voz.
Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judeia. Ele dizia: ‘Arrependam-se, porque está próximo o Reino dos Céus.’
(Mt 3:1-2)
Depois de séculos de espera, a primeira palavra da nova voz profética foi: “Arrependam-se.”
Isso deve nos ensinar alguma coisa.
Preparem o caminho
Mateus explica quem era aquele homem:
Porque este é o referido por meio do profeta Isaías: ‘Voz do que clama no deserto: Preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas veredas.’
(Mt 3:3)
João não era o Rei, mas a voz que anunciava que o Rei estava chegando. Em tempos antigos, quando um rei faria uma grande visita, o caminho precisava ser preparado: removiam-se as pedras, corrigiam-se os trechos difíceis, retiravam-se os obstáculos. João toma essa imagem e a coloca diante da alma humana: o Rei está vindo. Preparem o caminho.
Mas a estrada que precisava ser endireitada não estava apenas entre o deserto e Jerusalém. Estava dentro do coração humano. Por isso João pregava: “Arrependam-se.”
Arrependimento não é simplesmente sentir remorso. Judas sentiu remorso (Mt 27:3-5). Arrependimento também não significa ter um momento emocional durante um culto. Na Escritura, arrepender-se significa uma mudança tão profunda na maneira de enxergar Deus, o pecado e a nós mesmos que começamos a voltar-nos de nosso caminho para o caminho de Deus.
É reconhecer: “Eu estava errado, meu pecado é realmente pecado, Deus está certo e eu preciso voltar.”
João está dizendo: se o Rei está chegando, alguma coisa em nós precisa mudar. E é exatamente aqui que sua mensagem começa a incomodar.
Quando a religião se torna nossa segurança
O povo ia até João. Mateus diz:
Então Jerusalém, toda a Judeia e toda a região ao redor do Jordão iam até ele. E, confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão.
(Mt 3:5-6)
Aquilo era profundamente significativo. Rituais de purificação com água eram conhecidos no judaísmo. Mas João não estava simplesmente pedindo mais um banho religioso. Era um batismo ligado ao arrependimento. A pessoa entrava na água confessando que precisava de mudança.
E então aparece o problema. Porque nem todos estavam convencidos de que precisavam dessa mudança. Mateus continua:
Quando João viu que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: ‘Raça de víboras! Quem lhes ensinou a fugir da ira que está por vir? Produzam fruto digno de arrependimento! E não pensem que podem dizer uns aos outros: “Temos por pai Abraão”.’
(Mt 3:7-9)
Aqui João toca numa das doenças mais antigas da religião: confiar em alguma coisa relacionada a Deus em vez de confiar no próprio Deus. Eles tinham Abraão, a aliança, as Escrituras e o templo, uma história religiosa extraordinária. Tudo isso era bom, mas as coisas boas se tornam perigosas quando ocupam o lugar que pertence somente a Deus.
“Temos por pai Abraão.” Em outras palavras: “Nós pertencemos à família certa.” João responde: isso não basta.
Porque eu afirmo a vocês que Deus pode fazer com que destas pedras surjam filhos a Abraão.
(Mt 3:9)
Alguns estudiosos observam aqui um possível jogo de palavras semítico, particularmente claro em hebraico: avanim, “pedras”, e banim, “filhos”. Mas a força espiritual da declaração não depende do trocadilho. João está dizendo: Deus não depende do seu sobrenome para cumprir os propósitos dele.
Esse é um golpe profundo contra o orgulho religioso. E continua sendo. Podemos trocar “Abraão é nosso pai” por muitas outras frases: “Minha família é evangélica”, “Eu cresci na igreja”, “Meu pai é pastor”, “Eu tenho cargo”.
Tudo isso pode existir numa pessoa que ainda não se rendeu verdadeiramente a Deus.
Há uma frase que resume bem esse princípio:
Deus não tem netos. Deus tem filhos.
A fé de seu pai não pode substituir a sua. As orações de sua mãe não podem arrepender-se em seu lugar. Você pode receber uma herança cristã de seus pais. E isso é uma bênção imensa. Mas você não pode herdar o novo nascimento como herda os olhos do pai ou o sobrenome da família. Jesus disse: “Vocês precisam nascer de novo.” (Jo 3:7) Cada coração precisa encontrar-se pessoalmente com Deus.
Mãos vazias
Há algo que a religião humana considera quase insuportável: chegar diante de Deus sem nada para negociar. Nós gostamos de chegar com as mãos cheias: minha moralidade, minha tradição, minhas obras, minha reputação. E silenciosamente dizemos: “Deus, olha tudo o que eu trouxe.”
Mas arrependimento verdadeiro começa quando finalmente abrimos as mãos e percebemos que não há nelas nada capaz de comprar a misericórdia divina.
O salmista compreendeu isso: “Um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás.” (Sl 51:17) O publicano da parábola de Jesus compreendeu isso. Ele nem conseguia levantar os olhos ao céu. Batendo no peito, dizia: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador!” (Lc 18:13) E Jesus disse que aquele homem voltou para casa justificado diante de Deus (Lc 18:14).
O problema dos fariseus não era possuírem coisas boas. O problema era terem começado a confiar nelas. Quem chega com as mãos cheias de mérito dificilmente estende as mãos para receber graça.
Produzam fruto digno de arrependimento
Então João pronuncia uma das frases centrais de seu ministério: “Produzam fruto digno de arrependimento.” (Mt 3:8)
Observe a ordem. João não diz: “Produzam fruto para que possam arrepender-se.” Nem: “Produzam boas obras para que Deus resolva aceitá-los.” O fruto não compra a vida; revela que ela já existe. Uma macieira não se torna macieira porque alguém amarrou maçãs em seus galhos. Ela produz maçãs porque existe vida dentro dela.
Assim também acontece na vida espiritual. Somos salvos pela graça:
Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.
(Ef 2:8-9)
Mas Paulo não termina aí. O versículo seguinte diz:
Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.
(Ef 2:10)
As obras não são a raiz da salvação. São fruto. A graça não apenas perdoa o pecador, mas começa a transformá-lo.
Lucas registra que as multidões entenderam o peso da mensagem de João e perguntaram: “Então, o que devemos fazer?” (Lc 3:10) E João respondeu de maneira concreta. Quem tivesse duas túnicas deveria repartir com quem não tinha. Quem tivesse comida deveria fazer o mesmo (Lc 3:11). Aos cobradores de impostos: “Não cobrem mais do que o estipulado.” (Lc 3:13) Aos soldados: “Não pratiquem extorsão nem façam denúncias falsas e contentem-se com o salário de vocês.” (Lc 3:14)
Perceba como o arrependimento entra na vida comum: no bolso, na maneira de usar o poder, na relação com o próximo, na generosidade. Arrependimento que nunca chega ao comportamento talvez nunca tenha passado de sentimento.
Mas e a graça?
Nesse ponto alguém pode perguntar: “Então precisamos ser perfeitos?”
Não. A Escritura não ensina perfeição instantânea depois da conversão. João está falando de fruto, não de impecabilidade. O cristão cai e ainda precisa confessar seus pecados. João, o apóstolo, escreverá: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós.” (1Jo 1:8) Mas continua: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1Jo 1:9)
Existe uma diferença enorme entre cair enquanto seguimos Cristo e fazer as pazes com o pecado e decidir que não queremos mais lutar. Uma coisa é tropeçar no caminho; outra é escolher outro caminho. O arrependido pode cair e chorar, pedir socorro, precisar ser restaurado. Mas já não consegue chamar o pecado de lar.
É por isso que podemos crer com toda a força nas palavras de Jesus:
As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.
E, ao mesmo tempo, ouvir João Batista dizer: “Produzam fruto digno de arrependimento.” (Mt 3:8) Essas verdades não são inimigas. A mesma graça que nos segura é a graça que nos transforma.
O machado à raiz
Mas João não suaviza sua mensagem.
O machado já está posto à raiz das árvores. Portanto, toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.
(Mt 3:10)
Nós talvez preferíssemos que João não tivesse dito isso. Mas ele disse. E não devemos retirar da Bíblia aquilo que nos deixa desconfortáveis. O Deus que ama também é santo. O Deus que perdoa também julga. Pedro escreve: “E, se vocês invocam como Pai aquele que, sem parcialidade, julga segundo as obras de cada um, vivam em temor durante o tempo da peregrinação de vocês.” (1Pe 1:17)
O temor de Deus não é contrário ao amor dele. É consequência de sabermos quem Deus é. A igreja se torna espiritualmente doente quando fala tanto do amor de Deus que perde a capacidade de tremer diante de sua santidade. E também adoece quando fala tanto do juízo que esquece que é a bondade dele que nos conduz ao arrependimento (Rm 2:4).
Precisamos de toda a verdade. Não metade dela.
João aponta para outro
E então descobrimos algo fundamental. João não é o centro da história. Ele diz:
Eu batizo vocês com água para arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de carregar as sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo.
(Mt 3:11)
João está dizendo: “Eu sou apenas a voz. Outro está vindo. Eu preparo o caminho; ele é o caminho.”
João pode colocar pessoas na água, mas não pode mudar o coração humano. Pode chamar ao arrependimento, mas somente Deus pode dar um novo coração. É por isso que a promessa de Ezequiel é tão importante: “Eu lhes darei um coração novo […] Porei dentro de vocês o meu Espírito.” (Ez 36:26-27) E é exatamente isso que vemos acontecer quando o Espírito é derramado sobre a igreja em Pentecostes (At 2:1-4, 16-18).
A vida cristã não é o projeto de um pecador tentando reformar a si mesmo. É a obra de Deus dentro do pecador. Paulo diz: “Porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2:13) Nós obedecemos, lutamos, resistimos ao pecado e buscamos santidade. Mas fazemos isso porque Deus já está operando em nós.
Espírito e fogo
João continua:
Ele tem a pá em suas mãos, limpará completamente a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; porém queimará a palha num fogo que nunca se apaga.
(Mt 3:12)
Aqui a imagem fica solene: trigo, palha, celeiro, fogo. João reduz todas as falsas categorias humanas a uma questão muito mais séria: o que fazemos com o Rei que está chegando?
Podemos ter centenas de classificações sociais: ricos e pobres, religiosos e irreligiosos, judeus e gentios. Mas diante do Reino de Deus existe uma questão fundamental: nós nos rendemos ao Rei ou resistimos a Ele?
Por isso não existe uma terceira categoria confortável na qual alguém possa dizer: “Um dia eu levantei a mão.” “Um dia eu repeti uma oração.” “Um dia eu senti alguma coisa.” “Portanto, não importa se hoje rejeito completamente o senhorio de Cristo.”
O Novo Testamento não transforma uma experiência passada em licença para uma vida presente de rebelião. Jesus começou seu próprio ministério público pregando: “Arrependam-se, porque está próximo o Reino dos Céus.” (Mt 4:17) A mensagem de João não desapareceu quando Jesus chegou. Ela encontrou seu centro.
Deus não tem netos
Agora precisamos deixar o deserto da Judeia e permitir que João entre em nossa igreja.
Não basta nascer em um país onde muita gente diz acreditar em Deus, nem dizer: “Minha família é cristã.” Não basta possuir uma Bíblia, conhecer os cânticos, saber falar a linguagem da igreja ou ter sido criado entre pessoas piedosas. Todas essas coisas são privilégios; nenhuma delas é o novo nascimento.
Nicodemos tinha religião. Tinha conhecimento. Tinha posição. E Jesus lhe disse: “Em verdade, em verdade lhe digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus.” (Jo 3:3)
Talvez o grande perigo de quem cresceu dentro da igreja seja aprender a linguagem da fé antes de possuir a realidade da fé. Aprendemos quando levantar, quando sentar e quando dizer “amém”. Aprendemos a responder às perguntas certas.
Mas a questão de João atravessa todas essas aparências: há fruto digno de arrependimento? Não: “Você é perfeito?” Mas: Deus está transformando você?
Existe pecado que antes você amava e agora combate? Existe orgulho que começou a ser quebrado, perdão onde antes havia ressentimento, verdade onde existia mentira, desejo de Deus onde só se via indiferença?
Não procuramos perfeição. Procuramos sinais de vida.
O ladrão que viu um Rei
Talvez alguém pense no ladrão crucificado ao lado de Jesus. Que fruto ele teve tempo de produzir? Pouquíssimo tempo lhe restava. Mas observe o que aconteceu.
Primeiro, ele reconheceu sua culpa: “Nós, na verdade, estamos sendo punidos com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem.” (Lc 23:41) Depois reconheceu a inocência de Cristo: “Mas este não fez mal nenhum.” (Lc 23:41) E então olhou para um homem pregado numa cruz e disse: “Jesus, lembre-se de mim quando você vier no seu Reino.” (Lc 23:42)
Que fé extraordinária. Os olhos viam um condenado e uma cruz; a fé enxergava um Rei e um Reino. Sua vida estava terminando, mas a direção de seu coração havia mudado. E Jesus respondeu: “Em verdade lhe digo que hoje você estará comigo no paraíso.” (Lc 23:43)
O fruto não é medido apenas em anos. É a expressão da nova direção do coração.
Santificação: a graça continuando sua obra
Paulo escreve: “Pois esta é a vontade de Deus: a santificação de vocês.” (1Ts 4:3)
Santificação não é o preço que pagamos para sermos salvos. É aquilo que Deus começa a fazer naqueles que salvou. Não somos aceitos porque nos tornamos santos. Buscamos santidade porque fomos alcançados por um Deus santo.
O Espírito Santo entra onde há desordem e começa a colocar as coisas no lugar. Ele confronta, convence, corrige e consola; mata velhos desejos e desperta novos. E, pouco a pouco, aquilo que Paulo descreve começa a acontecer:
Somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, que é o Espírito.
(2Co 3:18)
Isso é santificação: às vezes lenta, às vezes dolorosa, nunca desnecessária. Porque Cristo não morreu apenas para nos livrar da culpa do pecado. Ele veio também para nos libertar de seu domínio.
A pergunta de João
Então, se João Batista estivesse diante de nós hoje, talvez não perguntasse primeiro quantos anos temos de igreja, que cargo ocupamos ou quantos capítulos da Bíblia lemos esta semana. Talvez perguntasse: “Onde está o fruto?”
Não para que exibamos obras diante de Deus. Mas para que examinemos se existe vida dentro da árvore. E se essa pergunta nos inquieta, não devemos fugir dela. Devemos correr para Cristo.
Porque João nunca quis que seus ouvintes terminassem olhando para si mesmos. Ele apontou para outro: “Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu.” (Mt 3:11)
Nossa esperança não está na força do nosso arrependimento. Nossa esperança está naquele para quem o arrependimento nos conduz.
Cristo.
Conclusão
Arrependimento começa quando paramos de justificar nosso pecado e concordamos com Deus sobre ele. Confissão significa dizer: “Senhor, eu pequei. Não tenho desculpas nem mérito. Não posso salvar a mim mesmo.”
Mas o evangelho não termina com nossas mãos vazias. Porque nessas mãos vazias Deus coloca Cristo: sua morte por nós, sua ressurreição, sua justiça, seu perdão. E então o Espírito começa sua obra.
Por isso João Batista continua sendo uma voz necessária. A igreja sempre corre o risco de desejar um Cristo que console sem governar, uma graça que perdoe sem transformar e uma fé que não custe o abandono de coisa alguma. João se coloca diante dessa religião confortável e grita: “Preparem o caminho do Senhor.” (Mt 3:3) “Arrependam-se.” (Mt 3:2) “Produzam fruto digno de arrependimento.” (Mt 3:8) E depois aponta para Jesus.
Esse é o caminho. Não boas obras no lugar da graça, nem desculpa para o pecado em nome dela, mas a graça de Deus que perdoa o pecador, recebe-o de mãos vazias, dá-lhe o Espírito e começa a formar nele a vida de Cristo.
Que Deus faça de nós não apenas uma igreja que fala sobre arrependimento, mas uma igreja arrependida; não apenas uma que fala sobre santidade, mas uma que deseja ser santa; não apenas pessoas que conhecem o nome de Jesus, mas homens e mulheres cuja vida demonstra que encontraram o Rei.
Oração
Pai, tua Palavra às vezes nos consola e às vezes nos fere. E nós precisamos das duas coisas. Livra-nos da tentação de aceitar apenas aquilo que nos agrada. Quando tua Palavra expuser nosso pecado, não permita que corramos para desculpas.
Ensina-nos a chegar diante de ti com as mãos vazias. Nós não temos como comprar tua misericórdia. Não podemos pagar por nossa alma. Não temos justiça suficiente para apresentar diante de ti. Nossa esperança está em Cristo.
Obrigado porque não apenas nos chamas ao arrependimento, mas nos concedes teu Espírito. Obrigado porque a santidade não depende somente de nossa força, mas de tua graça operando em nós.
Sonda-nos. Mostra-nos aquilo que precisa morrer. Fortalece aquilo que nasceu de ti. Produz em nós fruto digno de arrependimento. E que, quando o mundo olhar para tua igreja, não encontre apenas palavras sobre Jesus, mas vidas nas quais Jesus está sendo formado.
Em nome de Cristo. Amém.
Versículo para memorizar
Eu batizo vocês com água para arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de carregar as sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo.
(Mt 3:11)
Perguntas para reflexão
- Quando penso em minha aceitação diante de Deus, em que sou tentado a confiar além de Cristo? ¶
- Qual é a diferença entre sentir culpa pelo pecado e arrepender-se verdadeiramente dele? ¶
- João disse: “Produzam fruto digno de arrependimento” (Mt 3:8). Que frutos concretos podem revelar uma mudança verdadeira de direção? ¶
- Como Ef 2:8-10 nos ajuda a distinguir entre ser salvo pelas obras e ser salvo para uma vida de boas obras? ¶
- Existe alguma área da minha vida na qual parei de lutar contra algo que Deus chama de pecado? ¶
- Como podemos ensinar a necessidade da santificação sem transformar a vida cristã em legalismo? ¶
- O que significa, na prática, chegar diante de Deus “com as mãos vazias”? ¶
- Se Deus não tem “netos”, de que maneira minha fé precisa ser pessoal e não simplesmente uma extensão da fé de minha família? ¶
- Que evidências da obra do Espírito Santo consigo perceber em minha vida hoje? ¶
- Se João Batista dissesse a mim: “Prepare o caminho do Senhor”, o que precisaria ser endireitado? ¶
- Sermão
- 52 Histórias da Bíblia
- Mateus
- Arrependimento