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Sermões52 Histórias da Bíblia32 de 32

Entrada triunfal de Jesus: que tipo de rei é este?

O Rei que veio montado num jumentinho

Diego Gonçalves20 min de leitura3.979 palavras

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Neste texto

Texto-base: Lc 19:28-44; Mt 21:1-11

Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta.

(Zc 9:9, ARA)

Introdução

Há algumas semanas, vimos Jesus chamar Lázaro para fora do túmulo. João conta que, por causa desse milagre, muitos saíram de Jerusalém para receber Jesus (Jo 12:17-18). Hoje chegamos ao começo da última semana da vida de Jesus na terra, a Semana da Paixão.

Antes de abrirmos o texto, quero contar uma coisa da minha casa. Minha esposa trabalha com lives no TikTok Shop e recebe dos fornecedores amostras dos produtos para gravar os vídeos e fazer as lives. Por isso, lá em casa quase sempre estamos esperando alguma entrega. E nós já conhecemos o som dessa espera. Geralmente a entrega vem de moto, e o motoboy faz muito barulho quando chega. Quando ele para no portão, a casa inteira fica sabendo.

Mas, às vezes, a entrega vem de carro. O carro para em frente ao portão quase em silêncio. O entregador já está lá fora, e nós continuamos dentro de casa, atentos ao barulho da moto. Não percebemos a chegada, porque estávamos esperando outro som.

Hoje vamos ver uma cidade inteira que esperava uma visita. Ela esperava havia séculos. Quando a visita chegou, a cidade não a reconheceu, porque esperava outro som.

Durante três anos, Jesus evitou a fama. Curava alguém e pedia que não contasse a ninguém. Quando os irmãos insistiram para que ele se mostrasse na festa, respondeu: “O meu tempo ainda não chegou” (Jo 7:6). Quando o povo quis fazê-lo rei à força, retirou-se sozinho para o monte (Jo 6:15). Agora, porém, chegou a hora. Agora é Jesus quem organiza tudo. Ele escolhe o animal, o caminho e o dia. Ele quer que Jerusalém inteira veja.

Essa história é cheia de ironia. A multidão grita de alegria, e Jesus chora. No domingo, a cidade canta: “Bendito é o Rei!” Na sexta-feira, a cidade grita: “Crucifica-o!” O que aconteceu entre um dia e outro? Por que a mudança foi tão rápida? Porque Jesus não era o tipo de rei que eles queriam.

Mateus conta que, quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade se agitou, e o povo perguntava: “Quem é este?” (Mt 21:10). Essa é a nossa pergunta hoje. Que tipo de rei é este?

Leitura: Lc 19:35-40

Então, trouxeram o jumentinho a Jesus e, lançando sobre ele as suas vestes, ajudaram Jesus a montar. E, indo ele, estendiam no caminho as suas vestes. […] toda a multidão dos discípulos passou, jubilosa, a louvar a Deus em alta voz […] dizendo: Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas! Alguns dos fariseus […] lhe disseram: Mestre, repreende os teus discípulos. Mas ele lhes respondeu: Asseguro-vos que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão.

(Lc 19:35-40)

Para entender o texto

Ideia central. Jesus entra em Jerusalém como Rei, mas como o Rei da paz, que veio salvar do pecado, e não de Roma. Quem quer um Jesus do próprio jeito acaba rejeitando o Jesus que veio, e o Rei chora por quem recusa a paz que ele oferece.

O texto em contexto

Lucas organiza boa parte do evangelho como uma viagem. Em Lucas 9:51, Jesus decide ir para Jerusalém, e dez capítulos depois ele chega. O capítulo 19 começa em Jericó, com Zaqueu, e termina com uma frase que resume a viagem: “Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19:10).

Logo depois, Jesus conta a parábola das minas, porque estava perto de Jerusalém e aos discípulos parecia “que o reino de Deus havia de manifestar-se imediatamente” (Lc 19:11). Lucas avisa o leitor antes da entrada: as pessoas esperavam um reino para já, e do jeito delas.

A entrada acontece pelo monte das Oliveiras, de onde se avistavam a cidade e o templo. Em seguida vêm o choro sobre Jerusalém (Lc 19:41-44) e a purificação do templo (Lc 19:45-48). Depois disso, a semana segue com os debates no templo, a ceia, a prisão, o julgamento e a cruz.

João acrescenta um detalhe que liga esta semana à ressurreição de Lázaro: muitos saíram ao encontro de Jesus porque tinham ouvido falar desse milagre (Jo 12:17-18).

Era a semana da Páscoa. A cidade estava cheia de peregrinos, e a festa lembrava a saída do Egito, ou seja, a libertação do povo. Nessa época, a esperança de que Deus libertasse Israel de novo ficava no auge, e os romanos sabiam disso.

Considerações interpretativas

Jesus muda de atitude. Até aqui, Jesus pedia silêncio sobre quem ele era (Lc 9:21), dizia aos irmãos “o meu tempo ainda não chegou” (Jo 7:6) e se retirou quando quiseram fazê-lo rei à força (Jo 6:15). Agora ele mesmo prepara uma entrada pública. Em João, ele diz nessa mesma semana: “É chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem” (Jo 12:23).

O jumentinho. Um animal que ninguém tinha montado era próprio para uso sagrado (Nm 19:2; Dt 21:3; 1Sm 6:7). Montar o animal do rei era sinal de sucessão: Davi mandou pôr Salomão na mula dele para mostrar quem seria o rei (1Rs 1:33,38). Mateus cita Zacarias 9:9 (Mt 21:4-5). O versículo seguinte de Zacarias explica o sentido da cena: “Destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações” (Zc 9:10). O contraste entre o cavalo e o jumento está dentro da própria profecia.

As vestes e os ramos. Lucas fala só de vestes estendidas no caminho e não menciona palmas nem “Hosana”. Estender as vestes era aclamar um rei, como fizeram com Jeú (2Rs 9:13). Os ramos de palmeira estão em João 12:13. A palmeira tinha sentido de vitória nacional: quando os judeus retomaram a cidadela de Jerusalém no tempo dos macabeus, entraram nela com ramos de palmeira e cânticos (1 Macabeus 13:51).

Hosana. A palavra vem do Salmo 118:25: “Oh! Salva-nos, Senhor, nós te pedimos”. Quer dizer “salva, por favor” ou “salva agora”. O Salmo 118 fazia parte dos salmos cantados na Páscoa (Salmos 113 a 118), e o versículo 26 dá a frase da multidão: “Bendito o que vem em nome do Senhor”.

Paz no céu. No nascimento de Jesus, os anjos cantaram “paz na terra” (Lc 2:14). Na entrada, os discípulos cantam “paz no céu” (Lc 19:38). Muitos comentaristas notam o contraste: a paz está garantida diante de Deus, mas Jerusalém está a ponto de recusar a paz na terra (Lc 19:42).

As pedras. “As próprias pedras clamarão” lembra Habacuque 2:11: “Porque a pedra clamará da parede”. Lucas faz um jogo com a palavra: as pedras clamariam se os discípulos se calassem, e poucos versículos depois Jesus anuncia que não ficaria “pedra sobre pedra” na cidade (Lc 19:44). Isso aconteceu no ano 70, quando o exército romano, comandado por Tito, cercou Jerusalém, construiu um muro em volta e destruiu a cidade e o templo.

O choro. Em João 11:35, diante do túmulo de Lázaro, o verbo fala de lágrimas. Em Lucas 19:41, o verbo é o do choro alto, do lamento. Jesus soluça sobre a cidade.

A multidão. Lucas chama quem canta de “multidão dos discípulos” (Lc 19:37), em boa parte peregrinos da Galileia. A multidão que grita “Crucifica-o!” na sexta-feira (Lc 23:21) foi incitada pelos principais sacerdotes (Mc 15:11), e não é possível garantir que eram as mesmas pessoas. Por isso falamos da cidade, que passou da aclamação à rejeição, e da expectativa política que estava em todos, inclusive nos discípulos: “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel” (Lc 24:21).

A leitura arminiana-wesleyana do choro. Jesus chora porque a cidade podia ter recebido a paz e recusou: “Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos […] e vós não o quisestes!” (Lc 13:34). Lemos aqui uma oferta verdadeira de salvação, que pode ser recusada, e um Deus que “não tem prazer na morte do perverso” (Ez 33:11). Na leitura reformada calvinista, esses textos costumam ser explicados pela distinção entre a vontade revelada de Deus, que convida a todos, e a vontade decretiva, ou pela compaixão humana de Jesus.

O jumentinho: um rei que vem em paz (Lc 19:29-35)

Jesus chega perto de Betfagé e de Betânia, junto ao monte das Oliveiras. Chama dois discípulos e dá uma ordem bem específica:

— Vão ao povoado que está adiante. Lá vocês encontrarão um jumentinho amarrado, que ninguém jamais montou. Soltem-no e tragam-no. Se alguém perguntar por que o estão soltando, digam: “O Senhor precisa dele.”

Tudo aconteceu exatamente assim. Jesus sabia onde estava o animal, o que o dono perguntaria e o que responder. Nada naquela semana surpreendeu Jesus.

Mas por que um jumento? Jesus poderia ter entrado a pé, como sempre fazia. Poderia ter pedido um cavalo. Por que um jumentinho?

Em primeiro lugar, porque era um sinal de realeza

Em 1 Reis 1, o rei Davi está velho e acamado. Um dos filhos dele, Adonias, já se declara rei por conta própria. Então Davi ordena que ponham Salomão na mula do rei e o levem para ser ungido (1Rs 1:33). Montar o animal do rei era anunciar a todos: este é o herdeiro do trono. Agora o Filho de Davi entra montado em Jerusalém. Quem conhecia as Escrituras entendeu a mensagem.

Em segundo lugar, porque cumpria a profecia

Cerca de quinhentos anos antes, o profeta Zacarias escreveu:

Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta.

(Zc 9:9, ARA)

É o nosso versículo para memorizar nesta semana. Observe as palavras: justo, salvador, humilde. Jesus não cumpriu essa profecia por acaso. Ele escolheu cumpri-la diante de todos.

Em terceiro lugar, porque o jumento revela que tipo de reino é este

Leiamos juntos o versículo seguinte de Zacarias:

Destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações.

(Zc 9:10, ARA)

Naquele tempo, o cavalo era um animal de guerra. O rei conquistador entrava na cidade a cavalo, com soldados à frente e espada na cintura. Jesus escolhe um jumentinho. Sem dizer uma palavra, ele anuncia:

— Eu sou o Rei. Mas não vim fazer guerra contra Roma. Vim fazer a paz entre Deus e vocês.

Paulo explica o resultado em Romanos 5:1: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” Ser justificado quer dizer ser declarado justo, absolvido diante de Deus. Essa é a paz que o Rei veio trazer.

Confesso que, às vezes, também quero um Jesus a cavalo. Um Jesus que chegue derrubando tudo. Um Jesus que resolva as coisas pela força. Um Jesus que acabe com quem me incomoda. Mas ele vem montado num jumentinho. Vem manso. E nos chama para a mesma mansidão.

Há ainda um detalhe nesta parte: “O Senhor precisa dele.” Jesus usou um animal emprestado, simples, que ninguém tinha montado. Ele continua agindo assim. Usa pessoas simples, que ninguém nota. Talvez a mensagem de hoje seja para você: o Senhor precisa de você.

O desfile: “Hosana”, salva-nos agora (Lc 19:36-40)

Enquanto Jesus desce o monte das Oliveiras, o povo começa a estender as vestes no caminho. Esse também era um gesto de realeza. Quando Jeú foi ungido rei de Israel, os companheiros tomaram os mantos, estenderam-nos debaixo dele e proclamaram: “Jeú é rei!” (2Rs 9:13).

João acrescenta que o povo tomou ramos de palmeira (Jo 12:13). E a palmeira tinha história. Cerca de cento e cinquenta anos antes, quando os judeus retomaram a fortaleza de Jerusalém, entraram na cidade com ramos de palmeira e cânticos (1 Macabeus 13:51). Ou seja, ramos de palmeira nas mãos eram uma bandeira de libertação, como a bandeira do Brasil em dia de jogo da Copa. Todos sabiam o que aquilo significava.

Então vem o clamor. Lucas diz que “toda a multidão dos discípulos” começou a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que tinha visto: “Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas!”

Mateus e Marcos contam que eles gritavam “Hosana”. Muitas vezes cantamos “Hosana” como uma aclamação de alegria. Porém, “Hosana” é um pedido de socorro. Quer dizer “salva, por favor”, “salva-nos agora”. Eles estavam citando o Salmo 118:

Oh! Salva-nos, Senhor, nós te pedimos; oh! Senhor, concede-nos prosperidade! Bendito o que vem em nome do Senhor.

(Sl 118:25-26, ARA)

Esse salmo era cantado na Páscoa, e todos os peregrinos o sabiam de cor. Imagine a cena: milhares de pessoas, num caminho de pedras, clamando a um homem montado num jumentinho: “Salva-nos agora!”

O pedido estava certo. Jesus veio, de fato, para salvar. A pergunta é: salvar do quê? Voltaremos a essa pergunta daqui a pouco.

A reação dos fariseus

No meio da festa, alguns fariseus se aproximam de Jesus e pedem:

— Mestre, repreende os teus discípulos.

Por quê? Porque entenderam muito bem o que estava acontecendo. Um homem estava sendo aclamado como Messias, o rei prometido, às portas de Jerusalém, na semana da Páscoa, com soldados romanos por toda parte. Pouco tempo antes, os líderes haviam dito: “Se o deixarmos assim, todos crerão nele; depois, virão os romanos e tomarão não só o nosso lugar, mas a própria nação” (Jo 11:48). Para eles, aquele louvor era perigoso.

Jesus responde: “Asseguro-vos que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão.” Jesus não manda o povo se calar. Ele diz que, se o povo se calar, até as pedras do caminho clamarão. A criação reconhece o Criador, mesmo quando os líderes religiosos não o reconhecem.

Pergunto a mim mesmo e a você: quanto louvor damos a Jesus em voz alta? Gritamos no estádio, nas festas, quando o nosso time marca um gol. Mas, na hora de louvar a Deus ou de dizer a um colega de trabalho em quem cremos, ficamos em silêncio. Deus não fica sem testemunhas. Se o povo dele se calar, ele fará as pedras falarem. Mas seria uma vergonha que as pedras fizessem o que cabia a nós fazer.

O mal-entendido fatal: de “Hosana” a “Crucifica-o”

Avancemos agora cinco dias. É sexta-feira. Jesus está diante de Pilatos, o governador romano. Pilatos propõe soltar um preso, e a multidão grita: “Fora com este! Solta-nos Barrabás!” (Lc 23:18).

Quem era Barrabás? Lucas conta que ele estava preso “por causa de uma sedição na cidade e também por homicídio” (Lc 23:19). Sedição é revolta, levante contra o governo. Ou seja, a multidão escolheu um revoltoso. Trocou o Rei montado num jumentinho por um homem de espada. Logo depois veio o grito: “Crucifica-o! Crucifica-o!” (Lc 23:21).

Como uma cidade passa de “Hosana” a “Crucifica-o” em cinco dias? Não sabemos se foram as mesmas pessoas. Marcos conta que os principais sacerdotes incitaram a multidão (Mc 15:11). Mas a cidade que recebeu Jesus com festa no domingo o entregou na sexta-feira.

Por quê? Porque projetaram em Jesus as próprias expectativas. Queriam um libertador político. Alguém que expulsasse os romanos. Alguém que acabasse com os impostos pesados. Alguém que devolvesse a glória de Israel.

E não era só a multidão. Os próprios discípulos pensavam assim. Depois da cruz, dois deles caminhavam desanimados para Emaús e disseram: “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel” (Lc 24:21). “Nós esperávamos.”

Eles queriam ser salvos da opressão de fora, que era Roma. Jesus veio salvar da opressão de dentro, que é o pecado. No começo do evangelho de Mateus, o anjo já havia anunciado: “ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1:21). O reino de Jesus também transforma a cidade, mas começa pelo coração, e não pela espada.

Quando o povo percebeu que Jesus não derrubaria Pilatos, quando o ouviu falar em amar os inimigos (Lc 6:27) e viu que ele caminhava para a cruz, sentiu-se traído. Aqui há uma lição dura. A adoração falsa se transforma em ódio quando Deus não faz o que queremos.

Isso também acontece conosco. Às vezes ficamos com raiva de Deus porque ele não agiu como esperávamos. Pedimos a cura, e a cura não veio. Pedimos o emprego, e o emprego não veio. Pedimos que Deus resolvesse uma situação no país, na cidade ou na família, e ele não a resolveu do nosso jeito. Confesso que eu também já cobrei de Deus que agisse do meu jeito.

Quero ser claro. Deus cura. Deus provê. E a Bíblia nos ensina a apresentar a ele os nossos pedidos (Fp 4:6). O problema começa quando o pedido se torna condição para a adoração: “Eu te louvo, Senhor, se…”, “Eu continuo na igreja, Senhor, desde que…”. O profeta Habacuque aprendeu a orar de outra forma:

Ainda que a figueira não floresce, nem há fruto na vide […] todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação.

(Hc 3:17-18, ARA)

Por isso, pergunto: você adora Jesus por quem ele é, ou pelo que você quer que ele faça?

As lágrimas do Rei (Lc 19:41-44)

Voltemos ao domingo. O desfile está no auge. Pessoas cantando, vestes no chão, ramos nas mãos. Do alto do monte das Oliveiras, avista-se a cidade inteira, com o templo brilhando ao sol. Então Jesus para. Olha para Jerusalém. E chora.

Há algumas semanas, diante do túmulo de Lázaro, vimos que Jesus chorou, e ali a palavra fala de lágrimas que descem. Aqui Lucas usa outra palavra. É o choro alto, de lamento. Jesus soluça. No meio da festa, o Rei chora. E diz:

Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos.

(Lc 19:42, ARA)

O nome Jerusalém lembra a palavra hebraica shalom, que quer dizer paz. A cidade da paz não reconheceu o que lhe traria a paz. Em Belém, os anjos cantaram “paz na terra” (Lc 2:14). Aqui, os discípulos cantam “paz no céu”. Diante de Deus, a paz já está garantida. Na terra, Jerusalém a está recusando.

Então Jesus anuncia o que aconteceria. Os inimigos cercariam a cidade de trincheiras, apertariam o cerco por todos os lados, arrasariam a cidade e os seus filhos e não deixariam pedra sobre pedra (Lc 19:43-44). Cerca de quarenta anos depois, no ano 70, foi exatamente o que aconteceu. O exército romano cercou Jerusalém, construiu um muro ao redor, fez a cidade passar fome e destruiu a cidade e o templo.

Lembra-se das pedras? No domingo, Jesus disse que as pedras clamariam. Quarenta anos depois, as pedras do templo caíram uma a uma.

E qual foi o motivo? Jesus diz: “porque não reconheceste o tempo da tua visitação” (Lc 19:44). Visitação quer dizer visita. No começo do evangelho de Lucas, Zacarias, pai de João Batista, canta: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo” (Lc 1:68). Deus veio visitar a sua cidade. Bateu à porta. E a cidade estava ocupada demais com a religião e a política para perceber quem estava passando. Esperava outro som.

O coração de Deus

As lágrimas de Jesus revelam o coração de Deus. Deus não tem prazer no juízo. Por meio do profeta Ezequiel, ele disse: “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva” (Ez 33:11). Alguns capítulos antes, Jesus já havia dito sobre Jerusalém: “Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Lc 13:34).

Observe: “quis eu” e “vós não o quisestes”. Jesus quis. A cidade recusou. Ninguém chora por uma porta que nunca esteve aberta. Jesus chorou porque a paz estava ali, de verdade, ao alcance daquelas pessoas, e elas disseram não. O juízo veio como consequência trágica da paz recusada.

Isso me faz pensar em duas coisas. A primeira: por quem eu choro? Jesus chorou por uma cidade que o rejeitaria. Eu choro pelo meu vizinho que está longe de Deus? Pelo filho, pelo neto, pelo colega que ainda não conhece esse Rei?

A segunda: Deus continua visitando. Às vezes ele nos visita com uma convicção que não nos deixa dormir. Às vezes, com um chamado que não sai da nossa mente. Às vezes, com uma palavra, num culto como este. Paulo escreveu: “Eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação” (2Co 6:2). Não deixe esse momento passar.

Conclusão

Lembra-se do entregador que chega de carro, quase sem barulho? Ele está no portão, e quem está dentro de casa continua esperando o som da moto. Foi o que aconteceu com Jerusalém. A cidade esperava o barulho de um cavalo de guerra, e o Rei chegou montado num jumentinho. O Rei passou, e a cidade olhava para outro lado.

Jesus chorou por essa cidade. E ainda hoje ele continua batendo à porta:

Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.

(Ap 3:20, ARA)

Então, que tipo de rei é este? Um rei que entra num jumentinho, e não a cavalo.

Que tipo de rei é este? Um rei que veio nos salvar do pecado, e não apenas dos nossos problemas.

Que tipo de rei é este? Um rei que ouve “Hosana” no domingo e “Crucifica-o” na sexta-feira, e mesmo assim vai para a cruz.

Que tipo de rei é este? Um rei que chora pela cidade que o rejeitará.

Que tipo de rei é este? Um rei que ainda hoje bate à porta.

Agora quero falar a você. Se você tem adorado Jesus pelo que ele lhe dá, hoje é dia de adorá-lo por quem ele é. Se você ainda está em guerra com Deus, tentando provar que é bom o bastante e justificar a própria vida, hoje é dia de aceitar a paz que o Rei veio trazer. Essa paz não se compra. Ela se recebe.

E, se Deus está visitando você hoje, com uma convicção, com um chamado, com esta palavra, não espere outro som. Abra a porta. Se você nunca recebeu esse Rei, pode recebê-lo agora, dizendo a ele: “Senhor Jesus, eu te recebo como meu Rei e meu Salvador. Reina sobre mim.”

Eles queriam um rei para tirar Roma da cidade. Jesus veio tirar o pecado do coração. Oro para que, quando o Rei passar pela nossa rua, encontre alguém em casa para recebê-lo.

Perguntas para reflexão

  1. Qual é o significado de Jesus entrar montado em um jumento em vez de um cavalo de guerra? Como isso mostra a natureza do Reino dele?
  2. O que quer dizer “Hosana”? O que o povo pensava que estava pedindo, e o que Jesus realmente veio trazer?
  3. Por que Jesus chorou no meio de um desfile de vitória? O que isso nos ensina sobre a compaixão de Deus pelos perdidos?
  4. Muitas vezes ficamos com raiva de Deus porque ele não agiu como esperávamos: não curou, não deu o emprego, não resolveu o problema. Você adora Jesus por quem ele é, ou pelo que você quer que ele faça?
  5. Jesus veio trazer paz com Deus. Você já aceitou essa paz, ou ainda está “em guerra”, tentando justificar a própria vida?
  6. Deus está visitando a sua vida hoje com convicção ou com um chamado específico? O que você vai fazer para não deixar esse momento passar?

Oração

Rei humilde, que vieste montado em um jumentinho. Confessamos que muitas vezes te buscamos pelas razões erradas. Queremos um Deus que resolva nossos problemas políticos e financeiros, mas resistimos a um Deus que confronta nosso pecado e pede nossa vida. Perdoa-nos por gritarmos “Hosana” quando tudo vai bem e te abandonarmos quando a cruz aparece. Reina sobre nós, não como queremos, mas como tu és. Amém.


Citações bíblicas: Almeida Revista e Atualizada (ARA), © Sociedade Bíblica do Brasil. Todos os direitos reservados.

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