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Lucas 15O escândalo da graça nas três parábolas
O escândalo da graça nas parábolas de Lucas 15
Neste estudo
- O motivo das parábolas: Jesus recebe pecadores (vv. 1-3)
- A ovelha perdida: o pastor que sai para buscar (vv. 4-7)
- A moeda perdida: a mulher que acende a lâmpada (vv. 8-10)
- O filho que partiu: a miséria e o “cair em si” (vv. 11-19)
- O pai que corre: a festa da graça (vv. 20-24)
- O filho que ficou: a armadilha de quem nunca saiu de casa (vv. 25-32)
- A pergunta que fica sem resposta (vv. 31-32)
Quem costuma viajar de ônibus ou avião, ou quem já passou uma tarde num shopping lotado, certamente já reparou numa portinha discreta com uma placa conhecida: “Achados e Perdidos”. É ali que vão parar chaves esquecidas em bancos de praça, carteiras caídas no chão da praça de alimentação, casacos deixados no cinema e documentos de passageiros distraídos.
O que chama a atenção naquele departamento é que o objeto perdido não tem como voltar sozinho. Uma chave esquecida não tem pernas nem vontade própria. Ela depende de alguém que dê falta dela, volte pelo mesmo caminho e se dê ao trabalho de procurar até encontrar.
No capítulo 15 do Evangelho de Lucas, Jesus lida exatamente com o tema do que foi perdido e do que é achado. Só que o contexto dessa conversa é tenso. Os líderes religiosos da época, os fariseus e os escribas, estavam escandalizados porque Jesus se sentava à mesa com gente de má reputação, abrindo a porta do Reino para cobradores de impostos e pessoas de vida desmoralizada. Para os religiosos, Deus era um fiscal pronto para punir qualquer desvio. Para Jesus, o coração de Deus é o de um Pai que não descansa enquanto o perdido não volta para casa.
O motivo das parábolas: Jesus recebe pecadores (vv. 1-3)
“E chegavam-se a ele todos os publicanos e pecadores para o ouvirem. E os fariseus e escribas murmuravam, dizendo: Este recebe aos pecadores, e come com eles. E ele lhes propôs esta parábola, dizendo:”
(Lucas 15:1-3, Bíblia Livre)
Primeiro, a observação. Quem se aproxima de Jesus são os publicanos e os pecadores, e eles vêm para ouvir. Quem fica de longe são os fariseus e os escribas, e eles só murmuram. A acusação deles diz mais do que pretendia: “Este recebe pecadores e come com eles”. Comer junto era sinal de comunhão e de aceitação. Os fariseus chamam de escândalo exatamente aquilo que é o evangelho: o Filho de Deus recebe pecadores.
Segundo, a interpretação. O versículo 3 fala de “uma parábola”, no singular, embora Jesus conte três histórias. É uma pista de leitura: as três são uma só resposta ao murmúrio. Jesus responde à pergunta “por que o senhor recebe essa gente?” mostrando quem Deus é.
Por fim, a aplicação. Quando nos incomoda quem Jesus recebe, convém perguntar de que lado da mesa estamos.
A ovelha perdida: o pastor que sai para buscar (vv. 4-7)
“Quem de vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai em busca da perdida, até que a encontre? E encontrando-a, não a ponha sobre seus ombros, com alegria? E vindo para casa, não convoque aos amigos, e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei minha ovelha perdida? Digo-vos, que assim haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento.”
(Lucas 15:4-7, Bíblia Livre)
A primeira história é a do pastor que tem cem ovelhas e perde uma. A ovelha é um animal indefeso, de vista curta, que se afasta do rebanho e depois não sabe voltar. O pastor deixa as noventa e nove e vai atrás da desgarrada “até que a encontre”. Quando acha, não a traz arrastada nem repreendida. Põe a ovelha nos ombros, “com alegria”, e chama os vizinhos para a festa.
Quem busca é o pastor, do começo ao fim. A ovelha não faz nada para ser achada. É a graça que vai à frente, o que a tradição wesleyana chama de graça preveniente: antes que alguém procure a Deus, Deus já saiu à procura (Lucas 19:10; Ezequiel 34:11-16; João 10:11). O versículo 7 acrescenta que o céu se alegra com um pecador que se arrepende. O arrependimento é a resposta do perdido à busca do pastor, e é por isso que a festa acontece.
Há ainda uma ironia que os fariseus devem ter notado. Os “noventa e nove justos que não precisam de arrependimento” são os que se achavam justos. Jesus não diz que existam pessoas assim, e o resto do capítulo mostra que o irmão mais velho também estava perdido.
A moeda perdida: a mulher que acende a lâmpada (vv. 8-10)
“Ou que mulher, tendo dez moedas de prata, se perder a uma moeda, não acende a lâmpada, e varre a casa, e busca cuidadosamente até a achar? E achando-a, não chame as amigas e as vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a moeda perdida! Assim vos digo, que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.”
(Lucas 15:8-10, Bíblia Livre)
A segunda história é a da mulher que perde uma de suas dez moedas de prata dentro de casa. A moeda escorrega da mão, rola para baixo de um móvel escuro e fica quieta no meio da poeira. Ela está perdida e não sabe que está perdida. A mulher acende a lâmpada, varre cada canto “cuidadosamente” e só para quando acha, chamando as vizinhas para comemorar.
As duas primeiras histórias se completam. A ovelha se perde fora de casa, no pasto, e a moeda se perde dentro de casa. Jesus ensina que há pessoas perdidas longe e há pessoas perdidas bem perto, dentro de ambientes religiosos, sem enxergar a própria miséria espiritual. Nos dois casos o texto diz o mesmo: o que estava perdido é procurado, achado e celebrado, e a alegria chega até a presença dos anjos de Deus (v. 10). A salvação é obra de Deus do começo ao fim, “pela graça, mediante a fé” (Efésios 2:8).
O filho que partiu: a miséria e o “cair em si” (vv. 11-19)
“E disse: Um certo homem tinha dois filhos. E disse o mais jovem deles ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertencem. E ele lhe repartiu os bens. E depois de não muitos dias, o filho mais jovem, juntando tudo, partiu-se para uma terra distante, e ali desperdiçou seus bens, vivendo de forma irresponsável. E ele, tendo já gastado tudo, houve uma grande fome naquela terra, e ele começou a sofrer necessidade. E foi, se chegou a um dos cidadãos daquela terra; e este o mandou a seus campos para alimentar porcos. E ele ficava com vontade de encher seu estômago com os grãos que os porcos comiam, mas ninguém as dava para ele.”
(Lucas 15:11-16, Bíblia Livre)
Na terceira parábola, a dinâmica chega ao ponto mais alto, com a clássica história do pai e dos seus dois filhos. O filho mais moço pede a sua parte da herança. No contexto do Oriente Médio antigo, pedir a herança com o pai ainda vivo equivalia a dizer, na cara dele: “Pai, eu preferia que o senhor estivesse morto; eu só quero o seu dinheiro”. O pai, numa demonstração desconcertante de liberdade e de dor, reparte os bens.
O rapaz junta tudo, viaja para uma terra distante e esbanja o que recebeu. Quando o dinheiro acaba e uma crise de fome atinge a região, ele se vê cuidando de porcos, a maior humilhação imaginável para um judeu, com vontade de comer a ração dos animais. A observação do texto é simples: cada passo é uma descida, e cada descida vem da escolha anterior. O pecado cobra o seu salário (Romanos 6:23), e aqui o salário é a fome.
“E ele, pensando consigo mesmo, disse: Quantos empregados de meu pai tem pão em abundância, e eu aqui morro de fome! Eu levantarei, e irei a meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu, e diante de ti. E já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como a um de teus empregados.”
(Lucas 15:17-19, Bíblia Livre)
No versículo 17, o rapaz “cai em si” (na tradução citada, “pensando consigo mesmo”). Esse é o despertar do arrependimento, que a própria graça provoca, como mostraram o pastor e a mulher que saem a buscar. O rapaz vê a sua situação, reconhece que pecou “contra o céu” e “diante de ti” e decide voltar. O discurso que ensaia ainda tem um ponto fraco, porque ele pede só uma vaga de empregado, como quem ainda quer ganhar o seu lugar. Quem se arrepende de verdade chega assim, sem entender direito o tamanho da graça que o espera.
O pai que corre: a festa da graça (vv. 20-24)
“E levantando-se, foi a seu pai. E quando ainda estava longe, o seu pai o viu, e teve compaixão dele; e correndo, caiu ao seu pescoço, e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu, e diante de ti; e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse a seus servos: Trazei a melhor roupa, e o vesti; e ponde um anel em sua mão, e sandálias nos seus pés. E trazei o bezerro engordado, e o matai; e comamos, e nos alegremos. Porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado. E começaram a se alegrar.”
(Lucas 15:20-24, Bíblia Livre)
Quando o filho ainda vinha longe, o pai o avista, se enche de compaixão e corre ao encontro dele. No mundo antigo, um patriarca idoso e respeitado não corria em público, porque precisava levantar as vestes e expor as pernas, o que era tido como vergonhoso. O pai aceita a vergonha para chegar antes e abraçar o filho maltrapilho, antes que alguém da aldeia pudesse humilhá-lo.
Observe a ordem. O pai abraça e beija o filho antes de ouvir o discurso, e a fala é cortada antes de chegar ao pedido de ser tratado como empregado. A confissão vem (v. 21), mas o perdão já tinha saído de casa para encontrá-lo. É a graça que vai primeiro, e o arrependimento do filho é a resposta a ela. Ninguém ganha o lugar de filho trabalhando. O pai devolve ao filho o lugar que ele tinha.
Os presentes dizem o mesmo. A melhor roupa cobre a vergonha, o anel devolve a autoridade da família, as sandálias são calçado de filho, porque empregados andavam descalços, e o bezerro engordado transforma o retorno numa festa para a aldeia inteira. A explicação do pai (v. 24) usa as palavras que ligam a parábola ao evangelho: “morto” e “reviveu”, “perdido” e “achado” (Efésios 2:4-5; Romanos 5:8). Quem estava morto no pecado recebe vida, e essa vida vem de graça, por meio de Cristo, e não por mérito de quem volta.
O filho que ficou: a armadilha de quem nunca saiu de casa (vv. 25-32)
“E seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, chegou perto da casa, ouviu a música, e as danças. E chamando para si um dos servos, perguntou-lhe: O que era aquilo? E ele lhe disse: Teu irmão chegou; e teu pai matou o bezerro engordado, porque ele voltou são. Porém ele se irritou, e não queria entrar. Então o seu pai, saindo, rogava-lhe que entrasse.”
(Lucas 15:25-28, Bíblia Livre)
A história poderia terminar com esse final emocionante, só que Jesus não para aí. O alvo principal dele não eram os publicanos, e sim os fariseus que ouviam a conversa. É aí que entra o filho mais velho. Ele estava trabalhando no campo. Ao se aproximar da casa e ouvir música e dança, pergunta a um servo o que estava acontecendo. Informado de que o irmão voltou são e salvo, ele se irrita e se recusa a entrar. Fica do lado de fora, de braços cruzados, com a amargura à mostra.
Repare que o pai sai de casa duas vezes: uma para correr ao encontro do caçula, outra para insistir com o mais velho. Ele busca os dois, com a mesma ternura.
“Mas o filho respondendo, disse ao pai: Eis que eu te sirvo há tantos anos, e nunca desobedeci tua ordem, e nunca me deste um cabrito, para que eu me alegrasse com meus amigos. Porém, vindo este teu filho, que gastou teus bens com prostitutas, tu lhe mataste o bezerro engordado.”
(Lucas 15:29-30, Bíblia Livre)
A fala do mais velho mostra o que havia por dentro. Ele fala em “servir”, como quem trabalha por salário, e em “nunca desobedeci”, como quem cobra o pagamento. Viveu a vida inteira debaixo do teto do pai, mas o jeito de se relacionar com ele era o de empregado atrás de recompensa. Ele nem consegue chamar o outro de irmão: diz “este teu filho”. É o mesmo espírito de quem murmura, no começo do capítulo, “este recebe pecadores”.
O caçula era um rebelde que assumiu os próprios erros e voltou humilhado. O mais velho obedecia por fora, enquanto o coração estava longe do amor do pai. O erro dele não está em ter obedecido, mas em achar que a obediência lhe dava o direito de cobrar de Deus e de julgar os outros. A Escritura ensina o contrário: ninguém é justificado pelas obras, mas “pela graça, mediante a fé” (Efésios 2:8-9). Quem se acha justo demais para a festa dos perdoados ainda não entendeu que também vive de graça.
A pergunta que fica sem resposta (vv. 31-32)
“E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas. Mas era necessário se alegrar e animar; porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha se perdido, e foi encontrado.”
(Lucas 15:31-32, Bíblia Livre)
A resposta do pai ao filho mais velho é de uma beleza cortante. Ele o chama de “filho”, palavra que o mais velho não usou para o pai nem para o irmão. Diz que ele está sempre ali e que tudo o que é do pai é dele. E corrige a linguagem: não “este teu filho”, mas “este teu irmão”. A alegria é “necessária”, porque é o que cabe quando alguém que estava morto volta à vida.
A parábola termina exatamente aí. Jesus não conta se o filho mais velho entrou no banquete ou se ficou emburrado no sereno. Deixou a história aberta de propósito, porque a resposta estava nas mãos dos fariseus que ouviam, e está nas nossas.
A pergunta de Jesus ecoa para cada um de nós: você vai entrar na festa da graça ou vai continuar do lado de fora, achando que as suas obras e a sua moralidade fazem de você alguém superior aos que tropeçaram?
Não importa se a sua história é a da ovelha que se perdeu longe, da moeda que caiu quieta na poeira ou do irmão mais velho amargurado na porta da igreja. Lucas 15 garante que existe um Deus incansável à sua procura. A graça de Deus não espera você se tornar digno para te acolher. Ela te acolhe nos braços e restaura a sua dignidade de filho, por meio de Cristo, e não por causa do que você fez.
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