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EstudosGênesis

Jesus acalma a tempestade em Lucas 8 e o medo do abismo

O mar na Bíblia e o choque dos discípulos

Diego Gonçalves12 min de leitura2.437 palavras

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Neste estudo

Eu estava cruzando o Rio Amazonas numa viagem missionária para visitar três comunidades ribeirinhas. Lembro perfeitamente do cansaço e do fascínio depois de seis horas de barco a partir de Manaus. A imensidão daquela água, cercada pelo paredão verde da floresta, já era uma experiência incrível por si só.

Mas a viagem ganhou um peso completamente diferente no meio do caminho, por causa de um comentário despretensioso. Um amigo que viajava comigo olhou para o rio e soltou uma informação que me pegou de surpresa: “Você sabia que existem trechos do Amazonas com mais de cem metros de profundidade?”

Confesso que, na hora, nem conferi se aquilo era verdade, embora a geografia hoje confirme que, em pontos como o canal de Óbidos, o rio chega a impressionantes 130 metros. Mas naquele instante a precisão matemática não importava. O que me paralisou foi a imagem. Olhar para aquela água, ora barrenta, ora escura, densa e opaca, e perceber que logo abaixo do nosso casco de madeira havia um abismo equivalente a um prédio de trinta andares me deixou temeroso e profundamente pensativo.

Essa sensação de pequenez, o frio na barriga diante do que está oculto na profundidade, é o cordão umbilical que nos liga aos homens do passado. Se um rio moderno consegue nos causar esse espanto, tente imaginar o que sentiam os pescadores da antiguidade diante do oceano aberto. Para os nossos antepassados, as grandes águas não eram um cenário de viagem nem um desafio geográfico. Eram o próprio estômago de um monstro faminto, o caos em estado bruto.

Para compreender o tamanho do choque dos discípulos quando viram Jesus caminhar sobre as ondas e calar uma tempestade com uma palavra, a gente precisa primeiro resgatar esse pavor ancestral.

O mar como inimigo: Babilônia e Grécia

Vamos deixar as águas do Amazonas e voltar no tempo, até as planícies da Mesopotâmia. É ali, gravada em tábuas de argila babilônicas, que encontramos a raiz de um dos maiores medos da humanidade: a ideia de que o universo nasceu de uma guerra sangrenta contra o abismo líquido.

Os escribas da Babilônia gravaram em argila um poema monumental conhecido como Enuma Elish, que significa “Quando no alto”. Esse texto antigo mostra que, para a mentalidade da época, a origem de tudo não era o amor nem a ordem, mas uma guerra violenta contra as águas caóticas.

No mito babilônico, o oceano primordial é personificado por uma deusa terrível chamada Tiamat. Ela é a mãe dos deuses, mas também a pior inimiga deles: representa o caos indomável, a força destrutiva da água salgada que ameaça engolir toda a existência. O universo só passa a existir quando um deus mais jovem, Marduque, enfrenta essa criatura das águas, corta o seu corpo gigantesco ao meio e, a partir dos pedaços do monstro marinho derrotado, organiza o céu e a terra (Enuma Elish, tábua 4).

Repare na densidade disso. Para o Antigo Oriente Próximo, o mundo habitável só existe porque alguém teve que amordaçar e esquartejar o mar. A criação nasce de um trauma, de uma batalha sangrenta contra o abismo líquido.

Séculos mais tarde, na Grécia, por volta do ano 700 a.C., o poeta Hesíodo escreve a sua Teogonia, que narra o nascimento dos deuses. Ele descreve o Mar nascendo diretamente da Terra, sem qualquer intimidade amorosa, como uma força bruta, estéril e furiosa. Quando o universo olímpico se estabelece, Zeus divide o governo do cosmos e entrega a autoridade sobre as águas ao irmão, Poseidon.

Quem lê a Ilíada de Homero, escrita por volta do ano 800 a.C., percebe o caráter assustador desse deus. Poseidon não é um protetor dos marinheiros, mas a própria personificação da imprevisibilidade do oceano. É orgulhoso, vinga-se por qualquer ofensa menor e é conhecido como Aquele que sacode a terra. Na Odisseia, quando o herói Ulisses comete uma impiedade, Poseidon não hesita em enviar monstros marinhos e tempestades devastadoras, destruindo barcos inteiros e afogando tripulações sem qualquer pingo de misericórdia. O mar grego exige sangue, exige sacrifícios e nunca pode ser totalmente confiável (Homero, Odisseia, livro 5).

Gênesis 1: o abismo vira matéria nas mãos do Criador

É com esse pano de fundo cultural e religioso que a gente abre as páginas das Escrituras. E aqui acontece o primeiro grande ponto de virada, um choque teológico que reorganiza tudo o que a humanidade pensava sobre o medo.

Em Gn 1:2, o texto hebraico diz que a terra era sem forma e vazia, e que as trevas cobriam a face do abismo. A palavra hebraica para abismo é tehom. Muitos estudiosos notam que ela lembra o nome de Tiamat, a deusa monstro da Babilônia, e veem aí um parentesco de vocabulário entre as línguas da região, embora outros considerem a semelhança apenas casual. John Walton, em O Mundo Perdido de Gênesis 1, está entre os que chamam atenção para esse eco.

Mas repare no silêncio ensurdecedor do texto bíblico. Em Gênesis não existe guerra. Não existe batalha cósmica. Deus não precisa duelar contra o mar para abrir espaço para o ser humano. O texto diz simplesmente que o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. O tehom, o abismo que apavorava as nações vizinhas, é aqui apenas matéria nas mãos do Criador. Deus não destrói o mar: junta as águas num só lugar, estabelece limites para elas e, de forma absolutamente revolucionária para a época, olha para o oceano domesticado e declara que aquilo era bom.

Ainda assim, a literatura de Israel não ignora o simbolismo terrível da água profunda. O Antigo Testamento está cheio de poesias que dialogam com esse medo antigo, mostrando que, embora o mar seja perigoso para o homem, ele está sob a coleira de Deus.

No livro de Jó, o próprio Deus responde do meio de uma tempestade e pergunta quem encerrou o mar com portas, quando ele rompeu e saiu da madre, quando eu lhe pus limites e disse: “até aqui virás, e não mais adiante, e aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas” (Jó 38:8-11). No Salmo 74, o salmista canta que Deus dividiu o mar com a sua força e esmagou as cabeças dos monstros marinhos e do Leviatã nas águas (Sl 74:13-14). O Leviatã, que na mitologia cananeia era o dragão do caos que devorava mundos, na teologia bíblica vira quase um animal de estimação de Deus, uma criatura que brinca no oceano enquanto o Criador sustenta o universo (como observa Walton em O Pensamento Antigo no Antigo Testamento).

Jonas e Paulo diante do mar

Mesmo assim, o ser humano continua vulnerável. O crente e o descrente se afogam do mesmo jeito quando a tempestade aperta. E a Bíblia mostra como os homens de Deus muitas vezes falharam em entender essa soberania compassiva.

Pense em Jonas. Quando recebe a ordem de ir para Nínive, ele foge exatamente em direção ao mar. Na sua teimosia, age muito mais como Poseidon do que como o Deus de Israel, e coloca em risco a vida de marinheiros pagãos inocentes. Quando a tempestade aperta e as ondas ameaçam partir o navio, os marinheiros clamam aos seus deuses de pedra e não encontram resposta. Então Jonas faz uma declaração que deve ter ecoado como um trovão nos ouvidos daqueles homens de todas as nacionalidades: “Eu sou hebreu e temo ao SENHOR, o Deus dos céus, que fez o mar e a terra seca” (Jn 1:9).

Jonas se entrega à morte, pede para ser lançado nas águas, e no momento em que o seu corpo atinge o oceano, o mar se aquieta. Aqueles homens pagãos foram tomados de um temor grandioso, não do mar, mas do Deus que governava o mar.

Avançando alguns séculos, encontramos o apóstolo Paulo enfrentando essa mesma fúria líquida. O livro de Atos descreve naufrágios dramáticos no Mediterrâneo (At 27). Mas Paulo não treme diante de Poseidon nem das lendas gregas de monstros abissais. Ele sabe que o navio pode quebrar, mas a missão da igreja não pode ser afogada, porque o Deus que fez o mar caminha com ele na história.

O Mar da Galileia e a tempestade de Lucas 8

Isso nos traz de volta ao coração da nossa história, às margens do Mar da Galileia, no primeiro século. Na verdade ele é um grande lago de água doce, localizado numa depressão geográfica a mais de 200 metros abaixo do nível do mar. Por causa dessa geografia única, os ventos frios que descem das montanhas ao redor se chocam com o ar quente e úmido do lago e provocam tempestades violentas, repentinas e avassaladoras.

Jesus começa o seu ministério escolhendo justamente pescadores daquela região, homens que ganhavam a vida naquelas águas perigosas, nas margens literais da sociedade e do território de Israel. Eles conheciam cada som da madeira, cada mudança no vento. Sabiam quando o lago estava prestes a se transformar em um cemitério líquido.

No Evangelho de Lucas encontramos uma das cenas mais tensas de toda a Bíblia (Lc 8:22-25). Jesus entra num barco com os discípulos e diz que vão passar para o outro lado do lago. Enquanto navegam, ele, exausto do trabalho com as multidões, cai no sono na popa. De repente desce uma tempestade de vento sobre o lago. O texto grego usa palavras fortes: o barco se enchia de água e eles corriam perigo de morte.

Imagine o desespero. Pescadores profissionais, homens que passaram a vida inteira enfrentando aquelas águas, entram em pânico total. Se os profissionais estão apavorados, é porque a situação passou do limite humano. Eles correm até a popa, sacodem o Mestre e gritam: “Mestre, Mestre, estamos perecendo!”

O que acontece em seguida é o detalhe que reorganiza toda a história. Jesus se levanta. Não faz uma oração longa, não acende incenso, não faz rituais como os sacerdotes antigos faziam para acalmar os deuses da natureza. O texto diz que ele repreendeu o vento e a fúria da água. A palavra grega usada ali para repreender é a mesma que Jesus usava para expulsar demônios. Ele fala com a tempestade como quem fala com um ser rebelde que invadiu uma propriedade privada. E o texto registra que o vento cessou e fez-se uma grande bonança (Lc 8:24).

Craig Keener, em suas pesquisas sobre o contexto histórico e cultural do Novo Testamento, explica que para os judeus daquela época o mar tempestuoso ainda guardava uma forte associação com o reino do mal, com as forças demoníacas e com o caos que tentava desorganizar a criação de Deus (Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Novo Testamento, sobre Lucas).

Quando Jesus se levanta no meio da madrugada, com as vestes encharcadas, olha para a escuridão do abismo e ordena que o mar se cale, os discípulos não veem apenas um milagre de livramento físico. Veem a desconstrução completa de toda a mitologia antiga. Naquela noite, Tiamat foi amordaçada sem que uma única gota de sangue fosse derramada. Naquela noite, o orgulho de Poseidon foi reduzido a nada pela simples palavra de um carpinteiro da Galileia.

Jesus então se vira para eles e faz uma pergunta que dói mais do que o tapa do vento frio: “Onde está a vossa fé?” E os discípulos, diz o texto, possuídos de temor e admiração, perguntavam uns aos outros: “Quem é este que até aos ventos e à água dá ordens, e eles lhe obedecem?” (Lc 8:25).

Note bem: eles sobreviveram à tempestade, mas o medo não foi embora. O medo mudou de direção. Eles deixaram de temer a morte nas águas e passaram a ter um temor reverente diante do homem que estava sentado ao lado deles.

A pergunta que fazem não é uma dúvida acadêmica. É o espanto de quem acabou de perceber que o Deus do Salmo 74, o Deus de Gênesis 1, o Deus de Jó 38 não estava mais escondido atrás de nuvens de glória no Templo de Jerusalém. Ele estava ali, dividindo o espaço apertado de um barco de pesca, com os pés sujos de areia e o poder de calar o caos com uma palavra.

O Eu Sou que caminha sobre as águas

Séculos de teologia tentaram transformar essa cena numa metáfora bonitinha sobre as tempestades da vida emocional ou financeira. Mas a história real mostra algo muito maior: o cristianismo não nasceu em gabinetes filosóficos isolados do mundo real. Nasceu no meio do suor, do cheiro de peixe, do sal que queima os olhos e do medo real da morte.

Quando o Evangelho de Mateus mostra Jesus caminhando sobre as águas e dizendo aos discípulos, no meio da noite, “Tende bom ânimo, sou eu, não temais” (Mt 14:27), a expressão grega que ele usa para “sou eu” é ego eimi, a tradução exata do nome sagrado revelado a Moisés na sarça ardente: “Eu Sou o que Eu Sou”. E caminhar sobre as águas era uma prerrogativa exclusiva do Criador no Antigo Testamento, como diz o livro de Jó, que só Deus estende os céus e anda sobre as ondas do mar (Jó 9:8).

Quando Jesus coloca os pés sobre a crista das ondas na Galileia, está assinando, em termos históricos e visuais, a sua própria identidade divina. É como se dissesse: o monstro que vocês temem é o meu tapete. O caos que ameaça afogar a vida de vocês está debaixo dos meus pés.

A igreja e as águas que sobem

Essa decisão de registrar os milagres com tamanha densidade teológica moldou a igreja através dos séculos. Quando os cristãos do segundo e do terceiro século enfrentavam as arenas de Roma e o martírio violento, não olhavam para Jesus como um filósofo de ideias bonitas. Olhavam para ele como o Senhor da história, aquele que tinha autoridade sobre a pior das tempestades políticas ou humanas.

Aquela oração desesperada dos pescadores no primeiro século é a mesma que sustentou Atanásio contra o império pagão no século IV. É a mesma que fez o coração de John Wesley arder em Aldersgate, no século XVIII, depois de ele mesmo ter enfrentado uma tempestade terrível no Atlântico e ter visto a fé inabalável dos irmãos moravianos enquanto o navio parecia afundar. Wesley percebeu que precisava daquela mesma fé que domina o medo do abismo.

A história humana continua rodando. As águas da nossa cultura continuam subindo, e o medo do desconhecido, do caos e da destruição continua batendo na lateral do nosso pequeno barco. Mas a história que atravessou os milênios permanece firme, ecoando no silêncio que se faz depois que o vento se cala.

A pergunta dos discípulos ainda flutua sobre as águas, desafiando cada um de nós a olhar para a popa do barco e decidir o que fazer com a presença daquele que governa o abismo. Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?