AssineApoie

Sermões52 Histórias da Bíblia27 de 27

Parábolas do Reino em Mateus 13: semeador, joio e tesouro

Quem tem ouvidos, ouça

Diego Gonçalves13 min de leitura2.550 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Texto-base: Mt 13:1-9, 18-46

Introdução

Na semana passada, a gente subiu o monte com Jesus. No Sermão do Monte, ele mostrou como vive quem pertence ao Reino. Hoje Jesus muda o jeito de ensinar. Agora ele quer mostrar o que é esse Reino e como ele chega.

Mas antes, deixa eu contar uma coisa que acontece muito em apartamento. Sabe aquele pacotinho de semente que fica pendurado perto do caixa do supermercado? Manjericão, cebolinha, salsinha. Custa quase nada. Imagina que alguém compra dois pacotinhos iguais. Mesma marca. Mesmo dia. Mesmo lote.

Planta o primeiro num vaso com terra boa, adubada, daquela que vem no saquinho. O segundo vai pra um vaso velho que tava esquecido na área de serviço. Terra dura, socada. Umas pedrinhas no meio. E um matinho que já tava lá antes. Os dois vasos vão pra mesma janela. Pegam o mesmo sol. Recebem a mesma água.

Um mês depois, um vaso tá cheio de folha. O outro tem um brotinho fraco, amarelado, que secou na primeira semana de calor. E aí, qual é a primeira coisa que a gente pensa?

— “Essa semente veio ruim.”

A gente culpa a semente. Quase nunca a gente olha pro vaso.

Jesus contou uma história muito parecida com essa. E com ela ele começa a ensinar por parábolas. Parábola é uma história terrena com um significado celestial. Ou seja, uma cena do dia a dia, de semente, de pão, de campo, que aponta pra Deus. Por isso tantas começam assim: “O Reino dos céus é semelhante a…”

Só que presta atenção numa coisa. As parábolas de Jesus não são ilustraçõezinhas fofas pra deixar o sermão dele mais leve, mas ferramentas de revelação e de julgamento. E curiosamente, a mesma história abre a verdade pra uns. E fecha a verdade pra outros.

Leitura: Mt 13:3-9

E de muitas coisas lhes falou por parábolas e dizia: Eis que o semeador saiu a semear.

E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e, vindo as aves, a comeram.

Outra parte caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra.

Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se.

Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram.

Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto: a cem, a sessenta e a trinta por um.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

(Mt 13:3-9)

Repara como Jesus termina. Todo mundo ali tinha orelha. Só que nem todo mundo tava ouvindo.

Por que parábolas? (Mt 13:10-17)

Os discípulos estranharam. Eles chegam pra Jesus e perguntam: “Por que lhes falas por parábolas?” (Mt 13:10) E a resposta de Jesus surpreende. Ele fala por parábolas pra criar uma divisão.

Em primeiro lugar, a parábola revela. Pros discípulos, Jesus diz: “a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus” (Mt 13:11). Mistério, na Bíblia, não quer dizer charada, mas uma coisa que tava escondida e que Deus agora resolveu mostrar. Pra quem chega com o coração aberto, a parábola abre o tesouro.

Em segundo lugar, a parábola esconde. Pras multidões endurecidas e pros fariseus, a mesma história fecha a porta. Jesus diz que eles, “vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem” (Mt 13:13).

Agora repara no versículo 15. Por que eles não ouvem? Jesus responde com Isaías (Is 6:9-10): o coração desse povo tá endurecido, e eles “fecharam os olhos” (Mt 13:15). Quem fechou os olhos? Eles mesmos. A parábola encontrou um coração que já tinha se fechado.

Sabe quando alguém começa a contar uma coisa baixinho numa roda de conversa? Quem quer ouvir chega mais perto. Quem não liga nem percebe que alguém falou. A parábola é assim. Ela exige que a gente se incline pra entender. Se a gente vem arrogante, vai achar que é só uma história boba sobre agricultura. Se a gente vem humilde, vai cavar até achar o tesouro.

E aí que tá. Isso não fala só dos fariseus, mas também da gente. Dá pra vir na igreja todo domingo e não ouvir nada. Eu também. Eu posso preparar um sermão a semana inteira e ficar surdo pro texto que eu mesmo vou pregar.

Por isso a pergunta de hoje é bem simples. Quando Jesus contar essas histórias, você vai chegar mais perto? Ou vai achar que já sabe?

O semeador e os quatro solos (Mt 13:1-9, 18-23)

Essa é a parábola mãe. Em Marcos, Jesus chega a perguntar: se vocês não entendem esta, como vão entender todas as outras? (Mc 4:13) Ela faz um diagnóstico do coração humano diante da Palavra de Deus.

Repara nos três elementos. O semeador é Jesus, e depois dele todo mundo que prega o evangelho. A semente é a Palavra do Reino, sempre boa e sempre potente. O que muda é o solo. E o solo é o coração.

Lembra do vasinho? A semente não veio ruim. Jesus mostra quatro solos.

À beira do caminho: o coração duro

Na Galileia, os campos eram cortados por trilhas. O povo passava a pé por ali todo dia. A terra virava chão batido. A semente cai e fica por cima. Não entra. E aí as aves vêm e comem. Jesus explica: o Maligno vem e arranca o que foi semeado no coração (Mt 13:19).

Esse é o coração cínico, indiferente. A Palavra bate e volta.

— “Já ouvi isso antes.”

— “Isso é coisa de crente.”

Ele nem chega a discordar. Ele só não deixa entrar.

O solo rochoso: o coração emocional

Esse solo engana. Jesus não tá falando de um terreno cheio de pedrinha solta, mas de uma camada fininha de terra em cima de uma laje de pedra. A semente germina rapidinho e, como não tem pra onde descer, sobe. Em poucos dias já tem broto e todo mundo fica animado. Só que vem o sol, e a planta sem raiz seca.

Jesus diz que essa pessoa recebe a palavra “logo, com alegria” (Mt 13:20). Mas, quando chega a angústia ou a perseguição por causa da palavra, ela tropeça e desiste (Mt 13:21). Esse é o entusiasta. Chora no culto, levanta a mão, posta versículo. Na primeira dificuldade, some. O problema desse solo não tá na alegria, mas na falta de raiz.

O solo espinhoso: o coração dividido

Esse é o vaso da área de serviço, com aquele matinho que já tava lá. Aqui a semente nasce e cresce. Só que os espinhos crescem junto e sufocam.

Jesus diz quais são esses espinhos (Mt 13:22). Em primeiro lugar, a ansiedade deste século. “Século” aqui quer dizer esta era, esta vida aqui embaixo. O boleto, o emprego por um fio, a preocupação com o filho, com a saúde, com o futuro… Em segundo lugar, a fascinação pelas riquezas. Fascinação quer dizer encanto, uma coisa que hipnotiza. O dinheiro promete segurança e paz, promete que agora vai.

Repara que esses espinhos são bem comuns. Crescem em qualquer casa. A pessoa quer Jesus. Mas quer o mundo também. E o espinho não mata de uma vez. Ele vai tirando o sol, a água, o espaço… O resultado é uma planta viva e sem fruto.

Confesso que esse é o solo que mais me assusta. Porque ele não parece perigoso. A gente continua vindo, cantando, servindo. Só que a Palavra tá sem ar.

A boa terra: o coração receptivo

Por fim, a boa terra. Jesus diz que essa pessoa ouve a palavra e a compreende (Mt 13:23). Ela ouve, compreende e frutifica: a cem, a sessenta e a trinta por um. Repara que nem todo mundo dá a mesma quantidade. Jesus não cobra cem de cada um, mas cobra fruto de todos.

Lucas acrescenta um detalhe: esses frutificam “com perseverança” (Lc 8:15). Por isso, a prova da salvação não é o crescimento inicial, mas o fruto final. Broto, até o solo rochoso dá. Fruto, só a boa terra.

A semente é boa. Agora a pergunta volta pra gente. Olhando pra sua vida hoje, qual desses solos parece mais com o seu coração? O que precisa ser capinado aí dentro pra você frutificar?

E tem uma boa notícia aqui. O Semeador também cuida do solo. Deus ara terra dura, tira pedra, arranca espinho. Foi isso que a gente pediu na oração de confissão hoje: “Ara a terra do nosso coração.”

O trigo e o joio (Mt 13:24-30, 36-43)

Se o Reino já chegou, por que o mal continua aí? Por que Deus não acaba com ele agora? Jesus responde com outra história.

Um homem semeou boa semente no campo dele. De noite, enquanto todo mundo dormia, o inimigo veio e semeou joio no meio do trigo. Joio é uma erva daninha que, no começo, é a cara do trigo. Mesma altura, mesma cor, mesma folha. Só quando sai a espiga dá pra ver a diferença.

Os servos percebem e já querem resolver.

— “Senhor, quer que a gente vá lá arrancar?”

E o dono diz: não. Se vocês arrancarem o joio agora, vão arrancar o trigo junto (Mt 13:29). Deixa os dois crescerem até a ceifa, que quer dizer colheita. Depois Jesus explica: o campo é o mundo, e a ceifa é o fim dos tempos (Mt 13:38-39).

Ou seja, a gente vive numa época de mistura. E essa mistura aparece até dentro da igreja. A igreja visível, essa que a gente vê, com rol de membros e banco de madeira, vai ter crente de verdade e crente de fachada sentados lado a lado. O julgamento final pertence a Deus, e não à gente. E ele vai acontecer na colheita.

Eu entendo os servos. A gente olha pro campo e quer resolver logo.

— “Aquele ali eu tenho certeza que é joio.”

Só que a gente enxerga folha. Deus enxerga a espiga. Quantas vezes eu já tive certeza sobre alguém e errei? Mas aí eu preciso parar e me perguntar: e eu? Antes de apontar o joio do campo, eu preciso olhar o que tá nascendo em mim.

E repara na paciência do dono. Ele não tá sendo fraco, mas paciente. Ele espera pra que todo o trigo amadureça. Pedro diz que o Senhor é longânimo, “não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3:9). Longânimo quer dizer paciente por muito tempo. A demora de Deus em fazer justiça é a misericórdia dele dando mais um dia pra alguém se voltar.

E Jesus fecha essa explicação do mesmo jeito que fechou a primeira: “Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt 13:43).

O grão de mostarda e o fermento (Mt 13:31-33)

Os judeus esperavam um Reino que chegasse como uma explosão. Um Messias que derrubasse Roma de uma vez. Jesus diz que o Reino chega de outro jeito.

O grão de mostarda

A mostarda é a menor de todas as sementes. Só que, quando cresce, vira a maior das hortaliças, ou seja, a maior planta da horta. Vira árvore, e os passarinhos vêm fazer ninho nos galhos.

Assim começou o Reino. Um bebê numa manjedoura em Belém. Um carpinteiro de Nazaré pregado numa cruz. Doze homens comuns, alguns deles pescadores da Galileia. Quem olhava aquilo achava que não ia dar em nada. Hoje esse Reino tá em todos os continentes. A mostarda mostra um crescimento visível, que dá pra ver de fora.

O fermento

Quem já fez pão em casa sabe. Você mistura um pouquinho de fermento na massa, cobre com um pano e deixa ela quietinha num canto. Ninguém vê nada acontecendo. Uma hora depois, a massa dobrou.

Jesus diz que uma mulher escondeu o fermento em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado (Mt 13:33). Era farinha pra muita gente. E um pouquinho dele tomou conta de tudo. O fermento mostra um crescimento invisível, por dentro, que vai entrando em tudo.

Por isso, não despreze os pequenos começos. O profeta Zacarias já perguntava: “quem despreza o dia dos humildes começos?” (Zc 4:10) O Reino de Deus é imparável, mas muitas vezes imperceptível no começo.

E a gente quer pé de mostarda pra ontem. A gente olha pro próprio ministério e acha pequeno, pro próprio crescimento espiritual e acha que tá parado, pro grupo de oração com três ou quatro pessoas e pensa que não vale a pena. Eu também desanimo com começo pequeno. Só que Jesus diz: continua. A árvore vai crescer. O fermento tá trabalhando, mesmo quando você não vê.

O tesouro e a pérola (Mt 13:44-46)

O Reino custa tudo. Mas vale mais do que custa.

Naquele tempo não tinha banco. Quando vinha guerra, o povo enterrava no chão o que tinha de valor. Às vezes o dono morria, e ninguém mais sabia onde tava. Anos depois, um homem tá trabalhando num campo e a enxada bate em alguma coisa. Ele cava e acha um tesouro. Jesus diz que ele, “transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo” (Mt 13:44).

Depois vem o negociante que procurava pérolas boas. Ele acha uma de grande valor e faz a mesma coisa: vende tudo e compra.

Repara numa diferença. O primeiro nem tava procurando e tropeçou no Reino; o segundo passou a vida procurando. Os dois terminam do mesmo jeito: vendem tudo. A salvação é de graça, mas o discipulado custa tudo.

Só que repara na cara desse homem. Ninguém olha pra ele e sente pena. Ele não tá fazendo um sacrifício, mas o melhor negócio da vida dele. O missionário Jim Elliot escreveu no diário dele: “Não é tolo aquele que dá o que não pode reter para ganhar o que não pode perder.” A gente entrega o que não consegue segurar: a vida, os bens, o controle… E ganha o que ninguém tira da gente: o Reino.

Você já sentiu essa alegria? De largar um pecado, um sonho pessoal, o controle da própria vida, e perceber que saiu ganhando? Ou seguir Jesus ainda parece um fardo pesado? Se parece fardo, talvez a gente ainda não tenha visto o tesouro direito.

Conclusão

Lembra dos dois vasinhos na janela? A semente, a janela e o sol eram os mesmos. O que mudou foi o vaso.

Hoje a semente caiu aqui, em todo mundo. Na mesma hora, no mesmo banco, pela mesma voz. E Jesus repete a mesma frase depois do semeador e depois do joio.

Tem alguém aqui com o coração duro, que já ouviu tudo isso antes? E quem se animou rápido, mas tá sem raiz, ou anda sufocado pela ansiedade e pelo dinheiro? E quem tá com a enxada na mão, querendo arrancar o joio dos outros, ou desanimado porque tudo parece pequeno, ou achando que Jesus custa caro demais? Ouça.

Quem tem ouvidos, ouça.

A semente é sempre boa. O solo é sempre a pergunta.

Tomara que a gente não saia daqui hoje achando que ouviu só uma história bonita sobre agricultura.

Oração

Senhor, Semeador fiel, tu lanças a tua Palavra com generosidade, até sobre terra dura. Perdoa-nos por tantas vezes termos ouvido sem ouvir.

Ara o nosso coração. Tira as pedras que não deixam a raiz descer. Arranca os espinhos da ansiedade e do dinheiro. Dá-nos paciência com o campo e humildade pra olhar o nosso próprio solo.

Ensina-nos a não desprezar os pequenos começos. Abre os nossos olhos pro tesouro, pra que vendamos tudo com alegria. Que a tua Palavra dê fruto em nós, a trinta, a sessenta e a cem por um.

Em nome de Jesus, amém.