
Sermões52 Histórias da Bíblia16 de 27
Provérbios e Eclesiastes: o sábio e o tolo diante de Cristo
O sábio e o tolo
Neste texto
- Um rei de joelhos pedindo um coração que ouve
- Provérbios, a vida como ela deveria ser
- O alicerce: o temor do Senhor
- Dois caminhos, duas mulheres, e uma pista que fica em aberto
- Como ler Provérbios sem se machucar
- Eclesiastes, a vida como ela frequentemente é
- Por que precisamos dos dois livros, e o que vem adiante
- Jesus, a Sabedoria de Deus
- Ouça, e confie
Texto-base: Pv 3:5-8 (NVI) | Versículo para guardar no coração: Pv 9:10
Como vocês estão logo após o dia dos namorados? Alguns trocaram presentes e estão muito felizes. Outros estavam esperando aquela cartinha especial chegar…
Se você não recebeu nenhuma cartinha no dia dos namorados não fique triste. Deus deixou 21 cartas no NT pra você: 13 paulinas e 8 gerais.
Então… meu conselho tanto pra você que está solteiro ou pra você que está se relacionando é este: leia as cartas que Deus escreveu pra você.
Agora, ainda esta tarde, imagine que Deus se aproxime de você e faça uma única pergunta: “Meu servo… Peça o que você quiser, e eu darei.” O que você pediria?
É sobre isso que nós vamos falar hoje. Vamos abrir nossas bíblias em Pv 3:5-8 e depois em Pv 9:10.
Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas.
Não seja sábio aos seus próprios olhos; tema o Senhor e evite o mal. Isso dará a você saúde ao corpo e vigor aos ossos.
(Pv 3:5-8, NVI)
“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é entendimento.”
(Pv 9:10, NVI)
Um rei de joelhos pedindo um coração que ouve
Tudo começa numa noite, numa cidade chamada Gibeão. O jovem rei Salomão acabara de assumir o trono do pai, Davi, e ainda não sabia direito o tamanho do peso que carregava nos ombros. Naquela noite Deus lhe aparece em sonho e faz uma oferta espantosa: “Pede o que queres que eu te dê” (1Rs 3:5). Salomão poderia ter pedido riquezas, vida longa ou a morte dos seus inimigos. Mas ele pede outra coisa.
No hebraico, ele pede um coração que ouve, capaz de discernir entre o bem e o mal para governar o povo (1Rs 3:9). E a Bíblia diz que essa escolha agradou ao Senhor (1Rs 3:10), de modo que Deus lhe deu um coração tão sábio que ninguém antes nem depois se compararia a ele (1Rs 3:12). Foi desse rei que vieram, segundo as Escrituras, milhares de provérbios e cânticos, e um conhecimento que ia das plantas aos animais (1Rs 4:32-33).
Guarde essa cena, porque ela define o que vamos estudar. Existe na Bíblia um grupo de livros que os estudiosos chamam de literatura de sabedoria. São principalmente Provérbios, Eclesiastes e Jó. Eles não tratam tanto da história da salvação ou da profecia, mas da vida de todo dia, de como criar os filhos, como falar, como trabalhar, como lidar com o dinheiro e como envelhecer.
E é importante entender o pano de fundo. Outros povos do antigo Oriente Próximo, como o Egito e a Babilônia, também tinham seus livros de sabedoria, e os próprios estudiosos notam, por exemplo, semelhanças entre uma seção de Provérbios e um antigo texto egípcio de instrução (compare Pv 22:17 em diante). Israel não vivia numa bolha. A diferença é que Israel reorganizou toda a sabedoria em torno de um único centro, que os outros povos não tinham. Esse centro é o Senhor, o Deus da aliança.
E aqui aparece a primeira surpresa do tema. A palavra hebraica para sabedoria é hokmah, e o seu sentido de base é habilidade. É a mesma palavra usada para o artesão Bezalel, que foi cheio do Espírito de Deus para trabalhar com talento o ouro e a madeira do tabernáculo (Êx 31:3). Sabedoria bíblica, portanto, não é o mesmo que ter um QI alto ou acumular informação. É a habilidade de viver bem, de fazer a escolha certa na hora complicada.
E Provérbios coloca diante de nós apenas dois caminhos: o da sabedoria e o da tolice. Vamos percorrê-los com cuidado, primeiro em Provérbios e depois em Eclesiastes, para no fim descobrir para onde apontam.
Provérbios, a vida como ela deveria ser
Provérbios nos apresenta o que poderíamos chamar de sabedoria normativa. Quer dizer, ele descreve como o mundo em geral funciona quando vivemos sob o governo de Deus. E ele se abre com uma frase que é a chave de tudo.
O alicerce: o temor do Senhor
Logo no primeiro capítulo está escrito: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 1:7), e a mesma ideia volta no capítulo nove, no nosso versículo para guardar: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência” (Pv 9:10). Essa palavra tem dois sentidos que andam juntos. É o ponto de partida, aquilo por onde se começa, e é também o fundamento, aquilo que sustenta o resto. Sem esse alicerce, nada do que vem depois fica de pé.
E o que é esse “temor”? Não é o pavor de quem espera um castigo. É a reverência de quem reconhece quem Deus é, é levar o Senhor a sério a ponto de Ele ser o centro a partir do qual tudo o mais é pesado e medido. Repare como Provérbios ensina isso. Os primeiros nove capítulos têm a forma de um pai instruindo o filho, e a expressão “ouve, filho meu” se repete como um refrão (Pv 1:8; Pv 4:1). A sabedoria, aqui, não é primeiro uma técnica que se aprende, mas uma relação de confiança que se recebe. Por isso uma pessoa pode ser brilhante, culta, premiada, e ainda assim, segundo a Bíblia, viver como um tolo, se ela monta a existência inteira ignorando o Deus que a criou. Isso não é insulto, é diagnóstico. É como montar um quebra-cabeças tendo jogado fora a tampa da caixa que mostra a figura completa. Algumas peças até encaixam, mas o desenho nunca aparece.
Dois caminhos, duas mulheres, e uma pista que fica em aberto
Para gravar esses dois caminhos na nossa memória, Provérbios faz algo poético. Ele personifica a sabedoria como uma mulher nobre que clama em alta voz nas ruas e nas praças, chamando a todos para a vida (Pv 8:1-4). E personifica a tolice como uma mulher sedutora, que oferece prazer escondido e fácil, mas cujos convidados terminam no mundo dos mortos (Pv 9:13-18). São dois convites que disputam a sua atenção, todos os dias, nas pequenas escolhas.
E há um detalhe nessa Senhora Sabedoria que precisa ficar em aberto por enquanto, porque vamos voltar a ele no final. No capítulo oito, a Sabedoria diz de si mesma que já existia antes da criação do mundo, que estava ao lado de Deus quando Ele firmou os céus e traçou os fundamentos da terra, como um arquiteto mestre ao seu lado (Pv 8:22-31). Essa passagem é uma das mais comentadas da Bíblia inteira, e por um bom motivo. Guarde essa imagem dela presente na criação. Ela é uma porta que se abre agora e que só vai se fechar quando chegarmos a Cristo.
Enquanto isso, veja o contraste prático. A pessoa sábia ouve conselho, aceita ser corrigida, trabalha com dedicação, controla a língua e é generosa, e a colheita disso, em geral, é vida, honra e segurança. A pessoa tola rejeita a correção, é preguiçosa, fala demais e age por impulso, e a colheita disso, em geral, é vergonha, perda e ruína (veja, por exemplo, Pv 10:4; Pv 12:1; Pv 15:1).
Como ler Provérbios sem se machucar
E aqui preciso explicar uma coisa que muda tudo na hora de ler esse livro, porque muita gente sofre por entender errado. Os provérbios não são promessas absolutas. Eles são princípios gerais, são probabilidades. Eles descrevem como as coisas costumam acontecer no mundo de Deus, e não como elas sempre, sem exceção, vão acontecer. É próprio do gênero do provérbio dizer a verdade de forma curta e geral, e não em forma de garantia jurídica.
Pegue o exemplo mais conhecido: “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele” (Pv 22:6). Isso é um contrato divino de que todo filho de pais crentes vai permanecer fiel? Não. É um princípio. Em geral, quando se educa bem, a tendência da colheita é boa. Mas há exceções dolorosas, e a própria Bíblia as conhece. Se você lê esse versículo como uma promessa mágica, então, quando um filho se afasta, você se afunda em culpa, como se Deus tivesse quebrado um acordo com você. E não foi isso que Ele disse. Essa única distinção, entre princípio e promessa, evita anos de noites sem dormir. Mas ela também nos prepara para a pergunta seguinte. Se a regra de Provérbios às vezes não se cumpre, o que fazemos quando a vida não fecha a conta? É exatamente aqui que entra o segundo livro.
Eclesiastes, a vida como ela frequentemente é
Se Provérbios nos dá a regra, Eclesiastes nos dá, com uma honestidade que assusta, as exceções. O autor se apresenta como Qohélet, palavra que costumamos traduzir por Pregador ou Mestre, aquele que reúne o povo para ensinar (Ec 1:1). E ele faz uma escolha de método que precisa ser entendida, ou o livro inteiro parece pessimista. Ele decide olhar para a vida, por boa parte do tempo, daquilo que ele chama de “debaixo do sol” (Ec 1:3). Quer dizer, ele examina a existência apenas pelo horizonte de baixo, dentro dos limites desta terra, como se não houvesse nada acima do sol. É uma experiência mental honesta. O que sobra da vida quando se tira a eternidade da conta?
E ele repete uma palavra como um martelo: hevel, que costumamos verter por “vaidade”, mas cujo sentido literal é sopro, vapor, fumaça (Ec 1:2). Já tentou segurar fumaça na mão? Você fecha o punho e, quando abre, não há nada. É essa a sensação. A vida, vista só por baixo, é passageira e escorregadia.
E o Pregador é corajoso ao apontar onde a régua de Provérbios parece falhar num mundo caído. Às vezes o justo recebe o que o injusto merecia, e o injusto recebe o que o justo merecia (Ec 8:14). Às vezes a pessoa trabalha a vida toda com sabedoria e precisa deixar tudo na mão de quem nem trabalhou e talvez desperdice (Ec 2:18-21). E, no fim, a morte nivela todo mundo, pois o sábio morre exatamente como morre o tolo (Ec 2:16; Ec 9:2-3). Eis a segunda porta que deixo aberta de propósito. O grande problema de Eclesiastes é a morte, que parece zerar todas as contas e tornar igual o sábio e o tolo. Segure essa pergunta, porque ela também só se fecha em Cristo.
Mas o Pregador não nos abandona no escuro. Depois de virar a vida do avesso, ele chega à conclusão de tudo: “Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda obra” (Ec 12:13-14). Repare onde ele desemboca. No mesmo lugar onde Provérbios começou, no temor do Senhor. O Pregador testa todos os caminhos de baixo do sol, o prazer, o trabalho, a riqueza, o saber, e descobre que nenhum deles, sozinho, segura o peso de uma vida. O sentido não está dentro da fumaça. Está naquele que está acima do sol.
Por que precisamos dos dois livros, e o que vem adiante
Antes de subirmos ao ponto mais alto, vamos juntar o que temos na mão, para que nada fique solto. Provérbios é a regra: ande na sabedoria e, em geral, colherá bênção. Eclesiastes é a exceção: há momentos em que a vida, vista por baixo, não faz sentido nenhum. E, na próxima semana, se Deus permitir, vamos olhar para Jó, que é o estudo de caso, a história de um homem justo para quem a regra simplesmente não funcionou, e que precisou aprender a confiar em Deus sem ter todas as respostas.
Nós precisamos dos três. Sem Provérbios, perdemos a direção e a bússola moral. Sem Eclesiastes, entramos em colapso de fé no primeiro golpe duro, porque achávamos que seguir a Deus era um contrato de sucesso garantido. Sem Jó, não sabemos o que fazer quando o sofrimento bate na nossa própria porta. A fé madura segura essas verdades ao mesmo tempo, na mesma mão. E agora precisamos levantar os olhos, porque ficaram duas portas abertas, a Sabedoria presente na criação em Provérbios 8, e o problema da morte em Eclesiastes. Há Alguém que fecha as duas de uma só vez.
Jesus, a Sabedoria de Deus
Certo dia, falando dos seus ouvintes, Jesus mencionou Salomão, aquele rei que pediu um coração que ouve, e disse uma frase que devia ter calado a multidão: “eis aqui está quem é maior do que Salomão” (Mt 12:42). Maior do que o homem mais sábio que já existiu. Toda a sabedoria normativa de Provérbios e toda a honestidade dolorida de Eclesiastes apontavam, sem ainda saber, para Ele.
Agora podemos fechar a primeira porta, a de Provérbios 8. Desde os primeiros séculos da igreja, os cristãos liam aquela Sabedoria ao lado de Deus na criação como uma figura que aponta para Cristo, lendo-a junto com textos como João 1, onde o Verbo estava no princípio com Deus e por meio dele tudo foi feito (Jo 1:1-3), e Colossenses 1, onde nele foram criadas todas as coisas (Cl 1:16). Mas aqui é preciso ter cuidado, e este cuidado é precioso para quem pensa. No quarto século, um pregador chamado Ário se apoiou numa tradução grega de Pv 8:22, segundo a qual o Senhor a “criou”, para sustentar que o Filho era uma criatura, que houve um tempo em que ele não existia. A igreja respondeu que o verbo hebraico ali pode significar “possuir” ou “gerar”, e não necessariamente “criar do nada”, e que o conjunto das Escrituras afirma que o Filho é eterno, não foi feito. Por isso devemos ser maduros. Não se trata de dizer que aquela mulher do livro é, letra por letra, o próprio Cristo disfarçado, mas de reconhecer que o Novo Testamento toma esse grande tema e o aplica a Jesus de modo definitivo. O apóstolo Paulo diz que Cristo é “sabedoria de Deus” (1Co 1:24), que Ele se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria (1Co 1:30), e que nele “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2:3). A voz que clamava nas ruas de Provérbios, no fim das contas, tem um rosto, e esse rosto é o de Cristo.
E é aqui que se fecha também a segunda porta, a de Eclesiastes. O mesmo Paulo escreve algo que parece um paradoxo. Ele diz que “a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (1Co 1:18), e que Deus resolveu salvar o mundo por aquilo que o mundo chama de loucura (1Co 1:21-24). Pense no tamanho disso. A gente procura sabedoria em quem vence, em quem sobe, em quem acumula. E Deus revela a sua sabedoria suprema num homem pregado numa cruz, que desce, que se entrega, que morre por amor. O Pregador de Eclesiastes tinha tropeçado nessa pedra, que nivela o sábio e o tolo. Pois Aquele que é maior do que Salomão entrou de propósito naquela fumaça, provou a morte por todos (Hb 2:9), e saiu do outro lado vivo, ressuscitado, primícias dos que dormem (1Co 15:20). A morte deixou de ser o ponto final que zera tudo. Em Cristo, ela virou uma passagem.
Por isso a palavra central deste sermão deixa de ser um conselho bonito e genérico. Quando Provérbios diz “confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento; reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas” (Pv 3:5-6), isso se torna um convite pessoal a confiar naquele que é a própria Sabedoria de Deus em pessoa. E note como nosso texto termina, dizendo que isso será “saúde para o teu corpo e refrigério para os teus ossos” (Pv 3:8). Isso não fica só na cabeça: desce ao corpo, ao coração, à vida inteira. É o Senhor, pela sua graça, transformando você de dentro para fora, até que você ame a sabedoria porque ama a Cristo.
Ouça, e confie
Agora, e só agora, deixe eu trazer tudo isto para muito perto, para a sua semana que começa amanhã, seja você quem for. Tem aqui quem vá estudar, quem queira retomar ou crescer numa carreira, quem esteja construindo um relacionamento e pensando em formar família, e tem quem veio mais por curiosidade, ou até meio sem vontade. A Palavra de hoje fala com todos pela mesma porta, a porta que Salomão pediu de joelhos, um coração que ouve.
Então ouça três coisas, e responda a Deus no silêncio do seu coração. Primeiro, lembre-se de que a gente não se torna sábio ou tolo de uma vez só, mas uma decisão de cada vez, como quem caminha passo a passo por um dos dois caminhos de Provérbios. Comece tudo, os estudos, o trabalho, os relacionamentos, pelo temor do Senhor, porque é dele que nasce toda a verdadeira sabedoria, e não da margem para o centro, mas do centro para tudo o mais. Segundo, lembre-se de que a marca mais clara do tolo, em Provérbios, é odiar a correção, enquanto o sábio ama a repreensão porque ela o aperfeiçoa (Pv 9:8-9). Então deixe que a Palavra, e as pessoas que Deus colocou ao seu lado, corrijam você sem que você se feche. E terceiro, se você tem buscado o sentido final da vida na fumaça, na carreira, no status, no prazer, na aprovação dos outros, ouça o que o Pregador descobriu ao fim de toda a sua busca, e poupe-se da viagem inteira até o vazio. O sentido não está debaixo do sol. Está acima dele, e desceu até nós.
E é este o apelo. A Sabedoria de Deus não está trancada num cofre distante. Ela tem nome, tem rosto, e tem mãos marcadas que se estendem para você esta noite. Não confie apenas na sua própria cabeça. Confie no Senhor de todo o seu coração, e Ele endireitará os seus caminhos (Pv 3:5-6). Esse é o princípio de toda a sabedoria. E pode começar agora.
Amém.
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