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SermõesSermões em Mateus22 de 26

Mateus 11:28-30 e os dois descansos que Jesus oferece

Diego Gonçalves6 min de leitura1.287 palavras

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Neste texto

O que você prefere: um dicionário completo, com absolutamente todas as palavras de um idioma, ou uma versão resumida, de bolso? O primeiro é pesado e abrangente. O outro é leve, mas muito limitado. E se a gente aplicasse a mesma lógica à vida cristã?

Existem cristãos “versão completa”, que experimentam tudo o que a fé oferece. E existem cristãos “versão resumida”, que são genuínos, mas vivem com uma letra tão pequena que mal pode ser lida. A pergunta que define a nossa caminhada é se estamos vivendo a fé por inteiro ou nos contentando com um resumo.

Muitos de nós começamos a caminhada com grande alegria e alívio. Uma paz tão grande que quase nos faz flutuar até o céu, com o peso do mundo saindo dos nossos ombros. Mas o tempo passa, a novidade de vida vai se perdendo e a gente parece estacionar na busca pelo Senhor. Aos poucos nos tornamos “cristãos de bolso”: somos salvos, mas não transformados. Temos a garantia do destino, mas não a alegria da caminhada. O problema é que muitas vezes paramos na metade do convite.

Dois convites, dois descansos

Em Mt 11:28-30, Jesus faz o convite mais famoso da história. Olhando com atenção, porém, não é um convite só, mas dois, e cada um oferece um tipo de descanso. Primeiro ele diz: “Vinde a mim… e eu vos darei descanso”. Depois: “Tomai sobre vós o meu jugo… e encontrareis descanso”. Um descanso é dado; o outro é encontrado. Entender a diferença entre eles é o que transforma um cristão “resumido” em um cristão “completo”.

O primeiro convite: vir a Jesus

O primeiro convite é para um tipo específico de pessoa, os “cansados” e “sobrecarregados”. O texto original usa duas palavras fascinantes aqui.

Os cansados, ou que labutam, são os que estão exaustos de tentar. São as pessoas morais e religiosas que tentam agradar a Deus com as próprias forças. Seguem as regras, fazem o seu melhor e descobrem que a justiça própria é um trabalho pesado e sem fim. Os sobrecarregados, por outro lado, são os que estão exaustos de falhar. São os que desistiram de tentar ser bons, buscaram respostas nos prazeres, nas distrações ou no cinismo, e agora carregam um fardo pesado de culpa, vazio e consequências.

Para esses dois grupos, os que tentam ser bons e os que desistiram de tentar, Jesus não oferece mais regras. Oferece alívio. Esse primeiro descanso é um presente. Não depende do nosso esforço, mas da obra dele. É a glória da cruz, uma troca: entregamos os nossos trapos sujos de justiça própria, ou o nosso registro sórdido de falhas, e recebemos perdão e aceitação. É o descanso do espírito, a paz com Deus, o “ufa!” da salvação. É o dia feliz do velho hino de Philip Doddridge, O Happy Day, que fixou a nossa escolha.

Onde muita gente para

E é exatamente aqui que muitos de nós paramos. Ficamos tão gratos por esse alívio inicial que nos contentamos em ser cristãos resumidos. Somos gratos a Jesus por ter nos tirado do incêndio, mas, no fundo, torcemos para que ele nos deixe em paz daqui para a frente. Queremos o Salvador, mas resistimos ao Senhor.

Jesus nunca se contenta com isso. Logo começamos a sentir que ele faz exigências desagradáveis. Diz “não” para certos hábitos. Nos incomoda por causa da impaciência, do orgulho, da falta de amor. Começa a reivindicar o direito de ser o dono da casa, e não apenas o visitante. É aí que entramos na segunda etapa da vida cristã.

O segundo convite: tomar o jugo

O segundo convite não é sobre contato, mas sobre compromisso: “Tomai o meu jugo”. O jugo era uma ferramenta de submissão e de parceria, usada para unir um boi mais fraco ou selvagem a um boi mais forte e experiente, para que aprendessem a andar juntos. Quando Jesus nos chama para o jugo, está nos convidando para uma parceria sob o seu controle. Ele diz: deixe-me guiar os seus passos, renda-se ao meu controle.

É aqui que muitos resistem. Parece restritivo, parece o oposto da liberdade. Mas repare no que acontece quando a gente aceita: começa a aprender. E o que aprendemos? “De mim”, diz Jesus, “que sou manso e humilde”. O currículo não é feito de regras complexas, mas de adquirir o caráter dele. É aprender a beleza da mansidão, que é força sob controle, e da humildade, que é a ausência de ego.

Então vem a descoberta surpreendente. Aquilo que parecia prisão, o jugo, acaba sendo a chave da verdadeira liberdade. O fardo se torna leve. Como isso funciona? O jugo de Cristo é como o “peso” das asas para um pássaro. As asas têm peso, mas são elas que libertam o pássaro da gravidade. Outro exemplo: o jugo é como o peso do motor num carro. Sem ele, o carro é só uma caixa de metal pesada que precisa ser empurrada. Com ele, o carro ganha o poder de se mover.

O primeiro descanso é a paz com Deus. O segundo é a paz de Deus. É o descanso da alma, da mente e das emoções, que só encontramos quando a nossa vontade se alinha com a dele.

A vida cristã completa

A vida cristã completa, a versão que não é resumida, exige as duas coisas. Começa com um contato em que recebemos alívio, mas precisa avançar para um controle em que encontramos descanso. Muitos cristãos são infelizes porque ficaram presos no meio. Já receberam o alívio, mas se recusam a aceitar o controle. Têm o perdão, mas não têm a parceria.

Então a pergunta de hoje não é só se você é cristão, mas que tipo de cristão você é. Você ainda está cansado, tentando merecer o seu lugar? Ou está sobrecarregado, fugindo de Deus? Se for o caso, venha a ele e receba o descanso. Ou você já fez isso, mas a sua vida estagnou? Está grato pelo perdão, mas com medo do jugo?

A verdadeira liberdade não é a ausência de controle, mas a submissão ao controle certo. O jugo dele é suave, e o seu fardo é a única coisa que nos torna verdadeiramente leves.

Uma oração puritana para fechar

Enquanto eu meditava nessa mensagem, me lembrei de uma oração de O Vale da Visão, a coletânea de orações puritanas. Se você não conhece esse livro, eu recomendo muito. Uma das orações do livro diz mais ou menos assim:

Ó Espírito Santo, no meu ministério encontro diversos desafios. O desânimo e a vergonha muitas vezes me atingem, especialmente quando minha dedicação nas meditações pessoais diminui. Isso me leva a um estado de descuido, em que me acomodo com os sucessos do passado e ignoro os erros do presente.

Frequentemente me sinto fraco e sem energia espiritual, o que dificulta ajudar as almas e perceber a tua presença. Mesmo nos momentos em que me esforço ao máximo, o sucesso nem sempre aparece. No entanto, tu me ensinaste que a verdadeira glória do meu trabalho não está nos resultados imediatos, mas na conexão com a fonte da santidade.

Percebo, então, que meu principal objetivo é conhecer a Cristo e compartilhar a sua verdade. Meu trabalho começa com Cristo, e nele encontro força e inspiração. Encontrar conforto no ministério significa fazer tudo por ele. Peço a tua ajuda para ser mais humilde, aprender com cada situação, encontrar alegria em ti e me afastar do ego.

Quero dedicar minha vida, minha essência, minha alma e meu corpo inteiramente a ti, amando-te e encontrando em ti toda a minha graça. Que eu ande ao teu lado com carinho e comprometimento. Pois, no final, o que realmente importa é a tua presença, seja no sucesso ou no fracasso.