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SermõesSermões em Mateus20 de 28

Mt 5:7Alcançando Misericórdia

Diego Gonçalvesatualizado 14 min de leitura2.779 palavras

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Neste texto

Este sermão em Mateus 5:7 fala sobre alcançar misericórdia. Jesus ensina que aqueles que são misericordiosos receberão misericórdia em troca. Ele também ensina que a misericórdia é um dos atributos de Deus e que devemos imitá-lo em nossas vidas.

Escrito por Diego Gonçalves para o MEP da Igreja DaeHan - Março de 2021

O bom samaritano levanta o homem ferido para colocá-lo sobre o seu animal, em pintura de Van Gogh
Vincent van Gogh, O bom samaritano (a partir de Delacroix), 1890. Museu Kröller-Müller, Otterlo. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Palavra:

“Benditos são os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.”

(Mateus 5:7, Bíblia Livre)

INTRODUÇÃO

Antes de refletirmos sobre a bem-aventurança dos misericordiosos, precisamos conhecer o contexto histórico em que Jesus disse estas palavras. Nos dias de Jesus, a liderança religiosa era implacável e sem misericórdia, por causa da sua observância estrita da lei. O livro de Mateus, no capítulo 23, registra sete críticas duras a esses líderes religiosos corruptos. Entre essas críticas, destacam-se duas: 1) eles ensinavam sobre Deus, mas não O amavam, não entravam no Reino de Deus e ainda impediam que outros entrassem (Mateus 23:13-14); e 2) eles ensinavam a Lei, mas não praticavam o que ela tem de mais importante: humildade, quebrantamento, mansidão, justiça, misericórdia e fé em Deus.

Essas críticas aos maus religiosos nascem da violação e do descaso com os dois principais mandamentos: amar a Deus e amar o próximo. Os líderes religiosos falhavam justamente em cumprir esses mandamentos. Estavam tão focados no que era visível, nos rituais, no protocolo e na religião exterior, que os fazia parecer justos e virtuosos por fora, que não se preocupavam com o que estava dentro. Por fora, pareciam belos e impecáveis, mas por dentro eram como sepulcros caiados. Esse comportamento impediu que recebessem a misericórdia de Deus, pois estavam tão satisfeitos com suas próprias realizações religiosas que não reconheciam sua completa falência espiritual e a sua necessidade desesperada da rica misericórdia de Deus.

Ser misericordioso, ao contrário, significa sentir a dor do outro a ponto de tomar atitudes para aliviá-la. Os fariseus eram incapazes disso. Ser misericordioso é ser repleto de misericórdia. A misericórdia não se limita a sentir compaixão, mas age para amenizar a angústia, o sofrimento e a miséria de quem precisa de ajuda.

Nesta mensagem, olharemos para o exemplo perfeito de misericórdia em Jesus Cristo e para o modo como Ele nos ensina a manifestá-la em nossas vidas. Veremos que a misericórdia reflete o caráter de Deus e como nos tornamos agentes de compaixão na comunidade da fé. Veremos também a relação entre receber misericórdia e mostrá-la aos outros.

O amor em ação

Jesus é o modelo perfeito de alguém misericordioso. Em Mateus 14:14, lemos: “Quando Jesus saiu, viu uma grande multidão. Ele se compadeceu deles, e curou dentre eles os enfermos”. Observe que Jesus percebeu a necessidade da multidão e, em seguida, agiu. Isso nos ensina que a misericórdia motiva os misericordiosos a agir. O misericordioso é alguém cheio de amor e que ama com o amor de Deus. Ele tem compaixão e age porque está cheio de Deus, transbordando das fontes da misericórdia.

O misericordioso é aquele em cuja vida a cruz operou uma transformação para torná-lo semelhante a Jesus Cristo. A misericórdia não era uma característica natural do discípulo, mas, devido à Cruz de Cristo, tornou-se o seu caráter e padrão de vida. A misericórdia na vida do bem-aventurado começa com o simples reconhecimento de que alguém ao seu redor está sofrendo. Mas ver ou sentir não basta: a misericórdia precisa se transformar em ação. É a compaixão ativa por aqueles que precisam.

O comentarista bíblico William Barclay explica que a palavra do grego bíblico para “misericordioso” descreve a capacidade de entrar na pele da outra pessoa, ver as coisas com os olhos dela, pensar como ela e sentir o que ela sente. A misericórdia, portanto, é amor em ação. Ela nos lembra constantemente que vivemos sob a misericórdia de Deus e que precisamos dela todos os dias.

Precisamos de misericórdia

Precisamos de misericórdia porque somos pobres de espírito, choramos por nossos pecados e lamentamos nossa falência espiritual. Precisamos de misericórdia porque nem sempre somos mansos quando precisamos perdoar aqueles que nos machucaram. Precisamos de misericórdia porque temos fome e sede de justiça, mas nossa própria justiça é apenas um trapo imundo. Precisamos de misericórdia porque precisamos fixar nosso olhar em Cristo Jesus, pois somente Ele pode saciar nossa fome e sede de Justiça. Ter fome e sede de Justiça é ter fome e sede de Cristo, porque somente Ele é a nossa justiça. Ele é “o SENHOR, justiça nossa” (Jeremias 23:6, em hebraico, Yahweh Tsidkenu), o sol da justiça que brilha sobre nós, e o brilho de Sua retidão resplandece em nossos corações, iluminando e banhando o pecador na luz de Sua misericórdia. E uma vez transformados pela misericórdia, nos tornamos misericordiosos como Deus é misericordioso!

Embora não mereçamos essa misericórdia, Deus a concedeu. Cada dia de nossa vida, cada hora e cada momento, participamos de Sua misericórdia imerecida. Se, por um lado, a graça é receber o que não merecemos, e a justiça é receber o que merecemos, por outro lado, a misericórdia é não receber o que merecemos. Essa é a única bem-aventurança que recompensa de acordo com o valor do preceito. Aqueles que são misericordiosos receberão a misericórdia de Deus. Começa e termina com misericórdia.

Jesus, porém, não está dizendo que a misericórdia de Deus depende da nossa misericórdia. Tudo na vida espiritual começa e termina com Deus. Mostrar misericórdia é uma evidência de que recebemos misericórdia. O que Jesus está dizendo é que, à medida que Deus derrama Sua rica misericórdia sobre nós, respondemos mostrando misericórdia aos outros, e assim recebemos ainda mais misericórdia de Deus.

Estendendo a mão

Um exemplo de misericórdia vem de Calcutá, que tem uma das maiores populações de leprosos da Índia. Embora o governo forneça pacotes de medicamentos para pacientes com lepra, a maioria dos leprosos não encontra ninguém disposto a cuidar de suas feridas. Os estudantes universitários da Bíblia com o Evangelho para a Ásia têm demonstrado a compaixão e o amor de Deus por aqueles que são evitados pela maioria da sociedade indiana, tratando das feridas dos leprosos. Como resultado desse esforço, o Senhor tem abençoado grandemente esses estudantes, com o surgimento de grupos de comunhão de novos crentes em muitas colônias de leprosos, e alguns deles têm crescido e se tornado igrejas. Ouvi dizer que os crentes de uma igreja tiveram a alegria de enviar o primeiro jovem de sua colônia de leprosos para uma das faculdades bíblicas do Evangelho para a Ásia, para se preparar para o ministério em tempo integral. Como crentes, saiamos no poder do Espírito, demonstrando a misericórdia de Deus para aqueles que estão ao nosso redor, os “leprosos espirituais”, para que Deus abençoe nossos esforços e nos permita dar muitos frutos que tragam glória a Ele e durem pela eternidade. A abundante misericórdia de Deus para conosco é a motivação para sermos misericordiosos com os outros. A graça é o favor mostrado aos indignos; a misericórdia é a compaixão para com os miseráveis. Portanto, a misericórdia é sinônimo de compaixão.

A misericórdia é uma característica divina e as Escrituras estão repletas de referências a essa parte de Sua natureza inata. Deuteronômio 4:31 diz: “Porque Deus misericordioso é o SENHOR teu Deus; não te deixará, nem te destruirá, nem se esquecerá do pacto de teus pais que lhes jurou”. Neemias 9:31 afirma: “Mas por tua grande misericórdia não os destruíste por completo, nem os desamparaste; porque tu és Deus clemente e misericordioso”. Salmo 119:132 suplica: “Olha-me, e tem piedade de mim; conforme teu costume para com os que amam o teu nome”. Daniel 9:18 implora:

“Inclina, ó Deus meu, teus ouvidos, e ouve; abre teus olhos, e olha para nossas assolações, e para a cidade que é chamada pelo teu nome; pois não apresentamos nossas súplicas diante de ti confiando em nossas justiças, mas sim em tuas muitas misericórdias.”

(Daniel 9:18, Bíblia Livre)

Miquéias 7:18-19 celebra:

“Quem é Deus como tu, que perdoa a maldade, e ignora a transgressão do restante de sua herança? Ele não retém para sempre sua ira, porque ele tem prazer na bondade. Ele voltará a ter misericórdia de nós; ele esmagará nossas maldades. Tu lançarás os pecados deles nas profundezas do mar.”

(Miquéias 7:18-19, Bíblia Livre)

Romanos 9:16 esclarece: “Portanto, não depende daquele que quer, nem daquele que se esforça, mas sim, de Deus, que se compadece”. Efésios 2:4 descreve: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou”. E Tiago 5:11 lembra:

“Eis que consideramos benditos os que suportaram o sofrimento. Ouvistes da paciência de Jó, e vistes o resultado da parte do Senhor; porque o Senhor é muito misericordioso, e cheio de compaixão.”

(Tiago 5:11, Bíblia Livre)

Se queremos ser semelhantes a Deus, devemos demonstrar misericórdia, porque nos tornamos mais semelhantes a Ele quando nossa compaixão se torna ação. João Crisóstomo, um dos primeiros líderes da igreja, declarou que a misericórdia imita a Deus e frustra o diabo. Lucas 6:36 nos apresenta o modelo que Deus estabelece para nós: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”.

A comunidade da compaixão

O desejo de Deus, expresso na quinta bem-aventurança pregada pelo Senhor Jesus, é que sejamos a comunidade da compaixão. Essa comunidade da compaixão:

  • Ama a misericórdia (Miquéias 6:8).
  • Demonstra misericórdia (Zacarias 7:9): “…praticai piedade e misericórdia cada um com seu irmão”.
  • Responde à misericórdia (Romanos 12:1), oferecendo nossos corpos como sacrifício vivo, santos e agradáveis a Deus, que é nosso culto racional.
  • Possui misericórdia (Colossenses 3:12), vestindo-se diariamente de compaixão.
  • Serve a partir da misericórdia (2 Coríntios 4:1), pois é por misericórdia de Deus que temos este ministério.
  • Segue o padrão de Tiago 2:13, que nos lembra de que devemos mostrar misericórdia em vez de julgamento: “o julgamento será sem misericórdia sobre quem não agiu com misericórdia; mas a misericórdia triunfa sobre o julgamento”.

Em Lucas 10:25-37, Jesus conta a parábola do Bom Samaritano em resposta à pergunta de um intérprete da lei, que buscava saber quem era o seu próximo e a quem ele deveria ajudar e a quem poderia ignorar.

A história é a seguinte: um sacerdote, um levita e um samaritano “viram” um homem em apuros, mas apenas o samaritano teve misericórdia. Embora ambos os religiosos tenham vindo da presença de Deus, de alguma forma a presença de Deus nunca chegou até eles. “Porém um certo samaritano, que ia pelo caminho, veio junto a ele, e vendo-o, teve compaixão dele”.

Aqui há uma reviravolta, pois os judeus e os samaritanos se odiavam. Os samaritanos eram considerados hereges raciais e religiosos. No entanto, o samaritano reconheceu que algo estava errado e diminuiu a velocidade. Os três viram a necessidade, mas apenas o samaritano sentiu a necessidade: “ele teve compaixão dele”. “A misericórdia começa quando a dor toca o coração”. Foi exatamente esse sentimento que o samaritano teve. Ele ficou abalado ao ver o homem espancado. Então, movido por compaixão, ele agiu. A verdadeira misericórdia sempre envolve ação.

Assim, o samaritano demonstrou sua bem-aventurança ao cuidar das feridas do homem, colocá-lo em seu próprio animal (o que significava que ele próprio teria que andar), levá-lo para uma estalagem e cuidar dele. No dia seguinte, ele pagou ao dono da estalagem duas moedas de prata, o equivalente a dois dias de salário no primeiro século. Ele até prometeu retornar e cobrir todas as despesas adicionais. Jesus então pergunta: “Quem, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que foi atacado por assaltantes?” O intérprete responde: “Aquele que agiu tendo misericórdia com ele”. Jesus então diz ao intérprete da lei e a nós: “Vai, e faze da mesma maneira”.

Conta-se que o padre Vieira, que pregou nas terras brasileiras no século 17, via a mesma parábola por outro ângulo. A atribuição é popular e não tem fonte conhecida; vale como ilustração, não como citação:

  • Os ladrões representam aqueles que não se importam com o próximo. Eles roubam, matam e destroem. São movidos pela antipatia. A terminação “patia” vem do grego “pathos”, que significa sentimento, aquilo que se sofre ou se sente. Antipatia é sentir contra o outro. Os ladrões pensam assim: “O que é seu é meu e eu quero para mim”.
  • Os religiosos representam aqueles que veem a necessidade, mas seguem adiante. São movidos pela apatia. Pensam assim: “O que é seu é seu e o que é meu é meu. Vamos mantê-lo assim”.
  • O samaritano representa aqueles que se importam e agem com misericórdia. São movidos pela empatia. Pensam assim: “O que é meu é seu e eu vou ajudá-lo”.

A Lei da Reciprocidade

Jesus afirmou que os misericordiosos “alcançarão misericórdia”. Essa é a única bem-aventurança em que a promessa é igual à condição. Quanto mais reconhecemos a abundância de misericórdia que recebemos, mais somos capazes de compartilhá-la com os outros; e quanto mais mostramos misericórdia, mais a recebemos. O misericordioso receberá misericórdia porque já a recebeu, e esse ciclo é o que o torna misericordioso. É possível que Deus coloque pessoas oprimidas em nosso caminho nesta semana, permitindo-nos restaurá-las. Você será um misericordioso? Feche os olhos agora, enquanto leio algumas súplicas de misericórdia encontradas no Evangelho de Mateus.

Mateus 9:27: “E saindo Jesus dali, dois cegos o seguiram, gritando: Tem compaixão de nós, Filho de Davi!”

Mateus 15:22:

“E eis que uma mulher Cananeia, que tinha saído daquela região, clamou: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Minha filha está miseravelmente endemoninhada.”

(Mateus 15:22, Bíblia Livre)

Mateus 17:14-15:

“E quando chegaram à multidão, veio a ele um homem, que se ajoelhou diante dele, e disse: Senhor, tem misericórdia do meu filho, que é epilético, e sofre muito mal; porque cai muitas vezes no fogo, e muitas vezes na água.”

(Mateus 17:14-15, Bíblia Livre)

Mateus 20:29-34:

“Quando eles saíram de Jericó, uma grande multidão o seguiu. E eis que dois cegos assentados junto ao caminho, ao ouvirem que Jesus passava, clamaram: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós! E a multidão os repreendia, para que se calassem, mas eles clamavam ainda mais: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós! Então Jesus parou, chamou-os, e perguntou: Que quereis que eu vos faça? Eles lhe responderam: Senhor, que nossos olhos sejam abertos. E Jesus, compadecido deles, tocou-lhes os olhos. E logo os olhos deles enxergaram, e o seguiram.”

(Mateus 20:29-34, Bíblia Livre)

Amém!

CONCLUSÃO e APLICAÇÃO

Ao refletirmos sobre a bem-aventurança dos misericordiosos, aprendemos com o contexto histórico em que Jesus disse estas palavras. As críticas aos líderes religiosos da época mostram que precisamos amar a Deus e ao próximo de verdade, e não viver uma religiosidade vazia e sem compaixão.

A misericórdia, que vai além da compaixão, é um atributo divino que reflete o caráter de Deus. No exemplo de Jesus, vemos que a misericórdia anda junto com a ação. Ele não apenas sentia compaixão pelas multidões, mas agia para aliviar o sofrimento delas, curando os enfermos e suprindo suas necessidades.

Somos desafiados a ser a comunidade da compaixão, amando e demonstrando misericórdia uns aos outros. Isso significa responder à misericórdia de Deus, oferecendo nossos corpos como sacrifício vivo e mostrando compaixão todos os dias às pessoas ao nosso redor.

A prática da misericórdia nos leva a estender a mão aos necessitados, aos “leprosos espirituais” da nossa sociedade, e a ser instrumentos de Deus na vida deles. Assim como o bom samaritano, devemos ser movidos pela empatia, reconhecendo a dor do outro e agindo para aliviar o sofrimento.

Ao demonstrarmos misericórdia, mostramos que já a recebemos de Deus e continuamos a recebê-la. A misericórdia é uma via de mão dupla, em que recebemos e damos, e vivemos o amor e a compaixão de Deus.

Portanto, que sejamos encorajados a buscar uma vida marcada pela misericórdia, imitando a Deus em Sua compaixão e vencendo a apatia e a indiferença que nos cercam. Que a bem-aventurança dos misericordiosos seja realidade em nossas vidas, à medida que nos tornamos canais da misericórdia de Deus para um mundo que precisa dela.

Que cada interação e cada ato de compaixão que praticarmos seja uma oportunidade de testemunhar o amor de Deus. E que, pela nossa misericórdia, sejamos instrumentos de cura e esperança para os que estão ao nosso redor.

Que o amor misericordioso de Deus continue a nos impulsionar a viver a bem-aventurança proclamada por Jesus: “Benditos são os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mateus 5:7, Bíblia Livre).


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