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EstudosEstudos em Mateus5 de 5

Mateus 26A queda de Pedro e a graça que restaura

Quando tropeçamos: A queda e a graça em Mateus 26

Diego Gonçalves7 min de leitura1.489 palavras

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Neste estudo

Texto Bíblico: Mateus 26.31-35

“Então Jesus lhes disse: Todos vós falhareis comigo esta noite; porque está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersas’. Mas, depois que eu for ressuscitado, irei adiante de vós para a Galileia. Pedro, porém, respondeu-lhe: Ainda que todos falhem contigo, eu nunca falharei. Jesus lhe disse: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes do galo cantar, tu me negarás três vezes. Pedro lhe respondeu: Ainda que eu tenha de morrer contigo, em nenhuma maneira te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo.”

(Mateus 26:31-35, Bíblia Livre)

Nenhum de nós gosta de falar sobre os próprios fracassos. Preferimos subir no púlpito ou conversar na mesa da igreja contando testemunhos de vitória, vitórias sobre tentações e conquistas espirituais. Falar sobre fraqueza, covardia e queda moral causa um constrangimento imenso.

Só que a Bíblia não é um livro de contos de fadas para inflar o ego religioso de ninguém. Ela tem a coragem santa de acender a luz nos cantos mais escuros do coração humano. Na noite mais solene da história, quando Jesus ceou pela última vez com Seus discípulos antes de ser entregue à cruz, o assunto no caminho entre o Cenáculo e o Getsêmani não foi a glória de um exército invencível, mas o tropeço de todos os líderes daquela comunidade.

Ao caminhar com os onze rumo ao monte das Oliveiras, Jesus olha nos olhos de Seus melhores amigos e faz uma previsão que dói até hoje: “Esta noite, todos vós vos escandalizareis por minha causa”.

O tropeço anunciado

A palavra que Jesus usou, registrada no evangelho em grego, é skandalizo, da qual vem o nosso termo “escândalo”. Algumas traduções, como a Bíblia Livre acima, vertem por “falhar”. No mundo antigo, a palavra não significava só fofoca ou boato desconfortável. Designava a isca de uma armadilha, o gatilho que prendia o animal, ou a pedra posta no meio do caminho para fazer o caminhante tropeçar e cair.

Jesus estava dizendo com todas as letras: a prisão do Mestre seria a pedra de tropeço na qual a fé presunçosa dos discípulos iria se espatifar. Eles haviam visto tempestades acalmadas, mortos ressuscitados e multidões alimentadas com cinco pães. Esperavam um Messias que entrasse em Jerusalém para expulsar os soldados romanos e inaugurar um reino terreno. Mas, quando viram o Senhor cercado por guardas armados, amarrado como um criminoso e esbofeteado no tribunal dos sacerdotes, toda a teologia de glória deles virou poeira.

Jesus não foi pego de surpresa. Ele cita a profecia de Zacarias 13.7: “Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão”. O choque da cruz não era um desvio de rota, mas o cumprimento dos desígnios eternos de Deus. O pastor precisava ser ferido para que o rebanho fosse redimido.

Pintura de Rembrandt em que Pedro, diante de uma criada que o ilumina com uma vela, nega conhecer Jesus, ao fundo à direita
Rembrandt, A negação de Pedro, 1660. Rijksmuseum, Amsterdã. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A promessa esquecida da Galileia

Há um detalhe que quase todo leitor apressado deixa passar. Logo depois de anunciar a dispersão do rebanho, Jesus acrescenta uma frase curta, no versículo 32: “Mas, depois de eu ressuscitar, irei adiante de vós para a Galileia”.

Esta é a grandeza da graça do Salvador. Antes mesmo de os discípulos tropeçarem, Jesus já providenciava o reencontro. Antes de Pedro abrir a boca para jurar que não conhecia o Galileu, o Mestre já havia marcado o lugar da reconciliação. A queda deles era certa, mas o amor de Cristo era maior do que a fraqueza deles. A cruz não seria o ponto final: a ressurreição estava garantida, e a praia da Galileia seria o cenário onde o Mestre recolheria os cacos daquela equipe quebrada para recomissioná-la ao ministério.

Só que os discípulos não ouviram a promessa da Galileia. Por quê? Porque o coração deles estava cheio demais de orgulho e autoconfiança para escutar a voz da graça.

A soberba de Pedro e o perigo da autossuficiência

Pedro ignorou o anúncio da ressurreição e se fixou na acusação de fraqueza. Ferido no amor-próprio de líder intrépido, o pescador de Cafarnaum deu um passo à frente e fez aquela declaração arrogante: “Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu jamais me escandalizarei”.

Aí está a raiz da presunção humana. Em uma única frase, Pedro cometeu dois erros espirituais graves: rebaixou os irmãos e superestimou a própria força moral. Olhou para João, Tiago e os demais apóstolos e pensou: “Esses homens podem até ser fracos e fugir, mas eu sou feito de um barro diferente. O meu amor pelo Senhor é mais profundo, a minha lealdade é inabalável”.

Essa é a ilusão de todo crente que confia no próprio braço. Achamos que estamos imunes às quedas que derrubam o próximo. Olhamos para o irmão que caiu em adultério, para o amigo que cedeu à mentira ou para o líder que naufragou na fé e pensamos, com soberba secreta: “Comigo isso nunca vai acontecer”. O apóstolo Paulo dá o antídoto para essa doença em 1 Coríntios 10.12: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia”.

Jesus respondeu com mansidão solene: “Nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes”. Não seria dali a dez anos. Seria naquela madrugada, antes do nascer do sol, diante do interrogatório de uma simples criada no pátio do sumo sacerdote.

A resposta de Pedro e dos demais discípulos foi redobrar a aposta na própria força: “Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei”. Horas depois, no calor do perigo, todos fugiram na escuridão, deixando o Salvador sozinho.

O canto do galo e a restauração pela graça

A história tem um desfecho doloroso. Pedro seguiu Jesus de longe. Sentou-se ao redor da fogueira dos inimigos para se aquecer. E, quando foi confrontado sobre o sotaque e a ligação com o homem de Nazaré, o líder corajoso praguejou, jurou e negou três vezes: “Não conheço esse homem!”.

No instante em que a última negação saiu de sua boca, o galo cantou. O Evangelho de Lucas registra que Jesus, conduzido pelos soldados, virou-Se e olhou diretamente para Pedro (Lucas 22.61-62). Não era um olhar de desprezo, de quem diz “Eu não avisei?”. Era um olhar de dor santa, de compaixão e de misericórdia. Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, saiu dali e chorou amargamente.

Aquele choro não foi o desespero estéril de Judas Iscariotes, que terminou sozinho, preso ao remorso (Mateus 27.3-5). Foi o quebrantamento de um homem cuja autoconfiança havia sido moída até o pó. Paulo chama isso de “tristeza segundo Deus”, que produz arrependimento para a salvação (2 Coríntios 7.10). Era a graça que alcançava Pedro mesmo ali, antes de qualquer promessa de restauração, e que abria espaço para a sua cirurgia redentora.

Depois da ressurreição, o anjo disse às mulheres no túmulo vazio: “Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galileia” (Marcos 16.7). Jesus fez questão de citar Pedro pelo nome. E na beira do mar da Galileia, ao redor de outra fogueira, não humilhou Pedro pelo fracasso. Perguntou três vezes: “Simão, filho de João, tu me amas?” (João 21.15-17). Cada pergunta curava uma das três negações com uma declaração humilde de dependência, e Jesus lhe devolveu o cajado pastoral: “Apascenta as minhas ovelhas”.

O chamado à dependência diária

Esta passagem das Escrituras nos convoca a descer do pedestal da nossa autoimagem religiosa.

Se você pensa que a sua fidelidade a Deus se sustenta pela força da sua disciplina, pela nobreza do seu caráter ou pelos anos de membresia na igreja, você já está tropeçando no escândalo da presunção. Somos fracos, vacilantes e dependentes da graça de Deus a cada respiração. Se o Senhor retirasse a Sua mão protetora por um segundo, qualquer um de nós seria capaz dos pecados mais vergonhosos.

A boa notícia do Evangelho é que o amor de Jesus Cristo por você não começou porque você era forte, e não vai terminar porque você fraquejou. Ele conhece a nossa estrutura e Se lembra de que somos pó. Quando tropeçamos e caímos, a voz do acusador sussurra que a nossa história acabou e que não temos mais conserto. Mas a voz do Bom Pastor nos convida ao arrependimento sincero, perdoa a nossa iniquidade, limpa a nossa vergonha e nos coloca de pé para caminhar em novidade de vida.

Abandone hoje a arrogância de Pedro antes da queda e abrace a humildade de Pedro restaurado na Galileia. Reconheça que a sua única segurança não está na força do amor que você tem por Jesus, mas na fidelidade inabalável do amor que Jesus tem por você.

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