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EstudosEstudos em Mateus4 de 4

Sal e luz do mundo: O que Jesus quis dizer aos discípulos

O que significa ser sal e luz do mundo

Diego Gonçalves6 min de leitura1.123 palavras

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Neste estudo

No Sermão do Monte, Jesus usou duas metáforas caseiras, conhecidas de qualquer pessoa simples do primeiro século, para definir a presença dos seus seguidores na sociedade: o sal e a luz.

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal perder seu sabor, com que se salgará? Para nada mais presta, a não ser para se lançar fora, e ser pisado pelas pessoas. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade fundada sobre o monte; nem se acende a lâmpada para se pôr debaixo de um cesto, mas sim na luminária, e ilumina a todos quantos estão na casa. Assim brilhe vossa luz diante das pessoas, para que vejam vossas boas obras, e glorifiquem ao vosso Pai, que está nos céus.”

(Mateus 5:13-16, Bíblia Livre)

Antes de entrar nos detalhes práticos, precisamos prestar atenção na gramática de Jesus. Ele não disse: “vocês deveriam se esforçar para tentar virar sal” ou “seria muito bom se vocês considerassem a hipótese de ser luz”. Ele usou o indicativo do presente, com a autoridade de quem define a realidade: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo”.

Jesus ensina uma multidão sentada na encosta de um monte, em pintura de Carl Bloch
Carl Bloch, O Sermão do Monte, 1877. Museu de História Nacional do Castelo de Frederiksborg, Hillerød. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Não se trata de uma meta corporativa opcional ou de um projeto social para os fins de semana. Ser sal e luz é a própria identidade de quem nasceu de novo pelo Espírito Santo, e esse “vós sois” vem como graça antes de vir como tarefa: Deus faz o que declara. Se a nossa fé não preserva nada da podridão e não clareia a escuridão de ninguém, a pergunta honesta a ser feita é se ela é uma fé real.

O sal contra a carne podre (v. 13)

Para entender o peso da metáfora do sal, precisamos esquecer o saleiro de vidro que fica em cima da mesa da cozinha e pensar no mundo antigo.

Na época de Jesus não existia energia elétrica, geladeiras industriais nem caminhões frigoríficos. Quando um pescador trazia peixes do mar da Galileia ou quando um fazendeiro abatia um novilho no calor escaldante do Oriente Médio, a carne estragava em poucas horas se ficasse exposta ao ar. O único recurso que a humanidade tinha para impedir que a carne apodrecesse e virasse carniça infestada de moscas era esfregar sal grosso em cada pedaço.

O sal é um elemento de combate contra a deterioração.

Quando Jesus diz que somos o sal da terra, afirma que o mundo ao nosso redor tem uma tendência natural à corrupção ética, moral e relacional, herança do pecado que atinge toda a humanidade. Se os cristãos forem removidos dos seus postos de trabalho, das universidades e da vida pública, a sociedade apodrece mais rápido. A presença do crente na empresa deve impedir a negociata desonesta; a sua presença na conversa de corredor deve frear a fofoca maldosa; a sua integridade na política e nos negócios deve segurar o avanço do cinismo. Quem faz isso é a graça de Deus agindo por meio de nós, e não a nossa força.

Além disso, o sal dá sabor. O cristão não foi chamado para ser um sujeito ranzinza, amargo e de cara amarrada que só sabe apontar o dedo para o erro dos outros. O sal traz graça, tempero, reconciliação e esperança aos ambientes cinzentos da vida. Paulo diz algo parecido em Colossenses 4:6: a nossa palavra deve ser sempre agradável, temperada com sal.

A luz que não pede licença (vv. 14-15)

A segunda imagem é a da luz: uma cidade edificada sobre um monte não se esconde, e ninguém acende uma lâmpada para pô-la debaixo de um cesto, mas na luminária, para que alumie a todos os que estão na casa.

A escuridão não tem substância própria; ela é simplesmente a ausência de luz. Você pode ter um cômodo mergulhado num breu total de cem anos; se acender um único palito de fósforo lá dentro, a escuridão não consegue engolir o fósforo. É a luz que afasta as trevas na mesma hora. E o próprio Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo” (João 8:12). A luz que temos é dele, refletida em nós; por isso Paulo fala dos cristãos como luzeiros no mundo (Filipenses 2:15).

O cristão não precisa de discursos histéricos para fazer a diferença. A luz funciona pela simples presença coerente e visível da verdade. Uma fé privatizada, que fica trancada na cabeça da pessoa ou guardada debaixo do banco da igreja de domingo, é uma aberração que contraria o propósito da lâmpada. Wesley dizia, justamente a partir deste texto, que o cristianismo é uma religião essencialmente social e que transformá-la em religião solitária é destruí-la (Discurso IV sobre o Sermão do Monte).

Os dois desvios: a bolha e o camaleão

Ao tentar viver como sal e luz, a igreja frequentemente cai em duas valas perigosas.

O primeiro desvio é o isolacionismo da bolha religiosa. É a atitude daquele grupo que tem tanto medo de se contaminar com a cultura que cria um ecossistema fechado: só ouve cantores do seu gueto, só lê livros da sua editora, só faz negócios com irmãos de fé e passa a vida inteira trancado dentro do saleiro de porcelana. Sal trancado no pote é inútil; o lugar do sal é sobre a carne crua.

O segundo desvio é o camaleonismo conformista. É quando o cristão se mistura com o mundo a tal ponto que perde qualquer distinção. No escritório, ele mente como todo mundo mente; no trânsito, ele xinga como todo mundo xinga; na internet, ele destila o mesmo ódio dos céticos. Jesus alertou sobre isso com dureza: se o sal perder o sabor, não serve para mais nada, a não ser para ser lançado fora e pisado pelas pessoas. Confesso que me reconheço mais de uma vez nesse segundo desvio, e não só no primeiro.

O foco no Pai, não no espelho (v. 16)

Jesus encerra o ensino com a bússola que impede a nossa vaidade de roubar a cena: que a nossa luz brilhe diante das pessoas, para que vejam as nossas boas obras e glorifiquem o nosso Pai que está nos céus.

As boas obras aparecem aqui como fruto, e não como raiz: somos salvos pela graça, mediante a fé, e criados em Cristo Jesus para as boas obras que Deus preparou de antemão (Efésios 2:8-10). Pedro diz o mesmo quando pede uma conduta exemplar, para que os que nos difamam vejam as nossas boas obras e glorifiquem a Deus (1 Pedro 2:12).

A luz não brilha para que as pessoas aplaudam a lâmpada; a luz brilha para que as pessoas consigam enxergar o caminho e reconhecer a beleza daquele que fez a luz. O nosso testemunho diário não serve para inflar o nosso ego espiritual, mas para apontar inconfundivelmente para a glória e para o amor do nosso Deus.