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EstudosEstudos em Mateus3 de 4

Genealogia de Jesus em Mateus 1: O evangelho escondido

O Evangelho Escondido na Genealogia de Jesus

Diego Gonçalves6 min de leitura1.115 palavras

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Neste estudo

Existe uma passagem da Bíblia que quase todo mundo pula quando abre o Novo Testamento pela primeira vez. Chegamos cheios de expectativa, querendo saber dos milagres, das curas e dos discursos de Jesus, e damos de cara com uma lista quilométrica de nomes antigos: Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacó, Jacó gerou Judá e seus irmãos. A reação mais comum é passar a página correndo para chegar logo ao nascimento em Belém.

Só que essa pressa nos faz perder um dos textos mais provocativos e cheios de graça de toda a Escritura. Aquela lista de nomes não é um formulário de cartório. Ela proclama que a salvação de Deus entrou no barro da história humana de verdade. Leiamos o texto por blocos, devagar, como quem examina uma árvore de família que guarda um segredo.

Árvore de Jessé: do patriarca sentado ao centro brotam os ramos da genealogia de Jesus, com reis, profetas e mulheres ao redor
Artista anônimo do Baixo Reno, A árvore de Jessé, c. 1500. Rijksmuseum Twenthe, Enschede. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Uma nova gênese para um mundo quebrado (v. 1)

“Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.”

(Mateus 1:1, Bíblia Livre)

Observação. No grego, Mateus abre o seu livro com a expressão biblos geneseos, literalmente “livro da gênese”. Duas palavras ligam a frase ao Antigo Testamento: gênese, que lembra o começo de tudo, e os dois nomes que Mateus cita logo em seguida, Davi e Abraão, a quem Deus fez as promessas.

Interpretação. Um leitor judeu do primeiro século percebia o recado na hora. A mesma expressão aparece na tradução grega de Gênesis 5:1, o “livro das gerações de Adão”. O Antigo Testamento narra a criação e a queda; Mateus anuncia que, com Jesus, uma nova criação está em marcha. Jesus é “filho de Davi”, o Rei prometido (2 Samuel 7:12-16), e “filho de Abraão”, aquele por meio de quem todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gênesis 12:3). Ele não caiu de paraquedas, como uma entidade sem passado. Herdou uma linhagem concreta, com laços de família, raízes culturais e vínculo de sangue com as promessas.

Quatro mulheres e o escândalo da graça (vv. 2-6)

“Abraão gerou a Isaque; e Isaque gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos. E Judá gerou de Tamar a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom, e Esrom gerou a Arão. E Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom; e Naassom gerou a Salmom. E Salmom gerou de Raabe a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé. E Jessé gerou ao rei Davi; e Davi gerou Salomão da que fora mulher de Urias.”

(Mateus 1:2-6, Bíblia Livre)

Observação. A frase se repete como um tambor: “gerou, gerou, gerou”. O ritmo só quebra quando aparecem quatro nomes de mulher, e um deles nem aparece: “a que fora mulher de Urias”.

Interpretação. As genealogias do mundo antigo eram listas masculinas. Quem queria impressionar punha reis valorosos e patriarcas ilustres, e escondia qualquer parente incômodo embaixo do tapete. Mateus faz o contrário, e não escolhe matriarcas consagradas como Sara ou Rebeca:

  • Tamar engravidou do próprio sogro depois de um drama de abandono e engano (Gênesis 38). Judá, ao ser exposto, reconheceu: “Mais justa é ela do que eu” (Gênesis 38:26, tradução livre do hebraico).
  • Raabe era prostituta cananeia de Jericó e escondeu os espias de Israel (Josué 2). O Novo Testamento a lembra como mulher de fé (Hebreus 11:31).
  • Rute era moabita, de um povo com o qual Israel tinha restrições (Deuteronômio 23:3), e mesmo assim entrou na casa de Davi (Rute 4:13-17).
  • A “que fora mulher de Urias” é Bate-Seba. Mateus não a nomeia e, ao dizer “de Urias”, lembra o adultério e o assassinato que Davi cometeu (2 Samuel 11).

A árvore do Messias não é de mármore branco. Está cheia de galhos tortos, escândalos públicos, sangue estrangeiro e tragédias superadas. Isso é graça no sentido bíblico: favor que Deus dá a quem não o merece, em Cristo e só por meio dele. Deus não tem vergonha da história quebrada daqueles a quem veio resgatar. Onde o pecado abundou, superabundou a graça (Romanos 5:20).

Deus age nos séculos de silêncio (vv. 7-17)

“E Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa. […] E Josias gerou a Jeconias, e a seus irmãos no tempo do exílio babilônico. E depois do exílio babilônico Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel gerou a Zorobabel. […] E Jacó gerou a José, o marido de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado o Cristo.”

(Mateus 1:7-16, Bíblia Livre, trechos)

“De maneira que todas as gerações desde Abraão até Davi são catorze gerações; e desde Davi até o exílio babilônico catorze gerações; e desde o exílio babilônico até Cristo catorze gerações.”

(Mateus 1:17, Bíblia Livre)

Observação. Mateus organiza a história em três blocos de catorze gerações, e o versículo 16 muda a fórmula: não diz que José “gerou” Jesus, mas que Maria foi aquela “da qual nasceu Jesus”.

Interpretação. O primeiro bloco, de Abraão a Davi, marca a ascensão do reino. O segundo, de Davi ao exílio, marca o declínio moral, a apostasia e a dor da terra devastada. O terceiro, do exílio a Cristo, cobre séculos de aparente silêncio, com Israel sob impérios estrangeiros. Os catorze lembram o nome de Davi, que em hebraico soma catorze, mas o ponto principal é outro: a promessa nunca saiu da pauta de Deus. A mudança do versículo 16 prepara o que vem em seguida, o nascimento virginal de Jesus, concebido do Espírito Santo (Mateus 1:18-21). Ele é verdadeiramente homem, da linhagem de Davi, e verdadeiramente Deus, o Filho eterno que “salvará seu povo de seus pecados” (Mateus 1:21). Quando veio o tempo certo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher (Gálatas 4:4).

Aplicação. Nossa fé também passa por esses períodos. Há épocas de entusiasmo e crescimento visível, há crises profundas em que colhemos as consequências dos nossos erros, e há longos invernos de silêncio em que parece que Deus se esqueceu de nós. A genealogia mostra que, mesmo quando não vemos nada acontecendo no palco, Deus continua trabalhando nos bastidores da história para cumprir as suas promessas no tempo certo. Na tradição wesleyana, isso se chama graça preveniente: Deus vem agindo antes de nós, mesmo quando ninguém percebe.

A nossa história enxertada nele

Essa mensagem atinge em cheio a nossa alma. Quantas vezes carregamos vergonha da família de onde viemos, das cicatrizes da infância ou dos erros do passado? Tendemos a achar que Deus só se aproxima de quem tem um histórico limpo e bem-sucedido.

O Evangelho de Mateus desmente essa mentira logo na primeira página. Se Cristo não se envergonhou de ter na sua própria história gente ferida, pecadores perdoados e estrangeiros improváveis, ele também não se envergonha de você. Pela fé em Jesus, e não por currículo nenhum, a nossa história de fracasso e culpa é perdoada, e passamos a fazer parte da família do Rei dos reis, como ramos enxertados na árvore (Romanos 11:17).