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Lição 30: Os estados de Cristo: humilhação e exaltação
Curso de Teologia Sistemática, parte 3
Neste texto
- Objetivos da lição
- Introdução
- 1. Os termos da doutrina
- 1.1 Estado, e não natureza
- 1.2 O vocabulário bíblico
- 1.3 As etapas
- 2. A fundamentação bíblica
- 2.1 A humilhação
- 2.2 Entre a cruz e o túmulo vazio
- 2.3 A exaltação
- 3. Desenvolvimento histórico
- 3.1 Os Pais, os credos e a Idade Média
- 3.2 A Reforma
- 3.3 Armínio
- 3.4 Wesley e o metodismo
- 3.5 O século XX e o Brasil
- 4. A posição arminiana clássica e wesleyana
- 4.1 O que afirmamos
- 4.2 Do trono vem a graça
- 4.3 A intercessão e a perseverança
- 4.4 Em diálogo com as outras tradições
- 5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Curso de Teologia Sistemática. Parte 3: A doutrina do Filho: a pessoa e a obra de Cristo.
Objetivos da lição
- Definir o que a teologia chama de “estados” de Cristo e distinguir a humilhação da exaltação.
- Percorrer as etapas de cada estado e conhecer a doutrina em Armínio, em Wesley e nas outras tradições.
- Examinar a cláusula “desceu ao inferno” e as principais leituras de Efésios 4:9 e de 1 Pedro 3:19.
- Mostrar como o Cristo exaltado aplica pelo Espírito a salvação que conquistou na humilhação.
Introdução
Nas cidades do interior ainda há quintais com poço, e quem cresceu perto de um conhece o medo de que uma criança caia lá dentro. Quando isso acontece, não basta que alguém grite instruções lá de cima: um adulto amarra a corda na cintura, desce até o fundo, toma a criança nos braços e sobe com ela. A descida e a subida formam um só socorro; se o homem ficasse no fundo, os dois estariam perdidos, e se subisse sozinho, o esforço teria sido inútil. A imagem é pequena demais para o mistério, mas mostra o essencial: o Filho de Deus desceu até o fundo da nossa condição, até a morte e a sepultura, e subiu de volta levando a nossa natureza, para que nós também subíssemos com ele.
Muitas igrejas brasileiras recitam o Credo Apostólico, que resume essa história numa sequência de verbos, do “padeceu” ao “há de vir para julgar”. A segunda metade, porém, é pouco pregada: a ascensão quase desapareceu do calendário evangélico, a sessão à direita do Pai raramente é explicada, e a cláusula “desceu ao inferno” gera confusão, a ponto de haver quem ensine que Jesus sofreu três dias nas mãos do diabo para completar a redenção.
A lição 28 tratou da pessoa do Filho encarnado, e a lição 29, do esvaziamento pelo qual ele entrou na nossa condição. Esta lição acompanha o arco inteiro, da manjedoura ao trono e do trono ao retorno, como a moldura em que se exercem os ofícios (lição 31) e a expiação (lição 32).
1. Os termos da doutrina
1.1 Estado, e não natureza
Estado (latim status) designa a condição em que a pessoa do Mediador se encontra diante de Deus, da lei e dos homens, e não uma mudança na natureza divina. A teologia protestante chamou o primeiro de estado de humilhação (status exinanitionis, do verbo com que a Vulgata traduziu o “esvaziou-se” de Filipenses 2:7) e o segundo de estado de exaltação (status exaltationis).
O sujeito dos dois estados é a pessoa do Filho, segundo a natureza humana que assumiu, porque à natureza divina nada falta e nada pode ser acrescentado. Por isso Jesus pede ao Pai “aquela glória que eu tinha junto de ti, antes que o mundo existisse” (João 17:5): o Filho eterno recebe de volta, agora também como homem, a glória que nunca deixou de ter como Deus. Assim como a encarnação se deu por adição, e não por subtração (lição 29), a exaltação não dissolve a humanidade de Cristo, mas a glorifica.
1.2 O vocabulário bíblico
Para a humilhação, o Novo Testamento usa tapeinoō, “rebaixar”: Cristo “humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte” (Filipenses 2:8); e o eunuco lê em Isaías: “Em sua humilhação foi tirado seu julgamento” (Atos 8:33). Para a exaltação, Paulo cunha hyperypsoō, “exaltar acima de tudo”, que ocorre só em Filipenses 2:9. João usa o verbo simples, hypsoō, “levantar”, com duplo sentido: “assim deve o Filho do homem ser levantado” (João 3:14); “quando for levantado da terra, trarei todos a mim” (João 12:32). O evangelista explica que Jesus falava da cruz (12:33), mas o levantamento na cruz é o começo do levantamento ao trono.
Dois termos pedem cuidado. Hadēs traduz na Septuaginta o hebraico sheol, o lugar ou a condição dos mortos, que o Novo Testamento distingue da geenna, o castigo final (Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, art. “Inferno”); a Bíblia Livre o traduz por “Xeol”. O latim do credo, descendit ad inferos, significa “desceu às regiões inferiores”, isto é, ao lugar dos mortos; como o português “inferno” estreitou o sentido, a liturgia católica no Brasil diz “desceu à mansão dos mortos”, e várias igrejas evangélicas, “desceu ao Hades”.
1.3 As etapas
A tradição distingue, na humilhação, a encarnação, a vida sob a lei, os sofrimentos, a morte, a sepultura e a permanência no estado dos mortos; na exaltação, a ressurreição, a ascensão, a sessão à direita do Pai e o retorno em glória. O batista A. B. Langston conta três “épocas” de humilhação e duas de exaltação (Esboço de teologia sistemática, 4.1-4.2); Armínio, três graus de exaltação. As listas variam, mas a ordem é a que o Senhor ensinou em Emaús: “Por acaso não era necessário que o Cristo sofresse estas coisas, e então entrar em sua glória?” (Lucas 24:26). Os profetas já anunciavam “os sofrimentos de Cristo e as glórias seguintes” (1 Pedro 1:11).
2. A fundamentação bíblica
2.1 A humilhação
O Servo de Isaías “será exaltado e elevado” (Isaías 52:13), e o capítulo seguinte reúne os dois estados: ele “derramou sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; e levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores” (Isaías 53:12). A humilhação começa na encarnação: “Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gálatas 4:4). Aquele que deu a lei passou a viver debaixo dela, e Hebreus mostra que a sujeição foi real:
Ele, nos dias de seu corpo carnal, ofereceu com grande clamor e lágrimas, tanto orações como súplicas para aquele que podia o livrar da morte, e foi ouvido por causa da devoção. Ainda que ele era o Filho, aprendeu a obediência por meio das coisas que sofreu. E, depois de ter sido consumado, ele foi feito autor da eterna salvação a todos os que lhe obedecem;
O Filho não aprendeu a obedecer porque fosse desobediente, mas aprendeu, sofrendo, o que custa obedecer numa carne frágil (Hebreus 4:15). A humilhação chega ao ponto mais baixo na morte de cruz, suplício de escravos e sinal de maldição: “Cristo nos resgatou da maldição da Lei ao se fazer maldição para o nosso benefício” (Gálatas 3:13). Essa morte foi voluntária, “eu de mim mesmo a dou” (João 10:18), e a sepultura confirma a sua realidade, razão pela qual o evangelho que Paulo transmitiu inclui o dado aparentemente banal “que foi sepultado” (1 Coríntios 15:4).
2.2 Entre a cruz e o túmulo vazio
Sobre o que aconteceu entre a sexta-feira e o domingo, há dados firmes e passagens difíceis. O corpo de Jesus ficou no túmulo; a sua alma esteve com o ladrão arrependido “no paraíso” (Lucas 23:43); ele esteve “três dias e três noites no coração da terra” (Mateus 12:40), isto é, partilhou verdadeiramente a condição dos mortos; e Deus não o deixou ali. Pedro, no Pentecostes, lê o Salmo 16 como profecia dessa permanência breve:
Vendo-o com antecedência, falou da ressurreição do Cristo, que a sua alma não foi abandonada no Xeol, nem a sua carne viu a degradação. A este Jesus Deus ressuscitou; do qual todos nós somos testemunhas. Portanto, tendo sido exaltado à direita de Deus, e recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que agora estais vendo e ouvindo.
“Não era possível ele ser retido” pela morte (Atos 2:24), e o Cristo glorificado diz: “eu tenho as chaves da morte e do Xeol” (Apocalipse 1:18). Quem entrou na morte como prisioneiro saiu como o seu senhor, porque pela morte aniquilou “ao que tinha o poder da morte, isto é, o diabo” (Hebreus 2:14).
As passagens difíceis são duas. Em Efésios 4:9, Cristo, antes de subir, “tinha descido às partes mais baixas da terra”; o Dicionário internacional (art. “Céu”) registra três leituras, o Hades, o túmulo ou a própria terra, para onde o Filho desceu na encarnação, e Wesley, nas Notas explicativas sobre o Novo Testamento, lembra que os Salmos usam expressão semelhante para o ventre materno (Salmo 139:15). A segunda passagem é a mais discutida:
Porque também Cristo morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos; para que vos levasse a Deus. Ele estava, de fato, morto na carne, mas vivificado pelo Espírito, no qual ele também foi pregar aos espíritos em prisão. Estes são os que antigamente foram rebeldes, quando a paciência de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto era preparada a arca. Nela, poucas almas (isto é, oito) foram salvas por meio da água.
Há três leituras principais. A de Agostinho (Carta 164) e de Wesley (Notas) entende que Cristo, pelo Espírito, pregou por meio de Noé àquela geração, que agora está “em prisão” à espera do juízo. Outra, frequente entre os modernos, vê o Cristo vivificado proclamando a vitória aos espíritos rebeldes, provavelmente os anjos caídos que a tradição judaica ligava ao dilúvio. A terceira faz da passagem uma segunda oportunidade depois da morte e contradiz a Escritura: “está ordenado aos seres humanos morrerem uma vez, e depois disso, o juízo” (Hebreus 9:27). Também 1 Pedro 4:6, segundo o qual o evangelho “foi pregado aos mortos”, refere-se com mais naturalidade aos que o ouviram em vida e já morreram (Dicionário internacional, art. “Carne”).
2.3 A exaltação
A ressurreição. Paulo transmite uma fórmula recebida poucos anos depois dos fatos: Cristo morreu por nossos pecados, “e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”, e foi visto por Cefas, pelos doze e por mais de quinhentos irmãos (1 Coríntios 15:3-6). A ressurreição é corporal, porque “um espírito não tem carne nem ossos” (Lucas 24:39), mas o corpo foi transformado em “corpo espiritual” (1 Coríntios 15:44), inteiramente governado pelo Espírito. Por ela, Jesus foi “declarado Filho de Deus em poder” (Romanos 1:4) e feito “as primícias dos que dormiram” (1 Coríntios 15:20); e “ressuscitou para a nossa justificação” (Romanos 4:25), porque o Pai, ao levantá-lo, declarou aceito o sacrifício. Sem ela, “vossa fé é vã” (1 Coríntios 15:17). A obra é da Trindade inteira: o Pai ressuscita o Filho (Atos 2:24), o Filho retoma a vida (João 10:18) e é “vivificado pelo Espírito” (1 Pedro 3:18).
A ascensão. Diante dos discípulos, Jesus “foi levantado acima, e uma nuvem o tirou dos olhos deles”, e os anjos anunciaram: “Este Jesus, que foi tomado de vós acima ao céu, assim virá” (Atos 1:9-11). Em Lucas, ele sobe abençoando os discípulos (Lucas 24:50-51), como o sumo sacerdote que sai do santuário. A ascensão é a entrada do homem Jesus na glória do Pai, e por isso nos é proveitosa: “se eu não for, o Consolador não virá a vós” (João 16:7). Cristo entrou “no próprio Céu, para agora comparecer por nós diante da face de Deus” (Hebreus 9:24).
A sessão à direita do Pai. O texto do Antigo Testamento mais citado no Novo é o Salmo 110:1: “Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos por escabelo de teus pés”. Estar sentado significa, primeiro, que o sacrifício está concluído: o Filho, “depois de fazer por si mesmo a purificação dos pecados, sentou-se à direita da Majestade nas alturas” (Hebreus 1:3), enquanto os sacerdotes antigos ofereciam de pé os mesmos sacrifícios (Hebreus 10:11-12). Significa, depois, que ele reina agora: “convém que ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés” (1 Coríntios 15:25). Significa, por fim, que continua a exercer o sacerdócio:
mas ele, porque permanece para sempre, tem um sacerdócio definitivo. Portanto, ele também pode salvar de maneira completa os que se aproximam de Deus por meio dele, visto que ele vive para sempre para interceder por eles.
Paulo junta os graus numa só frase: Cristo “é o que morreu; além disto é o que também ressuscitou; o que também está à direita de Deus, e que intercede por nós” (Romanos 8:34). Ele é o “advogado com o Pai” e o sacrifício “não somente dos nossos, mas também dos de todo o mundo” (1 João 2:1-2), e do trono derrama o Espírito (Atos 2:33).
O retorno. O último grau é a manifestação pública do que hoje está oculto: Cristo “aparecerá pela segunda vez, sem pecado, aos que o esperam, para a salvação” (Hebreus 9:28), e Deus julgará o mundo “por meio do homem a quem determinou” (Atos 17:31), o mesmo que foi julgado por nós. O modo e a ordem desses acontecimentos ficam para as lições 48 e 49.
3. Desenvolvimento histórico
3.1 Os Pais, os credos e a Idade Média
As primeiras regras de fé seguem o arco da descida e da subida. Inácio de Antioquia repete “verdadeiramente” diante de cada etapa, contra os docetas, que faziam do sofrimento de Cristo uma aparência (Aos tralianos 9); Irineu resume a fé da igreja na paixão, na ressurreição e na “ascensão em carne aos céus” (Contra as heresias I, 10, 1). Agostinho condensou a humilhação numa frase: “Nós caímos, Ele desceu” (Sermão aos catecúmenos); e Leão de Roma pregou que “a ascensão de Cristo é a nossa elevação” (Sermão 73, 4).
A cláusula da descida entrou tarde nos credos ocidentais. Rufino de Aquileia (Comentário ao Credo, c. 404) observou que o credo de Roma não a trazia e que o seu sentido parecia contido em “sepultado”. O Oriente pintou a vitória no ícone da Anástasis, em que Cristo, de pé sobre as portas quebradas do Hades, puxa Adão e Eva dos túmulos; a Idade Média ocidental fez da descida a libertação dos justos que aguardavam num “limbo dos pais” (Tomás de Aquino, Suma teológica III, q. 52), leitura mantida pelo Catecismo da Igreja Católica (§§ 632-637).
3.2 A Reforma
A doutrina dos dois estados, com esse nome, é obra da teologia protestante. Para os luteranos, a humanidade de Cristo participa da majestade divina desde a concepção; a humilhação consistiu em não usá-la plenamente, e a exaltação, em usá-la sem reservas. A Fórmula de Concórdia (art. IX) ensina que a pessoa inteira, depois da sepultura, desceu ao inferno e venceu o diabo, e faz da descida o primeiro passo da exaltação. Os reformados a situaram na humilhação: Calvino (Institutas II, 16, 10) a referiu aos tormentos que Cristo sofreu na alma, na cruz, sob o juízo de Deus, e o Catecismo de Heidelberg (pergunta 44) aplica essa leitura ao consolo do crente; o Catecismo Maior de Westminster (pergunta 50) diz apenas que Cristo permaneceu no estado dos mortos, sob o poder da morte, até o terceiro dia.
3.3 Armínio
Armínio dedicou aos dois estados a Disputa privada XXXVIII. Os dois estados, diz ele, são necessários para que Cristo possa trazer o nome de Salvador e realizar o que o nome significa; a humilhação é “segundo a carne”, a glória, “segundo o Espírito”. Os sofrimentos atingiram a alma e o corpo e vieram em parte dos inimigos e em parte do castigo do Pai, que a tradução brasileira precisa como castigo dos pecados que ele, inocente, tomou sobre si. Sobre a descida, Armínio retoma a observação de Rufino e antecipa a leitura de Westminster: a descida ao inferno, “ou Hades”, é o começo da permanência de Cristo entre os mortos, como o sepultamento é o começo da permanência no túmulo (Atos 2). E acrescenta, com uma serenidade que falta a muitos debates: a quem a entender de outro modo, “não contradiremos a sua opinião, desde que esteja de acordo com as Escrituras e a analogia da fé”.
A exaltação tem três graus. A ressurreição é obra do Pai, pelo Espírito, e do próprio Cristo; a ascensão levou ao céu um corpo incorruptível e glorioso, o que exclui a transubstanciação e a presença corporal no pão; a sessão é o grau supremo, em que Cristo exerce o ofício régio e continua o sacerdotal. A humilhação foi necessária ao sacerdote, que devia comparecer diante do Pai aspergido com o próprio sangue para interceder pelos crentes, e ao rei, que devia enviar do céu “a palavra e o Espírito” e governar a igreja até o juízo. A disputa termina em oração: “Ora, vem, Senhor Jesus!”.
No Exame do panfleto de Perkins (1602), Armínio enfrentou o argumento de que Cristo não se sacrificou por aqueles por quem não ora (João 17:9). O sacrifício, responde, diz respeito ao mérito, e a intercessão, à aplicação do mérito; Cristo orou também pelos que o crucificaram (Lucas 23:34); e o “mundo” de João 17:9 são os que rejeitaram o evangelho pregado. Por isso a extensão do sacrifício não deve ser medida pelos estreitos limites daquela intercessão. A distinção entre obter a redenção, obra só de Cristo, e aplicá-la pela união com ele na fé (Romanos 6:3-5) voltará em toda a quarta parte do curso.
3.4 Wesley e o metodismo
No livro de culto que preparou em 1784 para os metodistas americanos, Wesley tirou do Credo Apostólico a cláusula da descida e omitiu o artigo anglicano sobre ela; o artigo metodista afirma que Cristo ressuscitou verdadeiramente, retomou o corpo com tudo o que pertence à natureza humana, subiu com ele ao céu e lá está sentado até voltar para julgar todos os homens. A omissão não nega a permanência de Cristo entre os mortos, pois Wesley ensina que as almas dos justos estão no paraíso, “com Cristo, da morte até à ressurreição” (carta a George Blackall, na Coletânea da teologia de João Wesley); mostra apenas que a cláusula, tardia e ambígua, não lhe parecia essencial. O mesmo livro, observa Randy Maddox, organizou o ano cristão em torno do Advento, da Páscoa e da Ascensão com o Pentecostes (Responsible Grace, cap. 8).
O centro da contribuição wesleyana está no Cristo exaltado como sacerdote presente. Wesley queria Cristo pregado como sumo sacerdote “vivendo sempre intercedendo por nós”, mas também como profeta e como rei (A lei estabelecida pela fé, II), e ensinou que mesmo os mais santos dependem do seu ofício sacerdotal (Explicação clara da perfeição cristã, § 19). Maddox observa que ele usou com economia a linguagem da intercessão, para evitar a ideia de um Pai que precise ser convencido, e que, para os Wesley, pregar a vida, a morte, a ressurreição e a intercessão de Cristo era pregar o amor de Deus (Responsible Grace, cap. 4). Charles Wesley cantou, em Arise, My Soul, Arise (1742), as cinco chagas do Cristo exaltado que “rogam fortemente por mim”.
Os sistemáticos metodistas mantiveram a ordem clássica: Richard Watson (Theological Institutes) fez do culto prestado ao Cristo exaltado (Filipenses 2:9-11) argumento da sua divindade, e William Burt Pope (Compendium) e H. Orton Wiley (Christian Theology, vol. 2) estudam os estados em ligação com os ofícios, como este curso.
3.5 O século XX e o Brasil
No século XX, Rudolf Bultmann reduziu a ressurreição ao surgimento da fé nos discípulos, e Wolfhart Pannenberg a defendeu como fato histórico aberto à investigação (McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica); Karl Barth reinterpretou os estados como dois aspectos simultâneos da única história de Jesus (Dogmática eclesiástica IV/1-2). A Bultmann, Paulo responde que sem a ressurreição a fé é vã; de Barth, recebemos o lembrete de que a glória já brilha na cruz, mas o Novo Testamento insiste na sequência: “e então entrar em sua glória”.
No Brasil, Langston ensina que na exaltação Jesus recebeu de novo a glória que tinha antes do mundo e o pleno uso dos poderes que deixara de usar (Esboço, 4.2). Walter Brunelli (Teologia para pentecostais, vol. 2) recusa a ideia de que a cruz não bastasse e Jesus tivesse de sofrer também no inferno; para ele, Cristo foi ao lugar dos mortos proclamar a vitória e tomar as chaves. A recusa é necessária, porque certa pregação neopentecostal difunde a tese de que Jesus morreu “espiritualmente” e foi atormentado pelo diabo durante três dias antes de renascer, contra o “Está consumado” (João 19:30), o “hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43) e a sessão do Filho, que se sentou porque o sacrifício estava concluído (Hebreus 10:12).
Duas vozes servem de contraste. Charles Finney argumenta, a partir de Hebreus 7:25, que as intercessões de Cristo “sempre prevalecem” e conclui que todos os crentes perseverarão (Teologia sistemática), sem notar que o texto fala dos que “se aproximam de Deus por meio dele”. Vincent Cheung passa da expiação “eficaz e específica” à supremacia do Cristo exaltado (Teologia sistemática), como se o trono confirmasse o alcance limitado da cruz. Contra ambos vale a distinção de Armínio entre a obra feita por todos e a sua aplicação, pela fé, aos que creem.
4. A posição arminiana clássica e wesleyana
4.1 O que afirmamos
Em primeiro lugar, o sujeito dos dois estados é a única pessoa do Filho encarnado. A humanidade que ele assumiu foi rebaixada até a morte e exaltada até o trono, e desde a ascensão há um homem à direita de Deus.
Em segundo lugar, a humilhação foi real, voluntária e vicária: com Armínio, entendemos que os sofrimentos vieram também do castigo do Pai sobre os pecados que o inocente tomou sobre si (lição 32).
Em terceiro lugar, confessamos que Cristo entrou verdadeiramente na condição dos mortos, com o corpo no túmulo e a alma no paraíso, sem ser retido pela morte. Recusamos que ele tenha sofrido no inferno depois da cruz ou completado ali a redenção, e recusamos a segunda oportunidade depois da morte. Quanto ao sentido exato de Efésios 4:9 e de 1 Pedro 3:19, seguimos o conselho de Armínio e não fazemos dele motivo de divisão; a omissão de Wesley mostra que a cláusula pode ser recitada no sentido de Atos 2, ou dispensada, sem dano à fé.
Em quarto lugar, a exaltação é tão histórica quanto a humilhação. Com a escatologia amilenista deste curso, afirmamos que o reinado do Salmo 110 está em curso desde a ascensão e se estende até que a morte, o último inimigo, seja vencida (1 Coríntios 15:25-26); o retorno será único, visível e pessoal, para a ressurreição e o juízo de todos.
Por fim, o Cristo exaltado aplica pelo Espírito a salvação que conquistou na humilhação (Atos 2:33). A tradição wesleyana faz disso a arquitetura da teologia: depois da obra do Filho vem a obra do Espírito, que torna presente em nós o que Cristo fez por nós.
4.2 Do trono vem a graça
A doutrina dos estados mostra, mais uma vez, que a salvação é obra de Deus do começo ao fim. O Filho desceu por iniciativa própria e o Pai o exaltou por iniciativa própria, e a iniciativa continua depois da ascensão: “quando for levantado da terra, trarei todos a mim” (João 12:32). Essa atração universal do Cristo levantado na cruz e no trono é o que a teologia arminiana chama de graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer movimento humano, ilumina, convence e liberta a vontade para crer. Abner Hernández mostra que, para Armínio, a intenção universal da cruz se torna efetiva nessa graça, obra pessoal do Espírito Santo (The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius, 2017); a lição 36 voltará a ela.
Essa graça pode ser recusada: o mesmo Estêvão que viu “o Filho do homem, que está à direita de Deus” (Atos 7:56) dissera aos juízes: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51). Do trono vem também o arrependimento, porque Deus exaltou Jesus “por Príncipe e Salvador, para dar a Israel arrependimento e perdão de pecados” (Atos 5:31). O arrependimento e a fé não completam a parte de Deus, mas são dons do Cristo exaltado, que a pessoa, liberta pela graça, recebe sem mérito. E a união com ele pela fé nos faz participar da sua exaltação, pois Deus “nos ressuscitou, juntamente com ele, e nos fez sentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” (Efésios 2:6).
4.3 A intercessão e a perseverança
O Cristo exaltado vive “para interceder” pelos que se aproximam de Deus por meio dele (Hebreus 7:25), e essa é a razão da segurança do crente: “Quem os condenará?” (Romanos 8:34). Quando Jesus disse a Pedro que rogara por ele, “que tua fé não se acabe” (Lucas 22:32), Armínio comentou que a fé de Pedro poderia ter falhado, se considerássemos as suas forças, mas Cristo, pela intercessão, obteve para ele a graça que a preservou (Exame do panfleto de Perkins). O crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a intercessão é o meio pelo qual Deus o guarda na fé, e não uma garantia que funcione apesar dela; a certeza é real, e a advertência também (lição 42).
4.4 Em diálogo com as outras tradições
Com os reformados, partilhamos a localização da descida na humilhação e o uso da ascensão contra a ubiquidade, mas não limitamos a intercessão aos eleitos. Com os luteranos, confessamos a vitória sobre a morte e o diabo, sem aceitar a comunicação da majestade divina à natureza humana. Com católicos e ortodoxos, confessamos o mesmo Credo, sem receber o limbo dos pais como doutrina de fé. Com os irmãos pentecostais, celebramos o derramamento do Espírito pelo Cristo exaltado, e divergimos apenas das versões populares que fazem a redenção depender de um sofrimento no inferno.
5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, a doutrina dos estados corrige o nosso culto. Uma igreja que celebra a Páscoa, mas esquece a ascensão e a sessão, adora um Cristo do passado; o Senhor que adoramos vive, reina e intercede agora.
Em segundo lugar, ela consola os que caem. “Se alguém pecar, temos um advogado com o Pai” (1 João 2:1). A intercessão não é licença para pecar, mas o lugar para onde corre o crente que pecou, em vez de se esconder de Deus, e isso vale para todos nós.
Em terceiro lugar, ela julga a teologia da glória sem cruz. Geerhardus Vos observa que, no deserto, o tentador quis levar Jesus a reclamar as prerrogativas da exaltação sem o intervalo do sofrimento (Teologia bíblica). A pregação que promete coroa sem cruz repete a proposta, e o caminho do Mestre é o dos discípulos: “se sofremos com ele, é para que também com ele sejamos glorificados” (Romanos 8:17).
Em quarto lugar, ela orienta a vida e a missão. Buscar “as coisas de cima, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Colossenses 3:1) é viver na terra sob o governo de quem tem “todo o poder”, e por isso a Grande Comissão começa com essa frase (Mateus 28:18).
Por fim, ela nos ensina a morrer. Cristo esteve entre os mortos e saiu de lá com as chaves, e o crente que morre vai para onde o Senhor foi e espera ali a ressurreição do corpo (ver A esperança na ressurreição do corpo).
Voltemos ao poço do quintal. O homem desceu até o fundo, tomou a criança nos braços e subiu com ela, e só então o socorro ficou completo. Cristo desceu mais fundo do que qualquer poço, até a morte e o lugar dos mortos, e subiu acima de todos os céus; e não subiu sozinho, porque levou consigo a nossa natureza e, pela fé, a nós mesmos. A criança resgatada não puxou a corda, mas foi carregada. Senhor Jesus Cristo, que desceste até a nossa morte e subiste à direita do Pai, guarda-nos de esquecer a tua cruz e de esquecer o teu trono; derrama sobre nós o Espírito que recebeste do Pai, intercede por nós quando a nossa fé vacilar e mantém-nos em ti até o dia da tua volta. Vem, Senhor Jesus.
Síntese
- Os estados de Cristo são as duas condições do Filho encarnado segundo a natureza humana: a humilhação, da encarnação à permanência entre os mortos, e a exaltação, da ressurreição ao retorno.
- A humilhação foi real, voluntária e vicária, e culminou na morte de cruz, em que o inocente levou o castigo dos pecados de muitos.
- “Desceu ao inferno” significa ao menos que Cristo entrou verdadeiramente na condição dos mortos e não foi retido por ela, e não que tenha completado a redenção no inferno.
- A ressurreição corporal, a ascensão e a sessão mostram que o sacrifício foi aceito e concluído, que Cristo reina agora e que intercede pelos que se aproximam de Deus por meio dele.
- Do trono, o Cristo exaltado derrama o Espírito, atrai todos pela graça preveniente, concede arrependimento e guarda na fé os que creem: a salvação é obra de Deus do começo ao fim.
Questões para revisão
- Por que se diz que a natureza divina não foi humilhada nem exaltada? Quem é o sujeito dos dois estados?
- Explique o duplo sentido de hypsoō em João 3:14 e 12:32.
- Quais são os dados firmes sobre Cristo entre a morte e a ressurreição, e quais as três leituras de 1 Pedro 3:19?
- Compare a posição luterana, a de Calvino, a de Westminster e a de Armínio sobre a cláusula “desceu ao inferno”.
- Como Armínio responde ao argumento de que a intercessão de João 17:9 limita o alcance da expiação?
- Como a exaltação de Cristo fundamenta a graça preveniente e a perseverança na perspectiva arminiana?
Bibliografia
- AGOSTINHO. Sermão aos catecúmenos sobre o Credo; Carta 164.
- ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (vol. 2, Disputas privadas XXXVIII); The Works of James Arminius. Trad. J. e W. Nichols. Londres, 1825-1875 (vol. 3, Exame do panfleto de Perkins).
- BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 2. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
- Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.
- Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000.
- HERNÁNDEZ, Abner F. The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius. Tese. Andrews University, 2017.
- LANGSTON, A. B. Esboço de teologia sistemática. Rio de Janeiro: JUERP, 1980.
- MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
- McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd, 2005.
- VOS, Geerhardus. Teologia bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
- WATSON, Richard. Theological Institutes (1823-1829); POPE, W. B. Compendium of Christian Theology (1880); WILEY, H. Orton. Christian Theology, vol. 2 (1941).
- WESLEY, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento (1755); Explicação clara da perfeição cristã (1766); The Sunday Service of the Methodists in North America (1784); textos em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995. WESLEY, Charles. Hymns and Sacred Poems (1739, 1742).
- Fontes antigas e confessionais citadas: Inácio de Antioquia, Irineu, Rufino de Aquileia, Leão de Roma, Tomás de Aquino, Calvino (Institutas), Fórmula de Concórdia, Catecismo de Heidelberg, Catecismo Maior de Westminster, Barth (Dogmática eclesiástica IV).
- Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática; FINNEY, Charles. Teologia sistemática.
Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática. Anterior: Lição 29: A kenose. Próxima: Lição 31: A obra de Cristo: os três ofícios.
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