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Sede perfeitos: O que Wesley ensinou sobre perfeição cristã
"Sede perfeitos": O que John Wesley realmente quis dizer com a perfeição cristã
Quase todo leitor da Bíblia já tomou um susto ao chegar no final do capítulo 5 de Mateus. Depois de ensinar sobre perdoar os inimigos, dar a outra face e amar quem nos persegue, Jesus fecha o trecho com uma frase que parece uma sentença impossível de cumprir: “Sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:48).
A primeira reação da maioria de nós é o desânimo: “Se a régua é essa, eu posso desistir agora”.
Afinal, convivemos diariamente com as nossas falhas, perdemos a paciência no trânsito, temos pensamentos dos quais nos envergonhamos e sabemos muito bem que a perfeição absoluta é algo que nenhum ser humano na terra possui.
No século dezoito, um pregador inglês chamado John Wesley pegou essa passagem bíblica, colocou-a no centro do seu ministério e defendeu uma doutrina que gerou um dos maiores debates da história da teologia: a perfeição cristã, também chamada de inteira santificação.
Poucas doutrinas foram tão distorcidas, caricaturadas e mal interpretadas quanto essa. Muitos ainda torcem o nariz, achando que Wesley ensinava que o crente pode virar um semideus imune a qualquer pecado ou erro.
Para entender o que o fundador do metodismo realmente ensinou, precisamos começar limpando o terreno e vendo o que a perfeição bíblica não é.
O que a perfeição não é
Em seu tratado Um Relato Simples da Perfeição Cristã, Wesley gastou páginas inteiras desarmando os exageros dos fanáticos e os medos dos céticos.
Em primeiro lugar, perfeição cristã não significa infalibilidade. Continuamos seres humanos, habitando corpos mortais e mentes limitadas. Cometemos erros de julgamento, esquecemos compromissos, interpretamos mal as atitudes dos outros e carregamos limitações físicas e emocionais todos os dias. Ter fraquezas biológicas e psicológicas não é pecado; é a nossa condição de criatura.
Em segundo lugar, a perfeição não significa imunidade contra a tentação. O próprio Jesus foi tentado em tudo como nós, mas sem pecado (Hebreus 4:15). Enquanto estivermos respirando neste mundo, o diabo, a cultura decaída e as pressões da carne continuarão batendo à nossa porta.
Em terceiro lugar, ela nunca torna o crente independente da graça. Não existe estágio de maturidade espiritual em que possamos bater no peito e dizer: “Agora me garanto sozinho”. O cristão mais santo da terra precisa do sangue expiatório de Cristo e da misericórdia do Pai a cada respiração, tanto quanto precisava no primeiro dia de sua conversão.
Então, o que significa ser perfeito?
Se perfeição não é infalibilidade nem ausência de tentação, o que Jesus e Wesley estavam dizendo?
A pista está na própria palavra grega usada no evangelho: teleios. No pensamento bíblico, teleios não quer dizer impecabilidade estática de robô de fábrica; quer dizer maturidade, integridade e cumprimento do propósito para o qual algo foi criado. Uma árvore frutífera é “perfeita” não quando tem galhos milimetricamente simétricos desenhados por computador, mas quando produz os frutos doces que deveria produzir.
Para Wesley, a perfeição cristã se resume numa única palavra: amor.
É aquilo que o apóstolo chamou de amor aperfeiçoado (1 João 4:17-18). Ser perfeito significa ter o coração tão cheio do Espírito Santo que o amor a Deus se torna o motor de toda a existência, e o amor ao próximo expulsa a amargura, o ressentimento, a malícia deliberada e a vingança. Esse amor não é conquista nossa: é dom de Deus, derramado em nosso coração pelo Espírito (Romanos 5:5) e recebido pela fé, assim como a justificação.
Wesley explicava que a salvação tem duas pernas inseparáveis. A primeira é a justificação: o que Deus faz por nós através de Cristo na cruz, perdoando os nossos pecados e nos declarando justos de graça. A segunda é a santificação: o que Deus faz em nós através do Espírito Santo, transformando o nosso coração e nos libertando do poder escravizador do pecado.
Muitos cristãos acreditam que o perdão de Deus tem força para limpar o passado, mas acham que a graça é fraca demais para mudar o presente. Conformam-se com a ideia de que serão escravos do ódio, da pornografia ou da inveja até o túmulo. Wesley desafiou essa descrença: se o sangue de Jesus basta para nos livrar da condenação eterna, Ele também basta para sarar a nossa mente e encher a nossa vida de amor real agora.
Processo ou crise instantânea?
Uma das maiores controvérsias sobre esse tema sempre foi esta pergunta: a santificação plena acontece num instante ou é uma caminhada lenta?
A sabedoria de Wesley foi não cair nessa falsa dicotomia. Ele ensinava que a santificação é as duas coisas juntas.
Ela é um processo gradual: desde o dia em que nos convertemos, o Espírito Santo começa a podar as nossas arestas, ensinando-nos a ter paciência, a dominar a língua e a servir aos necessitados. A pessoa cresce na graça dia após dia, participando da ceia, orando, lendo a Bíblia e jejuando.
Porém, ao longo dessa caminhada, quase sempre há momentos de crise e consagração: um instante em que o crente finalmente para de barganhar com Deus, entrega as rédeas do próprio ego e experimenta libertação do orgulho e da amargura interior. Mesmo depois dessa bênção, o crescimento não para; ele continua pelo resto da vida.
O perigo do fanatismo e o freio de mão de Charles Wesley
Wesley teve de lidar com desvios sérios no meio do seu movimento. Em Londres, dois pregadores chamados Thomas Maxfield e George Bell começaram a ensinar que haviam alcançado uma perfeição tão absoluta que não podiam mais pecar, não precisavam mais ler a Bíblia nem frequentar a igreja, e Bell chegou a profetizar a data exata do fim do mundo.
Wesley agiu com firmeza, rompeu com os fanáticos e advertiu que qualquer “santidade” que gere arrogância e desprezo pelos outros não vem de Deus.
O seu próprio irmão, Charles Wesley, o maior hinista da língua inglesa, servia como um contraponto sábio e prudente. Charles temia que as pessoas proclamassem de boca cheia que eram “perfeitas” e depois caíssem em escândalos vergonhosos. Escreveu milhares de hinos pedindo que o amor de Deus enchesse a igreja, mas sempre com a humildade de quem prefere demonstrar a fé nos atos práticos a sair exibindo títulos espirituais.
O convite para a vida real
A doutrina da perfeição cristã não foi feita para criar uma elite de crentes que se acham santos. Ela foi dada como um antídoto contra o conformismo espiritual.
Jesus não nos chamou para viver uma fé medíocre, em que passamos a vida inteira alimentando mágoas antigas, fofocando pelos cantos e dizendo “eu sou assim mesmo e ninguém vai me mudar”.
O mandamento de Mateus 5:48 é um convite gracioso para a maturidade. É a promessa de que o Pai celestial quer nos curar por dentro, até que a nossa vida seja governada por um amor tão puro, livre e generoso que o mundo olhe para as nossas atitudes e consiga enxergar um reflexo verdadeiro do Salvador.
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