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HistóriaArminianismo1 de 46

C. S. Lewis: o ateu de Oxford que virou apologista da fé cristã

Diego Gonçalves6 min de leitura1.274 palavras

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Neste texto

Numa noite de 1931, Clive Staples Lewis passeou por Oxford com dois amigos, J. R. R. Tolkien e Hugo Dyson, e a conversa girou em torno de mito, verdade e Evangelho. Lewis tinha deixado a fé na adolescência e se dizia ateu. Dessas conversas, segundo as biografias, ele saiu cristão. Anos depois, a sua voz chegaria a milhões de pessoas pelo rádio e pelos livros.

Retrato de C. S. Lewis
Retrato de C. S. Lewis por John S. Murray, por volta de 1957 (sobrecapa de Till We Have Faces). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Lewis nasceu em Belfast, na Irlanda, em 29 de novembro de 1898. O pai, Albert, era advogado, e a mãe, Flora, morreu de câncer em 1908. Ele cresceu na casa Little Lea e, com o irmão mais velho, Warren (o “Warnie”), inventou um mundo imaginário chamado Boxen. Estudou no Malvern College e depois com um tutor particular, William Kirkpatrick. Nessa época deixou o cristianismo e se tornou ateu.

Entrou em Oxford em 1917, mas logo foi para a Primeira Guerra Mundial. Foi ferido na França em abril de 1918 e dispensado em dezembro. Voltou aos estudos e terminou com as notas mais altas em três cursos: Honour Moderations (1920), Greats (1922) e Língua e Literatura Inglesa (1923). Em 1925 foi eleito fellow e tutor de Literatura Inglesa no Magdalen College, onde ficou até 1954.

Voltou a crer em Deus em 1929 e se tornou cristão em 1931, depois das conversas com Tolkien e Dyson. Passou a frequentar a Igreja da Inglaterra, a igreja anglicana. Com Tolkien, Charles Williams, Owen Barfield e outros, participou dos Inklings, grupo informal de escritores que se reunia em Oxford. Durante a Segunda Guerra, falou sobre o cristianismo em programas da BBC, entre 1941 e 1943, e esses textos deram origem a Cristianismo Puro e Simples. Em 1942 tornou-se o primeiro presidente do Oxford Socratic Club, onde cristãos e céticos debatiam. Em 1951 recusou a condecoração de Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE).

Em 1954 assumiu a cátedra de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge. Em 1956 casou-se no civil com a escritora americana Joy Davidman, e a cerimônia religiosa foi em 1957, no leito do hospital onde ela estava internada. Joy morreu de câncer em 13 de julho de 1960. Lewis escreveu sobre o luto num diário que primeiro saiu sob pseudônimo (N. W. Clerk) e hoje é conhecido como A Grief Observed. Renunciou à cátedra em agosto de 1963, doente, e morreu em Oxford em 22 de novembro de 1963, de insuficiência renal.

Pensamento

Lewis não foi teólogo de ofício, mas professor de literatura e leigo anglicano. De propósito, evitava defender uma denominação nos livros de apologética, e chamava de “cristianismo puro e simples” o que as igrejas históricas confessam em comum. Por isso a classificação aqui é de simpatizante: ele não se disse arminiano, e sobre a predestinação recusou tomar partido.

Há indícios em duas direções. Numa carta publicada em Yours, Jack, ele chama a disputa entre livre-arbítrio e predestinação de insolúvel, diz que quando a graça move a vontade “it is still our will” e conclui que prefere deixar o assunto de lado (a carta é citada por Jeff Doles no blog The Faith Log). Por outro lado, o teólogo arminiano Roger Olson argumenta, num texto de 2016, que Lewis rejeita o calvinismo e concorda com o arminianismo clássico no caráter sinérgico da salvação. Sinergia quer dizer que Deus e a pessoa agem juntos: a graça vem primeiro e faz o que a pessoa não conseguiria fazer, e a pessoa responde livremente. Já um artigo recente da revista Sehnsucht lê Lewis de outro modo: para ele, a condenação cabe só à escolha do pecador, mas o crédito da salvação é todo de Deus. É um retrato que não cabe inteiro em nenhum dos dois lados.

Dois temas voltam sempre nos livros dele. O primeiro é o livre-arbítrio: Lewis explica que Deus criou seres livres porque o amor só existe onde há liberdade, mesmo sabendo que a liberdade abre a porta para o mal. O segundo é a graça: a pessoa não chega a Deus por mérito, e ele conta a própria conversão como a de quem foi alcançado, e não como a de quem venceu uma discussão.

Em relação à nossa declaração de fé aqui no blog, as convergências são a liberdade real da pessoa, a graça que vem antes dela e o chamado oferecido a todos. As diferenças aparecem onde Lewis fica em silêncio: ele não tratou como ponto de doutrina a perseverança condicional, nem a inteira santificação, que vem de John Wesley. Para conhecer o debate que ele preferiu não travar, leia a biografia de Jacó Armínio, Soteriologia Arminiana e Presciência, Eleição e Predestinação. Sobre o livro mais famoso dele, temos a resenha de Cartas de um Diabo a seu Aprendiz.

Obras principais

  • The Pilgrim’s Regress (1933), alegoria da própria jornada até a fé
  • The Allegory of Love (1936), estudo de literatura medieval
  • The Problem of Pain (1940)
  • The Screwtape Letters (1942)
  • The Abolition of Man (1943)
  • Miracles (1947)
  • Mere Christianity (1952)
  • Surprised by Joy (1955), autobiografia
  • Till We Have Faces (1956)
  • As Crônicas de Nárnia, sete livros infantis
  • A Grief Observed, sobre o luto por Joy
  • A trilogia espacial: Out of the Silent Planet, Perelandra e That Hideous Strength

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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