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C. S. Lewis: o ateu de Oxford que virou apologista da fé cristã
Numa noite de 1931, Clive Staples Lewis passeou por Oxford com dois amigos, J. R. R. Tolkien e Hugo Dyson, e a conversa girou em torno de mito, verdade e Evangelho. Lewis tinha deixado a fé na adolescência e se dizia ateu. Dessas conversas, segundo as biografias, ele saiu cristão. Anos depois, a sua voz chegaria a milhões de pessoas pelo rádio e pelos livros.
Vida
Lewis nasceu em Belfast, na Irlanda, em 29 de novembro de 1898. O pai, Albert, era advogado, e a mãe, Flora, morreu de câncer em 1908. Ele cresceu na casa Little Lea e, com o irmão mais velho, Warren (o “Warnie”), inventou um mundo imaginário chamado Boxen. Estudou no Malvern College e depois com um tutor particular, William Kirkpatrick. Nessa época deixou o cristianismo e se tornou ateu.
Entrou em Oxford em 1917, mas logo foi para a Primeira Guerra Mundial. Foi ferido na França em abril de 1918 e dispensado em dezembro. Voltou aos estudos e terminou com as notas mais altas em três cursos: Honour Moderations (1920), Greats (1922) e Língua e Literatura Inglesa (1923). Em 1925 foi eleito fellow e tutor de Literatura Inglesa no Magdalen College, onde ficou até 1954.
Voltou a crer em Deus em 1929 e se tornou cristão em 1931, depois das conversas com Tolkien e Dyson. Passou a frequentar a Igreja da Inglaterra, a igreja anglicana. Com Tolkien, Charles Williams, Owen Barfield e outros, participou dos Inklings, grupo informal de escritores que se reunia em Oxford. Durante a Segunda Guerra, falou sobre o cristianismo em programas da BBC, entre 1941 e 1943, e esses textos deram origem a Cristianismo Puro e Simples. Em 1942 tornou-se o primeiro presidente do Oxford Socratic Club, onde cristãos e céticos debatiam. Em 1951 recusou a condecoração de Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE).
Em 1954 assumiu a cátedra de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge. Em 1956 casou-se no civil com a escritora americana Joy Davidman, e a cerimônia religiosa foi em 1957, no leito do hospital onde ela estava internada. Joy morreu de câncer em 13 de julho de 1960. Lewis escreveu sobre o luto num diário que primeiro saiu sob pseudônimo (N. W. Clerk) e hoje é conhecido como A Grief Observed. Renunciou à cátedra em agosto de 1963, doente, e morreu em Oxford em 22 de novembro de 1963, de insuficiência renal.
Pensamento
Lewis não foi teólogo de ofício, mas professor de literatura e leigo anglicano. De propósito, evitava defender uma denominação nos livros de apologética, e chamava de “cristianismo puro e simples” o que as igrejas históricas confessam em comum. Por isso a classificação aqui é de simpatizante: ele não se disse arminiano, e sobre a predestinação recusou tomar partido.
Há indícios em duas direções. Numa carta publicada em Yours, Jack, ele chama a disputa entre livre-arbítrio e predestinação de insolúvel, diz que quando a graça move a vontade “it is still our will” e conclui que prefere deixar o assunto de lado (a carta é citada por Jeff Doles no blog The Faith Log). Por outro lado, o teólogo arminiano Roger Olson argumenta, num texto de 2016, que Lewis rejeita o calvinismo e concorda com o arminianismo clássico no caráter sinérgico da salvação. Sinergia quer dizer que Deus e a pessoa agem juntos: a graça vem primeiro e faz o que a pessoa não conseguiria fazer, e a pessoa responde livremente. Já um artigo recente da revista Sehnsucht lê Lewis de outro modo: para ele, a condenação cabe só à escolha do pecador, mas o crédito da salvação é todo de Deus. É um retrato que não cabe inteiro em nenhum dos dois lados.
Dois temas voltam sempre nos livros dele. O primeiro é o livre-arbítrio: Lewis explica que Deus criou seres livres porque o amor só existe onde há liberdade, mesmo sabendo que a liberdade abre a porta para o mal. O segundo é a graça: a pessoa não chega a Deus por mérito, e ele conta a própria conversão como a de quem foi alcançado, e não como a de quem venceu uma discussão.
Em relação à nossa declaração de fé aqui no blog, as convergências são a liberdade real da pessoa, a graça que vem antes dela e o chamado oferecido a todos. As diferenças aparecem onde Lewis fica em silêncio: ele não tratou como ponto de doutrina a perseverança condicional, nem a inteira santificação, que vem de John Wesley. Para conhecer o debate que ele preferiu não travar, leia a biografia de Jacó Armínio, Soteriologia Arminiana e Presciência, Eleição e Predestinação. Sobre o livro mais famoso dele, temos a resenha de Cartas de um Diabo a seu Aprendiz.
Obras principais
- The Pilgrim’s Regress (1933), alegoria da própria jornada até a fé
- The Allegory of Love (1936), estudo de literatura medieval
- The Problem of Pain (1940)
- The Screwtape Letters (1942)
- The Abolition of Man (1943)
- Miracles (1947)
- Mere Christianity (1952)
- Surprised by Joy (1955), autobiografia
- Till We Have Faces (1956)
- As Crônicas de Nárnia, sete livros infantis
- A Grief Observed, sobre o luto por Joy
- A trilogia espacial: Out of the Silent Planet, Perelandra e That Hideous Strength
Livros em português
- Cristianismo Puro e Simples (Thomas Nelson Brasil, edição especial em capa dura, 2017). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Cartas de um Diabo a seu Aprendiz (Thomas Nelson Brasil). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Surpreendido pela Alegria (Ultimato). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A Abolição do Homem (Thomas Nelson Brasil). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- As Crônicas de Nárnia (HarperCollins Brasil). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- C. S. Lewis, Wikipédia (em inglês), para datas e cronologia.
- C. S. Lewis on Calvinism and Free Will, Jeff Doles, The Faith Log (2008), com o trecho de Yours, Jack.
- C. S. Lewis: Calvinist or Classical Arminian?, Roger Olson, Patheos (2016).
- Sin, Grace, and Conversion in C. S. Lewis’s The Lion, the Witch and the Wardrobe, Christopher Varga, Sehnsucht: The C. S. Lewis Journal (2025).
- As crônicas de Nárnia de casa nova, PublishNews (2022), sobre as edições brasileiras.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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