
HistóriaTeólogos arminianos6 de 195
George Mitrovich: O leigo metodista que fez de San Diego uma praça de debate
Em 1975, o ex-senador Charles Goodell, de Nova York, foi a San Diego para falar num almoço. Era o primeiro convidado do City Club of San Diego, um fórum público que George Mitrovich tinha acabado de fundar. Cinco anos antes, Mitrovich era o secretário de imprensa de Goodell no Senado americano, quando o senador perdeu a cadeira por ter pedido o corte das verbas da Guerra do Vietnã, uma guerra que o assessor chamaria mais tarde de “imoral” e “má”. O clube durou mais de quatro décadas e promoveu mais de dois mil debates, com convidados que foram de Tom Wolfe a Joe Biden. Quem o dirigiu foi um leigo metodista formado numa faculdade da Igreja do Nazareno, que pregou na Catedral Nacional de Washington, presidiu o conselho ecumênico das igrejas de San Diego e escreveu em revistas cristãs sobre a graça de Deus e o lugar das igrejas na vida da cidade.
Vida
San Diego e Pasadena
George Mitrovich nasceu em 29 de julho de 1935, num hospital do centro de San Diego, na Califórnia. Os avós paternos, Stephanie e Velo Mitrovich, tinham emigrado da Iugoslávia e criaram nove filhos, sete deles homens; seis desses filhos serviram na Segunda Guerra Mundial. Do lado da mãe, a família vinha da Virgínia, tinha raízes inglesas e chegou a San Diego no começo do século XX.
Mitrovich começou a ler com seis ou sete anos, e começou pelas páginas de esporte. Na Helix High School, em La Mesa, jogou beisebol e basquete. Depois estudou no Pasadena College, faculdade da Igreja do Nazareno que mais tarde se mudou para San Diego e passou a se chamar Point Loma Nazarene University, e lá também jogou beisebol. Fez ainda um período curto de estudos na School of Theology at Claremont, seminário ligado à Igreja Metodista Unida.
Washington e o Vietnã
A vida política começou em 1966, no gabinete do vice-governador da Califórnia. Em 1968 Mitrovich trabalhou como assessor de imprensa na campanha presidencial de Robert F. Kennedy. Depois do assassinato de Kennedy, o governador Nelson Rockefeller nomeou para a cadeira vaga no Senado o deputado republicano Charles Goodell, e Mitrovich se tornou o secretário de imprensa do novo senador.
Goodell tinha apoiado Richard Nixon, que prometia tirar os Estados Unidos do Vietnã. Como a guerra continuou, em setembro de 1969 o senador anunciou um projeto que cortaria as verbas para as tropas americanas que ainda estivessem no Vietnã depois de dezembro de 1970. Décadas mais tarde, Mitrovich resumiu assim a posição do gabinete: “A Guerra do Vietnã era imoral e era má. Muitos de nós a víamos assim, e Goodell passou a vê-la assim”.
A eleição de 1970 virou uma disputa a três. O vice-presidente Spiro Agnew atacou Goodell como traidor do partido, e o candidato do Partido Conservador, James L. Buckley, ficou com a cadeira. Goodell chegou em terceiro e, abatido pela derrota, foi internado num hospital. Em 2018 Mitrovich ainda falava desse desfecho como o preço que o senador pagou por uma “decisão moral”. Depois de Goodell, foi secretário de imprensa do senador Harold Hughes, de Iowa, outro adversário da guerra, e trabalhou com dois deputados. Foram cinco anos no Capitólio. Em 2015 chamou o Vietnã de “a minha questão moral decisiva”, aquela que o levou a servir senadores que se opunham à guerra.
O City Club
Mitrovich já organizava almoços com palestrantes em Washington no começo dos anos 1970. Em 1975 fundou na cidade natal o City Club of San Diego, um fórum apartidário com o lema “Dedicado ao diálogo da democracia”. Goodell abriu a série. Pelo clube passaram George Will, Ben Bradlee, Eugene McCarthy, que voltou muitas vezes, e Tom Wolfe, que recebeu 60 mil dólares por uma palestra. Joe Biden falou lá vinte vezes. Em quatro décadas, Mitrovich apresentou mais de dois mil fóruns públicos.
Ele presidiu também o Denver Forum, no Colorado, e em 2002 criou para o Boston Red Sox a Great Fenway Park Writers Series, uma série de encontros com escritores no estádio do time. Quatro discursos dele saíram na revista Vital Speeches of the Day. Escreveu para o Los Angeles Times, o New York Times e o Union-Tribune de San Diego, manteve um blog no Huffington Post e comentava política no programa Politically Speaking, da NBC de San Diego. Definia-se como democrata liberal da linha de Kennedy, e jogou beisebol numa liga amadora de adultos.
O caso Dominelli
No começo dos anos 1980, o City Club foi financiado em boa parte por J. David Dominelli, dono da corretora J. David & Co., em La Jolla, onde Mitrovich trabalhava como diretor de relações com a comunidade. A corretora era uma pirâmide financeira de cerca de 200 milhões de dólares. Mitrovich ajudou o candidato a prefeito Roger Hedgecock a conseguir o apoio financeiro de Dominelli e deixou a empresa antes do escândalo, afirmando que não sabia da fraude. No julgamento de Hedgecock, em 1985, a acusação tentou apresentá-lo como cúmplice e o clube como fachada, e o juiz não admitiu essa linha de argumento. Mitrovich não perdeu dinheiro no caso, mas a reputação sofreu.
As igrejas e a cidade
Mitrovich presidiu durante dois anos o Conselho Ecumênico do Condado de San Diego, que reunia mais de cem igrejas cristãs, protestantes, católicas e ortodoxas, liberais e conservadoras. Em 1997 fundou o Committee of 2000 para defender um estádio de beisebol no centro de San Diego, aprovado pelos eleitores em novembro de 1998 com quase 60% dos votos; é o Petco Park, casa do San Diego Padres. Em 1999, com a obra cercada de processos, reuniu entidades civis e religiosas num anúncio a favor do estádio. O Exército de Salvação recusou, e o major David Hudson respondeu ao presidente do conselho ecumênico: “É político, sim”. Mais tarde Mitrovich presidiu o Comitê de Reforma da Carta Municipal, cuja proposta de mudança no governo da cidade os eleitores aprovaram em 2004.
A vida de igreja corria junto. Ele era membro da Primeira Igreja Metodista Unida de San Diego, que chamava de “a primeira igreja protestante da primeira cidade da Califórnia”, e pregou na Catedral Nacional de Washington e na Highland Park United Methodist Church, em Dallas. Fez parte do conselho do seminário da Seattle Pacific University, universidade da Igreja Metodista Livre. Em 2007 a Point Loma Nazarene University lhe deu um doutorado honorário. Para a revista The Christian Century entrevistou em 2012 o bispo metodista William Willimon e escreveu em 2013 sobre os ministérios das igrejas que ninguém nota.
Mitrovich foi casado com La Verle Ann Sutherland, de Spokane, no estado de Washington, e teve três filhos, Carolyn, Mark e Tim. Morreu em 24 de julho de 2019, cinco dias antes de completar 84 anos, no hospital de cuidados paliativos do Sharp Memorial Hospital, em San Diego, de um melanoma que tinha chegado ao cérebro.
Pensamento
Um wesleyano no banco da igreja
Classe: wesleyano. Mitrovich não escreveu teologia sistemática nem foi pastor; foi um leigo que pensou a fé em artigos de jornal e de revista. A tradição dele é a de John Wesley do começo ao fim: formou-se numa faculdade nazarena, serviu num seminário metodista livre e se declarava “cristão confesso e metodista” (2018). A Igreja Metodista Unida, a dele, conserva os Artigos de Religião que Wesley deu aos metodistas americanos em 1784, cujo artigo VIII ensina que o ser humano caído não pode se converter pelas próprias forças e depende da graça de Deus, que vem antes e cria nele a boa vontade.
Quando escreveu sobre a salvação, ficou desse lado. Em “Of Religion, Politics and Media” (2015), separou os evangélicos que creem que “a graça redentora de Deus está aberta a todas as pessoas” dos fundamentalistas para quem essa graça está disponível “só para os predestinados por Deus para a salvação”, como João Calvino ensinou nas Institutas. A frase resume, em linguagem de jornal, a divergência que levou Wesley a rejeitar o calvinismo: Cristo morreu por todos, e a graça que chama à fé é oferecida a todos, e não guardada para um grupo escolhido de antemão. Na tradição de Mitrovich essa é a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e torna a pessoa capaz de crer, sem forçá-la.
Mitrovich também falava da fé com a consciência de quem depende dessa graça o tempo todo. Sobre um amigo do Texas, advogado e metodista como ele, escreveu em 2018: “Levamos Jesus a sério e nos esforçamos para ser fiéis aos seus ensinamentos, mas sabemos que os nossos esforços muitas vezes ficam aquém”.
Evangélico e fundamentalista
Um argumento que ele defendeu é que a imprensa americana entendia mal a religião, e que o erro principal era tratar evangélicos e fundamentalistas como sinônimos, confusão que, segundo ele, se firmou depois de 11 de setembro de 2001. “Todos os fundamentalistas podem ser evangélicos, mas nem todos os evangélicos são fundamentalistas”, escreveu em 2015. Os dois grupos confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador, mas se dividem em muita coisa: muitos evangélicos se opuseram desde o começo à Guerra do Iraque, e poucos fundamentalistas; muitos evangélicos creem que a justiça social é “decisiva para o testemunho da igreja”; muitos defendem ação do governo contra o aquecimento global; e se dividem sobre a salvação, como vimos. Em 2012 escreveu à revista Sojourners, em resposta a um artigo de Soong-Chan Rah, para insistir que a fé evangélica praticada pela revista e a dos fundamentalistas são coisas diferentes.
Aqui aparece uma diferença com a declaração de fé deste site. No artigo de 2015, Mitrovich listou a crença na inerrância das Escrituras entre as marcas do fundamentalista, usando o exemplo do pastor batista e candidato Mike Huckabee. A declaração do Diego afirma que os escritos originais da Bíblia foram preservados de erro e não vê nisso uma marca exclusiva do fundamentalismo.
A igreja que serve
O tema que atravessa os artigos dele é o serviço das igrejas à sociedade. Em “Called to Serve” (2015), escrito depois de um encontro de educadores teológicos wesleyanos em Seattle, defendeu que sem as igrejas e a comunidade de fé “o tecido social da sociedade americana se rasga”. Lembrou que a Igreja Metodista Livre nasceu em 1860 de pregadores metodistas que tinham sido afastados por se opor à escravidão, e disse que essa história “importa”. A palavra que voltou o encontro inteiro, contou, foi “reconciliação”. As igrejas, concluiu, precisam ser comunidades que acolhem e amam, e oferecem cura e perdão “porque são chamadas a servir”. O encontro terminou com uma Ceia aberta a todos.
Em 2013, na The Christian Century, partiu da própria experiência: convivia com muitos liberais sem fé, e poucos deles tinham ideia do que as igrejas fazem pelas suas cidades. Por isso as igrejas precisavam contar as suas histórias. Voltou ao assunto em “Churches & Civil Society” (2019), em que criticou o livro Our Towns, de James e Deborah Fallows, por deixar as igrejas de fora do retrato das cidades americanas. Listou o que a sua igreja fazia: ministério nos presídios, concertos de coral, um programa de leitura numa escola, refeições para famílias necessitadas e aconselhamento oferecido sem depender do que a pessoa pode pagar. “Cada igreja desempenha um papel redentor em manter unido o frágil tecido da nossa sociedade”, escreveu. É a linha de Wesley, para quem o evangelho “não conhece santidade senão a social”, vivida por um leigo no centro de uma cidade grande.
Hospitalidade e civilidade
Em “Mary Alice Meets an Angel” (2016), Mitrovich abriu com Hebreus 13:2, “não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos”, e confessou que vivia “assombrado” pela ordem do Novo Testamento de tratar bem os estranhos. Em “Francis, Yogi and Joe” (2015), disse que o papa Francisco, o jogador de beisebol Yogi Berra e Joe Biden partilhavam uma fé cristã da qual vinha “a sua humanidade comum e o seu amor comum pelos outros”.
Essa fé dava forma à sua política. Para Mitrovich, o que faltava à vida pública americana era civilidade e a busca de um terreno comum, e a culpa era também dos cidadãos, que deixavam de agir. A expressão que usou na NBC em 2015 vem de Gênesis 4:9: “Precisamos fazer coisas boas e coisas certas, e precisamos ser o guardador do nosso irmão”. A pergunta de Caim, que ele transformou em programa de vida, ajuda a entender por que um leigo metodista passou quarenta anos montando debates numa cidade.
Obras principais
- “Sent to serve: William Willimon on being bishop” (entrevista), The Christian Century, 2012.
- “Whose Evangelical?”, Sojourners, 2012.
- “Unnoticed ministries: Why churches need to tell their stories”, The Christian Century, 2013.
- “Of Religion, Politics and Media”, HuffPost, 2015.
- “Is That All There Is?”, HuffPost, 2015.
- “Francis, Yogi and Joe”, HuffPost, 2015.
- “Called to Serve”, HuffPost, 2015.
- “Mary Alice Meets an Angel”, HuffPost, 2016.
- “Thank You, Donald Trump”, Presidio Sentinel, 2018.
- “Churches & Civil Society”, Presidio Sentinel, 2019.
- “My Life in Books & Literature”, Presidio Sentinel, 2019.
Para aprofundar
- “George Mitrovich Dies at 83; San Diego Civic Light, Prolific Writer, Democrat”, Times of San Diego, 25/07/2019.
- “George Mitrovich, San Diego City Club President, Dies at 84”, NBC 7 San Diego, 2019.
- M. E. Burns, “What would George Mitrovich say?”, San Diego Reader, 18/12/2019.
- Suzy Hagstrom, “George Mitrovich – minister of Padres politics”, San Diego Reader, 19/08/1999.
- Bryan Curtis, “Super Bowl Redux”, Grantland, 04/02/2013 (sobre Charles Goodell e o seu gabinete no Senado).
- Página de George Mitrovich na The Christian Century e página do autor na Sojourners.
- George Mitrovich, artigos no HuffPost, entre eles “Of Religion, Politics and Media” e “Called to Serve”.
- George Mitrovich, artigos no Presidio Sentinel, entre eles “Churches & Civil Society”.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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