
HistóriaTeólogos arminianos7 de 195
George Lyons: o professor nazareno que leu a santidade nas cartas de Paulo
Neste texto
- Vida
- Da química à Bíblia
- Kansas City e Emory
- Catorze anos em Olivet
- Nampa e a Wesley Center Online
- O homem da igreja
- Pensamento
- Um wesleyano de santidade
- Paulo como exemplo
- A santidade: uma crise que começa um processo
- A Bíblia, a crítica e a igreja
- Em diálogo com a nossa declaração de fé
- Obras principais
- Para aprofundar
Em 1973, no último ano do Seminário Teológico Nazareno, em Kansas City, George Lyons pregou o sermão de formatura sobre Romanos 12:1-2, o texto em que Paulo roga aos crentes que apresentem o corpo “em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. O sermão ficou entre os finalistas do prêmio anual Corlett de sermão sobre santidade, e não ganhou. Lyons guardou o texto e passou quase vinte anos voltando a ele cada vez que alguém o convidava a pregar sobre o assunto. Em 1992 o sermão virou livro, Holiness in Everyday Life (Santidade na vida diária), e o seminarista que não levou o prêmio já era doutor em Novo Testamento e professor havia quinze anos.
Vida
Da química à Bíblia
George Lyons nasceu em 9 de dezembro de 1947, em Richmond, no estado de Indiana, nos Estados Unidos. Os estudos não faziam parte da tradição da família. Os pais insistiam para que estudasse o quanto pudesse, para não acabar nos empregos sem saída que eles tinham sido obrigados a aceitar. A igreja da infância o ensinou a esperar um chamado divino espetacular, com vozes no escuro e escrita na parede, e esse chamado nunca veio. Vieram dois bons professores, que lhe deram vontade de ensinar, e o concurso bíblico para adolescentes, em que se saía bem, como compensação, dizia, pela total incompetência nos esportes.
Entrou no Olivet Nazarene College, em Bourbonnais, no Illinois, para estudar química. Tirava boas notas, mas detestava o laboratório. As aulas obrigatórias de Bíblia no primeiro ano e de teologia no segundo, somadas à participação no grupo de oração dos estudantes, que depois chegou a liderar, mudaram o rumo. Lyons trocou de curso e se formou em literatura bíblica em 1970. Em 1969 casou-se com Terre Hickok, mais tarde professora de matemática.
Kansas City e Emory
Fez o mestrado em divindade no Seminário Teológico Nazareno, em Kansas City, concluído em 1973, e depois foi aceito no doutorado da Universidade Emory, em Atlanta. A simpatia de Lyons pelo método histórico-crítico o tornou suspeito para algumas pessoas da igreja. Em Emory escreveu a tese sob a orientação de Hendrikus Boers, sobre a função das passagens autobiográficas nas cartas de Paulo em Gálatas e 1 Tessalonicenses. O título de doutor saiu em 1982, e a tese foi publicada em 1985 na série de dissertações da Society of Biblical Literature com o título Pauline Autobiography: Toward a New Understanding (A autobiografia paulina: para uma nova compreensão). Richard B. Hays chamou o trabalho de pioneiro.
Catorze anos em Olivet
Em 1977, ainda antes de terminar o doutorado, Lyons voltou a Olivet como professor da divisão de religião e filosofia. Ficou catorze anos, ensinando principalmente Novo Testamento e grego, chegou a professor titular, dirigiu o departamento de literatura bíblica e coordenou o mestrado em religião.
Dois ex-alunos daquela época, Tat-siong Benny Liew e Pamela Liew, contam que no campus o jovem professor tinha fama de radical, talvez de herege, porque insistia que a fé envolve mais do que uma relação íntima com Deus e uma passagem para o céu. Ele levava para a sala livros como Rich Christians in an Age of Hunger, de Ronald Sider, e não fingia ter respostas prontas. Não ensinava os alunos o que pensar sobre a Bíblia; ensinava que era preciso pensar sobre ela. Nos anos 1980, quando colegas do departamento tentaram convencer os dois Liew de que um namoro inter-racial atrapalharia o futuro ministério deles, Lyons, o único ali que conhecia os dois, discordou com firmeza. Quando Benny pediu um trabalho extra para trocar um A menos por um A, o professor respondeu, sorrindo, que lhe faria bem livrar-se da obsessão pela perfeição. Os Liew resumiram o episódio numa expressão: “um nazareno não perfeccionista”.
Nampa e a Wesley Center Online
Em 1991 Lyons aceitou o convite do Northwest Nazarene College, em Nampa, no Idaho, a escola que H. Orton Wiley tinha dirigido entre 1917 e 1926. Ali ensinou Novo Testamento até 2013 e presidiu o corpo docente da universidade entre 2008 e 2010. Em 2002 deu o primeiro curso on-line da Escola de Teologia e Ministério Cristão e ajudou a abrir a pós-graduação a distância. Em sabáticos e férias deu aulas em escolas nazarenas da Austrália, da Ásia e da Europa, inclusive em Portugal.
Nos anos 1990 concebeu e montou a Wesley Center Online, o site do Centro Wesley de Teologia Aplicada da universidade. A ideia era digitalizar livros raros da tradição wesleyana e do movimento de santidade, difíceis de achar, e pô-los à disposição dos pastores de graça. Durante cerca de dez anos administrou o site como carga extra, além das aulas, e a Wesley Center chegou a ser descrita como o maior site de recursos wesleyanos e de santidade do mundo. Ali estão os textos de Wesley e de autores de santidade como Daniel Steele.
O homem da igreja
Durante 22 anos deu aula na escola dominical da College Church of the Nazarene, em Nampa, para uma classe de idosos, de quem foi uma espécie de pastor, e celebrou o funeral de muitos deles. Na Sociedade Teológica Wesleyana, de que era membro desde 1977, foi eleito vice-presidente em 1992 e presidente em 1993-1994. Na década de 2000 tornou-se editor geral dos volumes do Novo Testamento do New Beacon Bible Commentary, o comentário do centenário da Beacon Hill Press of Kansas City.
A filha, Kara Lyons-Pardue, seguiu o mesmo caminho e é professora de Novo Testamento na Point Loma Nazarene University, em San Diego. Em 2020, a Claremont Press publicou Listening Again to the Text (Ouvindo de novo o texto), volume de estudos em homenagem a Lyons, com ensaios de ex-alunos e colegas como Richard P. Thompson, Kent Brower, Dean Flemming e a própria Kara.
Pensamento
Um wesleyano de santidade
George Lyons é wesleyano, da tradição de santidade da Igreja do Nazareno, e é arminiano na doutrina da salvação pelo que ele mesmo escreveu. No capítulo sobre 1 Tessalonicenses de More Holiness in Everyday Life (1997), ele explica que as igrejas wesleyanas e de santidade creem que a eleição divina “não é eficaz sozinha”: Deus não escolhe alguns para a salvação com exclusão dos outros, o chamado dele vai a todos, e todo aquele que responde com fidelidade é salvo. É a eleição condicional em Cristo. Alguns que responderam no começo se afastam depois: Paulo mandou Timóteo de volta a Tessalônica porque considerava possível que crentes de conversão genuína perdessem a fé. É a perseverança condicional que John Wesley ensinou.
Lyons não tira de Deus a iniciativa. No mesmo capítulo ele critica os próprios irmãos de santidade por terem deixado de lado a doutrina da eleição, em reação aos excessos do calvinismo clássico, e lembra o que ela ensina: que não nos tornamos cristãos quando queremos, nos nossos termos, e que sem o chamado de Deus ninguém poderia responder com fé. “Não é a nossa fé que nos salva”, escreve. “É Deus quem nos salva.” A vida cristã, para ele, é uma peregrinação “só para convidados”. É a graça preveniente: a graça que vem antes de qualquer resposta humana e a torna possível.
Paulo como exemplo
A tese de doutorado mexeu com um costume antigo dos intérpretes de Paulo. Quando o apóstolo conta a própria vida em Gálatas 1 e 2 ou em 1 Tessalonicenses 2, muitos leem o relato como defesa contra acusações de adversários e tentam reconstruir o que esses adversários diziam a partir das respostas de Paulo. Lyons mostrou como esse método, chamado “leitura em espelho”, é frágil, e propôs outra função para os relatos: Paulo fala de si para dar exemplo. A vida dele encarna o evangelho que ele prega, e por isso a imitação de Paulo é tema central das cartas.
Em “Modeling the Holiness Ethos” (Modelando o modo de vida da santidade), conferência que deu em 1994 como presidente da Sociedade Teológica Wesleyana e que saiu no Wesleyan Theological Journal em 1995, ele parte de uma pergunta: como pagãos aprendem a viver vidas santas? A resposta vem de 1 Tessalonicenses, que ele mostra ser, em proporção, a carta de Paulo com mais palavras da família de “santo”, e a que traz, em 1 Tessalonicenses 5:23, a única menção explícita do Novo Testamento à santificação “por completo”. Paulo não ensinou santidade aos tessalonicenses com abstrações; ensinou com o próprio exemplo, e os convertidos viraram exemplo para outros. Para Lyons, a tarefa dos pastores wesleyanos ficou parecida com a dos apóstolos: converter pagãos e também “cristianizar a igreja”, porque, para quem leva a sério a herança de santidade, “a ortodoxia não basta”.
A santidade: uma crise que começa um processo
Em Holiness in Everyday Life Lyons avisa que não vai provar a doutrina da santidade, mas expô-la a partir da Bíblia e aplicá-la à vida comum. Santidade, inteira santificação e perfeição cristã são, para ele, nomes da doutrina distintiva das igrejas wesleyanas, mas a fé dessas igrejas repousa sobre Deus revelado em Jesus de Nazaré, e não sobre a santidade. O alvo é a semelhança com Cristo; a santidade é o caminho até lá.
O livro segue Wesley de perto. O crente recém-justificado foi liberto do domínio do pecado, mas o pecado “permanece, embora não reine”. Lyons compara essa situação à estreita faixa de terra entre dois exércitos que ele atravessou na ponte Allenby, sobre o Jordão, numa viagem com alunos a Israel no inverno de 1980-1981: não é lugar para morar. Pela primeira vez a pessoa é livre para escolher o seu senhor, e a santificação é aceitar a responsabilidade pela liberdade que Deus deu. Mas quem santifica é Deus, e não a consagração: “As pessoas não podem santificar a si mesmas; é obra de Deus.” A consagração é a condição, a entrega de si como sacrifício vivo, e Deus faz a transformação.
A imagem que mais volta é a do casamento. A santidade tem um começo, e para muitos o lugar certo para começar é o altar da igreja. Mas ela “não pode ser comprimida numa experiência de crise”, assim como um casamento não se resume à cerimônia. Oferecer-se a Deus é “uma crise que começa um processo”. Numa nota, Lyons adverte que se tirou demais do tempo verbal grego aoristo para sustentar que a inteira santificação começa num momento posterior à regeneração, e remete aos estudos de Robert W. Lyon e de Randy Maddox sobre o assunto. Em More Holiness in Everyday Life, discutindo com David Peterson, autor de Possessed by God, defende que a santificação “por completo” de 1 Tessalonicenses 5:23 é para esta vida, e não só para a volta de Cristo.
A Bíblia, a crítica e a igreja
Em 1983, no Wesleyan Theological Journal, Lyons tratou das bases bíblicas da teologia e do uso da chamada alta crítica pelos intérpretes wesleyanos. Ele descreve a leitura bíblica de Wesley como voltada para a salvação: Wesley lia a Bíblia com uma pergunta acima de todas, qual é o caminho para o céu. Defende as ferramentas históricas e literárias e diz que o estudioso wesleyano só trai a tradição quando se contenta com a descrição acadêmica e não chega à pregação e à vida. Rejeita tanto o historicismo que exclui de antemão os milagres quanto o uso da inerrância, defendido por James Packer, como controle prévio da interpretação.
Numa entrevista de 2010 à revista Didache, contou que passou a carreira desviando de ataques da direita e da esquerda por buscar um meio-termo. E lamentou o que via nos calouros: cada vez mais certos da inerrância da Bíblia e cada vez menos familiarizados com o que ela diz.
Em diálogo com a nossa declaração de fé
Na salvação, Lyons está com a nossa declaração de fé: a iniciativa é de Deus, o chamado é para todos, a eleição é condicional e a perseverança também. Sobre a inteira santificação, a declaração fala de uma obra da graça posterior à regeneração e recebida pela fé. Lyons afirma a doutrina e a sua realização nesta vida, mas desconfia dos argumentos gramaticais usados para defender a “segunda obra definida da graça” e põe o acento no processo que a crise inaugura. Sobre as Escrituras, a declaração confessa que os autógrafos foram preservados de erro; Lyons, que leva a sério a autoridade normativa da Bíblia, recusa que a inerrância funcione como regra prévia de interpretação.
Obras principais
- Pauline Autobiography: Toward a New Understanding (Society of Biblical Literature Dissertation Series 73, 1985).
- A Dictionary of the Bible and Christian Doctrine in Everyday English (com J. Wesley Eby e Al Truesdale, 1986).
- Holiness in Everyday Life (1992).
- More Holiness in Everyday Life (1997).
- Listening for God through Revelation (2006).
- Romans 1-8 e Romans 9-16, New Beacon Bible Commentary (com William M. Greathouse, 2008).
- Galatians: A Commentary in the Wesleyan Tradition, New Beacon Bible Commentary (2012).
- “Ephesians”, em Ephesians, Colossians, Philemon: A Commentary in the Wesleyan Tradition, New Beacon Bible Commentary (2019).
Artigos: “Hermeneutical Bases for Theology: Higher Criticism and the Wesleyan Interpreter”, Wesleyan Theological Journal 18.1 (1983); “Modeling the Holiness Ethos: A Study Based on First Thessalonians”, Wesleyan Theological Journal 30.1 (1995).
Para aprofundar
- George Lyons, Holiness in Everyday Life, Beacon Hill Press of Kansas City, 1992, edição digital da Holiness Data Ministry, Wesley Center Online.
- George Lyons, More Holiness in Everyday Life, Beacon Hill Press of Kansas City, 1997, edição digital da Holiness Data Ministry, Wesley Center Online.
- George Lyons, “Hermeneutical Bases for Theology: Higher Criticism and the Wesleyan Interpreter”, Wesleyan Theological Journal 18.1 (1983), com a resposta de Morris A. Weigelt.
- George Lyons, “Modeling the Holiness Ethos: A Study Based on First Thessalonians”, Wesleyan Theological Journal 30.1 (1995).
- George Lyons e Kara Lyons-Pardue, A Generations Conversation, Didache: Faithful Teaching 9.2 (2010), Wesleyan Holiness Digital Library.
- Richard P. Thompson, “George Lyons: Professor, Scholar, Churchman”, e Tat-siong Benny Liew e Pamela K. Liew, “A Tribute to George Lyons”, em Listening Again to the Text: New Testament Studies in Honor of George Lyons, Claremont Press, 2020 (acesso aberto).
- Pauline Autobiography: Toward a New Understanding, página do livro na SBL Press, com trechos das resenhas de Richard B. Hays e C. Thomas Rhyne.
- George Lyons (theologian), Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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