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Charles Ewing Brown: O menino pregador que se tornou o teólogo e historiador da Igreja de Deus de Anderson
Neste texto
Na primavera de 1895, um menino de onze anos jejuava numa fazenda do sul de Illinois. O pai dele, que bebia, jogava e proibia a Bíblia em casa, tinha se convertido poucos meses antes, e o pregador daquele avivamento ensinava a inteira santificação. O menino queria essa bênção. Anos depois ele se lembraria do cheiro de presunto frito que vinha da cozinha nas manhãs de jejum e da dúvida que o atormentava enquanto orava ajoelhado no pomar, no pé do morro. Como Elias, não encontrou Deus no vento nem no fogo, mas no silêncio, numa voz baixa: “Está feito. Isto é o Pentecostes”. Ele contou essa cena em 1950, quando já era havia vinte anos o editor do Gospel Trumpet, o jornal da Igreja de Deus de Anderson, e a voz teológica mais influente do movimento.
Vida
O menino pregador
Charles Ewing Brown nasceu em 30 de dezembro de 1883, em Elizabethtown, no condado de Hardin, à beira do rio Ohio, filho de Willis M. Brown e Georgiana Martin Brown. Willis tinha gastado a herança com bebida e vivia da lavoura, do comércio de cavalos e de empreitadas de estrada de ferro; o filho o descreveria como “um bêbado, um incrédulo e um jogador” (Gospel Trumpet, 1945).
No inverno de 1894 chegou ao condado Willis M. Bunch, um evangelista sem estudo que tinha comprado uma passagem de trem até onde o dinheiro alcançasse. Em janeiro de 1895, depois das reuniões na Igreja Batista Mount Zion, em Cave-In-Rock, Willis Brown se ajoelhou num canto da sala de casa e orou pela primeira vez diante do filho. Bunch se hospedou com a família, adoeceu, e nas conversas ao pé da lareira levou Charles a Cristo. O menino foi batizado no rio Saline em 4 de julho de 1895, e a mãe se converteu meses depois.
Antes dos doze anos, Charles pregou o primeiro sermão na Igreja Metodista Episcopal de Cave-In-Rock, com a calça manchada de amora e esticando o pescoço para ver o povo por cima do púlpito. Pai e filho passaram a viajar como evangelistas pelo sul de Illinois, pelo oeste de Kentucky e pelo sudeste do Missouri, e jornais de Kentucky de 1897 noticiavam curas nas reuniões do “menino pregador”.
Asbury, o metodismo e a Igreja de Deus
No fim da década de 1890, Brown percebeu que, ouvindo só os velhos pregadores do interior, ficaria tão ignorante quanto eles, e foi estudar no Asbury College, em Wilmore, Kentucky. O pai via na escola uma obra de seita. Um pastor metodista prometeu pagar os estudos, o dinheiro não chegou, e Brown ficou poucos meses. Por volta de 1900 já era membro da Igreja Metodista Episcopal.
Dois anos depois, impressionado com pregadores que, nas palavras dele, não tinham medo de nada a não ser de Deus, uniu-se, como o pai, à Igreja de Deus, o movimento que Daniel S. Warner começara em 1881 para pregar a santidade e a unidade dos cristãos fora das denominações, sem rol de membros nem credo escrito. Foi ordenado em 21 de agosto de 1903 e pregou como evangelista de Pittsburgh a Seattle. Sem escola formal, aprendeu hebraico, grego, latim e alemão e chegava a estudar dez horas por dia. Em 1º de outubro de 1907 casou-se com Carrie Becker, com quem teve cinco filhos.
Pastor e líder do movimento
Em 1912 Brown assumiu a igreja de Filadélfia, no meio da “controvérsia da gravata”, uma disputa sobre o mundanismo. O pai liderou o grupo que saiu do movimento em 1913; Charles ficou com o Gospel Trumpet. Os dois se reconciliaram, mas Willis nunca voltou à Igreja de Deus.
De 1915 a 1926 Brown pastoreou em Detroit, onde fez cursos por correspondência da Universidade de Chicago. Em 1917 tornou-se colaborador fixo do Gospel Trumpet e secretário da primeira Assembleia Geral de Ministros, e em 1920 entrou para a Gospel Trumpet Company, da qual seria membro por quase meio século. Depois de Huntington, Indiana, e de um ano como secretário da Junta Missionária, foi em 1928 para a Igreja de Deus da Belden Avenue, em Chicago. O primeiro livro, The Hope of His Coming (A esperança da sua vinda), saiu em 1927.
Editor do Gospel Trumpet
Em 1929 o professor Russell R. Byrum defendeu que a Igreja de Deus buscasse a unidade em comunhão com cristãos de outros grupos, e o editor F. G. Smith liderou a oposição. Em 1930 os aliados de Byrum impediram a reeleição de Smith, e a escolha recaiu sobre Brown, que só aceitou depois que Smith o apoiou em público. O primeiro número sob a sua direção saiu em 3 de julho de 1930, com a promessa de que o jornal não seria “um campo de batalha de debates”, mas um instrumento para a espiritualidade profunda e o avivamento.
Brown dirigiu o jornal por 21 anos, escreveu mais de mil editoriais e, de 1939 a 1951, lançou um livro quase todo ano. Presidiu a Junta Missionária de 1933 a 1950 e, a partir de 1935, sem salário, ensinou doutrina no Anderson College. Em 1949 tornou-se o primeiro historiador oficial da Igreja de Deus e pediu aos leitores lembranças das primeiras reuniões campais; as cartas viraram base de When the Trumpet Sounded (Quando a trombeta soou, 1951). Naquele ano a assembleia elegeu outro editor, e Brown aceitou em nome da “democracia espiritual” que pregava: cabe à igreja escolher os seus servos.
Os últimos anos
Brown viajou pelo mundo, fez pastorados interinos e ensinou um semestre no Arlington College, na Califórnia, em 1956. O último livro, We Preach Christ (Pregamos a Cristo), saiu em 1957. Leu o Novo Testamento em grego todos os dias até passar dos oitenta anos e morreu no outono de 1971, aos 87, depois de uma queda em casa, em Anderson.
Pensamento
Um wesleyano da Igreja de Deus
Charles Ewing Brown é wesleyano, do ramo de santidade, e disse isso com todas as letras no prefácio de The Meaning of Salvation (O significado da salvação, 1944): ninguém lê o evangelho sem algum par de óculos, e os dele eram “os de Jacó Armínio, modificados por John Wesley”. Para Brown, John Wesley tinha recuperado a doutrina da salvação da igreja apostólica, e quem quisesse estudá-la devia ler John Fletcher, Richard Watson, William Burt Pope e H. Orton Wiley. O livro tem uma seção inteira contrapondo calvinismo e arminianismo.
Pecado, graça e fé
Brown afirma que todo ser humano nasce com natureza pecaminosa e que, por si mesmo, não pode servir a Deus nem deixar de pecar. Para explicar como Deus pode cobrar o que o homem não consegue fazer, usa a imagem de um cirurgião: ninguém opera com as mãos nuas, mas o cirurgião que deixa o paciente morrer tendo os instrumentos ao alcance é culpado. A graça são esses instrumentos, e basta abrir “a mão da fé” para recebê-los.
Essa graça vem da cruz e alcança todos. Brown escreve que a desvantagem de nascer com natureza pecaminosa é compensada pela graça universal dada pela expiação, que procura cada pessoa, de modo que quem se perde se perde por rejeitar a oferta. É a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta: Jesus é a luz que ilumina todo homem (João 1:9), e ninguém vem a ele se o Pai não o trouxer (João 6:44). A fé que salva é dom do Espírito e confiança numa pessoa, e não mérito: o pecador se parece com o soldado ferido que os padioleiros encontram, tratam e carregam sem que ele tenha feito nada para merecer o socorro.
Cristo morreu por todos (Hebreus 2:9; 1 João 2:2). Brown reconhece a satisfação de Anselmo como a interpretação ortodoxa da expiação, mas prefere não propor teoria e deixar a doutrina onde o Novo Testamento a deixou. Quanto à perseverança, conclui que a Bíblia ensina “segurança eterna para todos os crentes somente na vida de obediência e fé” (The Meaning of Salvation, 1944), o que coincide com a declaração de fé do site e com o que o site ensina sobre a apostasia.
Há duas diferenças de ênfase. Brown resume o arminianismo como “a doutrina da liberdade da vontade”, embora faça essa liberdade depender da graça; o site prefere pôr a graça no centro, como fazia Armínio. E Brown segue a definição de Wesley do pecado como transgressão voluntária de uma lei conhecida: a depravação herdada só vira culpa quando a pessoa consente nela, ao chegar à idade da responsabilidade. A declaração de fé do site afirma que todos nascemos pecadores e sob a justa condenação de Deus, como explica o estudo sobre pecado original e depravação total.
A inteira santificação
No volume irmão, The Meaning of Sanctification (O significado da santificação, 1945), Brown descreve a inteira santificação como uma segunda crise, posterior à justificação, que destrói a natureza carnal e enche a alma de amor perfeito. O livro começa atacando a santificação gradual, a ideia de que o crente só é purificado do pecado na hora da morte depois de uma vida de luta, que ele compara ao castigo de Sísifo. Se a santificação é sobrenatural e vem pela fé, como admitia o próprio Hodge, não pode ser prêmio de sessenta anos de esforço: “É impossível combinar a santificação gradual com a doutrina da santificação pela fé”. Como a condição é a fé, até uma criança que se sabe responsável diante de Deus pode recebê-la. No apêndice, Brown incluiu um estudo de Daniel Steele sobre os tempos verbais do grego.
O santificado continua sujeito a erros de juízo, porque é “puro de coração, mas não livre de erros” (Gospel Trumpet, 1941), e a vida depois da crise é crescimento na graça. Em 1954 Brown propôs falar da santidade menos como pureza e mais como pertença: o mínimo de todo cristão é pertencer a Deus. A santificação recebida pela fé, depois da regeneração, sem tirar as limitações humanas, é também o que afirma a declaração de fé do site, que fala ainda de uma santificação progressiva, como no estudo sobre o que Wesley ensinou sobre a perfeição cristã.
A igreja além da divisão
O tema que mais ocupou Brown foi a igreja, em A New Approach to Christian Unity (Uma nova abordagem da unidade cristã, 1931), The Church Beyond Division (A igreja além da divisão, 1939) e The Apostolic Church (A igreja apostólica, 1947), que ele considerava o seu livro mais importante. A primeira geração da Igreja de Deus lia o Apocalipse como mapa da história e via no movimento a restauração final da igreja; quem ficava nas denominações estava em Babilônia. Brown pôs o movimento dentro da história do cristianismo. Continuava a ver as divisões como pecado e a pedir, com base em João 17, uma unidade visível, mas ensinava que a pessoa nasce na igreja pela regeneração, e não assinando um rol. Disso decorre que todos os salvos, em qualquer denominação, já são membros do corpo de Cristo. O caminho da unidade, para ele, era um “desarmamento espiritual”: deixar de usar os credos como definições excludentes, abolir as estruturas denominacionais e voltar a Cristo. O historiador Merle Strege conclui que nenhuma outra voz fez tanto para que a Igreja de Deus cruzasse fronteiras denominacionais que antes julgava fechadas.
A mesma democracia espiritual levou Brown a defender o ministério feminino: “a frequência de mulheres pregadoras é uma boa medida da espiritualidade de uma igreja” (Gospel Trumpet, 1939). Diante do pentecostalismo, rejeitou as línguas como evidência do batismo no Espírito, mas tratou os pentecostais como irmãos. A declaração de fé do site entende a igreja visível pelo artigo 13 dos Artigos de Religião de Wesley, mas partilha com ele a confissão de uma só igreja universal formada por todos os verdadeiros crentes.
Contra o pré-milenismo
Brown era amilenista. Em The Hope of His Coming (1927) e The Reign of Christ (O reino de Cristo, 1948) argumentou que o pré-milenismo era novidade no movimento de santidade e que o reino de Cristo está no coração e nunca será um reino político terreno. Chamou de “religião do alarme” a pregação que via a volta de Cristo em cada guerra ou crise e lia a Bíblia como livro de sonhos. A posição coincide com o amilenismo da declaração de fé do site.
Obras principais
- The Hope of His Coming (Gospel Trumpet Company, 1927)
- A New Approach to Christian Unity (Warner Press, 1931)
- Dawn on the Mountains (Warner Press, 1931)
- The Church Beyond Division (Warner Press, 1939)
- Modern Religious Faiths (Gospel Trumpet Company, 1941)
- The Way of Faith (Gospel Trumpet Company, 1943)
- The Meaning of Salvation (Gospel Trumpet Company, 1944)
- The Meaning of Sanctification (Gospel Trumpet Company, 1945)
- The Apostolic Church (Warner Press, 1947)
- The Reign of Christ (Gospel Trumpet Company, 1948)
- “The Sanctification of Charles Ewing Brown”, em Bernie Smith (org.), Flames of Living Fire (Beacon Hill Press, 1950)
- When the Trumpet Sounded: A History of the Church of God Reformation Movement (Warner Press, 1951)
- When Souls Awaken: An Interpretation of Radical Christianity (Gospel Trumpet Company, 1954)
- We Preach Christ: A Handbook of Christian Doctrine (Gospel Trumpet Company, 1957)
Para aprofundar
- Matthew S. Preston, Disrupting Evangelicalism: Charles Ewing Brown and Holiness Fundamentalism in the Church of God (Anderson), 1930-1951, tese de doutorado, Boston University School of Theology, 2019.
- Anderson University and Church of God Archives, Charles E. Brown Papers e ficha de C. E. Brown.
- Merle D. Strege, “The Union Heaven Gave Us: The Doctrinal Practice of Christian Unity in the Church of God”, Doctrinal Dialogue, Anderson University, 2006.
- John E. Stanley, “Reclaiming the Church of God Heritage of Women Pastors”, Doctrinal Dialogue, Anderson University School of Theology, 2009.
- Bernie Smith (org.), Flames of Living Fire (Beacon Hill Press, 1950), com o testemunho de Brown, na Holiness Data Ministry.
- Charles Ewing Brown, The Meaning of Salvation (1944), no Internet Archive.
- Charles Ewing Brown, The Meaning of Sanctification (1945), no Internet Archive.
- Resenha de I Saw the Church, de Merle D. Strege, sobre a história teológica da Igreja de Deus.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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