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Charles Edward White: O historiador de Spring Arbor que leu Romanos 9 contra Calvino
Neste texto
No começo da década de 1990, Charles Edward White passou um ano ensinando o Evangelho de Marcos numa universidade africana, com o patrocínio do International Institute for Christian Studies. Boa parte da turma era muçulmana, e a expressão “Filho de Deus” soava aos alunos como blasfêmia, porque eles a ouviam como geração física. White foi buscar a resposta na língua que eles mesmos falavam: ali, um comerciante que passa o dia sentado no mercado é chamado “filho da mesa”, e um policial, “filho do cajado”. Nessas expressões, “filho de” não fala de pai e mãe, mas de semelhança e de natureza. Quando chegou a vez de explicar como um Deus que se faz servo pode continuar sendo grande, ele comparou a grandeza de um imperador que não se aproxima do povo com a de um médico que se abaixa para cuidar dos pobres. “Pelo silêncio da sala, percebi que tinham entendido como um Deus que se abaixa para salvar pode ser grande”, escreveu na Christianity Today em 1993. O professor que contou essa história é um historiador do metodismo, estudioso de John Wesley e de Phoebe Palmer, e autor de uma crítica wesleyana minuciosa à leitura que Calvino fez de Romanos 9.
Vida
Harvard, Park Street e Boston
White formou-se em história e literatura na Universidade de Harvard. Estudou também no Gordon-Conwell Theological Seminary, em Massachusetts, e em Cambridge, na Inglaterra, e fez o doutorado em história da igreja na Universidade de Boston. Começou a vida profissional na década de 1970 como ministro para estudantes da Park Street Church, a histórica igreja congregacional do centro de Boston.
Professor em Spring Arbor
White foi ensinar no Spring Arbor College, em Spring Arbor, no estado de Michigan, escola fundada por metodistas livres e ligada até hoje à Igreja Metodista Livre, a denominação de B. T. Roberts. Em 1987 e 1988 a revista Christian History o apresentava como professor assistente de pensamento e história cristã. A escola virou Spring Arbor University, e White continuou nela como professor da mesma área, na Escola de Artes e Ciências. Os seus campos de pesquisa são três: John e Charles Wesley, o metodismo americano do século XIX e a doutrina da Escritura.
Ensinou também na Austrália, na Nigéria e nas Filipinas, para pastores, missionários, médicos e universitários, e trabalhou em projetos de tradução da Bíblia que, somados, cobriram 25 dos 27 livros do Novo Testamento em sete línguas.
O livro sobre Phoebe Palmer
O primeiro livro de White saiu em 1986 em Grand Rapids, pela Francis Asbury Press, selo da Zondervan: The Beauty of Holiness: Phoebe Palmer as Theologian, Revivalist, Feminist, and Humanitarian (A beleza da santidade: Phoebe Palmer como teóloga, avivalista, feminista e humanitária). O título vem de uma expressão que Palmer usava para a vida equilibrada que a santidade produz. A Wipf & Stock reeditou o livro em 2008.
White escreveu sobre Palmer numa época em que os historiadores da igreja americana quase a ignoravam. No artigo “The Beauty of Holiness: The Career and Influence of Phoebe Palmer”, na revista Methodist History de janeiro de 1987, ele a apresentou em quatro frentes: teóloga, avivalista, defensora do ministério feminino e pioneira do trabalho social. Contou como ela, depois de perder três filhos pequenos, entregou tudo a Deus e experimentou a inteira santificação em julho de 1837, e como daí vieram as “reuniões de terça-feira para a promoção da santidade”, os dezoito livros e a missão no bairro de Five Points, o mais pobre de Nova York. Em 2004 voltou ao tema na edição 82 da Christian History, com o artigo “Holiness Fire-Starter” (A acendedora da santidade), em que resumiu a “teologia do altar” dela em três passos: consagrar tudo a Deus, crer nas promessas da Bíblia e dar testemunho da bênção recebida.
Artigos sobre Wesley e o metodismo
Boa parte da obra de White está em artigos curtos, escritos para pastores e leigos, na Christian History, e em estudos para a Methodist History e o Wesleyan Theological Journal. Os temas voltam sempre a Wesley: a disciplina das sociedades, a reunião de classe, o dinheiro, a santidade e a Escritura. Na edição 69 da Christian History (2001), dedicada aos irmãos Wesley, o artigo dele sobre a disciplina saiu ao lado do texto de Randy Maddox sobre a perfeição cristã.
Apologética
Nos últimos anos, White também se dedicou à defesa da fé diante do materialismo. Escreveu para a revista Salvo e, entre 2018 e 2022, deu palestras na plataforma FOCL com títulos como “Por que o ateísmo é irracional” e “Como a matemática do século XX mostra que o materialismo está errado”.
Pensamento
Um wesleyano
Charles Edward White é wesleyano. Passou a vida estudando os Wesley, ensina numa universidade metodista livre e lê a salvação com as categorias de Wesley: a graça vem antes, a fé é dom, a santificação continua depois do novo nascimento e a certeza do crente é de perdão presente, não de perseverança garantida. Os seus artigos rejeitam abertamente a eleição e a reprovação incondicionais de Calvino.
Os cinco erros de Calvino em Romanos 9
O texto mais importante de White para a teologia arminiana é “John Calvin’s Five-Point Misunderstanding of Romans 9: An Intertextual Analysis” (O mal-entendido de cinco pontos de João Calvino em Romanos 9: uma análise intertextual), publicado no Wesleyan Theological Journal 41 (2006). O artigo começa reconhecendo que Calvino chamou de “horrível” o decreto da reprovação e só o afirmou porque achava que a Bíblia o ensinava, sobretudo em Romanos 9. White aplica ao capítulo os sete testes que Richard Hays propôs para avaliar o uso do Antigo Testamento por Paulo, e Calvino tropeça em quatro deles.
O primeiro erro está em Romanos 9:6-13. Calvino conclui que Ismael e Esaú foram condenados, porque trata “eleição” como escolha de uma pessoa para a salvação eterna, embora ele mesmo reconheça, nas Institutas, que a palavra também designa a escolha de Israel para um papel na história. O resto do Antigo Testamento abençoa os dois irmãos mais velhos: Ismael recebe a promessa de uma grande nação (Gênesis 17:20), e Esaú prospera e deixa longa descendência (Gênesis 36). Ficar fora de uma tarefa na história da salvação não é ser punido no inferno. E o “aborreci Esaú” de Malaquias 1:3 fala da nação de Edom, com um verbo que pode significar amar menos, como em Gênesis 29:31 e em Lucas 14:26.
O segundo erro está em Romanos 9:15, que cita Êxodo 33:19: “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Almeida Revista e Corrigida). Calvino leu a frase como limite da misericórdia. White mostra que a repetição hebraica intensifica o sentido, como a liam os targumim e a maioria dos rabinos, e que ali Deus revela a Moisés a própria bondade. Ler o versículo como mera afirmação de poder ainda destrói o argumento de Paulo, porque a objeção era sobre a justiça de Deus, e ter poder para fazer qualquer coisa não prova que o que se faz é justo.
O terceiro erro diz respeito ao faraó (Romanos 9:16-18). White montou uma tabela com as dezessete menções ao coração do faraó entre Êxodo 4 e 14 e mostrou que, fora as promessas do começo, o texto só diz que Deus o endureceu depois de dizer duas vezes que o próprio faraó endureceu o coração. Uma das leituras que ele propõe, já sugerida por Orígenes e por Jerônimo, vê nisso o juízo de Deus, que entrega o faraó ao caminho que ele escolheu, como em Romanos 1:24-28. O quarto e o quinto erros estão na imagem do oleiro (Romanos 9:19-24): a ideia de que ninguém pode julgar os atos de Deus por um padrão de justiça e a de que Deus cria pessoas para condená-las. Em Jeremias 18, porém, o oleiro refaz o vaso conforme o barro responde, e em 2 Timóteo 2:20-21 Paulo exorta as pessoas a se purificarem para serem vasos de honra.
Para White, Romanos 9 trata do papel de Israel na história da salvação e explica por que tantos judeus ficaram de fora: não buscaram a justiça pela fé (Romanos 9:30-32). A conclusão resume o seu modo de ver Deus: “Sim, Deus é soberano, mas não é caprichoso” (Wesleyan Theological Journal, 2006). Deus salva os que respondem ao seu dom com fé, e não sobra lugar para orgulho humano, porque até a fé para responder à graça vem de Deus, já que Jesus é a luz que ilumina todo homem (João 1:9). É a graça preveniente, que alcança todos antes de qualquer resposta e torna a fé possível, sem forçá-la. A leitura de White tem parentesco com a de Jacó Armínio, que via em Jacó e Esaú figuras dos crentes e dos incrédulos, e com a de Wesley em Predestinação calmamente considerada. Ela difere da eleição corporativa de Brian Abasciano, que lê o capítulo como escolha de um povo em Cristo, enquanto White fala sobretudo de eleição para uma função na história; as duas leituras convivem dentro do arminianismo.
A disciplina e a reunião de classe
Os artigos de White sobre o metodismo voltam sempre a uma tese: a pregação sem acompanhamento não forma cristãos. Em 1991 ele contou que a reunião de classe nasceu de uma coleta de um centavo por semana para pagar a dívida de uma casa de pregação, e que logo os encontros se tornaram mais pastorais que financeiros. Wesley sustentou a disciplina pregando sobre ela, sobretudo a partir de Mateus 18:15-17, ensinando os líderes leigos a aplicá-la com amor e organizando o povo em grupos de cerca de doze pessoas. White cita as cartas de Wesley a Adam Clarke e a Francis Asbury e a nota do diário de 1763 sobre Pembrokeshire, onde vinte anos de pregação sem sociedades tinham deixado quase todos os despertados “mais adormecidos do que nunca”.
Em 2002 ele explicou por que a reunião de classe desapareceu. Houve causas históricas, como classes que passaram de uma dúzia para dezenas de membros e a distância social entre membros enriquecidos e líderes pobres, mas White deu mais peso às teológicas. A primeira foi uma ideia empobrecida da conversão, como posse definitiva, independente do modo de viver. Para Wesley, o novo nascimento era a porta da santificação, e a certeza do crente é a do perdão presente, não a de uma perseverança final garantida. A segunda foi a passagem do metodismo de sociedade dentro da Igreja da Inglaterra para igreja própria, que transformou a exclusão de quem faltava à classe em excomunhão. A terceira foi o liberalismo do século XIX, que amoleceu as doutrinas da Escritura, do inferno, do pecado original e da perfeição cristã. White cita a crítica de Robert Chiles a John Miley, que teria deixado da depravação só “uma pálida imagem” da doutrina ortodoxa. Se a doença não é grave, o remédio não precisa ser forte, e por isso os pequenos grupos de hoje só durarão se ficarem perto da teologia de Wesley.
Essa insistência no pecado original e na depravação total e na possibilidade de abandonar a fé coincide com a declaração de fé do site. Há uma diferença de vocabulário: no artigo de 2002, White diz que na luta contra o pecado o crente deve “contribuir com a sua parte”. O site prefere dizer que a graça capacita e o crente, liberto por ela, responde, para não dar a entender que a santificação seja dividida entre Deus e o homem.
Santidade e dinheiro
White lê Phoebe Palmer com simpatia. Para ele, a inteira santificação teve na vida dela o papel que a justificação pela fé teve em Lutero: certa de que “tudo estava no altar”, ela deixou de remoer o próprio estado espiritual e pôs essa energia no serviço aos outros. É a santificação recebida pela fé, que a declaração de fé do site também afirma.
O artigo sobre o dinheiro mostra o mesmo interesse pela vida prática. Wesley fixou um orçamento: quando ganhava 30 libras, gastava 28 e dava 2; com a renda de 120, continuou gastando 28 e deu 92. White resumiu: “o que ele pregou com atos falou mais alto que as suas palavras” (Christian History 19, 1988).
Obras principais
- The Beauty of Holiness: Phoebe Palmer as Theologian, Revivalist, Feminist, and Humanitarian (Francis Asbury Press, 1986; Wipf & Stock, 2008)
- “The Beauty of Holiness: The Career and Influence of Phoebe Palmer”, Methodist History 25:2 (1987)
- “Clement of Alexandria: What Kind of Rich Person Can Be Saved?”, paráfrase, Christian History 14 (1987)
- “Four Lessons on Money”, Christian History 19 (1988)
- “John Wesley’s Use of Church Discipline”, Methodist History 29:2 (1991)
- “Teaching Mark’s Gospel to Muslims”, Christianity Today (1993)
- “Spare the Rod and Spoil the Church”, Christian History 69 (2001)
- “The Decline of the Class Meeting”, Methodist History 40:4 (2002)
- “Holiness Fire-Starter”, Christian History 82 (2004)
- “John Calvin’s Five-Point Misunderstanding of Romans 9: An Intertextual Analysis”, Wesleyan Theological Journal 41 (2006)
- “Charles Wesley and the Making of the English Working Class”, Journal of Markets & Morality 16:2 (2013)
Para aprofundar
- Spring Arbor University, página de Charles White no corpo docente.
- EuroLeadership, Charles White.
- FOCL, página e palestras de Charles White.
- Salvo Magazine, Charles Edward White.
- Charles Edward White, “John Calvin’s Five-Point Misunderstanding of Romans 9: An Intertextual Analysis”, Wesleyan Theological Journal 41 (2006), na Society of Evangelical Arminians.
- Charles Edward White, “The Beauty of Holiness: The Career and Influence of Phoebe Palmer”, Methodist History 25:2 (1987), General Commission on Archives and History.
- Charles Edward White, “John Wesley’s Use of Church Discipline”, Methodist History 29:2 (1991).
- Charles Edward White, “The Decline of the Class Meeting”, Methodist History 40:4 (2002).
- Charles Edward White, “Holiness Fire-Starter”, Christian History 82 (2004).
- Charles Edward White, “Spare the Rod and Spoil the Church”, Christian History 69 (2001).
- Charles Edward White, “Four Lessons on Money”, Christian History 19 (1988).
- Charles Edward White, “Clement of Alexandria: What Kind of Rich Person Can Be Saved?”, Christian History 14 (1987).
- Charles Edward White, “Teaching Mark’s Gospel to Muslims”, Christianity Today (1993).
- Wipf & Stock, The Beauty of Holiness.
- Charles Edward White, “Charles Wesley and the Making of the English Working Class”, Journal of Markets & Morality 16:2 (2013).
- Evangelical Theological Society, “The Wesley Brothers and the 18th-century Conflict over Scripture”, gravação do encontro anual de 2013.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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