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Craig L. Blomberg: O estudioso dos Evangelhos que se chama de calminiano
Neste texto
Em meados dos anos 1970, o departamento de religião de uma faculdade luterana de Rock Island, no estado de Illinois, tinha cinco professores, todos pastores ordenados da Igreja Luterana na América. Nenhum deles acreditava que Jesus tivesse dito ou feito mais do que uma pequena parte do que os Evangelhos contam. Entre os alunos estava um rapaz que se convertera poucos anos antes num clube de estudantes da Mocidade para Cristo e que agora ouvia, aula após aula, que os estudiosos modernos já tinham mostrado que Jesus “provavelmente nunca disse aquilo”. Ele concluiu que boa parte de um testemunho cristão digno de crédito dependia de poder responder a essa frase. O rapaz era Craig L. Blomberg, que dedicaria a vida a mostrar que os Evangelhos merecem confiança como história e se tornaria um dos estudiosos evangélicos do Novo Testamento mais lidos da sua geração.
Vida
Rock Island e a conversão
Craig Blomberg nasceu em 3 de agosto de 1955 e cresceu em Rock Island, Illinois, numa família protestante de igreja tradicional, membro da Igreja Luterana na América. No ensino médio frequentou o Campus Life, o clube escolar da Mocidade para Cristo (Youth for Christ), e ali, aos quinze anos, tornou-se cristão. Na faculdade foi acompanhado pela Cruzada Estudantil para Cristo (Campus Crusade for Christ). O diretor do grupo indicava aos estudantes livros de estudiosos que ofereciam alternativas sérias às posições céticas do departamento de religião.
Formou-se em 1977 no Augustana College, a faculdade luterana da sua cidade, com estudos em matemática, espanhol e religião. Nas conversas em que falava da fé aos colegas, percebeu uma falha no famoso trilema popularizado por C. S. Lewis e Josh McDowell, segundo o qual Jesus só pode ser mentiroso, louco ou Senhor. Quase ninguém chamava Jesus de mentiroso ou de louco; quem não o reconhecia como Senhor costumava tratá-lo como lenda. Faltava, portanto, uma quarta categoria, e responder a ela exigia estudo histórico.
Formação e primeiros anos de ensino
Blomberg fez o mestrado em Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School, em Deerfield, perto de Chicago, e seguiu para a Universidade de Aberdeen, na Escócia, onde fez o doutorado sob a orientação de I. Howard Marshall, o exegeta metodista que defendia a perseverança condicional. A tese, concluída em 1982, estudou a história da tradição das parábolas que só aparecem na seção central do Evangelho de Lucas. As parábolas e a obra de Lucas ficariam entre os temas dele pelo resto da carreira.
De 1982 a 1985 foi professor assistente de religião no Palm Beach Atlantic College, na Flórida. Entre 1985 e 1986 foi pesquisador sênior na Tyndale House, em Cambridge, no projeto sobre os Evangelhos dirigido por David Wenham, que publicou os seis volumes da série Gospel Perspectives; com Wenham, organizou o sexto, The Miracles of Jesus (1986). Os responsáveis pelo projeto pediram a ele que transformasse esse material técnico num livro para um público mais amplo. Aos trinta anos, depois de quase um ano de pesquisa e redação, ele entregou The Historical Reliability of the Gospels (1987), o seu primeiro livro, reeditado e ampliado vinte anos depois.
Denver
Em 1986 Blomberg entrou para o corpo docente do Denver Seminary, no Colorado, onde ensinou Novo Testamento por mais de três décadas e chegou a professor distinto. Hoje é professor emérito, e o seminário criou uma cátedra de Novo Testamento com o nome dele. Mark Young, presidente do seminário, chamou-o de “um dos estudiosos evangélicos do Novo Testamento mais influentes desta geração”.
Escreveu, coescreveu ou organizou mais de trinta livros, entre eles comentários a Mateus (1992), a 1 Coríntios (1994) e, com Mariam Kamell, a Tiago (2008), o volume que abriu a série Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament. Com os colegas William Klein e Robert Hubbard escreveu o manual de hermenêutica Introduction to Biblical Interpretation (1993). Jesus and the Gospels (1997), a sua introdução aos quatro Evangelhos, ganhou o prêmio Gold Medallion e chegou à terceira edição em 2022. Serviu na Comissão de Tradução da Bíblia que cuida da Nova Versão Internacional (NIV) e na equipe que revisou a NIV Study Bible.
Fora da academia, ficou conhecido por causa de Lee Strobel, que abre The Case for Christ (1998), publicado no Brasil como Em defesa de Cristo, com duas entrevistas com ele sobre os Evangelhos como testemunho ocular.
Em 30 de setembro de 2019 ele falou sobre a confiabilidade histórica dos Evangelhos na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, num evento do Centro de Educação, Filosofia e Teologia com as Edições Vida Nova, que tinham acabado de lançar o livro em português. Em 2025 presidiu a Evangelical Theological Society, a associação acadêmica que reúne biblistas e teólogos evangélicos norte-americanos. Blomberg é casado com Fran e tem duas filhas.
Pensamento
Onde ele fica no arminianismo
Blomberg entra nesta série como simpatizante: é molinista e se chama de “calminiano”. Num texto de julho de 2009, Why I’m a “Calminian”, ele argumenta que nem o calvinismo puro de cinco pontos nem o arminianismo puro fazem justiça a toda a Escritura: o primeiro guarda a soberania de Deus, o segundo a liberdade e a responsabilidade humanas, e cada um costuma combater uma caricatura do outro. “Os dois estão certos no que querem”, escreve. A saída que ele propõe é a do conhecimento médio, que encontra tanto no filósofo calvinista Alvin Plantinga quanto no arminiano William Lane Craig: Deus predestina com base no que sabe de antemão, como diz o arminianismo, mas esse conhecimento alcança o que toda pessoa possível faria em toda situação possível; como Deus cria um número limitado de pessoas, a escolha de quem criar continua soberana, como diz o calvinismo. Como prova de que a Bíblia segura as duas pontas, cita Filipenses 2:12-13, Isaías 10:5-13 e sobretudo Gênesis 50:20, em que os irmãos de José planejam o mal e Deus planeja o bem no mesmo ato. O texto termina com um trocadilho: ele é grato a “Cal”, mas quer ser um dos “minions de Jacó”, isto é, de Jacó Armínio.
A distância em relação ao arminianismo clássico é real. O molinismo leva o nome do jesuíta Luis de Molina. Jacó Armínio fundou a eleição no decreto de salvar em Cristo os que se arrependem, creem e perseveram, conhecidos de antemão por Deus, e não na escolha de qual mundo criar. Roger Olson considera o molinismo incompatível com o arminianismo justamente porque ele usa esse conhecimento para dispor as escolhas das criaturas. Para Armínio e Wesley, o que torna a fé possível é a graça preveniente, a obra do Espírito que vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade caída para crer, e não o arranjo das circunstâncias em que Deus decide pôr cada pessoa. O que o aproxima dos arminianos é a recusa de uma soberania que dispense a responsabilidade humana.
Perseverança: santos são os que perseveram
Na perseverança Blomberg fica do lado reformado, mas levando a sério as advertências. Num artigo de 1992 no Journal of the Evangelical Theological Society, ao comentar 1 Coríntios 9:24-27, lembra que a coroa que Paulo busca é a própria vida eterna. Uma ideia “simplista demais” de segurança eterna, diz ele, leva muitos cristãos a duvidar que Paulo pudesse temer não chegar ao céu, mas “a verdadeira doutrina reformada reconhece que santos são os que perseveram”. E acrescenta que nenhum texto bíblico dá segurança de salvação a quem repudia Cristo abertamente e não se arrepende. Observa ainda que calvinistas e arminianos concordam que há quem cometa apostasia e se perca; discordam sobre o que isso prova a respeito do estado anterior da pessoa (1 João 2:19 e Hebreus 6:4-6).
Aqui está a principal diferença com a declaração de fé do Diego, que afirma a perseverança condicional: o crente unido a Cristo pode abandonar a fé salvadora. Para Blomberg, quem abandona a fé mostra que a profissão de fé era vazia. Para a tradição arminiana, explicada em Perseverança e apostasia na teologia arminiana, as advertências de Hebreus se dirigem a crentes verdadeiros que podem de fato cair.
Graça sem graus de recompensa
O mesmo artigo, Degrees of Reward in the Kingdom of Heaven?, mostra que para Blomberg a salvação é pela graça do começo ao fim. Ele critica a doutrina, comum sobretudo em círculos de herança dispensacionalista, de que os crentes entram no céu pela fé mas desfrutam dele em graus diferentes, segundo as obras. O resultado, diz, seria justificação pela fé e santificação pelas obras. A base é a parábola dos trabalhadores da vinha (Mateus 20:1-16), em que todos recebem o mesmo salário: dela tira a lição de que “todos os verdadeiros discípulos são iguais aos olhos de Deus”. A distância entre o mais santo dos crentes e a santidade perfeita de Deus é tão grande que as diferenças entre cristãos perdem o peso; a imagem é dele: vistas de Marte, as diferenças de altura entre o Everest e a Fossa das Marianas parecem desprezíveis. O artigo termina lembrando que a fé verdadeira, com o tempo, produz uma vida transformada.
Os Evangelhos como história
O trabalho mais conhecido de Blomberg responde à pergunta que ouviu na faculdade. Em The Historical Reliability of the Gospels, em The Historical Reliability of John’s Gospel (2001), em Can We Still Believe the Bible? (2014) e em The Historical Reliability of the New Testament (2016), ele aplica aos Evangelhos os critérios que os historiadores usam com qualquer texto antigo. Os primeiros Evangelhos foram escritos cerca de trinta anos depois dos fatos, por pessoas próximas da primeira geração de discípulos. As diferenças entre eles devem ser julgadas pelos padrões da época, que permitiam resumir e parafrasear; só uma contradição verdadeira seria problema. Quanto ao texto, o grego reconstruído a partir de mais de 5.800 manuscritos é extremamente fiel aos originais, e nenhuma doutrina cristã depende das poucas passagens disputadas. Para ele, os milagres do Novo Testamento se distinguem dos relatos parecidos da Antiguidade porque nunca servem a quem os faz: são sinais da chegada do reino de Deus.
Parábolas, dinheiro e outros debates
Em Interpreting the Parables (1990) Blomberg propôs que muitas parábolas de Jesus ensinam três pontos principais, um para cada personagem central, uma alegoria limitada. Na parábola dos trabalhadores, por exemplo, os primeiros ensinam que ninguém será tratado com injustiça, os últimos que Deus é generoso por livre escolha, e o patrão que todos os discípulos são iguais diante dele. A ideia foi aplicada à pregação em Preaching the Parables (2004).
O segundo grande tema é o dinheiro. Em Neither Poverty nor Riches (1999) percorre a Bíblia inteira e conclui que nem acumular riqueza nem não tê-la são bens em si, mas que há extremos de riqueza e de pobreza intoleráveis, e que o excedente deve ser reconhecido com honestidade e repartido. Num artigo de 2014 resumiu: ninguém deve ter demais enquanto outros têm de menos sem culpa sua, e o dízimo fixo de dez por cento para todos “não é ensinado em lugar nenhum da Bíblia”, porque o que é generosidade para um pode ser mesquinhez para outro.
Blomberg também entrou em debates delicados. Em How Wide the Divide? (1997) dialogou com Stephen E. Robinson, professor da Universidade Brigham Young, sobre Escritura, Deus, Cristo e salvação, na primeira obra escrita a quatro mãos por um evangélico e um mórmon, que recebeu críticas duras de outros evangélicos. Em Two Views on Women in Ministry (2001), que organizou com James Beck e que tem um capítulo de Craig S. Keener, defendeu depois uma posição que chamou de nem hierárquica nem igualitária: as mulheres podem exercer quase todos os ministérios, mas o ofício de presbítero, que nas igrejas congregacionais corresponde ao pastor titular, fica reservado aos homens. Na escatologia é pré-milenista histórico e organizou com Sung Wook Chung A Case for Historic Premillennialism (2009), outro ponto em que se afasta do amilenismo da declaração de fé do Diego.
Obras principais
- The Historical Reliability of the Gospels (1987; 2ª ed., 2007).
- Interpreting the Parables (1990; 2ª ed., 2012).
- Matthew (1992).
- Introduction to Biblical Interpretation, com William W. Klein e Robert L. Hubbard Jr. (1993).
- 1 Corinthians (1994).
- Jesus and the Gospels (1997; 3ª ed., 2022).
- How Wide the Divide?, com Stephen E. Robinson (1997).
- Neither Poverty nor Riches (1999).
- Two Views on Women in Ministry, organizado com James R. Beck (2001; ed. revista, 2005).
- The Historical Reliability of John’s Gospel (2001).
- Preaching the Parables (2004).
- From Pentecost to Patmos (2006).
- James, com Mariam J. Kamell (2008).
- A Case for Historic Premillennialism, organizado com Sung Wook Chung (2009).
- Christians in an Age of Wealth (2013).
- Can We Still Believe the Bible? (2014).
- The Historical Reliability of the New Testament (2016).
- A New Testament Theology (2018).
- Jesus the Purifier (2023).
Livros em português
- A confiabilidade histórica dos evangelhos (Vida Nova, 2019). Ver na Amazon
- Interpretando as parábolas (Vida Nova, 2022). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Pregando as parábolas (Vida Nova). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Introdução à interpretação bíblica, com William W. Klein e Robert L. Hubbard Jr. (Thomas Nelson Brasil, 2017). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Craig L. Blomberg, Why I’m a “Calminian”, Zondervan Academic, 20 de julho de 2009.
- Craig L. Blomberg, Degrees of Reward in the Kingdom of Heaven?, Journal of the Evangelical Theological Society 35/2 (1992), p. 159-172.
- Craig L. Blomberg, Generous Giving: The Antidote to Idolatry, Jian Dao 41 (2014).
- A Q&A on Stewardship with Craig Blomberg, Zondervan Academic, 2010.
- Fred Zaspel, Interview with Craig Blomberg, Books At a Glance, 2017.
- Craig Blomberg Interview Transcript, Apologetics 315, 2012.
- Blomberg, Craig, perfil no Denver Seminary, e Dr. Craig L. Blomberg Endowed Chair of New Testament.
- The Officers and Board of Directors of the Society, Evangelical Theological Society.
- A confiabilidade histórica dos evangelhos, Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2019.
- James M. Hamilton Jr., Is Blomberg Right? Does 1 Timothy 2:12 Merely Mean Women Can’t Be Elders?, 2007, com citações de From Pentecost to Patmos.
- James R. White, How Wide the Divide? A Mormon and an Evangelical in Conversation, Christian Research Institute.
- Craig Blomberg, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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