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Charles Butler: o advogado católico que escreveu a vida de Grócio
Neste texto
Em Londres, no fim do século XVIII, um advogado saía de casa às quatro da manhã, mesmo no meio do inverno, com uma lanterna na mão. Chegava ao seu escritório em Lincoln’s Inn, acendia a lareira e escrevia até a hora do café. O resto do dia era dos clientes. Foi nessas horas roubadas ao sono que Charles Butler escreveu cerca de cinquenta volumes, entre eles uma vida de Hugo Grócio, o jurista holandês que defendeu os remonstrantes. Butler era católico romano, e é nessa biografia, publicada em 1826, que ele toma partido de Armínio contra o decreto absoluto de Calvino.
Vida
Um menino católico sob as leis penais
Charles Butler nasceu em Londres, em 14 de agosto de 1750, numa loja de tecidos com a tabuleta da Bola de Ouro, em Pall Mall. O pai, James Butler, era comerciante de linho e descendia dos Butler de Aston-le-Walls, uma antiga família católica de Northamptonshire. O tio paterno era o padre Alban Butler, autor das Vidas dos Santos.
Os católicos ingleses viviam então sob as chamadas leis penais, que desde a Reforma os excluíam das universidades, do Parlamento, dos cargos públicos e da advocacia nos tribunais. Aos seis anos, Charles foi mandado para uma pequena academia católica em Hammersmith. Nas suas memórias, ele lembra que escolas assim eram às vezes perturbadas por delatores e que, mais de uma vez, o diretor teve de mandar todos os alunos para casa às pressas.
Três anos depois, o menino atravessou o canal da Mancha. Passou pela escola preparatória de Esquerchin e pelo Colégio Inglês de Douai, no norte da França, mantido por padres seculares para formar sacerdotes para a missão inglesa, e ali fez o curso até o fim da retórica. Butler descreveu Douai como uma vida retirada, de piedade “um tanto ascética”. Reconhecia os limites daquela formação para quem ia viver no mundo, mas dizia alegrar-se de ter estudado lá.
O conveyancer de Lincoln’s Inn
Por volta de 1766 voltou para a Inglaterra e, em 1769, começou a estudar direito com John Maire e depois com Matthew Duane, dois católicos especialistas em escrituras de imóveis. No escritório de Duane fez amizade com John Scott, o futuro Lord Eldon, lorde chanceler da Inglaterra.
Em 1775 abriu escritório próprio e se inscreveu em Lincoln’s Inn. Como católico, não podia ser chamado à barra, isto é, atuar nos tribunais. Tornou-se conveyancer, o jurista que redige escrituras, testamentos e contratos de terras, e durante mais de quarenta anos esteve entre os primeiros da profissão.
Ao mesmo tempo, trabalhava na edição anotada do comentário de Edward Coke ao tratado de Littleton, a base do direito inglês da propriedade. Francis Hargrave abandonou o trabalho em 1785, na folha 190 de 393. Butler anotou a outra metade e publicou o conjunto em 1787, e as notas dele passaram a ser vistas como a parte mais valiosa da edição.
Secretário do Comitê Católico
Em 1782, uma assembleia dos católicos ingleses criou um comitê de leigos para cuidar dos interesses da comunidade, e Butler foi escolhido secretário. Em 1788, o comitê o encarregou de redigir um projeto de lei para revogar as leis penais.
O projeto veio acompanhado de uma declaração de princípios e de um juramento que chamava os católicos de “dissidentes católicos protestantes”. Na Inglaterra daquele tempo não havia dioceses católicas: a Igreja era governada por vigários apostólicos, bispos nomeados diretamente por Roma. Em outubro de 1789, os quatro vigários apostólicos condenaram o juramento, e Butler respondeu com um Apelo aos católicos ingleses. Os documentos do comitê, quase todos escritos por ele, ficaram conhecidos como os “livros azuis”. O padre John Milner, agente dos bispos, combateu o comitê até que o Parlamento trocou o juramento contestado pelo juramento irlandês de 1778.
A lei de alívio dos católicos passou em 1791, e no mesmo ano Butler se tornou o primeiro católico chamado à barra desde a Revolução de 1688. Aceitou o título pela honra e argumentou num único processo, diante da Câmara dos Lordes.
Em 12 de abril de 1792, Butler e os amigos do comitê fundaram o Clube Cisalpino, para “resistir a toda interferência eclesiástica” contrária à liberdade dos católicos ingleses. O nome indicava o lado de cá dos Alpes, em oposição aos ultramontanos, que davam ao papa a última palavra em tudo. Mais tarde Butler defendeu que o governo britânico tivesse veto na nomeação dos bispos católicos, e Milner, já bispo, voltou a enfrentá-lo por anos. Butler era um galicano extremado, partidário de limitar o poder do papa diante das igrejas nacionais. Um amigo registrou que, no fim da vida, ele se tornou “um galicano dentro dos limites da ortodoxia”.
A emancipação dos católicos veio em 1829, sem nenhum veto, e Butler viveu para vê-la. Pouco antes de morrer, recebeu do lorde chanceler Brougham a beca de seda de conselheiro do rei (King’s Counsel).
O escritor das quatro da manhã
Em 1797 saiu o Horae Biblicae, notas sobre o texto e a história da Bíblia, traduzido depois para o francês. Seguiram-se notas sobre o direito romano, feudal e canônico (1804), as vidas de Fénelon e de Bossuet, um estudo sobre as confissões de fé das igrejas católica, grega e protestantes (1816) e as Memórias históricas dos católicos ingleses, irlandeses e escoceses (1819-1821). Em 1823, continuou as Vidas dos Santos do tio.
O livro de maior repercussão foi The Book of the Roman Catholic Church (1825), em cartas dirigidas ao poeta Robert Southey, que em 1824 publicara uma história da Igreja da Inglaterra hostil a Roma. Southey replicou em 1826, e cerca de dez réplicas protestantes apareceram. Nos mesmos anos Butler escreveu a vida de Erasmo (1825) e a de Grócio (1826).
Em 1776 casou-se com Mary Eyston, filha de John Eyston, de East Hendred, em Berkshire. Tiveram um filho, que morreu pequeno, e duas filhas, Mary e Theresia. Na vida privada, Butler era um católico devoto, e o próprio Milner admitia que ele podia ser chamado de asceta. Morreu em casa, em Great Ormond Street, Londres, em 2 de junho de 1832.
Pensamento
Butler é um simpatizante do arminianismo, vindo de fora do protestantismo. Foi católico romano a vida inteira, nunca se disse arminiano e não escreveu tratados de teologia. Mas, quando teve de narrar a controvérsia entre Armínio e Gomaro, rejeitou o decreto absoluto de Calvino, disse que Armínio falava de Deus de modo mais justo e defendeu os remonstrantes perseguidos depois de Dort. É por isso que o nome dele aparece entre os teólogos arminianos.
O decreto absoluto e a bondade de Deus
Na Vida de Hugo Grócio (1826), Butler resume a doutrina de Calvino assim: Deus, desde a eternidade, destinou uma parte da humanidade à felicidade eterna e outra à miséria eterna, sem levar em conta o mérito ou o demérito de cada um. A ideia de que Deus entrega pessoas ao tormento eterno “sem nenhuma culpa da parte delas”, escreve, “choca os nossos sentimentos” e é contrária à noção que temos da bondade e da justiça de Deus. A linguagem de Jacó Armínio, conclui, parecia mais conforme ao que os cristãos sensatos pensam de Deus.
No livro, Butler transcreve por inteiro os cinco artigos da Remonstrância de 1610, entre eles os dois que mais pesam para o arminianismo clássico: o homem caído não tem a fé salvadora de si mesmo nem pela força do seu livre-arbítrio; e à graça se deve o começo, o progresso e a conclusão de todo bem, embora ela não seja irresistível. Butler apresenta esse texto como a confissão dos arminianos sem acusá-los de pelagianismo, a doutrina de Pelágio, para quem o ser humano pode escolher e praticar o bem sem a graça divina.
No estudo sobre as confissões de fé (1816), Butler vai além e aproxima Armínio da sua própria igreja: Armínio, ao admitir a presciência eterna de Deus, sustentou “com a Igreja Católica Romana” que nenhum mortal é condenado por um decreto eterno e invencível, e que a perdição dos que se perdem vem deles mesmos. No mesmo livro, observa que a diferença entre arminianos e calvinistas era a grande divisão entre os metodistas de John Wesley e os de George Whitefield, e em boa parte a disputa entre jesuítas e jansenistas dentro do catolicismo.
A graça que vem antes
Butler não fazia a salvação começar no homem. Quando Southey elogiou Pelágio por ter defendido o livre-arbítrio e acusou Agostinho de ter infectado a Igreja com resquícios do maniqueísmo, Butler tomou o lado de Agostinho. Na carta sobre o assunto, no Book of the Roman Catholic Church (1825), explica que Pelágio fazia o homem agir sem a graça tanto na escolha quanto na prática do bem, enquanto Agostinho ensinou que “a graça previne e ajuda a nossa vontade, mas não a destrói”. Prevenir, aqui, tem o sentido antigo de vir antes: é a mesma ideia que os arminianos chamam de graça preveniente, a graça que chega antes de qualquer movimento humano em direção a Deus.
Butler admitia que a pergunta de fundo, como Deus pode ser o único autor do bem sem forçar a vontade, ultrapassa a razão humana. Agostinho, lembrava, muitas vezes respondia só com a exclamação de Paulo em Romanos 11:33 sobre a profundidade da sabedoria de Deus.
Liberdade religiosa e caridade
O que mais atraía Butler nos remonstrantes era a tolerância. Ele julgou com dureza o Sínodo de Dort: achou exorbitante a exigência de que os remonstrantes se submetessem à autoridade do sínodo e escreveu que, se algum grupo de teólogos protestantes mereceu a acusação de querer suceder aos tiranos que derrubou, foram os membros daquela assembleia. Lembrou a frase de Simão Episcópio ao ser expulso: “Que Deus julgue entre o sínodo e nós!”. No estudo de 1816, chamou o tratado de Hugo Grócio sobre o poder das autoridades em matéria religiosa de “talvez a primeira defesa da liberdade religiosa” que saiu de uma prensa.
Butler, que passara a infância sob as leis penais e a vida adulta lutando para revogá-las, contou com simpatia a história dos remonstrantes presos, exilados e proibidos de pregar. Ao citar um autor que lamentava que calvinistas e arminianos fossem incapazes de divergir sem perder a caridade, Butler acrescentou entre parênteses que o mesmo valia para “quaisquer outras opiniões católicas ou protestantes”. Juntou ao estudo sobre as confissões um ensaio sobre as tentativas de reunir os cristãos e dedicou a Vida de Grócio ao duque de Sussex, apresentando Grócio como defensor da “nobre causa da liberdade civil e religiosa”, causa que o duque também apoiava.
Onde ele se afasta do arminianismo
A distância entre Butler e o arminianismo clássico é real. Armínio e os remonstrantes eram protestantes reformados, e a controvérsia deles com os calvinistas aconteceu dentro da Reforma. Butler aceitava a doutrina do Concílio de Trento. No livro de 1816 ele reproduz, como exposição exata da doutrina católica, as Cartas de um doutor católico a um protestante (Ruão, 1769). Ali se lê que nenhuma obra feita antes da fé, só pela força do livre-arbítrio, tem parte na justificação e que o pecador é justificado gratuitamente, só por causa dos méritos de Cristo; mas também que a fé sozinha não basta: Deus exige arrependimento, propósito firme de não pecar e confiança na sua misericórdia, como condições e não como méritos. No debate com Southey, descreve o problema da graça como o de explicar como as boas obras são meritórias diante de Deus e, ainda assim, dom dele.
A declaração de fé deste site acompanha Butler na recusa do decreto absoluto, na graça que vem antes e pode ser recusada e na defesa de Agostinho contra Pelágio. Diverge dele na justificação, que o site entende como somente pela fé, pela justiça de Cristo imputada, como Armínio e Wesley ensinaram. Diverge também na Ceia do Senhor, que o site entende como memorial, e na autoridade da Igreja, onde Butler, mesmo galicano, reconhecia o papa e os concílios.
Obras principais
- Coke upon Littleton, edição anotada com Francis Hargrave (1775-1787; oito edições até 1831).
- Horae Biblicae (1797-1802; várias edições até 1817).
- Horae Juridicae Subsecivae (1804).
- Vidas de Fénelon (1811) e de Bossuet (1812).
- An Historical and Literary Account of the Formularies, Confessions of Faith, or Symbolic Books of the Roman Catholic, Greek, and Principal Protestant Churches (1816).
- Historical Memoirs of the English, Irish, and Scottish Catholics since the Reformation (4 volumes, 1819-1821; 3ª ed., 1822).
- Reminiscences (1822; segundo volume, 1827).
- Continuação das Lives of the Saints de Alban Butler (1823).
- The Book of the Roman Catholic Church (1825) e Vindication of the Book of the Roman Catholic Church (1826).
- The Life of Erasmus (1825).
- The Life of Hugo Grotius (1826).
- Memoir of the Life of Henry Francis d’Aguesseau (1830).
Para aprofundar
- Charles Butler, The Life of Hugo Grotius (Londres, John Murray, 1826), Project Gutenberg.
- Charles Butler, An Historical and Literary Account of the Formularies, Confessions of Faith, or Symbolic Books (Londres, 1816), Internet Archive.
- Charles Butler, The Book of the Roman Catholic Church (Londres, 1825), Internet Archive.
- Charles Butler, Reminiscences (edição de 1825), Internet Archive.
- Thompson Cooper, “Butler, Charles (1750-1832)”, Dictionary of National Biography, vol. 8 (1886), Wikisource.
- Bernard Ward, “Charles Butler”, The Catholic Encyclopedia, vol. 3 (1908), New Advent.
- “Butler, Charles”, The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 2, CCEL.
- “Charles Butler (1750-1832)”, nota biográfica em The Collected Letters of Robert Southey, Romantic Circles.
- “Charles Butler (lawyer)”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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