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Daniel B. Pecota: O professor de grego que ensinou a obra salvadora de Cristo aos pentecostais

Diego Gonçalves12 min de leitura2.441 palavras

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Neste texto

No começo dos anos 1960, na capela do Northwest College, em Kirkland, perto de Seattle, um aluno do segundo ano chamado Dan Secrist orava sem saber se devia seguir para o ministério. Pediu a Deus que o irmão Butterfield ou o doutor Pecota viesse impor as mãos sobre ele naquele dia. No meio da oração, Daniel Pecota atravessou a capela, inclinou-se, pôs a mão no ombro do rapaz e orou por ele. Secrist saiu dali sem dúvida sobre o caminho da sua vida. Anos depois, pastor da igreja que fundou em Lacey, contou a história em público diante do velho professor: aquela igreja não existiria sem o homem que se abaixou para orar por “um dos garotos”. Cenas assim se repetiram por 39 anos na vida de Daniel Bruce Pecota, professor de teologia e de grego nas Assembleias de Deus e autor do capítulo sobre a obra salvadora de Cristo na teologia sistemática pentecostal organizada por Stanley Horton.

Vida

Uma casa com onze filhos

Daniel Bruce Pecota nasceu em 1928, em Passaic, Nova Jersey, numa família de onze filhos, de antepassados russos. Ele mesmo escreveu, em 1973, que, apesar das dificuldades “comuns e incomuns”, a nota dominante da casa era o amor, e que dali vinha o seu carinho pelas crianças.

Fez o bacharelado no Southern California Bible College, das Assembleias de Deus, e depois o bacharelado em Divindade e o mestrado em Teologia no Fuller Theological Seminary, em Pasadena. Casou-se com Esther Bartsch por volta de 1951; o casal teve dois filhos, Stephen e James. Antes de se dedicar ao ensino, foi pastor em Newport Beach, na Califórnia.

Kirkland, 1958

Em 1958 a família mudou-se para Seattle, e Pecota começou a ensinar no Northwest Bible College, que naquele mesmo ano comprou o terreno de Kirkland e em 1962 passou a se chamar Northwest College of the Assemblies of God (hoje Northwest University). Ensinou ali teologia, grego do Novo Testamento, doutrina cristã e princípios de interpretação da Bíblia até se aposentar, em 1996, e coordenou a divisão de estudos religiosos e ministeriais. Recebeu também um doutorado honorário em Divindade.

Os alunos o chamavam de “Doc”. Peter W. Dunn, da turma de 1985, lembra o professor como um prumo de verdade bíblica no meio das doutrinas estranhas que circulavam nas igrejas pentecostais: mostrava que a fé cristã é razoável e pode ser examinada, juntava rigor e piedade e brincava que um teólogo é capaz de transformar uma gota de verdade simples numa neblina densa. Dunn atribui a ele a decisão de estudar no Regent College e em Cambridge.

Ministro ordenado das Assembleias de Deus, Pecota era presbítero e professor na Calvary Chapel Assembly of God, em Seattle, e serviu na diretoria do Metanoia Ministries e no conselho do New Horizons Ministries, que atendia os adolescentes que viviam nas ruas da cidade. Era membro da Society of Biblical Literature.

As crianças, a “minoria esquecida”

Com licença do Northwest College, Pecota fez o doutorado em Ministério no seminário da Phillips University, em Enid, Oklahoma. O projeto final, de abril de 1973, chamou-se Except You Become as Little Children (“Se não vos fizerdes como crianças”). Nos cultos das Assembleias de Deus, escreveu, as crianças eram “a minoria esquecida”: o pregador falava de longe e de cima, com palavras abstratas, e o Jesus que elas ouviam parecia quase sem humanidade.

Ele treinou três pastores da região de Seattle, de uma igreja urbana, uma suburbana e uma rural, para pregar às crianças de seis a oito anos no culto da manhã. As crianças desenharam Jesus antes e depois da série de sermões, e os desenhos serviram para medir o quanto ele tinha ficado mais próximo delas. Pecota chamou o método de “hermenêutica encarnacional”: assim como o Verbo se fez carne para interpretar o céu para a terra, o pastor deveria entrar no mundo da criança para lhe mostrar o Jesus dos Evangelhos.

Professor, autor e pregador de capela

Em 1976 o International Correspondence Institute, a escola por correspondência das Assembleias de Deus, publicou o seu Soteriology: A Study Guide, manual de 224 páginas sobre a doutrina da salvação, que teve também uma edição finlandesa. Na capela, Pecota ficou conhecido por sermões sobre as emoções que a Bíblia atribui a Deus, como “Quando Deus chora”, “O dia em que Deus corou” e “Quando Deus ri”, reunidos em janeiro de 1989 num retiro universitário na Colúmbia Britânica, no Canadá, com o título “Buscando a face de Deus”.

Por volta de 1990 o centro estudantil do campus já se chamava Pecota Student Center. Em 1994 saiu Systematic Theology: A Pentecostal Perspective, obra coletiva de professores das escolas das Assembleias de Deus organizada por Stanley Horton. Coube a Pecota o capítulo 10, “The Saving Work of Christ”, sobre a expiação, a eleição, a conversão, a justificação, a adoção e a perseverança.

Rússia, a bicicleta e os últimos anos

Depois da queda da União Soviética, Pecota foi à Rússia ensinar teologia a antigos comunistas, coisa que fazia com prazer, e deu cursos bíblicos em Magadan, no extremo oriente russo, a terra dos seus antepassados.

Em 1992 morreu Tyler James Pecota, o neto. Em 1995 Daniel, os filhos e um colega de faculdade pedalaram até San Francisco para levantar dinheiro para uma bolsa de estudos com o nome do menino. Já professor emérito, escreveu em fevereiro de 1997 um estudo sobre o Salmo 32 em que chamou a culpa verdadeira de “um bom presente de Deus”, porque sem ela ninguém conhece a alegria da confissão e do perdão.

Pecota morreu em 1º de julho de 1997, aos 68 anos, de atrofia de múltiplos sistemas, uma doença degenerativa do sistema nervoso, e foi sepultado em Bellevue. Na faculdade chamaram-no de “um marco”, e o presidente Dennis Davis lembrou que muitos ex-alunos diziam que ele tinha moldado a vida deles. O filho Stephen guardou dele a disposição de fazer as tarefas humildes que outros julgariam abaixo de si.

Pensamento

Pecota foi um pentecostal arminiano. Pertenceu toda a vida às Assembleias de Deus, que num documento oficial de 1978 afirmam a possibilidade de o crente abandonar a fé, e no seu capítulo de 1994 adota a ordem da salvação wesleyana e defende, com os “wesleyano-arminianos”, a eleição condicional, a graça resistível e a perseverança condicional. Ele mesmo traça a linhagem: a forma evangélica e moderada do sinergismo, a ideia de que a pessoa, capacitada por Deus, responde de verdade ao chamado, vem de Armínio e, “mais importante”, de Wesley.

A cruz como substituição penal

Pecota rejeita o otimismo pelagiano do Iluminismo, para o qual o ser humano é bom no fundo e precisa de “um campus, e não uma cruz”. A Bíblia mostra uma raça que não pode salvar a si mesma.

Nas teorias da expiação, reconhece a parte de verdade da influência moral de Abelardo, da vitória sobre o diabo (Christus Victor) e da satisfação de Anselmo. Rejeita a teoria governamental de Hugo Grócio, para quem a morte de Cristo foi um exemplo público do valor da lei, com uma pergunta: se o objetivo era só mostrar o quanto Deus detesta o pecado, por que Cristo, e não Barrabás? A teoria que melhor reúne o testemunho bíblico, para ele, é a substituição penal: Cristo levou no nosso lugar a pena que era nossa. Não há aí um Pai irado contra um Filho bondoso, porque foi o Pai quem amou o mundo e enviou o Filho (1 João 4:10).

Quanto ao alcance da cruz, defende a expiação ilimitada: Cristo morreu por todos, e a obra dele se aplica aos que se arrependem e creem. Apoia-se em Hebreus 2:9, 1 Timóteo 2:4-6 e 1 João 2:2, e lembra que até Calvino, em alguns comentários, falou de uma redenção para “toda a raça humana”.

Eleição em Cristo e graça que pode ser recusada

Pecota propõe a ordem da salvação dos wesleyanos: presciência, eleição, predestinação, chamado, arrependimento, fé, regeneração e o restante. A diferença com a ordem reformada está nos três primeiros termos e no lugar da regeneração (o novo nascimento), que para ele acompanha a fé e não a antecede.

Na eleição, a iniciativa é sempre de Deus, mas Romanos 9 a 11, que também falam de fé, incredulidade e responsabilidade, não obrigam a concluir pela eleição incondicional. Toda doutrina da eleição deve começar por Jesus, e nele “não encontramos particularismo”; encontramos amor, e Paulo une quatro vezes o amor e a eleição (1 Tessalonicenses 1:4; Colossenses 3:12; Efésios 1:4-5; 2 Tessalonicenses 2:13). A presciência não é causa: Jesus sabia que Judas o trairia, e Judas continuou culpado. Os que Deus conheceu de antemão, ele os elegeu em Cristo, e Efésios 1 fala de um corpo eleito, como ensinou Robert Shank.

Se a regeneração viesse antes da fé, escreve Pecota, a graça seria mesmo irresistível, porque a pessoa já teria nascido de novo. Porém a expressão “graça irresistível” lhe parece “um oxímoro, como ‘bondade cruel’”, porque a graça é presente, e presente se aceita ou se recusa. Isaías 65:2 mostra Deus estendendo as mãos o dia todo a um povo rebelde, e Estêvão acusa os ouvintes de resistir sempre ao Espírito Santo (Atos 7:51). Se não se pudesse resistir à graça, os perdidos se perderiam porque não puderam responder, e o “quem quiser” do evangelho viraria um jogo cruel. O amor, por natureza, pode ser rejeitado, e Deus “quer filhos, e não marionetes”.

A mão que recebe

Pecota não põe a salvação nas mãos do ser humano. Arrependimento e fé, escreveu, não podem ser produzidos “sem a capacitação divina”, embora também não sejam produzidos em nós sem a nossa vontade. Numa nota, define a graça preveniente como os wesleyanos a entendem: a iniciativa graciosa de Deus que atrai os pecadores para si (João 6:44; 12:32) e sem a qual ninguém poderia vir a ele. Só Deus salva, resume, e os chamados universais ao arrependimento só fazem sentido se a pessoa puder de fato aceitar ou recusar a salvação.

A fé, para ele, nunca é mérito. O Novo Testamento diz que somos justificados “por meio da fé”, e nunca “por causa da fé”, e Pecota define a fé como “uma mão estendida” que recebe o presente da salvação, imagem muito próxima do mendigo de Armínio. A justificação credita a justiça de Cristo na nossa conta, e ninguém fica mais justificado depois de cinquenta e cinco anos de serviço.

Perseverança: nem presunção nem medo

Na perseverança, Pecota recusa as caricaturas dos dois lados e confessa, numa nota, que se assustou com a presunção arrogante de alguns e se entristeceu com o medo aterrorizante de outros. Reconhece a força dos textos de segurança (João 10:27-30; Romanos 8:35-39), mas afirma que a apostasia real é possível (Hebreus 6:4-6; 10:26-31). Para quem trata essas advertências como hipotéticas, propõe uma imagem: placas de ponte caída e de queda de pedras numa estrada onde nenhum desses perigos existe seriam obra de um brincalhão ou de um tolo. A vida eterna é a vida de Cristo em nós, e só a temos enquanto estamos nele (1 João 5:11-12). A conclusão, que ele julga comum a calvinistas e arminianos, é que “não ousamos presumir e não precisamos temer”.

Pontos de contato e de diferença

O capítulo de Pecota está muito perto da declaração de fé deste site: expiação universal, satisfação penal substitutiva, graça preveniente e resistível, eleição em Cristo, justificação somente pela fé e perseverança condicional. Duas diferenças merecem nota. A primeira é de vocabulário: Pecota usa sem receio a palavra “sinergismo”, que preferimos evitar ou qualificar, embora ele mesmo a qualifique ao dizer que só Deus salva. A segunda é de fundamento: para explicar por que o pecador pode responder ao chamado, ele recorre também à imagem de Deus, que nem o mais depravado perdeu por completo. O arminianismo clássico põe toda essa capacidade na graça preveniente, e Pecota, ao exigir a capacitação divina para o arrependimento e a fé, fica nesse terreno. Como ministro das Assembleias de Deus, ele pertencia a uma igreja que ensina o batismo no Espírito Santo como experiência posterior à conversão, ponto que a nossa declaração de fé não trata.

Obras principais

  • Except You Become as Little Children: An Exploratory Project in Preparing Pastors to Preach to Children (1973), projeto de doutorado em Ministério na Phillips University.
  • Soteriology: A Study Guide (1976), International Correspondence Institute; edição finlandesa, Soteriologia, opiskeluopas (1997).
  • “Seeking the Face of God”, série de mensagens gravadas num retiro universitário (1989).
  • “The Saving Work of Christ”, capítulo 10 de Systematic Theology: A Pentecostal Perspective, organizado por Stanley M. Horton (Logion Press, 1994).
  • “On Dealing Biblically With Sin: Our Victory in Christ”, The Barnabas Files, Northwest College (fevereiro de 1997).

Livros em português

  • Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal (CPAD), organizada por Stanley M. Horton, com o capítulo de Pecota sobre a obra salvadora de Cristo. Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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