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David Pawson: O professor da Bíblia que defendeu a perseverança condicional
Neste texto
- Vida
- Família metodista e chamado
- Do metodismo aos batistas
- Millmead
- O ensino itinerante
- Últimos anos
- Pensamento
- Onde ele fica no arminianismo
- As quatro portas da iniciação cristã
- Perseverança: “uma vez salvo, salvo para sempre?”
- Inferno, Palavra e Espírito
- Israel e as últimas coisas
- Pontos de contato e de diferença
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Por volta de 1957, um jovem capelão metodista da Força Aérea Real britânica percebeu que os aviadores não se contentavam com os poucos trechos favoritos da Bíblia que se costumava ler para eles. Queriam “carne”, o alimento sólido de Hebreus 5:12-14. David Pawson começou então a levar aqueles homens pela Bíblia inteira, de Gênesis a Apocalipse. Décadas depois, esse hábito de atravessar o livro todo deu origem a Unlocking the Bible, a obra pela qual ele ficou mais conhecido, e a um ministério de ensino cujas gravações chegaram a mais de 120 países.
Vida
Família metodista e chamado
John David Pawson nasceu em 25 de fevereiro de 1930, no nordeste da Inglaterra, e cresceu numa casa em Newcastle. Vinha de uma linhagem de fazendeiros e pregadores metodistas que remontava a John Pawson, pregador e amigo de John Wesley. O pai, Henry Cecil Pawson (1897-1978), chefiava o departamento de agricultura da Universidade de Durham, era pregador leigo, dirigia as orações da família em casa e chegou a vice-presidente da Conferência Metodista.
O menino queria ser fazendeiro e se formou em agricultura pela Universidade de Durham, mas, ao terminar o curso, convenceu-se de que Deus o chamava para o ministério. Em 1950 passou um ano nas ilhas Shetland como pregador leigo metodista. Depois fez o mestrado em teologia em Wesley House, o seminário metodista de Cambridge, e trabalhou um ano em Yorkshire na missão nacional da Igreja Metodista.
Em 1956 casou-se com Enid (1928-2021), com quem teve um filho e duas filhas, e entrou como capelão na Força Aérea Real, onde serviu até 1959, parte do tempo em Áden, no sul da Arábia.
Do metodismo aos batistas
Depois da capelania, Pawson serviu como ministro metodista, na tradição da família. Aos poucos, porém, deixou de aceitar o batismo de crianças. Chamado a se explicar diante de uma comissão doutrinária da denominação, ofereceu-se para sair e se tornou batista, para praticar o batismo dos que creem, por imersão, que ele descrevia como “um banho para os sujos e um sepultamento para os mortos”.
De 1961 a 1968 foi pastor da Gold Hill Baptist Church, no Buckinghamshire, onde inverteu a ordem do culto de domingo: primeiro a pregação, depois a adoração, como ele via na igreja primitiva.
No começo da década de 1960, quando a renovação carismática chegava às igrejas britânicas, Pawson teve a experiência que chamou de batismo no Espírito Santo. Intercedendo por um membro da igreja acamado com uma febre do feno grave, que vinha fazendo oposição ao pastor, orou em línguas pela primeira vez; depois orou pelo homem, que ficou curado e se tornou seu amigo. A experiência lhe fechou algumas portas entre evangélicos desconfiados do movimento, mas transformou a sua vida espiritual.
Também em 1961 fez a primeira viagem a Israel. O livro de Arthur W. Kac sobre o renascimento do Estado de Israel mudou a sua leitura da profecia bíblica; ele o descreveu como uma “luz ofuscante”.
Millmead
Em 1968 assumiu a Guildford Baptist Church, no Surrey. A igreja crescia e já não cabia no prédio antigo. Pawson ajudou a desenhar o novo edifício, o Millmead Centre, inaugurado em 1972 com um auditório de 500 lugares, e a congregação, conhecida desde então pelo nome do prédio, tornou-se uma das maiores igrejas batistas do Reino Unido.
As fitas que espalharam o nome de Pawson nasceram ali como cuidado pastoral: as pregações eram gravadas para os membros doentes e idosos. As cópias passaram de mão em mão e cruzaram o mundo, e ele ganhou fama tanto entre evangélicos quanto entre carismáticos.
O ensino itinerante
Em 1979 começou o ministério internacional que ocuparia o resto da sua vida. Deixou o pastorado e passou a ensinar sobretudo em seminários para líderes de igrejas na Ásia, na Austrália, na África, na Europa e nos Estados Unidos. Em 1980 foi um dos pregadores da primeira Festa dos Tabernáculos da Embaixada Cristã Internacional em Jerusalém (ICEJ), a que voltou muitas vezes; a entidade o premiou em 2009 e em 2016 pelo apoio a Israel.
O formato que o tornou conhecido foi o panorama: em cada livro da Bíblia, o contexto histórico, o propósito do autor e o fio do argumento, sem descer ao versículo por versículo. Essas exposições foram reunidas em Unlocking the Bible. Pawson escreveu mais de oitenta livros e gravou mais de 300 vídeos de ensino, que deixou disponíveis de graça. Steve Dally, que trabalhou com ele na última década, lembrou que Pawson pedia às pessoas que não cressem em nada do que ele ensinava se não pudessem ler aquilo na Bíblia por si mesmas.
Ele se descrevia como um “evangélico não ortodoxo” e escreveu sobre temas que muitos pregadores evitavam: o inferno, a segurança da salvação, o divórcio e o novo casamento, a liderança masculina na igreja, o islamismo e Israel. Na autobiografia, Not as Bad as the Truth (2006), conta que, ao se queixar a Deus das críticas, ouviu a resposta que deu título ao livro: o pior que diziam dele não era tão ruim quanto a verdade, mas Deus conhecia o pior e mesmo assim o amava e o usava.
Últimos anos
Por volta de 2002 sofreu um derrame que afetou a boca e a garganta, e nos anos seguintes reduziu as viagens. Perdeu uma das filhas, que morreu aos 36 anos. Depois de uma queda grave em 2019, passou a usar cadeira de rodas e foi morar numa casa de repouso, já com um câncer nos ossos e uma forma leve do mal de Parkinson. Morreu em paz em 21 de maio de 2020, dia da Ascensão, aos 90 anos. Enid morreu no ano seguinte.
Pensamento
Onde ele fica no arminianismo
Pawson não se prendia a rótulos de escola, mas, nos pontos em disputa entre calvinistas e arminianos, chegou às conclusões arminianas e as defendeu em público. Rejeitou a graça irresistível: num seminário de 2011, Grace: Saving, Sovereign and Free (A graça: salvadora, soberana e livre), explicou o porquê e contou a história de Jacó Armínio e do Sínodo de Dort. Nas exposições sobre Romanos 9 a 11, leu a eleição de que Paulo trata a partir do conflito entre cristãos gentios e judeus na igreja de Roma. E dedicou um livro inteiro a contestar a segurança incondicional do crente. Por isso o situamos entre os arminianos de tradição batista, com uma marca carismática forte.
As quatro portas da iniciação cristã
Em The Normal Christian Birth (1989), Pawson tratou do modo como alguém se torna cristão. A tese cabe numa frase dele: o “nascimento cristão normal” consiste em “arrependimento verdadeiro e fé genuína, expressos e efetivados no batismo nas águas, com uma recepção consciente da pessoa do Espírito com poder” (p. 5). São quatro “portas espirituais”: arrepender-se diante de Deus, crer no Senhor Jesus, ser batizado nas águas e receber o Espírito Santo, como nas conversões narradas em Atos e na lista de Hebreus 6:1-2. Nenhuma dispensa as outras, mas “a fé é o mais fundamental dos quatro elementos e na verdade está na base dos outros três” (p. 13).
Daí vinham duas posições que o separavam de boa parte dos evangélicos. O batismo tem efeito real: um sacramento é “um acontecimento físico com um efeito espiritual” (p. 46), sem nada de mágico. E a recepção do Espírito é um acontecimento perceptível, normalmente com línguas ou profecia, que pode vir algum tempo depois da fé. O livro também critica a “oração de entrega” que reduz a conversão a uma decisão de um minuto. Tony Lane, estudioso de Calvino, resenhou-o na revista Themelios, chamou-o de “importante” e achou as “quatro portas espirituais” mais bíblicas que as conhecidas “quatro leis espirituais”, mas não se convenceu de que a recepção do Espírito tenha de ser sempre audível.
Perseverança: “uma vez salvo, salvo para sempre?”
Em Once Saved, Always Saved? (1996), Pawson distinguiu duas versões da segurança incondicional. A popular, que chamou de “alfa”, sustenta que um único momento de fé basta para garantir a glória; ele a resumiu assim: “a entrada no céu exige perdão, mas não santidade”. Essa pregação oferece “uma fuga do inferno, e não uma libertação do pecado”. A versão mais refinada, a “ômega”, é a perseverança dos santos dos calvinistas: só os que perseveram se salvam, mas todo verdadeiro crente perseverará de forma inevitável, e quem cai mostra que nunca nasceu de novo.
Pawson rejeitou as duas. Percorreu as advertências do Novo Testamento para mostrar que elas se dirigem a crentes de verdade e descrevem um perigo real: perder a herança do reino pelo pecado persistente e não arrependido (Gálatas 5:19-21; Efésios 5:5-8; Hebreus 10:26-29). A vida cristã, para ele, é uma corrida em que se está “a caminho”, e não uma linha cruzada uma vez. A declaração de fé do ministério que leva o seu nome descreve a salvação como um processo que começa com arrependimento, fé, batismo e recepção do Espírito, continua “acrescentando santidade ao perdão” e “exigindo confiança e obediência perseverantes”, e termina com a restauração da imagem divina. Em The Road to Hell ele resumiu: “duas qualificações são necessárias para o céu: perdão e santidade”.
O estudioso bíblico David Gooding respondeu ao livro em 1998: concordou com a crítica à pregação superficial, mas sustentou que o pecado persistente prova que a pessoa nunca creu. Pawson chegou por um caminho próprio às conclusões de Robert Shank e de I. Howard Marshall, a perseverança condicional que o site expõe no capítulo sobre a perseverança dos santos e no estudo sobre a apostasia na Bíblia.
Inferno, Palavra e Espírito
Em The Road to Hell (1992), Pawson defendeu o castigo eterno contra o universalismo e contra o aniquilacionismo, a ideia de que os ímpios deixam de existir. Lembrou que a maior parte do que Jesus ensinou sobre o inferno foi dita aos seus seguidores, como advertência, e insistiu na responsabilidade humana: “se algum ser humano se encontrar no inferno, não terá ninguém a culpar senão a si mesmo”.
Em Word and Spirit Together (1993), pediu que evangélicos e carismáticos se unissem, com os dons espirituais firmados na Escritura: “teologia sem experiência é estéril, mas experiência sem teologia é perigosa”. Por isso, diante da chamada Bênção de Toronto, escreveu Is the Blessing Biblical? (1995), que a Themelios resumiu como uma luz amarela, nem verde nem vermelha: Pawson desmontou a leitura de “embriagados no Espírito” e lembrou que liberdade no culto não é desordem (1 Coríntios 14).
Israel e as últimas coisas
Em When Jesus Returns (1995), defendeu o pré-milenismo: Jesus voltará em corpo para reinar a partir de Jerusalém, e os crentes serão arrebatados depois da grande tribulação, e não antes dela. Criticou a igreja por cultivar “escapologia em vez de escatologia”. Em Defending Christian Zionism (2008), sustentou que a volta dos judeus à terra cumpre a profecia e que os cristãos devem apoiar Israel, embora não de forma incondicional; rejeitou tanto a teologia da substituição, que transfere para a igreja as promessas feitas a Israel, quanto o dispensacionalismo.
Pontos de contato e de diferença
Com a declaração de fé deste site, Pawson concorda em pontos centrais: a graça é resistível, a fé é a base da vida cristã e a perseverança é condicional. Há diferenças. O site é amilenista, e Pawson era pré-milenista. O site afirma que quem crê em Cristo é regenerado e recebe o Espírito, que passa a habitar nele; Pawson separava o crer do receber o Espírito e esperava um sinal perceptível dessa recepção. Para o arminianismo clássico, que seguimos aqui, até o arrependimento e a fé que abrem as quatro portas nascem da graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. Lidas assim, as portas de Pawson descrevem a resposta que a graça torna possível, e não uma conquista do ser humano.
Obras principais
- Infant Baptism Under Cross-Examination (com Colin Buchanan, 1976)
- Truth to Tell (1977)
- Leadership is Male (1988), com prefácio de Elisabeth Elliot
- The Normal Christian Birth (Hodder & Stoughton, 1989)
- The Road to Hell (1992)
- Fourth Wave (1993), depois Word and Spirit Together
- Understanding Water Baptism (1993)
- Is the Blessing Biblical? (1995)
- When Jesus Returns (Hodder & Stoughton, 1995)
- Once Saved, Always Saved? A Study in Perseverance and Inheritance (Hodder & Stoughton, 1996)
- Jesus Baptises in One Holy Spirit (1997)
- Unlocking the Bible (2003)
- The Challenge of Islam to Christians (Hodder & Stoughton, 2003)
- Not as Bad as the Truth (Hodder & Stoughton, 2006), autobiografia
- Is John 3:16 the Gospel? (Terra Nova, 2007)
- Defending Christian Zionism (2008)
- Israel in the New Testament (2009)
- Come With Me Through Isaiah (Terra Nova, 2010)
Livros em português
- A Chave para Entender a Bíblia: O Antigo Testamento (Anchor Recordings, 2018). Ver na Amazon
- A Chave para Entender a Bíblia: O Novo Testamento (Anchor Recordings, 2018). Ver na Amazon
- Uma Vez Salvo, Salvo para Sempre? (Anchor Recordings, 2021). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- David Pawson Ministry, About David Pawson e a declaração de fé do David Pawson Teaching Trust.
- Rachel Cary, David Pawson at 90, Heart Publications, março de 2020.
- David Parsons, A Tribute to Dr. David Pawson, Embaixada Cristã Internacional em Jerusalém, maio de 2020.
- Evangelicals Now, David Pawson 1930-2020, julho de 2020.
- Guildford Baptist Church, The History of Guildford Baptist Church.
- Tony Lane, resenha de The Normal Christian Birth, Themelios.
- Themelios, resenha de Is the Blessing Biblical? Thinking through the Toronto Phenomenon.
- David Gooding, Review of “Once Saved, Always Saved?” by David Pawson, Myrtlefield House.
- Arminian Theology, trechos de Once Saved, Always Saved?: a versão “alfa” e a versão “ômega”.
- Society of Evangelical Arminians, David Pawson, “Grace: Saving, Sovereign, or Free?” e David Pawson: Audio Series on Romans 9-11.
- Bill Muehlenberg, Vale David Pawson, CultureWatch, maio de 2020.
- Wikipédia, David Pawson.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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