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Charles W. Carter: o missionário de Serra Leoa que organizou o Comentário Bíblico Wesleyano
Neste texto
Em 1923, os metodistas de Brookings, na Dakota do Sul, promoveram uma campanha evangelística para toda a cidade. Entre os convertidos estava um rapaz nascido em Indiana em 1905, Charles Webb Carter. Cinco anos depois ele desembarcava em Serra Leoa como missionário da Igreja Metodista Wesleyana, e ali passaria dezessete anos. Quando voltou aos Estados Unidos, tornou-se professor, organizou o Comentário Bíblico Wesleyano, ajudou a fundar a Sociedade Teológica Wesleyana e foi o primeiro editor da revista dela. Ao morrer, em 1996, tinha escrito ou organizado mais de trinta livros.
Vida
De Indiana a Serra Leoa
Charles Webb Carter nasceu em 14 de maio de 1905, em Southport, no estado de Indiana (Estados Unidos). Depois da conversão em Brookings, estudou na Dakota Wesleyan University e na God’s Bible School, de Cincinnati, uma escola do movimento de santidade, o ramo do metodismo americano que pregava a inteira santificação como segunda obra da graça. De Marion College, a escola da sua denominação em Indiana, recebeu os graus de bacharel em teologia e em artes. Recebeu a ordenação ao ministério da Conferência do Norte de Michigan da Igreja Metodista Wesleyana.
Em 1928 Carter partiu para Serra Leoa, na África Ocidental. A Igreja Metodista Wesleyana tinha aberto ali o seu primeiro campo missionário em 1889, em Kunso, no norte do país, e o preço tinha sido alto: entre 1890 e 1910 a febre hemoglobinúrica matou dez dos seus missionários. Em 1909 o missionário George Clarke já tinha organizado uma conferência africana da igreja. Carter cumpriu três mandatos nesse campo, entre 1928 e 1945, e de 1934 a 1945 ensinou no Clarke Memorial Biblical Seminary, em Serra Leoa.
Dos anos africanos saíram os dois primeiros livros, ambos pela editora da denominação: Transformed Africans (Africanos transformados, 1939) e A Half Century of American Wesleyan Missions in West Africa (Meio século de missões wesleyanas americanas na África Ocidental, 1940), uma história dos primeiros cinquenta anos da missão.
Marion e Upland
Carter fez ainda mestrados na Winona Lake School of Theology e na Butler University, o bacharelado em divindade no Seminário Teológico Asbury, em Wilmore (Kentucky), que depois concedeu a ele o título honorário de doutor em divindade, e um mestrado em teologia no Christian Theological Seminary, de Indianápolis.
De volta aos Estados Unidos, dirigiu de 1946 a 1957 a divisão de religião e filosofia de Marion College. Nesse período entrou na Evangelical Theological Society (Sociedade Teológica Evangélica), em 1950, um ano depois da fundação, e aparece na lista de membros com a área de missões. Em 1959 publicou Road to Revival (Caminho para o avivamento) e, com o nazareno Ralph Earle, um comentário sobre Atos dos Apóstolos para a editora Zondervan.
No outono de 1959 Carter chegou à Universidade Taylor, em Upland (Indiana), uma escola de origem metodista. Ali dirigiu a divisão de filosofia e religião até 1971. Em novembro de 1968 foi o conferencista da série anual da Fundação Relm no Spring Arbor College, em Michigan, com o tema “Tendências contemporâneas na teologia”.
O Comentário Bíblico Wesleyano
O projeto que deu nome a Carter começou em 1959: um comentário de toda a Bíblia escrito na tradição wesleyana. Carter foi presidente da comissão editorial e editor-geral. Ralph Earle cuidou do Novo Testamento e W. Ralph Thompson do Antigo. A editora Eerdmans publicou os sete volumes entre 1964 e 1969, primeiro os três do Novo Testamento. Em 1967 Carter descreveu a obra ao Echo como um comentário “interdenominacional, escrito dentro do quadro de referência teológico metodista”, o primeiro do gênero nos Estados Unidos no século XX. Os colaboradores eram mais de vinte, de nove denominações. Carter escreveu pessoalmente os comentários de Atos, Primeira Coríntios, Efésios, Hebreus e Jó. A Baker e a Hendrickson reeditaram a coleção depois.
A Sociedade Teológica Wesleyana
Em abril de 1965, na reunião da Associação Nacional de Santidade em Detroit, professores do movimento de santidade organizaram a Wesleyan Theological Society (Sociedade Teológica Wesleyana). Carter estava entre os fundadores; entre os primeiros presidentes esteve Richard S. Taylor. Coube a Carter editar o Wesleyan Theological Journal de 1965 a 1972, os anos difíceis de formação da revista. Ele mesmo escreveu para ela artigos sobre a moral bíblica (1967), o dom de línguas em Atos (1969), o Espírito Santo na história da redenção (1970), a imortalidade cristã (1971) e a cultura na educação teológica (1979). Na quarta reunião anual, em novembro de 1968, no Olivet Nazarene College, apresentou um trabalho sobre os dons do Espírito. Entre os sucessores dele na revista esteve W. T. Purkiser.
Os últimos anos
Em 1971 Carter deixou Taylor e voltou para Marion, onde foi professor residente (scholar-in-residence) de Marion College, hoje Indiana Wesleyan University, até 1990. Em 1974 a Baker publicou The Person and Ministry of the Holy Spirit: A Wesleyan Perspective (A pessoa e o ministério do Espírito Santo: uma perspectiva wesleyana), com 355 páginas e o endosso oficial da Associação Cristã de Santidade. Em 1983 saiu, pela Francis Asbury Press, selo da Zondervan, A Contemporary Wesleyan Theology (Uma teologia wesleyana contemporânea), dois volumes e 1.178 páginas, com R. Duane Thompson e Charles R. Wilson como editores associados. Carter escreveu três dos vinte e quatro capítulos e foi coautor de um quarto. Ao resenhar a obra em 1985, Daniel N. Berg elogiou a organização, mas lamentou que a identidade wesleyana ficasse definida quase só pela perfeição cristã, sem o mesmo cuidado com a justificação, a graça preveniente, a certeza da fé e os meios de graça. Vieram depois From Revival to Evangelism (1986), Life’s Lordship over Death (1988), The Biblical Ethic of Love (1990) e As They Prayed (1991).
Charles W. Carter morreu em Marion, em 21 de outubro de 1996, aos 91 anos. No ano seguinte o Wesleyan Theological Journal homenageou juntos Carter e William Arnett, professor de doutrina em Asbury, como dois servidores com quem a sociedade tinha uma dívida especial.
Pensamento
Um wesleyano do movimento de santidade
Carter pertence à classe wesleyana dos teólogos arminianos. Foi ministro da Igreja Metodista Wesleyana, que em 1968 se uniu à Igreja Peregrina de Santidade para formar a Igreja Wesleyana. Ele mesmo chamou os avivamentos de Wesley na Inglaterra e os do movimento de santidade nos Estados Unidos de avivamentos “wesleyano-arminianos” (Wesleyan Theological Journal, 1970), e apresentou o seu comentário bíblico como obra metodista na teologia. É a tradição arminiana de Armínio e John Wesley, lida pelo movimento de santidade.
Soberania, liberdade e depravação
No artigo “A moral bíblica e a sua validade permanente” (1967), Carter parte de quatro pressupostos: Deus existe, é um ser moral, revelou o seu caráter e a sua vontade, e criou o ser humano capaz de receber essa revelação. A soberania de Deus, diz ele, é tão absoluta que Deus “pode se permitir conceder um alto grau de liberdade” às criaturas, ao contrário de um ditador que não tolera liberdade nenhuma. É a resposta arminiana clássica: dar liberdade real é exercício da soberania, e não limite a ela.
Sobre a queda, Carter distingue duas maneiras de entender a depravação total. A depravação “intensiva” faria do ser humano alguém tão corrompido que deixaria de ser pessoa; a depravação “extensiva” quer dizer que o pecado atingiu todas as partes do ser humano, sem anular a sua condição de pessoa. Carter fica com a segunda. Se o pecador deixasse de ser pessoa, argumenta, ficaria tão incapaz de culpa quanto um animal, e por isso critica o primeiro Karl Barth, que falava em depravação intensiva e ao mesmo tempo chamava o homem de culpado. O homem caído perdeu a relação com Deus e a referência moral, mas continua sendo alguém a quem Deus fala. Carter chega a dizer que o ser humano não tem uma consciência: ele “é uma consciência”, isto é, mente, vontade e emoções julgando em matéria moral.
Para Carter, a vida moral do crente depende inteiramente do Espírito. A lei de Moisés deu ao homem caído uma norma objetiva, e o grande mandamento do amor escreve essa norma por dentro. O amor do mandamento (ágape) é o amor divino que o Espírito, morando no crente, gera no coração; é o Espírito que vivifica o que restou da natureza moral do homem e leva o crente a agir segundo o caráter de Cristo. Aqui há uma diferença de vocabulário com a declaração de fé deste site. Para os que ainda não creem, Carter fala dos “restos” da constituição moral do homem caído, que respondem à revelação de Deus na criação e na lei. Wesley preferia dizer que essa consciência que sobra no pecador não é natural: é graça preveniente, a graça de Deus que vem antes de qualquer resposta humana e alcança todas as pessoas. Os dois concordam que ninguém se volta para Deus sem a ação do Espírito.
Na ética, Carter recusava o absolutismo, que leva ao legalismo, e o relativismo, que leva à libertinagem: os princípios são absolutos porque revelam o caráter de Deus, e a aplicação deles varia com a situação. O tema voltou em The Biblical Ethic of Love (1990).
Pentecostes e santificação
O Espírito Santo foi o assunto a que Carter mais voltou. No artigo de 1970 ele segue a obra do Espírito da criação até a missão da igreja e faz do Pentecostes o ponto em que a redenção se cumpre. “Sem o derramamento do Espírito no Pentecostes”, escreve, o homem teria recebido “um sistema de justificação legal sem a possibilidade de aplicação vital”. Na cruz, Cristo proveu vida nova; no Pentecostes, o Espírito comunicou essa vida à igreja. Com Atos 1:8 e Atos 15:8-9, Carter ensina que o Espírito passou a habitar nos discípulos como presença santificadora: eles foram purificados pela presença santa dele e capacitados pelo seu poder para a missão. Os wesleyanos do movimento de santidade, a cuja igreja Carter pertencia, viam nessa purificação dos discípulos o modelo da inteira santificação: uma obra da graça posterior à regeneração, recebida pela fé, que purifica o coração e o enche de amor. A declaração de fé deste site afirma a mesma doutrina.
O mesmo artigo traz a imagem que resume a leitura missionária de Carter: na torre de Babel as línguas dispersaram as nações; em Jerusalém, quinze povos ouviram o evangelho cada um na sua língua. “Babel dividiu a raça humana, mas o Pentecostes a reuniu espiritualmente.”
O dom de línguas
No artigo sobre o dom de línguas em Atos (1969), ele argumenta que a palavra grega glossai significa idiomas. A expressão “língua desconhecida” da versão inglesa King James é acréscimo dos tradutores, impresso em itálico, e não existe no original. Em Atos 2 o milagre foi de fala, e não de audição: os discípulos falaram idiomas reais, e cerca de três mil ouvintes se converteram. Para Carter, um milagre se prova pelo seu fruto moral, e o de Pentecostes se provou pela evangelização. Como Lucas foi companheiro de Paulo, o relato de Atos 2 deve guiar a leitura de 1 Coríntios 14, e não o contrário.
Carter via no impulso pentecostal das línguas das décadas recentes, que descrevia como não wesleyano e em boa parte pró-calvinista, “uma distorção notável” da ênfase bíblica no Espírito. Em artigo publicado em 1975, o estudioso David Bundy, ao comentar a obra de Carter sobre o Espírito, observou que essa polêmica deixava de lado as ligações históricas do pentecostalismo com o movimento de santidade. Pentecostais arminianos, como Myer Pearlman e Stanley Horton, leem as línguas de Atos de outro modo; é uma das diferenças entre metodistas e pentecostais.
Imortalidade e cultura
No artigo sobre a imortalidade cristã (1971), Carter defende o traducianismo de Agostinho: a alma é transmitida pelos pais junto com o corpo, e não criada diretamente por Deus a cada concepção. Distingue a imortalidade cristã da preexistência e da transmigração das almas, da imortalidade condicional e do aniquilacionismo, a ideia de que os ímpios deixam de existir. A pessoa humana, criada e dependente de Deus, existe para sempre. A declaração de fé do site também afirma o castigo eterno dos ímpios e a vida eterna dos justos.
O último artigo de Carter na revista (1979) trata da cultura na educação teológica. A revelação de Deus é infalível; a teologia é formulação humana, falível, feita no molde de uma cultura e sujeita a revisão. A língua materna guarda a alma de um povo, e nenhuma outra língua toma o lugar dela. Por isso a educação teológica precisa ser “histórica, atual e futurística”: firmar-se no presente, segurar com uma mão o passado e com a outra o futuro, e ser batizada pelo Espírito para servir a Cristo. Carter escrevia isso depois de onze anos ensinando num seminário africano.
Obras principais
- Transformed Africans (1939)
- A Half Century of American Wesleyan Missions in West Africa (1940)
- Road to Revival (1959)
- The Acts of the Apostles (1959, com Ralph Earle)
- The Wesleyan Bible Commentary, 7 volumes (1964-1969, editor-geral)
- The Person and Ministry of the Holy Spirit: A Wesleyan Perspective (1974)
- A Contemporary Wesleyan Theology: Biblical, Systematic, and Practical, 2 volumes (1983, editor)
- From Revival to Evangelism (1986)
- Life’s Lordship over Death (1988)
- The Biblical Ethic of Love (1990)
- As They Prayed (1991)
Para aprofundar
- Charles W. Carter, “The Biblical Morality, Its Continuing Validity”, Wesleyan Theological Journal 2 (1967).
- Charles W. Carter, “A Wesleyan View of the Spirit’s Gift of Tongues in the Book of Acts”, Wesleyan Theological Journal 4 (1969).
- Charles W. Carter, “The Holy Spirit in the History of Redemption”, Wesleyan Theological Journal 5 (1970).
- Charles W. Carter, “A Wesleyan View of Christian Immortality”, Wesleyan Theological Journal 6 (1971).
- Charles W. Carter, “Culture and Theological Education”, Wesleyan Theological Journal 14.2 (1979).
- “In Honor of William Arnett and Charles Carter”, Wesleyan Theological Journal 32.2 (1997), p. 218.
- Daniel N. Berg, resenha de A Contemporary Wesleyan Theology, Wesleyan Theological Journal 20.2 (1985).
- William Kostlevy, Gari-Anne Patzwald e Wallace Thornton Jr., verbete “Carter, Charles Webb”, em Historical Dictionary of the Holiness Movement, 3ª ed. (Rowman & Littlefield, 2024).
- David D. Bundy, “Wesleyan Perspectives on the Holy Spirit”, The Asbury Seminarian 30.1 (1975).
- “Professors Carter, Wilson Contribute to Commentary”, The Echo, Universidade Taylor, 8 dez. 1967.
- “Carter To Serve As Lecturer” e “TU Philosophers to Attend Annual Meet”, The Echo, Universidade Taylor, 1º nov. 1968.
- Lista de membros, Bulletin of the Evangelical Theological Society 2.1 (1959).
- Wesleyan Theological Society, Past Leaders, lista de presidentes e editores.
- The Wesleyan Church, “Celebrating the Missionary Spirit: George and Mary Clarke”, sobre a missão em Serra Leoa.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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