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Harry Hosier: o pregador que não sabia ler e enchia as capelas do metodismo americano
No domingo 13 de maio de 1781, numa capela do condado de Fairfax, na Virgínia, Francis Asbury pregou e, depois dele, um homem negro que não sabia ler uma letra falou sobre a figueira que não dava fruto. Asbury anotou no diário que a cena “era nova” e que os brancos “olhavam com atenção”. Vinte e cinco anos depois, em Filadélfia, uma multidão de brancos e negros acompanhou o enterro desse homem, e um pregador negro o chamou de “a maravilha africana”. O nome dele era Harry Hosier, e quase todos o conheciam como Black Harry.
Vida
Escravidão e liberdade
Hosier nasceu escravizado por volta de 1750. A tradição metodista situa o nascimento perto de Fayetteville, na Carolina do Norte. Ganhou a liberdade nos anos da Revolução Americana e se ligou aos metodistas de Maryland e da península de Delmarva, entre a baía de Chesapeake e o Atlântico, onde o movimento de John Wesley crescia mais depressa. Um cronista de Nova Jersey resumiu a trajetória: tinha sido escravo no Sul, foi alforriado, convertido e tornou-se pregador, “o que naquele tempo se considerava algo extraordinário”. O sobrenome aparece de muitas formas nos papéis da época (Hosier, Hoshur, Hosure, Hoosier), porque ele mesmo não podia escrevê-lo.
Quem o conheceu o descreveu como um homem magro e forte, “muito negro, de olhos vivos e grande facilidade de palavra”. Não sabia ler, mas guardava de memória longos trechos da Bíblia e os hinos que ouvia, e os repetia como se os lesse.
O companheiro de Asbury
O primeiro registro seguro está no diário de Francis Asbury. Em 29 de junho de 1780, na Carolina do Norte, perto da divisa com a Virgínia, Asbury escreveu que, se tivesse dois cavalos e “Harry (um homem de cor)” para conduzir um deles e encontrar-se com os negros, passaria seis meses na Virgínia e nas Carolinas, e isso “seria acompanhado de bênção”. O plano juntava as duas funções que Hosier teria por muitos anos: cocheiro e criado do pregador, e pregador que os escravizados vinham ouvir.
Em maio de 1781 o plano estava em andamento. Oito dias depois do sermão de Fairfax, numa casa da Virgínia, Asbury pregou sobre a pureza de coração e Hosier falou aos negros, “alguns dos quais vieram de muito longe para ouvi-lo”. Asbury acrescentou que “certos sectários” estavam descontentes com ele, “porque lhes diz que podem cair da graça e que precisam ser santos”.
A fama logo preocupou o próprio Asbury. Em 27 de outubro de 1781, na Pensilvânia, ele notou que Harry não queria acompanhá-lo ao Sul e temeu que pregar tanto aos brancos de Filadélfia lhe fizesse mal: “foi lisonjeado e pode arruinar-se”. Mesmo assim viajaram juntos por anos, e Asbury dizia que o jeito de garantir uma congregação grande era anunciar que Harry pregaria. Em Wilmington, no Delaware, gente que não frequentava os metodistas foi ouvir o bispo, não coube na capela e escutou do lado de fora. Na saída elogiaram o pregador, e alguém explicou que quem falara era o criado do bispo. A conclusão dos visitantes foi: “se o criado é assim, como será o patrão?”.
O guia de Coke e a Conferência de Natal
Em novembro de 1784 Thomas Coke chegou ao Delaware com a autorização de Wesley para organizar os metodistas americanos como igreja. Antes da conferência, Asbury traçou para ele um roteiro de oitocentas a mil milhas pela península e lhe deu um cavalo e um guia. Coke escreveu: “Ele me deu o seu negro (Harry é o nome dele)”. Em 29 de novembro, na casa de John Purnell, em Maryland, o doutor de Oxford registrou:
“Às vezes aviso, logo depois de pregar, que em pouco tempo Harry vai pregar aos negros; mas os brancos sempre ficam para ouvi-lo. […] Creio de verdade que ele é um dos melhores pregadores do mundo; há um poder admirável na sua pregação, embora ele não saiba ler; e é uma das criaturas mais humildes que já vi.” (Coke, Extracts of the Journals, 1793)
Dias depois, numa travessia de balsa com vento forte, Harry convenceu Coke a voltar e deixar os cavalos para o dia seguinte, e Coke achou que tinham escapado de morrer afogados. Na Conferência de Natal, aberta em Baltimore em 24 de dezembro de 1784, nasceu a Igreja Metodista Episcopal. A memória metodista conta Hosier e Richard Allen como os dois pregadores negros presentes, sem direito a voto.
Nova York e Nova Inglaterra
Em setembro de 1786 Hosier acompanhou Asbury a Nova York e pregou na capela da John Street. O New York Packet de 11 de setembro falou de “um negro muito singular” que, “ignorante das letras”, pregava “com grande zelo e emoção”. Foi a primeira notícia da pregação metodista na imprensa da cidade. Entre 1786 e 1788 ele viajou também com Richard Whatcoat, futuro bispo, pelos circuitos do Delaware e do leste de Maryland.
A viagem mais documentada é a de 1790, com Freeborn Garrettson, pela Nova Inglaterra, onde o metodismo mal tinha chegado. A cada parada Garrettson anota que Harry “exortou depois de mim”, isto é, falou depois do sermão para chamar os ouvintes à decisão. Num circuito de Nova York, “o povo é muito afeiçoado a ouvir Harry”. Em Providence, no domingo 11 de julho, Harry pregou “para mais de mil pessoas”; em Salisbury, no Connecticut, todos choravam “especialmente quando Harry exortou”. Em Hudson, Garrettson deixou de pregar para satisfazer a curiosidade do povo, e escreveu que os quacres achavam que, sendo iletrado, Harry falava “por inspiração imediata”.
Em 1791 uma mulher, Sally Lyon, apresentou uma queixa contra ele. Em 15 de outubro, em North Castle, Nova York, uma comissão de nove membros ouviu as testemunhas das duas partes e o declarou “não culpado”.
Os últimos anos
Em maio de 1803, na Conferência de Filadélfia, reunida em Duck Creek, no Delaware, o jovem pregador Henry Boehm ouviu Black Harry pregar sobre Eclesiastes 12:5, “o homem vai à sua casa eterna”, e escreveu que os pregadores o escutaram “com grande admiração”. Boehm deixou o retrato mais conhecido dele: voz musical, citações exatas, e “muitos preferiam ouvi-lo a ouvir os bispos”.
No mesmo ano Hosier, já grisalho, foi mandado ao circuito de Trenton, em Nova Jersey, com o pregador John Walker. Em Hackettstown, uma senhora da casa onde se hospedavam declarou que “não ouviria o negro”. Hosier foi orar num canto do jardim até a hora do culto. Depois do sermão de Walker, falou do pecado como uma doença que atingia todos os presentes: o Senhor tinha mandado o remédio pelas mãos de um médico, mas o médico era negro, e alguns talvez recusassem a única cura por causa das mãos que a traziam. A senhora se converteu naquela noite, com outros.
O diário de William Colbert mostra Hosier ativo até 1805, num acampamento em Maryland, em Centerville, na Pensilvânia, e na igreja de St. George, em Filadélfia. Depois de ouvi-lo sobre Apocalipse 3:20, Colbert escreveu que aquele “não é um pregador feito por homens”. Em maio de 1805 os membros oficiais de St. George pediram à conferência reunida em Chestertown que desse a Hosier uma função, se pudessem fazê-lo “sem estabelecer um mau precedente”. Asbury tinha ordenado Richard Allen diácono em 1799, mas Hosier nunca foi ordenado.
Os cronistas do metodismo contam ainda uma queda. Depois de anos de fama, Hosier se entregou à bebida e chegou a viver como catador de trapos nas ruas de Filadélfia. Boehm atribuiu a queda ao excesso de elogios e escreveu que ele “naufragou na fé”. Uma noite Hosier desceu para o campo ao sul da cidade, decidido a ficar ali até que Deus curasse os seus desvios, e lutou em oração debaixo de uma árvore até sentir de novo a alegria da salvação. Daí em diante continuou fiel.
Em 30 de abril de 1806 Colbert o visitou e o encontrou “feliz no Senhor”, a poucos dias da eternidade. No domingo 18 de maio o pregador negro Christopher Atkinson fez o sermão fúnebre sobre 2 Timóteo 4:7-8, “combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”. Hosier foi enterrado num cemitério livre de Kensington, em Filadélfia.
Pensamento
Harry Hosier é um wesleyano: pregou por um quarto de século na itinerância da Igreja Metodista Episcopal, ao lado de Asbury, Coke, Whatcoat e Garrettson, e o que ficou registrado da sua pregação traz os temas que distinguiam os metodistas dos seus vizinhos calvinistas e batistas. Ele não deixou nada escrito; o pensamento dele chega até nós pelos textos que escolheu e pelo que as testemunhas anotaram.
A graça pode ser abandonada. Na Virgínia daqueles anos, o grande debate entre metodistas e batistas girava em torno da fórmula “uma vez na graça, sempre na graça”. Hosier dizia aos convertidos que eles “podem cair da graça”, isto é, ensinava a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e pode, abandonando a fé, perder o que recebeu (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14). A doutrina não ensina que cada pecado anula a salvação; ela leva a sério as advertências da Escritura contra a apostasia, e foi um dos pontos que separaram batistas e metodistas desde o começo. A vida dele acabou mostrando também o outro lado: quem se afasta pode voltar, e a volta de Hosier aconteceu como os metodistas pregavam, pela oração e pela graça que restaura.
É preciso ser santo. A segunda metade da frase de Asbury é a marca de Wesley: a salvação não para no perdão, mas transforma o coração e a vida. Em 1790, num circuito de Nova York, Garrettson pregou sobre 1 João 3:9, “todo aquele que é nascido de Deus não comete pecado”, e Hosier exortou em seguida. Para os dois, a santidade era obra da graça recebida pela fé, e não conquista do esforço humano; o alvo era um coração cheio de amor a Deus e ao próximo, o que Wesley chamava de perfeição cristã ou inteira santificação.
Tudo pela fé. Perguntado de onde vinham a voz, a linguagem e a liberdade com que pregava, Hosier respondeu: “Canto pela fé, oro pela fé, prego pela fé e faço tudo pela fé; sem fé no Senhor Jesus nada posso fazer” (registrado por George Raybold, Reminiscences of Methodism in West Jersey, 1849). A frase ecoa João 15:5 e diz em linguagem simples o que o artigo VIII dos Artigos de Religião, adotados na Conferência de Natal, afirma: sem a graça de Deus por Cristo, que vem antes e trabalha conosco, não temos poder para fazer o bem. O dom de pregar, para ele, era recebido, não produzido.
O pecado como doença. O sermão de Hackettstown usa uma imagem cara a Wesley, que no sermão O pecado original descreve a religião como o método de Deus para curar uma alma doente. Hosier tirou dela uma aplicação que nenhum pregador branco podia fazer: o remédio é o mesmo para todos, e recusá-lo por causa da cor de quem o traz é recusar a cura.
Cristo bate à porta. O sermão sobre Apocalipse 3:20, “eis que estou à porta e bato”, trata do texto que a tradição arminiana lê como imagem da graça que vem antes e convida sem forçar. Armínio chamava a graça preveniente de graça “que bate à porta”. A pessoa ouve porque Cristo bateu primeiro, e ainda assim pode deixar a porta fechada.
A vida de Hosier mostra também os limites do metodismo do seu tempo. A igreja que o mandava pregar a brancos e negros o mantinha como criado de bispo, sem voto e sem ordenação. Richard Allen recusou condições parecidas e acabou fundando uma igreja própria; Hosier aceitou esse lugar e pregou nele. A mensagem que anunciou, de uma graça oferecida a todos e de um coração lavado sem distinção de cor, ia além da prática da igreja que o enviava.
O nome dele sobreviveu ainda numa hipótese. Em 1995 o historiador William Piersen propôs que o apelido Hoosier, dado aos moradores de Indiana, viria das congregações de “Black Harry Hoosier”. A hipótese tem defensores e críticos e continua sem prova.
Obras principais
Hosier não deixou escritos. O que ficou da sua obra são sermões registrados por quem o ouviu:
- Sermão sobre a figueira estéril, Fairfax, Virgínia, 13 de maio de 1781 (diário de Asbury).
- Pregação aos negros sobre a queda da graça e a santidade, Virgínia, 21 de maio de 1781 (diário de Asbury).
- Sermões e exortações com Thomas Coke em Delmarva, 1784, e com Freeborn Garrettson na Nova Inglaterra, 1790.
- Sermão sobre Eclesiastes 12:5, Duck Creek, Delaware, maio de 1803 (Henry Boehm).
- Exortação sobre o pecado como doença, Hackettstown, Nova Jersey, 1803 (George Raybold).
- Sermões sobre Mateus 6:10 (1804), Apocalipse 3:20 e Isaías 3:10 (1805), no diário de William Colbert.
Para aprofundar
- Francis Asbury, Journal of Rev. Francis Asbury, v. 1 (Nova York, Lane & Scott, 1852), entradas de 29/6/1780, 13 e 21/5/1781 e 27/10/1781, no Internet Archive.
- Thomas Coke, Extracts of the Journals of the Rev. Dr. Coke’s Five Visits to America (Londres, 1793), no Internet Archive.
- John Lednum, A History of the Rise of Methodism in America (Filadélfia, 1859), p. 281-283 e 410-411, no Internet Archive.
- Henry Boehm, Reminiscences, Historical and Biographical, of Sixty-Four Years in the Ministry (Nova York, Carlton & Porter, 1865), p. 89-92, no Internet Archive.
- George A. Raybold, Reminiscences of Methodism in West Jersey (Nova York, Lane & Scott, 1849), p. 165-168, no Internet Archive.
- Warren Thomas Smith, “Harry Hosier: Black Preacher Extraordinary”, The Journal of the Interdenominational Theological Center 7, n. 2 (1980), com os diários de Garrettson e Colbert e os documentos de 1791 e 1805.
- Warren Thomas Smith, Harry Hosier, Circuit Rider (1981).
- “Preachers, fighters, and crusaders”, Christian History 114 (2015).
- John G. McEllhenney e Forrest C. Stith, “Harry Hosier”, General Commission on Archives and History da Igreja Metodista Unida.
- William D. Piersen, “The Origin of the Word ‘Hoosier’: A New Interpretation”, Indiana Magazine of History.
- “Harry Hosier”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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