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Matthew Simpson: o bispo metodista que se despediu de Lincoln

Diego Gonçalves13 min de leitura2.523 palavras

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Neste texto

Em 4 de maio de 1865, num bosque perto de Springfield, no Illinois, diante do túmulo que acabava de receber o corpo de Abraham Lincoln, um bispo metodista alto e magro, de ombros curvados, fez o último discurso do longo funeral do presidente. Terminou com esta despedida: “Herói, Mártir, Amigo, adeus!” Matthew Simpson tinha cinquenta e três anos. Trinta e seis anos antes, numa reunião campal em Ohio, tinha ido à frente sem sentir nada de especial, só com a decisão de servir a Cristo.

Retrato de Matthew Simpson
Retrato do bispo Matthew Simpson, fotografia do estúdio de Mathew Brady, entre 1855 e 1865. Library of Congress, coleção Brady-Handy. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Cadiz: o tio, a mãe e as línguas

Matthew Simpson nasceu em 21 de junho de 1811, em Cadiz, no condado de Harrison, em Ohio. O pai, James, morreu em 1812. A mãe, Sarah Tingley, criou os filhos numa casa que servia de pouso para os pregadores itinerantes, e os pais tinham pedido a Deus que o menino fosse ministro do evangelho. Henry Boehm, companheiro de viagem de Francis Asbury, lembrava que o bispo passou por ali em 1811 e batizou o bebê.

A formação veio do tio paterno, também chamado Matthew Simpson, que tinha sido juiz e senador estadual e mantinha uma escola em Cadiz. O sobrinho estudou latim e grego com tanto afinco que adoeceu, e aprendeu alemão sozinho, comparando a Bíblia em inglês com a alemã. Aos dezessete anos andou cerca de 145 quilômetros até Uniontown, na Pensilvânia, com onze dólares e vinte e cinco centavos, para estudar no Madison College. O dinheiro não deu, e dois meses depois ele voltou para casa.

Uma conversão sem relâmpagos

Em 1829, numa reunião campal perto de Cadiz, Simpson viu rapazes da cidade, alguns bem desregrados, irem à frente para pedir oração, e se perguntou por que ele, criado num lar cristão, não sentia o que eles sentiam. Viu perto da grade um conhecido, também não convertido, pôs a mão no ombro dele e perguntou se não queria ir. O rapaz disse que iria se Simpson fosse junto, e os dois se ajoelharam. O amigo se converteu logo. Simpson contou depois que estava sincero e queria “ser um servo de Cristo”, mas não sentiu nenhum fervor especial. Voltou para casa decidido e, quatro semanas depois, deu o nome para ser membro da igreja.

Estudou medicina e, em abril de 1833, passou no exame da junta médica de Ohio. No mesmo ano foi licenciado como pregador, depois de recusar um “sermão de prova”: tinha prometido a Deus apenas obedecer se a igreja o licenciasse. Deixou de lado o cargo de escrivão do tribunal e uma sociedade num consultório, e em março de 1834 pegou o cavalo e os alforjes e começou a percorrer o circuito de St. Clairsville, com trinta e quatro pontos de pregação numa volta de seis semanas.

Pittsburgh e Allegheny

Ainda em 1834 foi nomeado para Pittsburgh. Em 3 de novembro de 1835 casou-se com Ellen Holmes Verner, filha de um metodista rico da cidade, e assumiu a igreja da rua Liberty. Pregava de improviso. Anos depois contou que os únicos sermões que tinha lido eram os de John Wesley e que o objetivo era “persuadir os homens a se reconciliarem com Deus”, levar pecadores à conversão e crentes a avançarem “em santidade”. O diário registra visitas de casa em casa e o estudo do Novo Testamento grego e dos Institutos teológicos de Richard Watson, o sistematizador do arminianismo wesleyano.

Depois de Williamsport, na Pensilvânia, foi chamado em 1837 para ensinar ciências naturais no Allegheny College, em Meadville, onde também foi vice-presidente. Foi ordenado presbítero e nunca mais pastoreou uma igreja local.

Presidente em Greencastle

Em 7 de fevereiro de 1839 os curadores da Indiana Asbury University, a atual DePauw University, em Greencastle, elegeram Simpson o primeiro presidente. No início ensinou todas as matérias, menos grego e latim. Foi empossado em setembro de 1840. No discurso de posse prometeu que nenhum aluno seria pressionado a mudar de igreja, mas que os professores seriam cristãos de convicções firmes. Percorria o estado a cavalo, pregando e buscando alunos, e foi em Indiana que ganhou fama de orador.

Como delegado à Conferência Geral de 1844, acompanhou o caso do bispo James O. Andrew, da Geórgia, dono de escravos. A conferência pediu que ele deixasse o episcopado enquanto não pudesse libertá-los, e os metodistas do Sul se separaram para formar a Igreja Metodista Episcopal do Sul. Simpson, contrário à escravidão e temeroso da divisão, pôs a culpa da ruptura no Sul.

Editor e bispo

Com a saúde abalada, deixou Greencastle em 1848 para editar o Western Christian Advocate, em Cincinnati. Queria evitar polêmicas, mas o presbiteriano Nathan L. Rice atacava a doutrina metodista. Simpson abriu o jornal às cartas de Randolph S. Foster contra o calvinismo e escreveu a introdução do livro que elas formaram, Objections to Calvinism as It Is (1849). Também atacou a Lei do Escravo Fugitivo de 1850.

Em maio de 1852 a Conferência Geral o elegeu bispo da Igreja Metodista Episcopal. Ele fez questão de registrar que nunca pedira um voto. O episcopado metodista era itinerante, e a vida dele virou viagem: Califórnia e Oregon pelo istmo do Panamá em 1853; o Texas em 1855, parte do caminho com Anthony Bewley, pregador que uma turba enforcaria em 1860. Supervisionou a abertura da missão na Índia e redigiu a nomeação de William Butler, que fundou a obra metodista no país. Em 1857 foi delegado às conferências metodistas da Irlanda e da Grã-Bretanha e à Aliança Evangélica em Berlim, onde pregou sobre a unidade cristã. Em 1859 mudou-se para Evanston, perto do Instituto Bíblico Garrett.

A guerra e Lincoln

Simpson e Lincoln moravam no Illinois e conversaram em Springfield no inverno de 1860 para 1861. Durante a guerra o bispo era chamado com frequência a Washington e virou uma espécie de evangelista do patriotismo. Percorria as cidades do Norte com um discurso sobre o estado do país, que nunca escreveu, e terminava erguendo uma bandeira rasgada de bala. Em 3 de novembro de 1864, dias antes da reeleição de Lincoln, a Academia de Música de Nova York lotou para ouvi-lo. Nesse ano ele se mudou para Filadélfia, mais perto de Washington, e usou a influência para conseguir cargos para metodistas. Quando Lincoln foi assassinado, o bispo foi chamado para consolar a família, fez a oração final no funeral da Casa Branca e, em Springfield, o discurso à beira do túmulo.

Os leigos, Yale e Londres

Os bispos costumavam não tomar partido em público, mas Simpson rompeu o costume para defender que os leigos tivessem representação na Conferência Geral, até então formada só por pastores. Para ele, o metodismo tinha nascido de leigos que lideravam classes e pregavam. A Conferência Geral de 1868 aprovou a mudança, e os primeiros delegados leigos tomaram assento em 1872. Entre 1878 e 1879 deu as Lyman Beecher Lectures sobre pregação, na Universidade Yale. Em 1880, a caminho do Japão e da China, adoeceu em São Francisco e nunca se recuperou de todo. Mesmo assim pregou em setembro de 1881 o sermão de abertura da primeira Conferência Ecumênica Metodista, em Londres, numa capela projetada por Wesley.

O fim

Em maio de 1884 abriu a Conferência Geral em Filadélfia, mas só conseguiu presidir uma sessão. No domingo, 15 de junho, a esposa recitou o hino de Charles Wesley “Jesus, amante da minha alma”; no último verso, que pede a Deus que receba a alma, ele respondeu: “Meu Salvador! Meu Salvador!” Foram as últimas palavras. Morreu em Filadélfia em 18 de junho de 1884, três dias antes de completar setenta e três anos.

Pensamento

Um arminiano evangélico

Simpson foi um wesleyano, isto é, um arminiano da tradição de Wesley e do metodismo, e ele mesmo deu o nome. Em A Hundred Years of Methodism (1876) chamou o credo metodista de “arminiano evangélico” e o resumiu assim: o coração humano é corrompido por natureza; Cristo fez um sacrifício suficiente “pelos pecados do mundo inteiro”; a salvação é oferecida a cada pessoa sob a condição do arrependimento e da fé; a justificação é somente pela fé, e as boas obras brotam de uma fé viva; todo crente pode ter o testemunho do Espírito de que é filho de Deus e deve buscar a santidade. Depois marcou as fronteiras. O metodismo se afasta dos calvinistas porque rejeita a eleição e a reprovação incondicionais e a impossibilidade de cair da graça. Afasta-se dos pelagianos porque afirma a corrupção natural do coração e a incapacidade humana, sem a graça divina, de passar do pecado à santidade. E ensina que “uma medida suficiente” dessa graça é dada a todos (p. 210-211).

Esse é o arminianismo clássico na forma wesleyana: a iniciativa é de Deus, a graça vem antes, alcança todos e pode ser recusada, e a fé recebe a salvação sem merecê-la. É a graça preveniente, tema do nosso estudo sobre a graça preveniente em Armínio.

Contra o “decreto horrível”

O texto mais polêmico de Simpson é a introdução às cartas de Foster. Ali contou a história como os metodistas a contavam: o Sínodo de Dort condenou os remonstrantes como hereges, baniu e prendeu pastores (ver a biografia de Simão Episcópio e os cinco artigos da Remonstrância); na Inglaterra, Wesley resistiu à pressão calvinista e John Fletcher o defendeu com os Checks to Antinomianism. Simpson recomendou o livro a quem estivesse “perplexo com a predestinação” e previu que muitos leitores acabariam concordando com o próprio Calvino em chamar o decreto da predestinação de “decreto horrível”. O tom tinha a dureza da época. O presbiteriano William Annan respondeu com cartas dirigidas ao bispo, The Difficulties of Arminian Methodism, que acusavam Simpson e Foster de caricaturar o calvinismo.

Em Yale, trinta anos depois, o assunto voltou com humor. Contando como se sentiu chamado ao ministério, Simpson disse aos estudantes que acreditava na eleição divina dos ministros: “Até aí, podem me contar como calvinista” (Lectures on Preaching, 1879, p. 64).

A graça que chega a todo coração

Nas Lectures on Preaching, a pregação é o meio principal que Deus escolheu para salvar os que creem, e o pregador existe para persuadir, mais do que para informar. O motivo é teológico. Ao falar do pastor que procura os indiferentes, escreveu: “Há uma graça que ilumina todo homem que vem ao mundo, e uma medida do Espírito é dada para conduzir cada um ao Salvador”. Por isso o pastor fiel acha um caminho até o coração mais fechado e coopera “com esses movimentos do Espírito” (p. 247). É a graça preveniente aplicada ao trabalho pastoral: se o Espírito já age em todos, não existe ouvinte perdido de antemão.

A outra ideia central é o poder do Espírito. Simpson descreve o ministro como um condutor por onde passa o poder de Deus e lamenta “algum ponto fraco no condutor” que limita a corrente. Esse revestimento do Espírito, esse “santo batismo”, ficou com a igreja em todas as épocas, mas o pregador precisa sentir a falta dele, orar e esperar (p. 224-225).

Santidade, igreja e povo

A santidade aparece em Simpson mais como alvo do ministério do que como doutrina discutida. Ele dizia que o metodismo dá mais ênfase que a Igreja da Inglaterra “à obra do Espírito na purificação consciente do coração”, e que cada membro deve buscar uma experiência cristã clara e depois trabalhar pela salvação dos outros. No sermão de abertura da Conferência Ecumênica de 1881 disse que “em todo o mundo a teologia metodista é uma só”, graças aos textos de Wesley e aos hinos, e que os perigos do metodismo estariam na dúvida sobre a Palavra de Deus, numa experiência cristã rasa e no descaso com as almas ao redor (Sermons, 1885).

Simpson concorda com a nossa declaração de fé no essencial da salvação: pecado original, incapacidade humana, expiação por todos, graça preveniente resistível, justificação pela fé, testemunho do Espírito e santidade. As diferenças estão em outros pontos. Como a sua igreja, ele batizava crianças, que a nossa declaração põe depois da conversão. E o otimismo com a nação o levou longe demais. Previu que os Estados Unidos seriam um grande império civilizador com o metodismo como religião principal, e em Springfield, ao lado do apelo para “erradicar todo vestígio da escravidão humana”, pediu punição rápida e até a morte para os líderes da rebelião. Os historiadores veem ali uma mistura de fé cristã e causa nacional. A nossa declaração, amilenista, não espera de nenhuma nação a paz que só a volta de Cristo trará.

Obras principais

  • Introdução a Randolph S. Foster, Objections to Calvinism as It Is (Cincinnati: Hitchcock and Walden, 1849).
  • Funeral Address Delivered at the Burial of President Lincoln, at Springfield, Illinois, May 4, 1865 (Nova York: Carlton & Porter, 1865).
  • A Hundred Years of Methodism (Nova York: Phillips & Hunt, 1876).
  • Cyclopaedia of Methodism, organizada por ele (Filadélfia, 1878; edição revista em 1880).
  • Lectures on Preaching, Delivered before the Theological Department of Yale College (Nova York: Phillips & Hunt, 1879).
  • Sermons, editados a partir de anotações taquigráficas por George R. Crooks (Nova York: Harper & Brothers, 1885).

Para aprofundar

Para conhecer outros nomes da mesma tradição, veja as biografias de Francis Asbury, Nathan Bangs e John Miley, e o texto sobre a fé de Abraham Lincoln.

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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