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Frances Willard: A metodista que levou a oração da sala para a praça
Em 1874, numa rua de Pittsburgh, uma professora magra e de óculos entrou pela primeira vez num bar, no meio de uma fila de senhoras de cabelos brancos. Uma delas pôs a Bíblia no balcão e leu um salmo, o grupo cantou “Rocha eterna” e a líder pediu à visitante que orasse. Frances Willard se ajoelhou na serragem do chão, cercada de homens que bebiam, e escreveu mais tarde que só tinha orado com tanta verdade ao lado da cama em que a irmã morreu. Chamou aquela tarde de seu “batismo da Cruzada”. Uma semana depois presidia a União Cristã Feminina de Temperança de Chicago; cinco anos depois, a União nacional, que sob o seu comando se tornaria a maior organização de mulheres dos Estados Unidos.
Vida
Infância na fronteira
Frances Elizabeth Willard nasceu em 28 de setembro de 1839, em Churchville, perto de Rochester, no estado de Nova York, filha de Josiah Flint Willard e Mary Thompson Hill Willard. Cresceu com o irmão Oliver, que seria pastor e jornalista, e a irmã Mary. A família se mudou em 1841 para Oberlin, no Ohio, e em 1846 para uma fazenda perto de Janesville, no Território de Wisconsin. Nesse caminho passou de batista a congregacional e chegou ao metodismo episcopal, que foi a casa de Frances até o fim.
Criada no campo, quase sem escola dominical, ela cedo invejou o estudo reservado aos meninos. Estudou um ano no Milwaukee Female College e se formou em 1859 no North Western Female College, em Evanston, ao lado de Chicago, para onde a família se mudou em 1858.
Conversão e santidade
Em junho de 1859, aos dezenove anos, ficou de cama com febre tifoide. Na autobiografia conta que ouviu dentro de si duas vozes. Uma dizia: “Minha filha, dá-me o teu coração”, e acrescentava que Deus sempre a tinha chamado por amor. A outra lembrava que ela era uma “racionalista” que nunca se convencera de que o cristianismo era razoável. Ela respondeu em silêncio: “Se Deus me deixar ficar boa, vou tentar ser uma moça cristã”. Chamou a mãe e lhe contou a decisão; a mãe se ajoelhou junto da cama e orou.
No inverno seguinte, nas reuniões de avivamento da igreja metodista de Evanston, ela foi ao altar catorze noites seguidas, à espera de uma transformação súbita que não veio, até entender que a virada tinha acontecido na noite em que disse “sim” a Deus. Em 5 de maio de 1861 foi batizada e recebida em plena comunhão. Naquele ano ficou noiva de Charles Henry Fowler, então estudante do seminário Garrett, e rompeu o noivado em 1862, ano em que morreu a irmã Mary.
Em 1866 a senhora Hamline, mulher de um bispo metodista, pôs nas mãos dela as vidas de Hester Ann Rogers e de Mary Fletcher, mulher de John Fletcher, os sermões de John Wesley sobre a perfeição cristã e o Guia para a santidade de Phoebe Palmer. Logo depois o casal Palmer pregou semanas seguidas em Evanston. Numa noite, Frances pediu à mãe que fosse com ela ao altar e ali se consagrou de novo a Deus, entregando até as joias simples que usava. Veio uma alegria que ela descreveu como a presença de Cristo pelo Espírito Santo. A experiência durou pouco: no Genesee Wesleyan Seminary, em Lima, Nova York, onde ensinou em 1866 e 1867, o assunto era evitado por medo dos excessos atribuídos aos metodistas livres, e ela se calou até perceber que já não havia sobre o que calar.
Professora, viajante e decana
Na década que se seguiu à formatura, ensinou em escolas do Illinois, da Pensilvânia e de Nova York. O pai morreu em janeiro de 1868. Entre 1868 e 1870 ela viajou pela Europa, pela Rússia e pelo Oriente Médio com a amiga Kate Jackson e voltou decidida a trabalhar pelos direitos das mulheres.
Em 1871 foi eleita presidente do novo Evanston College for Ladies, a primeira mulher a presidir uma faculdade que conferia diplomas nos Estados Unidos. Em 1873 o colégio se uniu à Northwestern, e ela se tornou a primeira decana de mulheres da universidade, cujo presidente era agora Fowler. Ela queria um autogoverno das alunas, com regras próprias, sob a direção das professoras; ele achava que as moças precisavam de pouca supervisão. Ela resumiu o conflito dizendo que Fowler tinha “a vontade de um Napoleão” e ela “a vontade de uma rainha Elizabeth”. Em 1874 pediu demissão, decidida a não gastar a vida “em atrito quando ela podia virar impulso”.
A Cruzada e a União
No inverno de 1873 para 1874, mulheres do Ohio e de Nova York tinham saído em grupos para orar diante dos bares, na chamada Cruzada das Mulheres. Willard entrou nela em Pittsburgh e em setembro de 1874 foi eleita presidente da união de Chicago. Em outubro fez pela primeira vez o discurso “A guerra de todos”: se oramos “venha o teu reino”, perguntava, como Cristo vai reinar na terra enquanto os bares não saírem do caminho? Em novembro, na fundação nacional da União, em Cleveland, foi escolhida secretária correspondente.
No começo de 1877 o evangelista Dwight L. Moody a convidou para dirigir as reuniões femininas da campanha de Boston. Ela estudava a Bíblia de manhã e ao meio-dia falava sem manuscrito para até mil e quatrocentas mulheres. Em 17 de fevereiro tomou como lema de vida Colossenses 3:17: “tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus”. Em Boston conheceu Anna Gordon, sua secretária e companheira de viagens até o fim. A parceria com Moody acabou porque ele não queria vê-la na mesma tribuna de Mary Livermore, que negava a divindade de Cristo. Em setembro ela escreveu à senhora Moody que não se sentia chamada a decidir quem podia trabalhar ao lado dela pelos pobres.
Em 1878 foi eleita presidente da União no Illinois e, em 1879, da União nacional, cargo que ocupou até morrer, por muitos anos sem salário. Sob o lema “Faça tudo”, a União abriu mais de quarenta departamentos: abstinência, educação, prisões, trabalho, saúde, direitos das mulheres casadas e voto feminino. Willard aproximou a União do Partido da Proibição, foi a primeira presidente do Conselho Nacional de Mulheres (1888-1890) e, em 1891, presidente da União Mundial.
Os últimos anos e a sombra sobre o legado
A mãe morreu em 1892, e Frances passou longas temporadas na Inglaterra, ao lado da reformadora Lady Henry Somerset. Ali se aproximou dos fabianos e passou a se dizer socialista cristã. Já passada dos cinquenta, aprendeu a andar de bicicleta e contou a aventura em A Wheel within a Wheel (1895).
Nesses anos veio o episódio mais triste da sua carreira. Numa entrevista de 1890 ao New York Voice, ela culpara os eleitores negros pela derrota da lei seca no Sul e defendera restrições educacionais ao voto. Na Grã-Bretanha, em campanha contra os linchamentos, a jornalista Ida B. Wells republicou a entrevista e cobrou de Willard uma palavra clara. Willard respondeu que não tinha “um átomo de preconceito racial” e, na convenção de Cleveland, em novembro de 1894, criticou Wells pelo nome. A União passou a aprovar resoluções contra os linchamentos, mas a ferida ficou aberta.
Doente de anemia perniciosa, Willard pegou uma gripe quando se preparava para embarcar para a Europa e morreu dormindo no Empire Hotel, em Nova York, em 17 de fevereiro de 1898, aos cinquenta e oito anos. Foi sepultada em Rosehill, em Chicago, ao lado da mãe, e deixou a casa de Evanston para a União. Em 1905 o Illinois pôs a estátua dela, de Helen Farnsworth Mears, no National Statuary Hall do Capitólio: foi a primeira mulher homenageada ali.
Pensamento
Frances Willard é wesleyana. Foi uma leiga metodista que pregava, escrevia e organizava, e a sua teologia está na autobiografia, Glimpses of Fifty Years (1889), nos discursos e em Woman in the Pulpit (1888). Ela se definiu como “uma metodista estritamente leal e ortodoxa”.
A graça que chama primeiro. No relato da conversão, a iniciativa é de Deus: a voz dizia que a tinha chamado “sempre e só” porque a amava “com amor eterno”, e a decisão dela foi resposta a esse chamado, contra a própria resistência. É o que os arminianos chamam de graça preveniente: Deus procura, convence e liberta a pessoa para crer, e ela pode recusar. As catorze noites no altar também ensinam: ela queria uma prova emocional e descobriu que a fé estava na confiança já entregue a Cristo, e não na sensação esperada.
A santidade como consagração e como alvo. Com Phoebe Palmer, Willard aprendeu a inteira santificação: uma segunda obra da graça, depois da conversão, recebida pela fé e precedida de entrega total. O relato dela é dos mais francos do movimento de santidade. Mais de vinte anos depois da noite em Evanston, escreveu que não sentia mais aquele “céu na alma”, que ainda amava demais o elogio alheio e que o “vento sul do amor” não tinha derretido o “bloco de gelo do egoísmo” do seu peito, mas que pedia a Deus todos os dias vitória sobre esses males. Wesley já ensinava que o amor perfeito pode ser perdido e recuperado. A nossa declaração de fé descreve a inteira santificação como obra da graça que não elimina erros nem limitações e continua crescendo, e o testemunho de Willard mostra esse lado humano da doutrina.
Santidade social. O “Faça tudo” nasceu dessa fé. No discurso de 1893 à União Mundial, ela o resumiu assim: “Nem tudo está na reforma da temperança, mas a reforma da temperança deve estar em tudo”. Na carta à senhora Moody (1877), explicou que Moody via a temperança “do ponto de vista de um avivalista”, centrado na regeneração dos homens, enquanto ela queria também salvar as crianças, despertar a igreja, mudar as leis e dar às mulheres o voto para proteger o lar, coisas que considerava “eminentemente religiosas”. Na mesma carta disse que, acima de tudo, amava anunciar a salvação. A ideia do voto como “proteção do lar” lhe veio numa manhã de oração em Columbus, no Ohio, em 1876. É a santidade social de Wesley, que não separava o coração santo do cuidado com o próximo.
As mulheres no púlpito. Em Woman in the Pulpit, Willard argumentou pelas Escrituras. Os intérpretes que liam ao pé da letra o silêncio das mulheres em 1 Timóteo 2 passavam por cima, no mesmo capítulo, da proibição das tranças, do ouro e das pérolas, e a mesma leitura literal tinha servido para defender a escravidão. No Pentecostes, lembrou ela, “todos estavam reunidos no mesmo lugar” (Atos 2:1), e Pedro leu ali a profecia de Joel 2:28-29 sobre o Espírito derramado em filhos e filhas. Citou Febe, chamada por Paulo de serva da igreja (Romanos 16:1), e pôs Gálatas 3:28 na folha de rosto. A igreja precisava de mulheres comentaristas para mostrar “o lado das mulheres” do livro. Ela conhecia o problema na pele: eleita delegada leiga pela Conferência de Rock River, teve o assento recusado pela Conferência Geral metodista de 1888, com outras quatro mulheres.
Onde ela se afasta. Há pontos em que Willard se distancia da nossa declaração de fé. O primeiro é a Trindade: ela confessou que a sua maior dificuldade intelectual era se ajustar à ideia de “três em um” e que só achava descanso pensando Deus a partir de Jesus Cristo, enquanto a declaração afirma a Trindade sem reservas. O segundo é o ecletismo: lia Epicteto e Platão ao lado de Tomás de Kempis, admirava Emerson e, nos últimos anos, flertou com o swedenborguianismo e a teosofia. O terceiro é a frase “os homens pregam um credo; as mulheres vão declarar uma vida”, que põe a vida contra a doutrina, quando a fé cristã precisa das duas. O quarto é o otimismo: ela esperava que a reforma social preparasse o reinado de Cristo na terra, e a declaração, amilenista, não espera uma era de ouro antes da volta dele. E o caso Ida B. Wells mostra que nem a busca da santidade a livrou dos preconceitos do seu tempo.
Mesmo assim, a influência dela foi enorme. A União treinou milhares de mulheres para falar em público, evangelizar e organizar, e Willard formou pessoas como Anna Gordon, que a sucedeu na presidência, e Katharine Bushnell, sua aluna em Evanston, depois médica missionária e estudiosa do que a Bíblia diz das mulheres. Os historiadores ligam à liderança dela a lei seca e o voto feminino, que chegaram à Constituição americana em 1919 e 1920.
Obras principais
- Nineteen Beautiful Years (1864), sobre a irmã Mary.
- Home Protection Manual (1879).
- Woman and Temperance (1883).
- How to Win: A Book for Girls (1886).
- Woman in the Pulpit (1888).
- Glimpses of Fifty Years: The Autobiography of an American Woman (1889).
- A Classic Town: The Story of Evanston (1891).
- A Woman of the Century (1893), com Mary A. Livermore.
- A Great Mother: Sketches of Madam Willard (1894), com Minerva Brace Norton.
- A Wheel within a Wheel (1895).
Para aprofundar
- Frances E. Willard, Glimpses of Fifty Years (Chicago, Woman’s Temperance Publication Association, 1889), no Internet Archive.
- Frances E. Willard, Woman in the Pulpit (Boston, D. Lothrop, 1888), no Internet Archive.
- Frances E. Willard, “The Do Everything Policy” (discurso à União Mundial, 1893), em Teaching American History.
- Lydia Willsky-Ciollo, “Frances Willard”, World Religions and Spirituality Project (2018).
- Chris Armstrong, “People Worth Knowing”, Christian History.
- Jennifer Woodruff Tait, “Christ versus the rum shops”, Christian History 138 (2021).
- Gary Panetta e Kenneth Cain Kinghorn, “Preachers, fighters, and crusaders”, Christian History 114 (2015).
- “Christian History Timeline: The Holiness Movement”, Christian History 82.
- General Commission on Archives and History da Igreja Metodista Unida, “Frances Willard”.
- Architect of the Capitol, “Frances E. Willard Statue”.
- Evanston Women’s History Project, “Frances E. Willard”.
- Frances Willard House Museum, Truth-Telling: Frances Willard and Ida B. Wells.
- “Frances Willard”, Wikipédia em inglês.
- Biografias: Ruth Bordin, Frances Willard: A Biography (University of North Carolina Press, 1986); Christopher H. Evans, Do Everything: The Biography of Frances Willard (Oxford University Press, 2022).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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