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HistóriaTeólogos arminianos6 de 100

Wellington Mariano: o tradutor que pôs o arminianismo em português

Diego Gonçalves12 min de leitura2.450 palavras

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Neste texto

Nos dias 21 e 22 de fevereiro de 2014, numa igreja de Caruaru, no agreste de Pernambuco, um pastor das Assembleias de Deus subiu ao púlpito para falar sobre a vida e a obra de Jacó Armínio. Era a primeira conferência arminiana de alcance nacional no Brasil, organizada por Carlos Gomes, diácono da Assembleia de Deus da cidade. O palestrante, Wellington Carvalho Mariano, tinha traduzido no ano anterior o livro que abriu o mercado editorial brasileiro ao arminianismo, Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson. Nos dois anos seguintes ele falaria em quase todos os encontros arminianos do país, traduziria a biografia clássica de Armínio e escreveria uma introdução popular ao arminianismo. Os colegas de movimento o contam entre os pioneiros da divulgação do arminianismo no Brasil.

Vida

Formação em letras e em teologia

Wellington Mariano formou-se bacharel em Letras, com habilitação em Tradução e Interpretação, pelo Centro Universitário Ibero-Americano, em São Paulo. Fez especialização em Literatura na PUC de São Paulo e especialização em Estudos Teológicos no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, a pós-graduação presbiteriana ligada ao Mackenzie. Ele mesmo lembra que o Mackenzie tem muitos alunos assembleianos, porque as Assembleias de Deus não exigem curso de teologia para consagrar pastores.

Foi pastor e pregador nas Assembleias de Deus. Contou que o seu primeiro contato sério com a teologia arminiana veio pela internet, pelo site arminianismo.com, criado em 2006 por Paulo César Antunes, que reunia traduções de artigos, trechos de livros e um fórum de debates. O site passou a reunir arminianos convictos e inspirou os primeiros blogs arminianos do país, e foi nesse ambiente que ele começou.

O tradutor da Editora Reflexão

Até 2013, nenhuma editora brasileira mantinha uma linha de livros arminianos. Os títulos mais declaradamente arminianos, Fundamentos da teologia armínio-wesleyana, de Mildred Wynkoop, e a Introdução à teologia cristã de H. Orton Wiley e Paul Culbertson, estavam fora de catálogo.

Em junho de 2013 a Editora Reflexão, de São Paulo, lançou Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson, na tradução de Mariano. Até o teólogo calvinista Ricardo Quadros Gouveia o pôs entre os doze livros de 2013 que os cristãos deveriam ler. No mesmo ano saiu Contra o calvinismo, também de Olson, também traduzido por ele. Com os dois livros, a Reflexão tornou-se a principal editora arminiana do país.

Vieram depois, sempre pela Reflexão: Armínio: um estudo da Reforma Holandesa, de Carl Bangs (2015), a principal biografia de Armínio; Jacó Armínio: teólogo da graça, de Keith Stanglin e Thomas McCall (2016); Perseverança dos santos, de Stanglin (2016), um dos livretos da Coleção Arminianismo; e Armínio e as suas Declarações de Sentimentos, de W. Stephen Gunter (2017), com a tradução comentada da Declaração de Sentimentos. Para a editora Sal Cultural, de Maceió, traduziu Jovem, incansável, não mais reformado, de Austin Fischer (2015), o relato da jornada do autor para dentro e para fora do calvinismo. O artigo de Kleber Maia sobre os cinco pontos do arminianismo clássico (Revista Batista Pioneira, 2020) traz seis dessas traduções na bibliografia.

Conferências e um livro próprio

A conferência de Caruaru, em 2014, teve como palestrantes o bispo Ildo Mello, da Igreja Metodista Livre, Kleber Maia, da Assembleia de Deus, Rubens Rodrigues, da Igreja do Nazareno, o batista Zwinglio Rodrigues e Mariano. A palestra dele, “Vida e obra de Jacó Armínio”, foi gravada e publicada na internet. Das dez conferências arminianas que ele listou para 2014 e 2015, de Fortaleza a Indaiatuba, falou em oito.

Em 2015 publicou O que é teologia arminiana? (Reflexão, 64 páginas), o primeiro de cinco livretos da Coleção Arminianismo, pensada para o leitor sem formação teológica. O prefácio é de Arthur Moratelli Bittencourt, pastor da Assembleia de Deus em Santo André, e o livro traz uma recomendação de Ildo Mello. No mesmo ano escreveu “Arminianismo no Brasil: uma introdução histórica”, publicado pelo CACP.

Em agosto de 2016, quando a Reflexão levou Keith Stanglin ao Brasil para lançar Jacó Armínio: teólogo da graça, Mariano foi o intérprete das palestras sobre a vida e o pensamento de Armínio e sobre a perseverança e a apostasia, numa viagem por quatro cidades em onze dias. Em 2017, nos quinhentos anos da Reforma, escreveu o capítulo sobre o soli Deo gloria no livro Igreja reformada sempre sendo reformada, organizado por Vinicius Couto, com Thiago Titillo, Carlos Augusto Vailatti e Marlon Marques. Em 2019 escreveu “Arminianismo no Brasil: trajetória, desenvolvimento e desdobramentos”, capítulo de Soberania divina e responsabilidade humana: ensaios sobre a teologia armínio-wesleyana, também organizado por Couto.

No Canadá

Em 2016 Mariano mudou-se com a família para o Canadá. Fez o Mestrado em Estudos Teológicos (MTS) do McMaster Divinity College, em Hamilton, Ontário, e por nove anos foi pastor auxiliar da Carisma Church, uma igreja multicultural ligada às Pentecostal Assemblies of Canada. Em agosto de 2025 tornou-se o pastor titular.

A distância não o tirou do debate brasileiro. Em 2021 escreveu a apresentação do Manual de teologia arminiana, de Flávyo Henrique Costa Santos, e em julho de 2023 participou com Alcino Júnior do episódio 513 do BTCast, do Bibotalk, sobre o livre-arbítrio na perspectiva arminiana. Pentecostais como Walter Brunelli e Elinaldo Renovato citam as suas teses.

Pensamento

Wellington Mariano é um pentecostal arminiano: pastor das Assembleias de Deus no Brasil e das Pentecostal Assemblies of Canada, ele se declara arminiano e defende o arminianismo clássico, o de Armínio e da Remonstrância de 1610, lido pelos estudos de Bangs, Stanglin e McCall.

O arminianismo como interpretação protestante

Em O que é teologia arminiana? ele define o termo de saída: “Arminianismo é o nome dado a uma linha de interpretação teológica na área de soteriologia”, isto é, uma leitura da doutrina da salvação dentro do protestantismo ortodoxo. O livro nasce de um diagnóstico: muitos manuais em português apresentam como arminianismo um espantalho, fácil de refutar. Contra a postura de quem prefere não tomar partido, escreve que “não existe um meio termo entre arminianismo e calvinismo”, porque não se posicionar também é uma posição, a da omissão, e a falta de definição “sempre favorece o sistema calvinista”.

Ele separa os “arminianos de coração”, seguidores evangélicos de Armínio, dos “arminianos de cabeça”, liberais que só herdaram o nome, e lembra que o pai da teologia liberal, Schleiermacher, saiu do calvinismo sem passar pelo arminianismo. Ver também O arminianismo é reformado.

Arbítrio escravo e o primeiro passo de Deus

O ponto em que Mariano mais insiste é a depravação total. A queda atingiu todas as áreas da vida humana, e o homem natural, com a vontade inclinada para o mal, é incapaz de buscar a Deus (Romanos 3:9-24). Livre-arbítrio, no sentido pleno, foi o que Adão e Eva tinham antes da queda; depois dela, “o termo mais correto e específico” para a vontade do homem natural “é arbítrio escravo”. A frase popular “dê um passo para Deus que ele dará outro” é, para ele, semipelagiana. O resumo dele, citado depois por outros autores, é este: “em termos práticos: o homem não pode dar o primeiro passo para Deus. O primeiro passo no relacionamento salvífico entre Deus e o homem é dado por Deus” (O que é teologia arminiana?, 2015, p. 24).

Por isso Mariano prefere falar de arbítrio “libertado” ou “restaurado”. A graça preveniente, a graça que vem antes da conversão e prepara o caminho para ela, liberta a vontade e torna o pecador capaz de crer, sem devolvê-lo a uma neutralidade entre o bem e o mal. A fé que nasce daí recebe o dom e não acrescenta mérito. Ver A graça preveniente em Armínio.

Uma graça em dois estágios

Seguindo Stanglin e McCall, Mariano descreve a graça em dois momentos, com a imagem de Apocalipse 3:20 que Armínio usava. Primeiro a graça “bate à porta”: é obra só de Deus, que vem antes de qualquer decisão humana. Depois vem a graça que “abre e entra”, a graça subsequente ou cooperante, em que a pessoa já liberta não resiste. Essa graça pode ser recusada, como mostram Atos 7:51 e Mateus 23:37, e quem a recusa responde pela recusa. A graça é uma só, e Mariano rejeita a ideia de uma “graça comum” sem propósito de salvação: “uma graça de Deus que não busque ou não ofereça a oportunidade de salvação pode ser qualquer coisa, menos graça de Deus”.

Sobre o alcance dessa graça, ele apresenta duas leituras arminianas. Atribui aos arminianos clássicos a ideia de que a graça preveniente acompanha a pregação do Evangelho, com base na Confissão Remonstrante de 1621, de Simão Episcópio; aos wesleyanos, a de que ela alcança todas as pessoas por causa da cruz (João 12:32), além da pregação. Daí a fórmula: “nem todo arminiano é wesleyano, mas todo wesleyano é arminiano”. Aqui a nossa declaração de fé fica com a leitura universal: com Wesley e com a leitura de Armínio feita por Abner Hernández, entendemos que o Espírito age antes e além da pregação, e que a graça preveniente alcança todas as pessoas.

Cristo morreu por todos

A expiação ilimitada é, para Mariano, o lugar onde o calvinismo é mais frágil, “o ponto de maior fraqueza e vulnerabilidade do calvinismo”, porque nenhum versículo diz que Cristo não morreu por alguém. Com João 3:16, 1 Timóteo 2:1-6 e 1 João 2:2, lembra também que ainda se discute se o próprio Calvino ensinou que Cristo morreu só pelos eleitos. Expiação universal não significa universalismo: a graça pode ser resistida e a salvação se recebe pela fé. O tema está em Arminianismo: expiação para todos.

Eleição condicional e perseverança

Na eleição, Mariano expõe as duas leituras aceitas entre arminianos: a individual, pela qual Deus predestina à salvação os que ele conhece de antemão como crentes (Romanos 8:29; 1 Pedro 1:2), e a corporativa, defendida por Robert Shank, em que Deus elege um povo em Cristo e cada pessoa entra na eleição quando se une a ele. A condição básica é estar em Cristo, pela fé e pelo arrependimento, e quem fixou a condição foi o próprio Deus, o que afasta a acusação de que ela diminuiria a sua soberania. Para Mariano, a eleição incondicional, para ser coerente, precisa aceitar também a reprovação incondicional, e as duas lançam dúvida sobre o amor de Deus.

Sobre a perseverança, apresenta os “arminianos de quatro pontos”, que negam que o verdadeiro cristão possa perder a salvação, e se põe com os que afirmam essa possibilidade. Argumenta que Armínio a ensinou: a frase da Declaração de Sentimentos em que ele pareceria negar a possibilidade da apostasia é um acréscimo da tradução inglesa e não está no texto latino nem no holandês, como mostraram Stanglin e McCall. Armínio distinguia o verdadeiro cristão do eleito: o cristão verdadeiro pode apostatar, e eleito é quem persevera até o fim. É a posição da nossa declaração de fé, a da segurança condicional, em que o crente está seguro enquanto permanece em Cristo (ver Arminianismo e a segurança da salvação).

O efeito pêndulo

Como historiador do movimento, Mariano descreveu o arminianismo brasileiro em três etapas: o site arminianismo.com e os blogs que nasceram dele; a publicação organizada de livros arminianos a partir de Olson, em 2013; e as conferências pelo país desde 2014, até a vinda de Jerry Walls em 2015. No capítulo de 2019 explicou a origem desse despertar pelo novo calvinismo, espalhado pela internet desde o fim dos anos 1990: “O calvinismo é, portanto, responsável pelo avivamento arminiano no Brasil, resultado do efeito pendular”. Em 2015 sonhava com uma faculdade protestante confessionalmente arminiana no Brasil e esperava que as lideranças das Assembleias de Deus assumissem a sua herança arminiana. Dois anos depois, a Declaração de Fé das Assembleias de Deus (CGADB, 2017) trouxe nos capítulos sobre a salvação uma soteriologia claramente arminiana.

Obras principais

  • O que é teologia arminiana? (Reflexão, 2015), Coleção Arminianismo.
  • “Arminianismo no Brasil: uma introdução histórica” (CACP, 2015), artigo.
  • Capítulo sobre o soli Deo gloria em Igreja reformada sempre sendo reformada, org. Vinicius Couto (Reflexão, 2017).
  • “Arminianismo no Brasil: trajetória, desenvolvimento e desdobramentos”, em Soberania divina e responsabilidade humana, org. Vinicius Couto (Reflexão, 2019).
  • Traduções: Roger Olson, Teologia arminiana: mitos e realidades (Reflexão, 2013) e Contra o calvinismo (Reflexão, 2013); Carl Bangs, Armínio: um estudo da Reforma Holandesa (Reflexão, 2015); Austin Fischer, Jovem, incansável, não mais reformado (Sal Cultural, 2015); Keith Stanglin e Thomas McCall, Jacó Armínio: teólogo da graça (Reflexão, 2016); Keith Stanglin, Perseverança dos santos (Reflexão, 2016); W. Stephen Gunter, Armínio e as suas Declarações de Sentimentos (Reflexão, 2017).

Livros em português

  • O que é teologia arminiana? (Reflexão, 2015). Ver na Amazon
  • Igreja reformada sempre sendo reformada, org. Vinicius Couto, com capítulo de Mariano (Reflexão, 2017). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Soberania divina e responsabilidade humana: ensaios sobre a teologia armínio-wesleyana, org. Vinicius Couto, com capítulo de Mariano (Reflexão, 2019). Ver na Amazon

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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