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Amos Binney: o pastor itinerante que resumiu a doutrina metodista em um compêndio

Diego Gonçalvesatualizado 12 min de leitura2.329 palavras

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Neste texto

Em 1º de junho de 1874, em New Haven, Connecticut, um pastor metodista de 71 anos escreveu o prefácio da última revisão do livro que o acompanhava havia 35 anos. Uma paralisia o deixara tão fraco que durante muito tempo precisou ser alimentado por outros, e ele se despediu do livro como quem despede um mensageiro: pediu que a obra saísse outra vez a pregar o evangelho que a sua “língua paralisada” já não podia anunciar. O livro era o Theological Compend, um manual de doutrina em frases curtas, com perguntas na margem, que àquela altura já passava de 35 mil exemplares em inglês e circulava em alemão, sueco, árabe e chinês. O pastor era Amos Binney.

Vida

Hull, Newmarket e o chamado

Amos Binney nasceu em Hull, uma pequena península na baía de Boston, Massachusetts, num sábado, 30 de outubro de 1802. Era o oitavo filho de Spencer Binney, lavrador, e de Mary Jones, chamada Molly. Um tio, o coronel Amos Binney (1778-1833), comerciante e agente da Marinha em Boston, foi um leigo influente do metodismo da cidade e um dos curadores originais da academia metodista que depois se instalou em Wilbraham.

Aos dezesseis anos, Amos converteu-se sob o ministério do pregador que os metodistas da Nova Inglaterra chamavam de Father Taylor. Foi então, com o irmão Barnabas, estudar na academia metodista de Newmarket, em New Hampshire, a escola que mais tarde se mudou para Wilbraham com o nome de Academia Wesleyana. Ficou ali cerca de um ano. Em julho de 1821 recebeu licença de pregador local, o leigo autorizado a pregar na sua região sem ser designado pela conferência, e trabalhou algum tempo no comércio.

Com dezenove anos, publicou em Boston um livrinho de hinos, Poetic Essays, to Aid the Devotions of Pious People (1822). Um deles leva por título as palavras de Hebreus 6:1, “prossigamos para a perfeição”, e pede: “aperfeiçoa-me, Senhor, por dentro, purifica a minha alma de todo pecado”. O tema que ocuparia os capítulos finais do seu manual de teologia já estava ali, em verso de rapaz.

Em 14 de julho de 1824 casou-se com Caroline Wilder, de Hingham. Tiveram duas filhas: Harriet, nascida em 1826, e Mary Spencer, nascida em 1834 em Lincoln, Massachusetts.

Pregador de circuito

Em julho de 1826 Binney foi recebido como ministro itinerante na Conferência da Nova Inglaterra da Igreja Metodista Episcopal. O caderno de contas dele, hoje na Sociedade Histórica de Massachusetts, registra as despesas das viagens pelos circuitos entre 1824 e 1847, de Mansfield e Middleborough, em Massachusetts, a Stonington, em Connecticut.

Como pregador, era “simples e evangélico” e queria antes fazer o bem do que ser um grande orador; como pastor, era diligente e cuidadoso com o dinheiro. Entendia bem as necessidades religiosas das pessoas comuns, e daí nasceu o livro. Em 1º de junho de 1839, em Andover, assinou o prefácio do Theological Compend, que a editora metodista de Nova York publicou em 1840. No mesmo ano publicou em Boston a coletânea Missionary Hymns.

Na década de 1840 Binney morou em Roxbury e foi sócio da Binney & Otheman, a livraria metodista da rua Cornhill, em Boston. Caroline morreu em Roxbury em 12 de agosto de 1847. Em 10 de outubro de 1848 casou-se com Isabella Hill, nascida em 1818, preceptora da Academia Wesleyana, onde ele também ensinou e em cujo conselho de curadores entrou em meados da década de 1840. Presidiu esse conselho de 1854 a 1856.

De 1848 a 1850 foi presbítero presidente do distrito de Springfield e, de 1850 a 1854, do distrito de Lynn. Em 8 de agosto de 1850, em Wilbraham, ele mesmo celebrou o casamento da filha Harriet com o jovem pastor Daniel Steele, que seria o seu colaborador nas duas obras maiores. Em 1852 ocupou uma cadeira na assembleia legislativa de Massachusetts.

A Bíblia aberta em New Haven

Em 1854 Binney deixou o trabalho itinerante e, em 1857, passou a supranumerário, o ministro que continua ligado à conferência sem receber designação regular. Foi nessa época que começou o trabalho dos seus últimos dezoito anos: um comentário do Novo Testamento para quem não tinha dinheiro para comprar muitos livros nem tempo para consultá-los. Os anos finais ele os viveu em New Haven, numa casa da High Street.

Quando o comentário estava quase pronto, sofreu a paralisia que o deixou dependente. Recuperou-se o bastante para refazer, com a ajuda do genro, o Compêndio, publicado em 1875 como Binney’s Theological Compend Improved. Dois anos antes de morrer, pregou diante da conferência, em Lowell, o sermão dos seus cinquenta anos de ministério. Morreu em New Haven, “em grande paz”, numa sexta-feira, 29 de março de 1878, aos 75 anos, e ali foi sepultado. No mesmo ano saiu The People’s Commentary, com introdução de Steele. Isabella casou-se depois com o teólogo metodista Miner Raymond, de Evanston.

Pensamento

Binney é um wesleyano: foi ministro da Igreja Metodista Episcopal por mais de cinquenta anos, e o seu manual expõe a doutrina dessa igreja, com John Wesley e Adam Clarke entre as autoridades que cita. O prefácio de 1839 diz que o objetivo era reunir e “comprimir em pouco espaço” os melhores argumentos dos bons autores, em frases curtas e claras, para famílias, classes bíblicas e escolas dominicais. Na revisão de 1874 ele acrescentou que não tinha achado nada essencialmente novo em teologia, porque o cristianismo “não é uma ciência progressiva, mas um sistema de verdade objetiva”.

Queda e graça

O Compêndio de 1840 afirma “a depravação total e inteira do coração humano” e distingue o pecado de Adão do pecado dos seus descendentes: cada um responde pelos próprios atos. No Comentário Popular, ao explicar João 6:44, Binney diz que os homens são, por natureza, tão depravados que não têm nenhum desejo de salvação, a não ser quando são atraídos para Deus por uma influência graciosa que vem pela mediação de Cristo. Essa atração, escreve ele, não é um arrastar que obriga, mas a ação das influências “atraentes, mas resistíveis” da graça; todos são atraídos, e alguns não querem vir. Sobre João 1:9 ele fala de uma “iluminação primária e preparatória de todo ser humano”. É a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e torna possível crer.

A revisão de 1875 acrescentou um capítulo sobre o livre-arbítrio que pesa a balança para outro lado. Ali se lê que o homem, embora caído e “tristemente depravado”, conserva o atributo da liberdade e que a vontade livre é uma causa original, que se determina a si mesma; a ajuda do Espírito Santo é “persuasiva, e não necessitante”. A descrição da vontade caída, porém, fica aquém do que Armínio escreveu na Declaração de Sentimentos, para quem o homem caído não é capaz, por si mesmo, de querer o bem verdadeiro e só é libertado pela graça. O próprio Compêndio de 1875 corrige o desequilíbrio quando define a fé salvadora como ato de um penitente “ajudado pela graça”.

Eleição e presciência

Binney ensina a eleição condicional, isto é, a escolha, por Deus, daqueles que estão em Cristo pela fé. Comentando Efésios 1:4, diz que todos os santos fiéis em Cristo são escolhidos “como tais”; em Efésios 1:11, que são predestinados como crentes santos, e não predestinados a ser crentes, e que a razão da escolha está na fé prevista, e não numa escolha arbitrária de Deus. Sobre Mateus 18:14 ele afirma que o texto é contrário à doutrina da reprovação predestinada, porque Deus deseja que todos sejam salvos.

Para defender a presciência, o manual de 1840 explica que Deus conhece o futuro como presente, porque para ele não há antes nem depois, e que o simples conhecimento de Deus não determina nada, “porque é conhecimento, e não influência”. Binney não deixa nenhum espaço para a ideia de um Deus que ignora o futuro.

Expiação e justificação

A expiação é “a satisfação oferecida à justiça divina por Jesus Cristo, que sofreu, na sua morte, a pena devida pelos nossos pecados”. Ela é universal na suficiência e eficaz para os que se arrependem e creem. Para explicar a diferença, Binney usa a imagem de um banquete: uma coisa é o banquete ser preparado, outra é sentar-se à mesa. Quem guarda essa distinção, diz ele, não tira da expiação para todos a doutrina da salvação universal. A revisão de 1875 acrescenta que a culpa do pecado original está coberta pela expiação e só pesa sobre quem rejeita o remédio por vontade própria, de modo que as crianças que morrem são salvas por Cristo, o segundo Adão.

A justificação tem três causas: a graça de Deus como origem, a obediência e o sofrimento de Cristo como mérito, a fé como instrumento. O pecador é justificado “totalmente pela fé”, e não em parte pelas obras. A fé que justifica é a fé presente: não somos justificados pela fé de amanhã prevista, nem pela de ontem lembrada, porque esta tornaria a justificação irreversível.

Testemunho do Espírito, santidade e perseverança

Binney prefere “testemunho do Espírito” a “certeza da salvação”, porque “certeza” sugere segurança final e exclui os graus menores de convicção. O testemunho é duplo: o direto, a impressão interior de que somos filhos de Deus (Romanos 8:16), e o indireto, o fruto do Espírito. Os dois andam juntos, um contra a dúvida, o outro contra a presunção.

A santificação é a participação na natureza divina que tira do coração o pecado inato e o enche de “amor perfeito a Deus e ao próximo”. Justificação muda o estado, da culpa para o perdão; santificação muda a natureza, do pecado para a santidade. A edição de 1875 descreve a inteira santificação como obra instantânea do Espírito, precedida e seguida de crescimento gradual e recebida pela fé no sangue de Cristo. Contra Thomas Chalmers, nega que ela venha pelas obras; contra o conde Zinzendorf, nega que seja a mesma coisa que o novo nascimento. Pureza não se confunde com maturidade: purificado o coração, o amor pode crescer para sempre. Erros de juízo, doenças e tentações fortes não contradizem o amor perfeito. Sobre a certeza dessa graça, uma frase resume o estilo do livro: “não precisamos de lanterna para ver o nascer do sol”.

Quanto à perseverança, o Compêndio de 1840 é direto: os melhores crentes podem apostatar a ponto de perecer, como mostram os exemplos de Saul e de Judas e as advertências de João 15, Romanos 11 e Hebreus 6. Em 1875 a ideia ganhou uma imagem: o selo do Espírito basta para garantir a salvação eterna, mas cada crente continua livre para entristecer esse Espírito até afastá-lo de vez. É a perseverança condicional.

Com a declaração de fé do Diego, o acordo é quase total. Há duas diferenças. Uma é a linguagem de 1875 sobre a liberdade que o homem caído conservaria, que o site prefere descrever como vontade libertada pela graça. A outra é escatológica: Binney rejeita duas ressurreições literais separadas por mil anos, como o Diego, mas lê o milênio de Apocalipse 20 como um longo período ainda futuro em que Satanás será contido e a justiça prevalecerá, enquanto o Diego é amilenista.

Obras principais

  • Poetic Essays, to Aid the Devotions of Pious People (Boston, Lincoln & Edmands, 1822).
  • The Theological Compend: A System of Divinity (Nova York, 1840; prefácio de 1839). Reeditado em Toronto, em Nova York (1857) e em Nashville (1892).
  • Missionary Hymns: A Choice Selection (Boston, D. S. King, 1840).
  • Binney’s Theological Compend Improved, com Daniel Steele (Nova York, Nelson & Phillips, 1875).
  • The People’s Commentary: Including Brief Notes on the New Testament (Nova York, Nelson & Phillips, 1878), com introdução de Daniel Steele. Saiu em espanhol como El comentario popular (Casa Nazarena, 1962).

O Compêndio acompanhou as missões metodistas: foi traduzido na Itália em 1873, primeiro ano da missão, circulou em manuscrito na Bulgária, foi vertido para o urdu na Índia, saiu em espanhol pela imprensa da missão no México e ganhou ainda uma versão japonesa. O prefácio de 1874 conta que a emancipação dos escravos nos Estados Unidos aumentou a procura do livro para formar professores de escola dominical e pregadores entre os libertos. Na morte do autor, a tiragem em inglês chegava a 40 mil exemplares.

Livros em português

O Compêndio de Teologia é a tradução da edição de 1875, assinada pelas iniciais C. G. S. S. A primeira edição brasileira saiu a pedido dos ministros metodistas da Missão do Brasil, com nota de J. J. Ransom datada do Rio de Janeiro em 16 de setembro de 1885. A Igreja do Nazareno do Brasil fez depois uma segunda edição, autorizada pela Imprensa Metodista de São Paulo.

  • Compêndio de Teologia: contendo uma sinopse das evidências, doutrinas, moral e instituições do cristianismo (com Daniel Steele; tradução de C. G. S. S.; 2ª ed., Igreja do Nazareno do Brasil). Ver na Amazon

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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