AssineApoie

HistóriaArminianismo9 de 24

Hugo Grócio: o jurista que saiu da prisão num baú de livros e defendeu os arminianos

Diego Gonçalves5 min de leitura986 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Em março de 1621, os guardas do castelo de Loevestein, nos Países Baixos, carregaram para fora um baú de livros. Dentro dele estava Hugo Grócio, condenado à prisão perpétua três anos antes. O jurista fugiu para a França, e foi lá que escreveu a obra que o tornou conhecido no mundo inteiro, sobre o direito da guerra e da paz.

Retrato de Hugo Grócio
Retrato de Hugo Grócio por Michiel Jansz. van Mierevelt, 1631. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Hugo Grócio (em latim, Hugo Grotius; em holandês, Huig de Groot) nasceu em Delft em 10 de abril de 1583. Entrou na Universidade de Leiden aos 11 anos, formou-se em direito em Orléans, na França, e publicou o seu primeiro livro, uma edição de Marciano Capela, aos 16. Em 1599 já atuava como advogado em Haia. Em 1607 foi nomeado procurador-geral das províncias da Holanda, da Zelândia e da Frísia Ocidental, e em 1609 publicou Mare Liberum, em que defende que o mar não pode ser propriedade de uma nação. Em 1613 tornou-se pensionário de Roterdã, o cargo que o levou a ter assento nos Estados da Holanda.

Nessa época os Países Baixos se dividiam por causa da predestinação. De um lado estavam os remonstrantes, seguidores de Jacó Armínio, e do outro os contra-remonstrantes, calvinistas rigorosos. Grócio ficou ao lado dos remonstrantes e do estadista Johan van Oldenbarnevelt. Em 1613 publicou o Ordinum Pietas, que defendia a autoridade do poder civil sobre as nomeações na igreja, e em 1614 redigiu um decreto pela paz das igrejas, em favor da tolerância.

O golpe veio em 1618. O príncipe Maurício de Nassau, apoiado pelos calvinistas, mandou prender Oldenbarnevelt e Grócio, entre outros, em agosto daquele ano. Oldenbarnevelt foi executado em 1619, na época do Sínodo de Dort, que condenou os remonstrantes (veja a biografia de Simão Episcópio, o porta-voz do grupo no sínodo). Grócio recebeu pena de prisão perpétua e foi levado a Loevestein, de onde fugiu em 1621.

Em Paris ele recebeu uma pensão do rei da França e publicou De jure belli ac pacis (1625), considerada um marco do direito internacional. Em 1634 tornou-se embaixador da Suécia na França, cargo que manteve por cerca de dez anos. Em 1644 a rainha Cristina o chamou a Estocolmo. Na volta, em 1645, o navio naufragou, e ele morreu em Rostock em 28 de agosto, aos 62 anos. Foi sepultado em Delft.

Pensamento

Grócio era leigo, jurista e político, e não pastor. Mesmo assim os historiadores o contam entre os arminianos, e as enciclopédias o incluem entre os remonstrantes. Ele rejeitava a predestinação calvinista, defendia a liberdade da vontade e temia que o calvinismo rígido dividisse o protestantismo. Por isso o classificamos aqui como arminiano da linha remonstrante, com a ressalva de que foi mais aliado e defensor do grupo do que teólogo de sistema: o seu interesse maior estava no direito, na história e na unidade das igrejas.

A contribuição teológica mais conhecida dele é a teoria governamental da expiação, exposta em Defensio fidei catholicae de satisfactione Christi (1617). O livro respondia a Fausto Socino, que negava que a morte de Cristo fosse uma satisfação pelo pecado. Grócio usou a sua formação jurídica: Deus é o governante moral do universo, e não poderia simplesmente ignorar o pecado sem enfraquecer a sua lei. A morte de Cristo mostra o quanto o pecado é grave e, ao mesmo tempo, permite que Deus perdoe sem desfazer a justiça. Nessa visão, Cristo não sofreu a punição exata que cada pecador merecia (como ensina a substituição penal), e sim um sofrimento que sustenta a ordem moral de Deus.

Essa teoria teve vida longa entre os não calvinistas. Ela prosperou no metodismo do século 19 e foi adotada por teólogos nazarenos como H. Orton Wiley. Os estudiosos lembram, porém, que nem todo arminiano a segue, e que John Wesley parece ter mantido a substituição penal. Grócio também escreveu em defesa do cristianismo (De veritate religionis Christianae, 1627) e, nos últimos anos, trabalhou pela reaproximação entre protestantes e entre protestantes e católicos.

Nossa declaração de fé aqui no blog concorda com Grócio na expiação para todos, na liberdade que a graça dá de responder a Deus e na rejeição da predestinação incondicional. Diferimos dele na maneira de entender a cruz: afirmamos que Cristo se ofereceu como sacrifício perfeito pelos pecados e não adotamos a teoria governamental como explicação única. Sobre a visão de Wesley, veja a biografia de John Wesley.

Para ver como o site trata esses temas, leia Arminianismo: Expiação para Todos, Soteriologia Arminiana e O Arminianismo é Reformado?.

Obras principais

  • Mare Liberum (1609).
  • Ordinum Hollandiae ac Westfrisiae pietas (1613).
  • De satisfactione Christi adversus Faustum Socinum (1617).
  • De jure belli ac pacis (1625).
  • De veritate religionis Christianae (1627).
  • Via ad pacem ecclesiasticam (1642).
  • Annotationes in Vetus Testamentum (1644).

Livros em português

  • O Direito da Guerra e da Paz (Unijuí, 2004). Ver na Amazon · Ver na Shopee (anúncio do volume 1 de uma edição portuguesa, com introdução de António Manuel Hespanha)

Até onde pude verificar, as obras teológicas dele não têm edição em português.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.