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Luther Lee: o pregador que aprendeu a ler numa tábua e escreveu a teologia dos metodistas abolicionistas
Neste texto
- Vida
- Uma infância sem escola
- “Lee, o Lógico”
- Da igreja para a causa da abolição
- Editor, pastor e abolicionista em Syracuse
- Professor, a volta e os últimos anos
- Pensamento
- Pecado e graça
- Cristo morreu por todos
- Decretos, presciência e perseverança
- Novo nascimento e inteira santificação
- Governo moral, lei de Deus e escravidão
- Obras principais
- Para aprofundar
No domingo à noite, 3 de dezembro de 1837, o pastor metodista de Fulton, no norte do estado de Nova York, subiu ao púlpito com uma notícia ainda fresca. Semanas antes, em Alton, Illinois, uma multidão a favor da escravidão tinha matado a tiros o editor Elijah Lovejoy, que se recusava a parar de imprimir o seu jornal abolicionista. Luther Lee condenou a violência, condenou a escravidão que a produzira e disse uma frase que lhe custou a frieza de velhos amigos: “Se isto é abolicionismo, então eu sou abolicionista”. O sermão chamava a escravidão americana de “um sistema legalizado de injustiça, e um pecado”. O homem que o pregou era quase analfabeto aos dezenove anos. Duas décadas depois escreveria a teologia sistemática de uma denominação inteira.
Vida
Uma infância sem escola
Luther Lee nasceu em 30 de novembro de 1800, em Schoharie, Nova York, o penúltimo dos nove filhos de Samuel Lee, veterano da Guerra de Independência, e Hannah Williams. Os pais eram pobres e não sabiam ler nem escrever. As primeiras letras o menino aprendeu com um irmão mais velho, que as recortou com um canivete numa tábua de pinho. Aos treze anos perdeu a mãe, a família se desfez e ele passou a se virar sozinho, como moleiro e depois na lavoura e num curtume. Para ter uma gramática, cortou lenha três dias para o dono do livro.
Em 1819 retomou a fé metodista dos pais e se uniu à Igreja Metodista Episcopal. Pregou pela primeira vez em Andes, em novembro de 1821, quando o líder da classe lhe pediu uma palavra na reunião. Em 31 de julho de 1825 casou-se com Mary Miller, professora de escola, que lhe deu boa parte da instrução que ele não tivera. Em 1827 a Conferência de Genesee o recebeu em experiência, mais pelo dom de avivalista do que pelo preparo, e o mandou para o circuito de Malone, no extremo norte do estado: uma volta de quatro semanas, com cerca de trinta sermões. Comprou uma retórica e o Dicionário teológico de Charles Buck e estudava a cavalo, decidido, nas palavras dele, a ser “um erudito prático”.
“Lee, o Lógico”
Ordenado presbítero em 1831, passou por Waddington, Heuvel, Lowville e Watertown, e em 1836 foi nomeado para Fulton. A fama veio dos debates. Universalistas, que ensinavam que todos acabariam salvos, desafiavam os pregadores metodistas na fronteira, e Lee aceitava quando a questão era de doutrina fundamental. Em 1832, em Antwerp, debateu três dias com o pastor universalista Pitt Morse a pergunta “Todos os homens serão finalmente santos e felizes?”. Quando o jornal universalista da região lhe fechou as colunas, escreveu de madrugada, ao longo de 1834, o livro que saiu em 1836 como Universalism Examined and Refuted. Lee estudava a argumentação em George Campbell e no arcebispo Whately e chamava o próprio método de “a corrente de lógica de elos de ferro”. Daí o apelido: “Logical Lee”, Lee, o Lógico.
Da igreja para a causa da abolição
Em Fulton, Lee encontrou membros da igreja ativos contra a escravidão. A Conferência Geral metodista de 1836 o incomodara: os bispos pediram silêncio sobre o assunto, e só Orange Scott se levantou para falar contra. O assassinato de Lovejoy fez o resto. Em 1838 falou na convenção de metodistas antiescravistas em Utica sobre “a pecaminosidade de possuir escravos”, deixou o circuito e virou agente da Sociedade Antiescravista do Estado de Nova York. Depois de uma palestra em Utica, a sociedade antiescravista wesleyana da cidade ganhou 130 nomes. Defendia pregadores abolicionistas levados a julgamento nas conferências, e em 1840 esteve entre os organizadores do Partido da Liberdade. Ao fim da vida contou que fora atacado por multidões cinco vezes.
Em outubro de 1842 Orange Scott e outros decidiram formar uma nova igreja. Quando metodistas de Boston lhe ofereceram trabalho para combater a divisão, Lee respondeu que “Luther Lee não estava à venda”. Não podia continuar, explicou, “numa igreja escravocrata”. Em 31 de maio de 1843 abriu-se em Utica a convenção que organizou a Conexão Metodista Wesleyana da América, uma igreja sem bispos, fundada sobre princípios antiescravistas. Lee foi enviado para Syracuse como o primeiro pastor wesleyano da cidade.
Editor, pastor e abolicionista em Syracuse
Na primeira Conferência Geral da nova igreja, em Cleveland, em 1844, Lee foi eleito presidente e editor do True Wesleyan, o jornal oficial, onde ficou até 1852. Presidiu três das seis primeiras conferências gerais e pregou no funeral de Orange Scott. Pregou também no de Charles Turner Torrey, pastor morto numa prisão de Baltimore, condenado por ajudar uma família escravizada a fugir. O sermão, The Supremacy of the Divine Law, admitia que Torrey violara a lei e sustentava que ele fizera o certo: “A lei de Cristo deve ser obedecida, quaisquer que sejam as leis humanas em contrário, e quaisquer que sejam as consequências da obediência”.
Em 1846 a congregação de Syracuse ergueu a sua capela, hoje o prédio de igreja mais antigo de pé na cidade. Lee voltou a ela como pastor em 1852 e morou do outro lado da rua, no número 39 da Onondaga Street. Ali, escreveu, fez “o maior trabalho da minha vida na Ferrovia Subterrânea”, a rede que levava escravizados fugidos para o Canadá: chegou a passar trinta pessoas num mês, e o seu endereço era conhecido até em Baltimore. Num comício em Syracuse declarou que nunca obedecera à Lei do Escravo Fugitivo, de 1850, nem obedeceria, e convidou as autoridades a procurá-lo em casa.
Em 15 de setembro de 1853, Lee pregou na ordenação de Antoinette Brown na igreja congregacional de South Butler, Nova York. Ela é lembrada como a primeira mulher ordenada numa igreja americana de linha principal, e quem pregou foi um wesleyano. Lee reconheceu que era “uma transação nova, nesta terra e nesta época”, e disse que pregar um sermão comum seria “manso e covarde”. O sermão saiu impresso como Woman’s Right to Preach the Gospel. Em 1854 debateu onze noites com o unitarista Samuel J. May sobre a Trindade, e em 1855 publicou Slavery Examined in the Light of the Bible.
Professor, a volta e os últimos anos
Em 1856 saíram os Elements of Theology, que se tornaram a teologia de referência dos wesleyanos e tiveram doze edições até o fim do século. No mesmo ano Lee assumiu a cadeira de teologia do Michigan Union College, em Leoni, mas a faculdade estava sem dinheiro, e ele foi pastor em Felicity, Ohio, de 1857 a 1859. Em 4 de julho de 1860 discursou junto ao túmulo de John Brown, em North Elba, Nova York. Em 1864 tornou-se professor no Adrian College, em Michigan.
Com a escravidão abolida e a questão resolvida na Igreja Metodista Episcopal, Lee voltou a ela em 1867, recebido na Conferência de Detroit. Foi pastor em Michigan por cerca de dez anos. Quando o puseram na lista dos aposentados, chamou aquilo de “a provação mais dura da minha vida”. Com oitenta anos ainda pregava ou dava palestras duas vezes aos domingos. Em 1882 publicou a Autobiography of the Rev. Luther Lee, D.D., com a epígrafe “Bata, mas ouça-me”. Ali resumiu a luta contra a escravidão: rendera-lhe “mais pobreza do que dinheiro, e mais inimigos do que amigos”. Não pedia para si mais que “a honra de ter vivido como homem honesto”. Morreu em Flint, Michigan, em 13 de dezembro de 1889, aos 89 anos.
Pensamento
Luther Lee é um arminiano wesleyano. Fundou com outros a Conexão Metodista Wesleyana e escreveu a teologia que ela usou por meio século, na tradição de John Wesley e de teólogos metodistas como Richard Watson: expiação por todos, eleição condicional, possibilidade de apostasia e inteira santificação. No prefácio dos Elements of Theology (1856) ele disse não ser “um alto calvinista, nem um pelagiano, nem mesmo o que alguns chamariam de baixo arminiano”, e situou a salvação “no ponto de união entre a agência divina e a humana”.
Pecado e graça
Lee não começava pela capacidade humana. Jovem pregador, em Bombay, Nova York, respondeu a um pregador que dizia que o pecador não pode orar de modo aceitável antes de se converter. Abriu assim: “Suponho que creio na depravação do coração humano tão firmemente quanto o meu irmão”. A diferença estava em outro ponto: quando o pecador arrependido ora e busca a Deus, isso já é fruto da verdade e do Espírito agindo nele. Nos Elements, Adão perdeu a imagem divina e não podia transmiti-la, e por isso a natureza humana é “degenerada e corrupta”, na própria natureza e não só nos atos. O arrependimento “não pode ser exercido sem a influência graciosa do Espírito Santo”. É o que a tradição chama de graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e a torna possível. Nisso Lee se afastava de Nathaniel Taylor, teólogo de Yale que reduzia o pecado original a um pecado universal de escolha.
Cristo morreu por todos
O perdão, escreve Lee, só pode ser dado ao pecador “com base numa expiação”, e Cristo “sofreu e morreu como substituto do homem”. O capítulo sobre a extensão da expiação quer provar que Cristo morreu pela humanidade inteira, contra a confissão presbiteriana, que restringe a redenção aos eleitos. Um dos argumentos é simples: todos recebem a ordem de crer em Cristo, e Deus cobra a incredulidade; isso só faz sentido se Cristo morreu por eles. Daí a fórmula: Cristo é “o Salvador de todos, capaz e disposto a salvar a todos” (ver expiação para todos).
Decretos, presciência e perseverança
Lee aceitava que Deus decreta e que o ser humano é livre, porque “um decreto não executa a si mesmo”. A presciência de Deus, “por mais perfeita que seja, não tem poder executivo e não faz acontecer coisa alguma”: Deus sabe o que faremos, e saber não é causar. Por isso ninguém foi “eternamente predestinado à condenação”. A salvação é oferecida sob condição, e “o que é condicional pode ser assegurado ou perdido”. Saul, Salomão, Judas e as igrejas da Galácia, com as advertências de Hebreus, mostram que “cristãos verdadeiros podem cair e se perder”.
Novo nascimento e inteira santificação
A regeneração, para Lee, é a renovação da natureza caída “pelo poder do Espírito Santo, recebido pela fé em Jesus Cristo”, que liberta do domínio do pecado. Pode restar “um grau de impureza” depois da justificação, e por isso ele afirmava a inteira santificação, cujo fruto é “amar a Deus de todo o coração e andar nos seus santos mandamentos sem culpa”. Nisso está com Wesley e com a declaração de fé do Diego.
Governo moral, lei de Deus e escravidão
O que distingue Lee é ter feito da teologia uma arma contra a escravidão. Ele pensava Deus como governante moral do universo e o ser humano como ser moral, com inteligência, vontade e consciência. Se a vontade fosse regida por necessidade, argumentava, o homem não poderia pecar, assim como a água não peca ao correr. A ênfase difere um pouco da declaração de fé do Diego, que fala primeiro da vontade libertada pela graça; em Lee as duas coisas andam juntas, porque ele mesmo ensinava que o arrependimento depende do Espírito. Daí a consequência: o escravizado deve entregar a vida a Deus, mas não pode, porque ela pertence a outro homem, que lhe proíbe ler a Bíblia, reunir-se para o culto e escolher o pastor. Bastaria dar ao escravo “o simples direito de obedecer ao evangelho”, escreveu, e pouco restaria para abolir.
Em Slavery Examined in the Light of the Bible ele enfrentou os textos usados pelos defensores da escravidão. Êxodo 21:16 condena quem rouba e vende uma pessoa, e Deuteronômio 23:15-16 proíbe devolver o servo fugido. A maldição de Canaã (Gênesis 9:25-26) foi sujeição política, e não posse de pessoas. A palavra doulos serve para qualquer servo, inclusive os de Cristo, e a parceria (koinonos) que Paulo pede entre Filêmon e Onésimo é impossível entre dono e propriedade. Bastava “expulsar a escravidão da Bíblia”, tirá-la do púlpito e dos altares, e ela acharia pouco abrigo no mundo.
O mesmo raciocínio sustentou o sermão de 1853 sobre Gálatas 3:28: distinguir homens e mulheres na igreja por causa do sexo seria “praticamente riscar este texto do volume sagrado”. Lee chamava as guerras de conquista de “sistemas de assassinato no atacado”, mas defendeu John Brown, que julgava justo resistir à opressão pela força.
Obras principais
- Universalism Examined and Refuted (1836).
- The Grounds of Secession from the M. E. Church (1848).
- The Immortality of the Soul (1849).
- Woman’s Right to Preach the Gospel (sermão, 1853).
- Discussion of the Doctrine of the Trinity, com Samuel J. May (1854).
- Slavery Examined in the Light of the Bible (1855).
- Elements of Theology (1856).
- Natural Theology (1866).
- Autobiography of the Rev. Luther Lee, D.D. (1882).
- Five Sermons and a Tract by Luther Lee, org. Donald W. Dayton (1975).
Para aprofundar
- Luther Lee, Autobiography of the Rev. Luther Lee, D.D. (Nova York: Phillips & Hunt, 1882), Internet Archive.
- Luther Lee, Elements of Theology (2.ª ed., Syracuse, 1859), Internet Archive.
- William C. Kostlevy, “Luther Lee and Methodist Abolitionism”, Methodist History 20, n.º 2 (janeiro de 1982), p. 90-104.
- Laura A. Bartels, resenha de Paul Leslie Kaufman, “Logical” Luther Lee and the Methodist War Against Slavery (Scarecrow Press, 2000), Methodist History.
- Lee, Luther, verbetes do Dictionary of American Biography e da Appletons’ Cyclopaedia of American Biography, Civil War Encyclopedia.
- Wesleyan Chapel, Freedom Trail do condado de Onondaga, Nova York.
- Jane Higle, “Five Sermons and a Tract”, The Wesleyan Church.
- Angela Alvarado, “Women in ministry: a historical view”, The Wesleyan Church.
- “He was a troublemaker”, The Wesleyan Church.
- Obras de Luther Lee, The Online Books Page.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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