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Michael Green: O evangelista anglicano que estudou a evangelização da igreja primitiva
Neste texto
- Vida
- Filho de um pastor do interior
- Oxford e Cambridge
- Professor e reitor de seminário
- St Aldate’s, Oxford
- Vancouver e a Década da Evangelização
- Os últimos anos
- Pensamento
- Onde ele fica no arminianismo
- A cruz por todos e a eleição que se confirma
- O evangelho e quem o anuncia
- Diferenças com a declaração de fé do site
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
No começo de 2019, poucas semanas antes de morrer, Michael Green deu a última aula da sua vida acadêmica. O tema era o mesmo de um livro que ele publicara quase trinta anos antes: a evangelização pela igreja local. Tinha 88 anos e ainda preparava missões universitárias em Cambridge e em Lancaster. Professor de Novo Testamento, autor de mais de cinquenta livros e conselheiro de dois arcebispos, ele se descrevia como um clérigo evangélico “nas trincheiras”, que gostava de anunciar o evangelho e de ver vidas mudarem.
Vida
Filho de um pastor do interior
Edward Michael Bankes Green nasceu em 20 de agosto de 1930, em Oxfordshire, na Inglaterra, nos anos da Grande Depressão. Era filho único. O pai, galês, era clérigo de duas paróquias rurais, e a mãe era australiana. Ganhou uma bolsa de estudos para o Clifton College, em Bristol, e lá foi levado a um dos acampamentos de férias de Iwerne Minster, o ministério de E. J. H. Nash, a quem todos chamavam de “Bash”. Ainda colegial, entregou a vida a Cristo, e Nash passou a acompanhá-lo como mentor.
Oxford e Cambridge
Em Oxford, no Exeter College, Green estudou letras clássicas, o curso que os ingleses chamam de Greats, e formou-se em 1953 com a nota máxima. Presidiu a Oxford Inter-Collegiate Christian Union, a união cristã dos estudantes. Dali saiu o compromisso que nunca abandonou: anunciar o evangelho nos campi universitários.
Depois foi para o Queens’ College, em Cambridge, estudar teologia com ênfase no Novo Testamento. Formou-se de novo com a nota máxima, em 1957, e ganhou o Prêmio Carus, concedido pela universidade em Novo Testamento. Ao mesmo tempo preparou-se para a ordenação em Ridley Hall, o seminário evangélico anglicano de Cambridge. Em 1957 casou-se com Rosemary. Ficaram juntos 61 anos e tiveram quatro filhos: Tim, Sarah, Jenny e Jonathan.
Professor e reitor de seminário
Green foi ordenado diácono em 1957 e presbítero em 1958, e serviu como cura auxiliar da Holy Trinity, em Eastbourne, até 1960. Naquele ano começou a ensinar Novo Testamento no London College of Divinity, faculdade da Igreja da Inglaterra. Em julho do mesmo ano deu em Cambridge a palestra anual de Novo Testamento da Tyndale Fellowship, com o título “2 Peter Reconsidered” (2 Pedro reconsiderada). O texto enfrentava a opinião então dominante de que a segunda carta de Pedro seria uma obra tardia, escrita em nome do apóstolo, e mostrava que os argumentos contra a autoria de Pedro não eram tão firmes quanto se dizia. Mais tarde escreveu o comentário de 2 Pedro e Judas da série Tyndale (1968), revisto em 1987.
Em 1967 foi o orador mais jovem do Congresso Nacional dos Anglicanos Evangélicos. De 1968 a 1977 fez parte da Comissão de Doutrina da Igreja da Inglaterra. Em 1969 tornou-se diretor do London College of Divinity e conduziu a mudança da faculdade para Nottingham, onde ela passou a se chamar St John’s College. Ali incentivou mulheres a estudar teologia. Em 1970 Green tornou-se cônego da catedral de Coventry e publicou o livro que o tornaria conhecido no mundo inteiro, Evangelism in the Early Church (Evangelização na igreja primitiva).
St Aldate’s, Oxford
Em 1975 Green voltou a Oxford como reitor da St Aldate’s, uma igreja do centro da cidade cheia de universitários. No primeiro sermão subiu ao púlpito com as placas de “L” das autoescolas inglesas presas à sobrepeliz: era um aprendiz. O sermão anual para os calouros levava centenas de alunos ao “grupo de iniciantes”. Para quem ainda não cria, os membros abriam as casas a grupos chamados “Agnósticos Anônimos”, com jantar, objeções à fé e respostas.
A St Aldate’s daqueles anos juntava pregação evangélica e abertura à renovação carismática que se espalhava pela Inglaterra. O culto tinha línguas, profecias e oração por cura, e Green ensinava a igreja a examinar as profecias por critérios bíblicos. Ele e Rosemary viviam com simplicidade, e os direitos autorais dos livros iam para a igreja, para pagar a equipe. O bispo Steven Croft, que o ouviu pregar no seu primeiro domingo de universitário, guardou uma frase daquele sermão: “Só tenho uma vida, e quero vivê-la toda para Deus”.
Em 1977, quando um grupo de teólogos liderado por John Hick publicou The Myth of God Incarnate (O mito do Deus encarnado), Green organizou em poucos meses uma resposta, The Truth of God Incarnate (A verdade do Deus encarnado), com colaboradores como John Macquarrie e Stephen Neill, e escreveu dois capítulos.
Vancouver e a Década da Evangelização
Em 1987 Green mudou-se para o Canadá como professor de evangelização no Regent College, em Vancouver. Em Victoria, organizou com a equipe do Regent uma missão que reuniu mais de cem igrejas, com teatro, dança, perguntas e respostas e dezenas de encontros em casas e restaurantes.
A Conferência de Lambeth de 1988 chamara a década de 1990 de “Década da Evangelização”. Em 1992 o arcebispo George Carey trouxe Green de volta à Inglaterra como conselheiro de evangelização dos arcebispos de Canterbury e de York. Com o bispo Michael Marshall, ele dirigiu até 1996 a iniciativa Springboard, da Igreja da Inglaterra, dedicada à evangelização. Em 1996 recebeu de Carey o doutorado em divindade de Lambeth.
Os últimos anos
Green aposentou-se oficialmente em 1996, mas em 1997, a convite de Alister McGrath, foi para o Wycliffe Hall, em Oxford, como pesquisador sênior e responsável pela área de evangelização e apologética. Ali ajudou a fundar, no começo dos anos 2000, o Oxford Centre for Christian Apologetics. De 2005 a 2007 dividiu o pastorado da Holy Trinity, em Raleigh, na Carolina do Norte. Pregou em missões universitárias pela Europa até o fim, com a fraternidade de evangelistas universitários europeus.
Depois de um infarto, internado no hospital de Oxford, saía da cama à noite para orar com outros pacientes e lhes falar de Cristo, para desespero das enfermeiras, que queriam vê-lo em repouso. Pouco depois, reuniu num culto de louvor mais de sessenta pessoas que tinham chegado à fé ou voltado a ela naquela internação. Com os jovens evangelistas, repetia João Batista: era preciso que ele diminuísse e que eles crescessem (João 3:30). Michael Green morreu em 6 de fevereiro de 2019, no John Radcliffe Hospital, em Oxford, aos 88 anos. O manuscrito do seu último livro, Evangelism: Learning from the Past, saiu em 2023.
Pensamento
Onde ele fica no arminianismo
Green não era wesleyano, batista nem pentecostal: é um arminiano anglicano evangélico, numa igreja que abriga calvinistas e arminianos sob os mesmos Trinta e Nove Artigos. O arminianismo dele aparece na exegese, e não em tratados de controvérsia. Em 1977, o professor calvinista Herman Hanko, ao resenhar I Believe in the Holy Spirit, apontou no livro “uma ênfase arminiana”: a ideia de uma operação geral do Espírito em todas as pessoas, que as conduz a Cristo. Um guia de comentários bíblicos muito usado classifica como arminiana a sua interpretação de 2 Pedro, e a Society of Evangelical Arminians o chamou de “estudioso arminiano” quando ele morreu.
Essa operação geral do Espírito é o que a tradição arminiana chama de graça preveniente: a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança todas as pessoas, convence do pecado e torna possível crer, sem forçar ninguém (João 16:8; Tito 2:11). O ponto de partida é Deus, e a fé que recebe não acrescenta mérito. Green coloca Cristo no centro dessa obra. Para ele, Jesus é “o funil pelo qual o Espírito se torna acessível aos homens”, e o Espírito vem “marcado com a personalidade de Jesus” (I Believe in the Holy Spirit, 1975).
A cruz por todos e a eleição que se confirma
Em “2 Peter Reconsidered” (1960), Green comenta a frase de 2 Pedro 2:1 sobre os falsos mestres que negam “o Soberano Senhor que os resgatou”. Para ele, a palavra “resgatou” remete à cruz: foi pela morte de Cristo que ele nos comprou e ganhou o direito de ser obedecido como Senhor, a mesma ideia de 1 Pedro 1:18-19, em que o preço do resgate é o “precioso sangue” de Cristo. Na leitura dele, o resgate da cruz alcança até esses mestres que caminham para a perdição (2 Pedro 2:1-3). Os defensores da expiação limitada costumam ler o versículo de outro modo; Green fica com o sentido mais direto, o mesmo da teologia arminiana da expiação de alcance universal. Na mesma palestra, ele lembra que 2 Pedro 3:9 fala da vontade do Senhor de que todos cheguem ao arrependimento.
Sobre a eleição, Green observa que os leitores de Pedro são eleitos e, ao mesmo tempo, recebem a ordem de confirmar a sua vocação e eleição (2 Pedro 1:10). “Eleitos já, devem ainda assim tornar firme a sua vocação e eleição”, escreve (“2 Peter Reconsidered”, 1960). Ele vê nisso a tensão de todo o Novo Testamento entre o que o cristão já é em Cristo e o que ainda precisa vir a ser. Na leitura de Green, a eleição não dispensa a resposta do cristão: o eleito é chamado a confirmá-la vivendo a fé. Por isso as advertências de 2 Pedro são sérias: o cristão foi purificado de uma vez pelo arrependimento, pela fé e pelo batismo, e Pedro adverte os que se desviam a não esquecer o que são. Essas advertências pertencem ao mesmo terreno da perseverança condicional ensinada pelos arminianos.
Green também mostra que a graça e a santidade andam juntas sem se confundir. Os falsos mestres de 2 Pedro eram antinomianos, isto é, achavam que a liberdade cristã os dispensava da lei moral. Pedro precisou despertá-los para a santidade. Os gálatas tinham o problema oposto: confiavam tanto no próprio esforço que precisaram ouvir que a santidade só pode ser implantada pelo Espírito de Deus.
O evangelho e quem o anuncia
O centro da obra de Green é a evangelização. Ele começa pela pessoa de Cristo: “Jesus de Nazaré é a boa notícia de Deus em pessoa” (Evangelism: Learning from the Past, 2023). Numa entrevista de 1991 à Christianity Today, resumiu a pregação dos apóstolos em cinco elementos. Uma palavra, porque o evangelho é revelação de Deus, e não descoberta humana. Uma pessoa, Jesus, plenamente humano e plenamente divino. Uma necessidade, a separação entre o ser humano e Deus. Um dom, o perdão e o Espírito Santo. E um desafio: arrependimento, fé e batismo.
Em Evangelism in the Early Church, Green mostra que o cristianismo se espalhou pelo Império Romano sobretudo por “missionários informais”, cristãos comuns que falavam de Cristo onde viviam. Eles o faziam “discutindo na sinagoga e conversando na lavanderia”, e não negavam a Cristo nem para salvar a própria vida. Durante mais de 150 anos não tiveram templos (ver também como a igreja primitiva se espalhou pelo Império Romano). Para Green, o planejamento humano vinha depois: “o verdadeiro estrategista era o Espírito Santo”. E o que faltava às igrejas não era técnica: “A metodologia não é o problema. A motivação é a chave” (Christianity Today, 1991). Daí a insistência na igreja local como lugar normal da evangelização.
A apologética, a defesa racional da fé, ocupou boa parte dos seus livros, de Runaway World (1968) a Jesus for Sceptics (2013). Ainda assim ele a queria a serviço do anúncio: ela deve ser “a serva da evangelização, o degrau para a fé”. O conselho que dava aos evangelistas era manter “um pé na Bíblia e o outro na cultura”, mudando a linguagem sem mudar a mensagem.
Em Evangelism: Learning from the Past, Green deu lugar a John Wesley e George Whitefield, ao avivamento galês e às campanhas de Dwight L. Moody e Billy Graham. Também defendeu Calvino contra a acusação de desinteresse pela missão, lembrando os pastores enviados de Genebra para a França. Era um arminiano sem espírito de partido.
Diferenças com a declaração de fé do site
Como anglicano, Green defendia o batismo de crianças, como sinal da aliança entre a graça de Deus e a resposta humana, e insistia que o batismo não substitui a fé salvadora (Baptism, 1987). A declaração de fé do site entende que o batismo segue a conversão, como testemunho público da fé. Na graça que vem antes, na cruz por todos e na eleição que se confirma na fé, Green está ao lado de Jacó Armínio e de outro estudioso britânico do Novo Testamento, I. Howard Marshall.
Obras principais
- Man Alive (1967)
- Runaway World (1968)
- The Second Epistle General of Peter and the General Epistle of Jude (Tyndale New Testament Commentaries, 1968; 2.ª edição, 1987)
- Evangelism in the Early Church (1970; edição revista, 2004)
- I Believe in the Holy Spirit (1975)
- The Truth of God Incarnate (organizador, 1977)
- The Empty Cross of Jesus (1984)
- Baptism: Its Purpose, Practice and Power (1987)
- Evangelism Through the Local Church (1990)
- Springboard for Faith, com Alister McGrath (1993)
- Adventure of Faith: Reflections on 50 Years of Christian Service (2001), autobiografia
- Jesus for Sceptics (2013)
- Evangelism: Learning from the Past (2023, póstumo)
Livros em português
- Evangelização na igreja primitiva (Vida Nova). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- 2 Pedro e Judas: introdução e comentário (Vida Nova, Série Cultura Bíblica). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- E. M. B. Green, “2 Peter Reconsidered”, The Tyndale New Testament Lecture, 1960.
- Alister McGrath, “Michael Green Taught Me the Importance of Evangelism”, Christianity Today, 12 de fevereiro de 2019.
- Timothy Jones, “Take It to the Streets”, entrevista com Michael Green, Christianity Today, 16 de dezembro de 1991.
- Carrie Boren Headington, “Evangelist Michael Green: 1930-2019”, Diocese Episcopal de Dallas.
- Diocese de Oxford, “Rev Canon Dr Michael Green”.
- Evangelicals Now, “Michael Green 1930-2019”, março de 2019.
- Ian Paul, “Remembering Michael Green”, Psephizo.
- Evangelical Focus, “Evangelist Michael Green dies (1930-2019)”.
- Herman Hanko, “Book Reviews: I Believe in the Holy Spirit”, The Standard Bearer, 15 de outubro de 1977.
- Susan Booth, “Review of Evangelism: Learning from the Past”, Canadian Baptist Theological Seminary and College.
- Justin Ariel Bailey, “Michael Green, Evangelism: Learning from the Past”, Christianity Today, 2023.
- Carlus Gupton, “Green, Evangelism in the Early Church”, Life and Leadership.
- Society of Evangelical Arminians, “Alister McGrath’s Tribute to the Late Arminian Scholar Michael Green”.
- “Evangelism in the Early Church: Recommended Resources”, Christian History, número “Converting the Empire: Early Church Evangelism”.
- “Michael Green (theologian)”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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