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Eugene E. Carpenter: o hebraísta de Bethel que organizou o Comentário Bíblico Asbury

Diego Gonçalves12 min de leitura2.437 palavras

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Neste texto

Numa tarde, no gabinete de Eugene Carpenter no Bethel College, em Mishawaka, Indiana, uma aluna do mestrado em ministério lhe fez uma pergunta sobre o Shemá, o texto de Deuteronômio 6:4-9 que Israel recitava todos os dias: o que quer dizer amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todas as forças? O professor, que lia sete línguas, respondeu com três palavras: “Deus quer tudo”. Joan McClendon, a aluna, contou a cena dias depois da morte dele, em julho de 2012, e concluiu que aquele homem tinha dado tudo, a Deus e às pessoas ao seu redor. Carpenter foi um estudioso do Antigo Testamento de primeira linha, um dos tradutores de Êxodo na New Living Translation, organizador do primeiro comentário wesleyano evangélico da Bíblia inteira num só volume e, durante 26 anos, professor de uma pequena faculdade da Igreja Missionária.

Vida

Da Virgínia Ocidental a Bethel

Eugene E. Carpenter nasceu em 2 de fevereiro de 1943, em Spencer, na Virgínia Ocidental, filho de Ralph e Gertrude (Marks) Carpenter. Em 1964 casou-se com Joyce, que seria a companheira de toda a vida. Ela também estudou em Bethel, formou-se em artes, trabalhou como ceramista e, por seis anos, ensinou cerâmica na faculdade em que o marido lecionava.

O Bethel College foi aberto em 1947 pelos Irmãos Menonitas em Cristo, menonitas que no fim do século XIX abraçaram o pietismo e os avivamentos e foram expulsos das conferências tradicionais. Em 1969 esse grupo se uniu à Associação da Igreja Missionária para formar a Igreja Missionária. A própria Bethel descreve essa herança como anabatista, marcada pelo pietismo e pelos movimentos de santidade wesleyano e de Keswick, com uma inclinação teológica wesleyana-arminiana. Carpenter formou-se em 1970, com bacharelado em literatura bíblica e literatura inglesa e um curso secundário de grego.

Seminário menonita e Fuller

O passo seguinte foram os Associated Mennonite Biblical Seminaries, em Elkhart, a poucos quilômetros de Mishawaka, o seminário das igrejas menonitas, onde concluiu o mestrado em divindade em 1973. Ali Carpenter estudou na tradição de Menno Simons, a mesma de onde vinha a sua igreja. Depois foi para o Fuller Theological Seminary, na Califórnia, onde fez o doutorado em Antigo Testamento e estudos semíticos, concluído em 1979. O colega Terry Linhart contava que Carpenter conhecia sete línguas e digitava com facilidade em quatro delas.

Professor e pastor

Além da carreira acadêmica, Carpenter serviu na igreja local como diretor de ministério com jovens, pastor auxiliar e pastor titular. Fez trabalho missionário na República Dominicana e, ao longo da vida, deu aulas de escola dominical em igrejas de várias denominações. Era membro da St. Mark Missionary Church, em Mishawaka.

Ensinou no Wheaton College e na sua escola de pós-graduação, no Asbury Theological Seminary, nos Associated Mennonite Biblical Seminaries, em Fuller e no Lexington Theological Seminary, no Kentucky. Organizou também o volume de estudos em homenagem a George W. Coats, professor de Antigo Testamento do Lexington e especialista nas narrativas de Moisés, A Biblical Itinerary (1997), publicado na série de suplementos do Journal for the Study of the Old Testament.

Em Bethel lecionou por 26 anos. Foi chefe do departamento de religião e filosofia, diretor dos estudos de pós-graduação e, nos últimos anos, professor residente (scholar-in-residence) e diretor dos programas de mestrado em ministério e em estudos teológicos. Levou turmas várias vezes ao Jerusalem University College, em Israel. Linhart, saudado em hebraico na entrevista de emprego, disse que não guardava de Carpenter “um único momento de correção”, só um empurrão constante para o caminho melhor. O filósofo Chad Meister, colega de departamento, o chamou de “um estudioso de nível mundial, um professor amado e um amigo fiel”.

Fora da sala de aula, levantava peso, fazia marcenaria e pescava, muitas vezes com Joyce, nas montanhas Smoky, no Tennessee. No funeral, Linhart observou que o amor dele pela esposa dizia mais sobre o seu caráter do que toda a sua obra publicada.

A obra escrita

Carpenter fez parte da equipe da New Living Translation, a versão da Tyndale House preparada por cerca de noventa estudiosos, e foi um dos três especialistas responsáveis por Êxodo, ao lado de Robert Bergen e de Daniel I. Block, tradutor-chefe do Pentateuco. Ao todo publicou nove traduções de livros bíblicos, entre elas as de Êxodo e Números, e preparou ainda uma tradução de Ezequiel para a Lexham English Bible.

Em 1986 e 1987 publicou no Asbury Theological Journal dois artigos sobre o Pentateuco, um deles sobre Deuteronômio 1:6-46, o relato em que Israel desconfia do Senhor e se recusa a entrar na terra. Em 1992 organizou com Wayne McCown o Asbury Bible Commentary, publicado pela Zondervan, com a colaboração de quase cinquenta estudiosos wesleyanos. Era o primeiro comentário evangélico wesleyano da Bíblia inteira num só volume, uma geração depois do Comentário Bíblico Wesleyano em sete volumes organizado por Charles W. Carter. Os artigos introdutórios do volume reafirmam a visão wesleyana histórica da inspiração e da autoridade das Escrituras.

Para quem não lê hebraico, explicou duzentas palavras-chave do Antigo Testamento no Holman Treasury of Key Bible Words (2000), com Philip W. Comfort, e organizou com Warren Baker The Complete Word Study Dictionary: Old Testament (2003). Contribuiu também para a Wesley Study Bible (2009).

Nos últimos anos vieram os comentários: Deuteronômio no Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Commentary (2009), organizado por John H. Walton, e Daniel no volume 9 do Cornerstone Biblical Commentary (2010), da Tyndale. A obra maior foi o comentário de Êxodo para a série Evangelical Exegetical Commentary, trabalho de quase duas décadas, com tradução própria, notas sobre o hebraico, teologia bíblica e aplicação. Saiu em edição digital em 2012 e depois em dois volumes impressos, Exodus 1-18 e Exodus 19-40.

Kirk Lake

Em 2 de julho de 2012, uma segunda-feira, Carpenter saiu sozinho para pescar em Kirk Lake, no condado de Cass, no sudoeste de Michigan. Ao pôr o barco na água, o barco se soltou e começou a se afastar. Nadou atrás dele e se afogou. Tinha 69 anos. O funeral foi celebrado no campus de Bethel em 7 de julho. O presidente da faculdade, Steven R. Cramer, comparou-o a um grande carvalho que ninguém esperava ver cair.

Pensamento

Um biblista wesleyano

Carpenter foi biblista, e não teólogo sistemático. A sua teologia aparece na exegese, nas traduções e nos projetos que escolheu. Pela classificação desta série, ele é wesleyano, da tradição de santidade: membro da Igreja Missionária, cuja herança Bethel define como wesleyana-arminiana; organizador do Asbury Bible Commentary, o comentário que reuniu os biblistas wesleyanos da sua geração; colaborador da Wesley Study Bible; professor do Asbury Theological Seminary, um dos principais seminários do movimento de santidade.

O arminianismo wesleyano afirma que ninguém, por si mesmo, pode voltar-se para Deus, e que a salvação começa pela graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança todas as pessoas e as torna capazes de crer, sem forçá-las. Deus é soberano e conhece todo o futuro, e a resposta humana continua real. Os textos de Carpenter mostram esse modo de ler as Escrituras: um Deus que governa a história inteira e, dentro dela, chama o seu povo ao arrependimento, à fé e à fidelidade.

A soberania que governa a história

No comentário de Daniel, Carpenter lê o livro a partir de uma convicção: quem conduz a história é o Senhor. Ao comentar Daniel 1:1-2, observa que Nabucodonosor cercou Jerusalém e venceu, mas que foi o “Senhor de tudo” (a forma como ele traduz o título ‘Adonay em Daniel) quem lhe deu a vitória, e não o próprio rei nem os seus deuses. O rei se julgava senhor do seu destino e construtor do seu império, e era, “sem perceber, o servo do Senhor” (Daniel, 2010), como Jeremias 25:9 já o chamava. O exílio, para Carpenter, foi um ato soberano de Deus, anunciado na Lei e nos Profetas, por causa da desobediência de Judá.

Essa soberania, porém, não dispensa a resposta humana. Carpenter escreve que o livro de Daniel mostra a ligação entre a disposição soberana de Deus de livrar o seu povo e o caráter moral e religioso que o Senhor espera desse povo. O livro era a promessa de que havia futuro para Israel “se se arrependessem” (Daniel, 2010), e a oração de Daniel 9 é o modelo dessa resposta: Daniel reconhece que a desolação de Jerusalém veio do seu pecado e do pecado do povo, e pede que Deus aja por amor do seu nome. Carpenter insiste que as orações de Daniel “fizeram diferença” e que Deus se comoveu com a humildade dele. Ao mesmo tempo, o herói do livro continua sendo Deus: “por trás de Daniel está o verdadeiro herói do livro, o Deus de Daniel” (Daniel, 2010).

Profecia, autoria e confiança no texto

Carpenter defendia a data antiga de Daniel. Para ele, o profeta escreveu boa parte do livro, sobretudo as visões dos capítulos 7 a 12, e um contemporâneo seu, no começo do período persa, reuniu o material na forma final, inspirado pelo mesmo Espírito, de modo que Deus é o autor último do livro. O aramaico de sintaxe oriental e o retrato benevolente dos reis babilônicos e persas apontam, para ele, para a Mesopotâmia, e não para a Judeia dos macabeus no século II a.C. Também argumenta que não existe critério seguro para declarar uma profecia “específica demais” para ter sido escrita antes dos fatos. E recusa a ideia de que um profeta inspirado tenha escrito sob nome falso: a pseudonímia e as falsas pretensões teológicas, diz ele, não combinam com a integridade exigida de um profeta de Deus.

Ainda assim, aceitava a data antiga sem desprezar John Collins, F. F. Bruce, John Goldingay e Ernest Lucas, que datam Daniel na época de Antíoco Epífanes, e chama as contribuições deles de “inestimáveis” (Daniel, 2010). No comentário de Êxodo, a mesma postura conservadora o leva a afirmar que Moisés foi “muito provavelmente o autor-editor inspirado central” do Pentateuco e, portanto, de Êxodo. A confiança dele no texto bíblico coincide com a declaração de fé deste site, que crê que os escritos originais foram preservados de erro pela inspiração do Espírito Santo.

Êxodo: Deus toma um povo e habita no meio dele

O comentário de Êxodo resume o livro numa frase: o Senhor toma para si um povo e habita no meio dele como o seu Deus. É o Deus que fala e age para libertar um povo oprimido, e que cumpre em Êxodo as promessas feitas aos patriarcas. Carpenter acompanha esse tema pelo texto hebraico e mostra como as ideias centrais do livro continuam no resto da Bíblia. Entre os excursos, notas que tratam de questões difíceis fora do comentário corrido, estão a historicidade de Moisés, a data do êxodo e o endurecimento do coração do faraó.

No comentário de Daniel ele liga as duas histórias: assim como o faraó educou Moisés, que depois humilhou os deuses do Egito, Nabucodonosor educou Daniel, a quem o Senhor usaria para anunciar um êxodo maior e final (Daniel 9:24-27; 12:1-3). Diante da catástrofe do exílio, Carpenter pergunta se algo de bom poderia sair dela, e a resposta de Deus, escreve ele, é um sonoro sim (Isaías 43:18).

A vida diante de Deus

Para Carpenter, Daniel é modelo de estabilidade espiritual para todas as épocas: sábio, prudente, fiel, homem de oração que cumpriu Miqueias 6:8, praticando a justiça, amando a misericórdia e andando humildemente com o seu Deus. A sabedoria de Daniel vem da oração humilde, e não das técnicas de adivinhação que ele estudou na Babilônia. E é profeta quando manda Nabucodonosor deixar os seus pecados e cuidar dos pobres (Daniel 4:27).

É a mesma ligação entre fé e vida que a tradição wesleyana chama de santidade de coração e de vida: a graça que perdoa também transforma e produz um povo santo, que ama a Deus e ao próximo. A resposta dada à aluna sobre o Shemá resume essa teologia: o amor que Deus pede é inteiro.

Obras principais

  • “Recent Pentateuchal Studies”, Asbury Theological Journal 41 (1986).
  • “Literary Structure and Unbelief: A Study of Deuteronomy 1:6-46”, Asbury Theological Journal 42 (1987).
  • Asbury Bible Commentary (Zondervan, 1992), organizado com Wayne McCown.
  • A Biblical Itinerary: In Search of Method, Form and Content. Essays in Honor of George W. Coats (Sheffield Academic Press, 1997), organizador.
  • Holman Treasury of Key Bible Words: 200 Greek and 200 Hebrew Words Defined and Explained (Broadman & Holman, 2000), com Philip W. Comfort.
  • The Complete Word Study Dictionary: Old Testament (AMG, 2003), com Warren Baker.
  • “Deuteronomy”, em Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Commentary, vol. 1 (Zondervan, 2009).
  • Colaboração na Wesley Study Bible (Abingdon, 2009).
  • “Daniel”, em Cornerstone Biblical Commentary, vol. 9: Ezekiel, Daniel (Tyndale, 2010).
  • Exodus, Evangelical Exegetical Commentary (Lexham; edição digital de 2012, depois em dois volumes impressos: Exodus 1-18 e Exodus 19-40).
  • Tradução de Êxodo e de outros livros para a New Living Translation e de Ezequiel para a Lexham English Bible.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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