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Gordon Rupp: o pregador metodista que defendeu Lutero e o otimismo da graça

Diego Gonçalves12 min de leitura2.399 palavras

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Neste texto

Em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial, circulava na Inglaterra um panfleto de grande tiragem com um título que dizia tudo: Martinho Lutero, o ancestral espiritual de Hitler. O autor, o professor de escola Peter F. Wiener, reunia frases soltas do reformador para provar a tese, num tempo em que tudo o que era alemão estava sob suspeita. Quem respondeu foi um pastor metodista de 35 anos, do circuito de Chislehurst, no sudeste de Londres. Num livreto fino, impresso no papel racionado da guerra, Martin Luther: Hitler’s Cause or Cure? (Lutero: causa ou cura de Hitler?), ele comparou Wiener ao vendedor de remédio milagroso na feira, que sabe que a confiança e a voz alta fazem maravilhas porque “a maioria dos fregueses nunca vai submeter a mercadoria a uma análise química”. Um apêndice chamado “A arte da citação seletiva” mostrou, frase por frase, como as fontes tinham sido cortadas. Da noite para o dia, Ernest Gordon Rupp passou a ser conhecido como estudioso da Reforma.

Vida

De Islington a Basileia

Gordon Rupp nasceu em Londres em 7 de janeiro de 1910, filho de John Henry e Sarah Rupp. Estudou na Owen’s School, em Islington, e trabalhou no comércio e num banco antes de entrar no King’s College de Londres para estudar história com Norman Sykes, historiador da igreja inglesa do século XVIII. Pretendia ser professor e passou também pelo Instituto de Educação de Londres. O chamado ao ministério nasceu da experiência como pregador leigo metodista, e a pregação de Donald Soper pesou nessa decisão.

Foi aceito para o ministério em 1934 e estudou no Wesley House, o seminário metodista de Cambridge, onde se formou em teologia com nota de primeira classe. Ali ensinavam Maldwyn Hughes e R. Newton Flew, e foi a Flew que Rupp sempre atribuiu o rumo dos seus estudos para a Reforma. Com uma bolsa Finch passou um ano em Estrasburgo e em Basileia, onde ensinava Karl Barth. Ele mesmo contou que foi na sala de aula de Barth que a palavra “protestantismo” ganhou vida para ele.

Pastor em Chislehurst

Em 1938 casou-se com Marjorie Edith Hibbard, com quem teve um filho, Martin, e assumiu o circuito de Chislehurst, em Kent, onde foi pastor até 1946. Ali escreveu os primeiros artigos sobre Lutero. Em 1942, na revista Theology, desmontou o retrato que o dominicano Heinrich Denifle fizera de Lutero como mentiroso e palhaço. O livreto de 1945 continuou esse trabalho.

Em 1946 voltou ao Wesley House como assistente de Flew, então presidente da Conferência Metodista. Logo depois da guerra, foi com o bispo anglicano George Bell num grupo do nascente Conselho Mundial de Igrejas que viajou à Alemanha para reatar os laços com os luteranos alemães. A destruição que viu nas cidades nunca saiu da sua memória.

A Reforma segundo Rupp

Em 1947 começou a ensinar história da igreja no Richmond College, em Londres, seminário metodista onde ficou até 1952. No mesmo ano, o historiador G. M. Trevelyan, diretor do Trinity College, e os seus colegas o convidaram para dar em Cambridge as Birkbeck Lectures sobre Lutero. A universidade passou a falar da “Reforma segundo Rupp”. As aulas eram cheias de humor, mas o historiador Herbert Butterfield notou que elas levavam o ouvinte “por túneis mais escuros” das angústias de Lutero.

Ainda em 1947 saiu Studies in the Making of the English Protestant Tradition, sobre o reinado de Henrique VIII. Contra quem explicava a Reforma inglesa só pela cobiça do rei e da nobreza, Rupp mostrou o peso da convicção religiosa e contou a história de reformadores menores de Cambridge, como Thomas Bilney, John Frith e Robert Barnes. Vieram depois Luther’s Progress to the Diet of Worms (1951), sobre o caminho de Lutero até a Dieta de Worms, e The Righteousness of God (1953), a versão ampliada das conferências de Cambridge. O próprio Rupp, com modéstia, dizia que o livro apenas apresentava o grande estudioso alemão Karl Holl a quem não sabia alemão.

De 1952 a 1956 lecionou teologia na Universidade de Cambridge, e em 1955 recebeu o doutorado em teologia.

Manchester

Em 1956 a Universidade de Manchester criou a primeira cadeira de história eclesiástica e o chamou para ocupá-la. Ficou doze anos. Escreveu por vários anos artigos mensais para o Manchester Guardian. Desse tempo são Six Makers of English Religion (1957), Protestant Catholicity (1960) e um estudo de 1966 sobre Thomas Müntzer, o radical que Lutero combateu e que Rupp tratou com uma simpatia nova.

Ao bispo John Robinson, autor de Honest to God, que anunciava uma “nova reforma”, Rupp respondeu em The Old Reformation and the New (1967), com ironia, que, para ser comparado a Lutero, Robinson teria de ser destituído e condenado por alta traição, traduzir a Bíblia, compor um hinário e deixar uns cem volumes in-fólio que ocupassem os estudiosos do mundo inteiro quatrocentos anos depois.

Cambridge, a Conferência e a unidade

Em 1967 voltou ao Wesley House como diretor e, no ano seguinte, foi eleito para a cátedra Dixie de história eclesiástica da Universidade de Cambridge, a primeira vez que ela foi dada a alguém de fora da Igreja da Inglaterra. Em junho de 1968, no Central Hall de Westminster, a Conferência Metodista o elegeu presidente. Usou o ano de presidência para defender o plano de união entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja Metodista. Quando o plano fracassou por pouco nas votações anglicanas, a tristeza dele foi visível.

A resposta veio em escala menor. Com Peter Walker, diretor do seminário anglicano Westcott House, Rupp aproximou as duas casas, e em 1972, com a entrada de Ridley Hall, nasceu a Federação dos Seminários Teológicos de Cambridge. No culto de abertura, presidido pelo arcebispo Michael Ramsey, foi ele quem pregou. Foi membro do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas e observador metodista no Concílio Vaticano II. Em 1970, pregando na Catedral católica de Westminster, disse ser ao mesmo tempo homem de William Tyndale e de Thomas More, o tradutor da Bíblia queimado como herege e o chanceler que morreu fiel a Roma.

Em 1970 foi eleito membro da Academia Britânica. Com Rupert Davies, planejou a History of the Methodist Church in Great Britain, para a qual escreveu o ensaio de abertura do primeiro volume (1965), e trabalhou nela com A. Raymond George até o fim. Deixou o Wesley House em 1974 e a cátedra em 1977. Em 1975 os alunos e colegas lhe dedicaram o livro de homenagem Christian Spirituality, organizado pelo seu discípulo Peter Brooks.

Os últimos anos

Na aposentadoria publicou Just Men (1977) e Thomas More: The King’s Good Servant (1978). Nos anos de Cambridge pregava todo mês numa pequena congregação de Barnwell, bairro pobre da cidade. Em 1983 escreveu sobre Lutero e os judeus, chamou de “terrível” o tratado tardio do reformador e propôs que judeus e cristãos examinassem juntos, com arrependimento, o chamado de Deus.

O último grande livro, Religion in England, 1688-1791, chegou às mãos dele poucas semanas antes da morte. Gordon Rupp morreu em Cambridge em 19 de dezembro de 1986. Na lápide, no cemitério municipal da cidade, abaixo do nome e dos títulos, há só duas palavras: “Methodist Preacher”, pregador metodista.

Pensamento

Classe: wesleyano. Rupp foi ministro da Igreja Metodista da Grã-Bretanha a vida inteira e se dizia “discípulo de John e Charles Wesley”. O amigo A. Raymond George o descreveu como “um metodista essencialmente”, um “wesleyano da linha alta” que venerava John Scott Lidgett como Lidgett venerara W. B. Pope. Ele estudou Lutero com admiração, mas por dentro da tradição wesleyana: no próprio livro sobre a teologia de Lutero, confessou achar A escravidão da vontade, a resposta de Lutero a Erasmo, “muito exasperante”.

Lutero lido por dentro

O centro do trabalho de Rupp sobre Lutero foi a experiência espiritual. Ele mostrou que a doutrina de Lutero sobre fé, Lei e evangelho e justificação nasceu da pergunta sobre como a pessoa está diante de Deus, e por isso deu tanto espaço às Anfechtungen, as provações e angústias interiores do reformador. A descoberta de Lutero, nas aulas sobre os Salmos, foi ver “a intervenção salvadora de um Deus misericordioso, mostrada em Jesus Cristo e dada gratuitamente aos pecadores”. Contra quem dizia que, para Lutero, o justificado simplesmente continua no pecado, Rupp encontrou nele a volta constante à ideia de “movimento e crescimento na vida cristã” (Luther’s Progress, 1951). E insistiu que a fé, para Lutero como para o Novo Testamento, não é uma virtude numa lista, mas “toda uma dimensão da experiência cristã”.

Pecado total, graça total

A fórmula mais conhecida de Rupp saiu de uma conferência na Conferência Metodista Mundial de Oxford, em 1951, publicada em Methodism in Relation to Protestant Tradition (1954). Ele disse que a espiritualidade wesleyana manteve “o diagnóstico bíblico e protestante da profundidade da nossa tragédia humana, que só percebemos quando nos confrontamos com a justiça de Deus”. Mas contra o “pecado total” pôs a “graça total”, e respirou “um otimismo da graça que mudou todo o clima da cristandade inglesa”.

A ideia resume o arminianismo wesleyano. A natureza humana caída não tem força nenhuma para se salvar: algumas formas modernas de proclamar a independência humana diante de Deus eram, para Rupp, quase exatamente o que Lutero entendia por pecado original. Toda a esperança está na graça de Deus, que pode transformar de verdade. O teólogo wesleyano Clarence Bence tomou de Rupp a expressão “otimismo da graça” para resumir a posição de Wesley. Numa conferência sobre a paz, em 1965, Rupp disse a mesma coisa em linguagem de reconciliação: na história de Jesus de Nazaré, “a separação entre Deus e o homem foi reparada do lado da parte inocente, que tomou a iniciativa e suportou a dor” (Dilemmas of Peacemaking, 1965). A iniciativa é de Deus, do começo ao fim.

A perfeição cristã

Rupp levou a sério a doutrina que Wesley chamava de grande depósito dos metodistas. Numa conferência de 1982 na Capela de Wesley, em Londres, mostrou que a dívida de Wesley para com William Law, autor de Um chamado sério a uma vida devota e santa, na formação da doutrina da perfeição cristã foi “profunda e permanente”: onde havia conformismo com a mediocridade, Law pedia perfeição. No último livro, lembrou que Wesley fechou a sua exposição da perfeição com a oração anglicana que pede a Deus que purifique o coração pelo Espírito Santo, para que o amemos perfeitamente, e comentou que, diante dessas palavras, “seria blasfêmia supor que elas não significam nada” (Religion in England, 1986). Para Rupp, a perfeição cristã é o amor perfeito que Deus mesmo opera no coração, como o site também afirma na doutrina da inteira santificação.

A Ceia e o espanto

Num simpósio de 1947 sobre a Santa Ceia, Rupp lembrou que Wesley mudou de opinião em muitas coisas, mas nunca no dever da comunhão constante, e que para Wesley a Ceia era ordenança que converte e também que confirma. Ficou indignado com um metodista que, ao sair de uma grande celebração de Páscoa, comentou que tinham tido “um culto bonitinho”. Queria devolver aos metodistas o espanto dos hinos de Charles Wesley diante da Mesa. Aqui há uma diferença com a declaração de fé do site, que entende a Ceia como memorial da morte de Cristo: Rupp, com Wesley, via nela também um meio pelo qual Deus pode converter quem se aproxima.

A história como memória do povo de Deus

Como historiador, Rupp pedia imaginação e ceticismo ao mesmo tempo: sem ceticismo a imaginação vira romantismo, e sem imaginação a história fica “desidratada”. A razão era espiritual: o povo de Deus é “um povo que se lembra”, e as igrejas de todas as gerações são contemporâneas de Deus em Cristo e, por isso, umas das outras. Daí não querer a história do cristianismo presa à Europa e se alegrar com os estudos de cristãos da África e da Índia sobre o próprio passado.

Teologicamente, era conservador. Peter Brooks lembrou que ele detestava o liberalismo, ficou a vida inteira do lado da ortodoxia e lamentava a ênfase num evangelho social pregado fora de contexto, como fim em si mesmo. O ecumenismo dele partia dessa firmeza. O título de um dos seus livros, Protestant Catholicity (1960), resume a posição: protestante e reformado por convicção, ele se sabia parte da igreja universal, a igreja de todos os tempos e lugares.

Obras principais

  • Martin Luther: Hitler’s Cause or Cure? (Lutterworth, 1945).
  • Studies in the Making of the English Protestant Tradition (Cambridge University Press, 1947).
  • Luther’s Progress to the Diet of Worms, 1521 (SCM, 1951).
  • The Righteousness of God: Luther Studies (Hodder & Stoughton, 1953).
  • Methodism in Relation to Protestant Tradition (Epworth, 1954).
  • Six Makers of English Religion, 1500-1700 (Hodder & Stoughton, 1957).
  • Protestant Catholicity (Epworth, 1960).
  • A History of the Methodist Church in Great Britain, vols. 1 a 4 (Epworth, 1965-1988), editada com Rupert Davies e A. Raymond George.
  • The Old Reformation and the New (Epworth, 1967).
  • Patterns of Reformation (Epworth, 1969).
  • Luther and Erasmus: Free Will and Salvation (Westminster, 1969), com A. N. Marlow, Philip S. Watson e B. Drewery.
  • Religion in England, 1688-1791 (Clarendon Press, 1986).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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