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Fisher Humphreys: o teólogo batista que leu a Bíblia a partir de João 3:16
Neste texto
Na tarde de 19 de outubro de 1987, quase trezentas pessoas lotaram a capela do New Orleans Baptist Theological Seminary, na Louisiana. No palco havia duas mesas dobráveis. Numa sentava Fisher Humphreys, professor de teologia da casa; na outra, Paige Patterson, um dos líderes da ala conservadora que disputava o controle da Convenção Batista do Sul. O assunto era a cruz. Sete anos antes, Patterson tinha posto o nome de Humphreys numa lista de teólogos cuja fidelidade à Bíblia ele punha em dúvida, por causa de três frases do livro The Death of Christ (“A morte de Cristo”, 1978). Humphreys mesmo propôs o debate, e explicou ao público por que tinha vindo: queria esclarecer o que pensava e dar “uma pequena contribuição para a paz” no canto da convenção em que vivia.
Vida
Formação
Fisher Humphreys nasceu em 1939. Formou-se no Mississippi College, fez mestrado na Universidade Loyola e o bacharelado em divindade no New Orleans Baptist Theological Seminary, um dos seminários da Convenção Batista do Sul. Depois atravessou o Atlântico para a pós-graduação na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Em 1967 voltou a Nova Orleans para o doutorado em teologia (Th.D.), concluído em 1972 com a tese God in the Theology of Leonard Hodgson (“Deus na teologia de Leonard Hodgson”), sobre o teólogo anglicano que foi professor régio de teologia em Oxford. Hodgson ficou com ele por toda a vida: anos depois, Humphreys ainda o citava para dizer que não devemos impor a Deus uma ideia prévia de soberania, mas aprender da revelação o que a soberania significa para ele.
Vinte anos em Nova Orleans
Em 1970 Humphreys entrou para o corpo docente do seminário de Nova Orleans como professor de teologia cristã, e ali ficou até 1990. Editou a revista do seminário, The Theological Educator, e foi pastor de igrejas no Mississippi, no Alabama e em Illinois. Em 1974 publicou pela Insight Press, pequena editora de que é sócio, Thinking About God: An Introduction to Christian Theology (“Pensando sobre Deus: introdução à teologia cristã”), que se tornou livro-texto de introdução à teologia em seminários e faculdades e chegou à terceira edição. Vieram depois, entre outros, The Death of Christ (Broadman, 1978) e The Nature of God (Broadman, 1985), traduzido para o espanhol pela Casa Bautista de Publicaciones.
A controvérsia da cruz
The Death of Christ pôs Humphreys no centro da crise que dividiu a Convenção Batista do Sul entre 1979 e 2000. Em abril de 1980, o jornal Baptist Standard pediu a Paige Patterson os nomes dos professores que, segundo ele, negavam a confiabilidade da Bíblia. Patterson respondeu com o ensaio “A Reply of Concern”, uma lista de sete teólogos; Humphreys era o quarto. Ele reagiu na imprensa acusando Patterson de enganar os batistas do Sul. Em 1982 Patterson voltou ao livro no seu comentário a 1 Pedro, e em 1985 Adrian Rogers, um dos líderes da ala conservadora, citou as mesmas frases num sermão sobre Judas 11, sem dizer o nome do autor. Em abril daquele ano Rogers telefonou a Humphreys para conferir se o tinha entendido bem e, depois da conversa, reconheceu que o havia representado mal.
No debate de 1987, conduzido por Paul Robertson, colega de seminário que anos depois escreveria um livro com ele, Humphreys mostrou que as três frases tinham sido tiradas do contexto. A diferença real apareceu no diálogo: Patterson via a substituição penal como o motivo central da expiação, e Humphreys a via como um dos vários modelos bíblicos, presente em Isaías 53 e em Gálatas 3, mas não em todos os textos sobre a cruz. Quando Patterson insistiu em perguntar por que Deus escolheu o sacrifício, Humphreys respondeu: “Acho que ele o escolheu porque nos ama.”
Beeson e os anos de aposentadoria
Em 1990 Humphreys mudou-se para Birmingham, no Alabama, e passou a ensinar teologia na Beeson Divinity School, da Universidade Samford, até se aposentar em 2008. O interesse principal da pesquisa dele nesses anos foi a doutrina da Trindade. Escreveu The Way We Were: How Southern Baptist Theology Has Changed and What It Means to Us All (1994), sobre o lado teológico da controvérsia batista, e, com Paul Robertson, God So Loved the World: Traditional Baptists and Calvinism (“Deus amou o mundo de tal maneira: os batistas tradicionais e o calvinismo”, Insight Press, 2000). Em janeiro de 2002 falou no campus de Atlanta da Universidade Mercer sobre “Os batistas tradicionais e a teologia do calvinismo”.
Na primavera de 2008, ao se aposentar, recebeu o volume de ensaios Theology in the Service of the Church (“Teologia a serviço da igreja”), organizado por Timothy George, deão fundador de Beeson, e Eric F. Mason, e publicado pela Mercer University Press. George resumiu o homenageado dizendo que ele uniu, no ensino e nos livros, a teologia da igreja, o evangelho e a Trindade.
Aposentado, foi pregador interino da Primeira Igreja Batista de Auburn, no Alabama, em 2012 e 2013, tornou-se estudioso residente da igreja episcopal St. Mary’s-on-the-Highlands, em Birmingham, e passou a presidir o conselho da revista Christian Ethics Today, onde também publica resenhas. Em outubro de 2018 voltou a Samford para as Holley-Hull Lectures, três palestras sobre “Os propósitos de Deus”. Em 2022, aos 83 anos, publicou pela Insight Press A Personal History, memórias escritas para a família e os amigos.
Pensamento
Um batista tradicional diante do calvinismo
Classe: simpatizante. Humphreys fala como batista do Sul, e não como discípulo declarado de Armínio. Ele se chama de “batista tradicional”, expressão com que designa os batistas do Sul que não são calvinistas, e rejeita a predestinação calvinista no ponto que considera decisivo: Deus não decretou que um grupo de pessoas se perca. Com isso afirma a vontade salvadora universal de Deus, a eleição em Cristo, a eleição segundo a presciência e a expiação por todos, posições que coincidem com o arminianismo. Ele mesmo apresenta essa recusa do calvinismo como herança dos primeiros batistas ingleses, que não eram calvinistas, e cita com aprovação John Wesley.
O amor de Deus como chave de leitura
O texto em que Humphreys expõe o método com mais clareza é o ensaio “Calvinism and the Bible” (“O calvinismo e a Bíblia”), publicado pelo Centro de Estudos Batistas da Universidade Mercer. Ele começa com uma concessão: Calvino e os calvinistas creem no que creem porque acham que a Escritura o ensina, e o mesmo vale para os batistas tradicionais. Nenhum autor bíblico escreveu para resolver essa disputa, e por isso os dois lados caem logo nos textos-prova, versículos soltos da intenção de quem os escreveu.
Em seguida enfrenta o texto mais forte do outro lado. “Se tomarmos esta passagem pelo valor de face”, escreve sobre Romanos 9:6-18, “devemos nos tornar calvinistas.” Mas Romanos 9 a 11 é uma unidade, e Paulo escreve para entender por que, em geral, os judeus rejeitavam o evangelho e os gentios o recebiam. Humphreys conta cinco respostas do apóstolo: Deus tem misericórdia de quem quer (capítulo 9); quem confessa Jesus como Senhor e crê será salvo, e Israel tropeçou porque o rejeitou (capítulo 10); há um remanescente fiel (Romanos 11:1-5); “todo o Israel será salvo” (Romanos 11:26); e tudo termina em mistério e louvor (Romanos 11:33-36). Lidas juntas, as cinco mostram que a afirmação inicial da predestinação garante que Deus não perdeu o controle da história e não ensina um decreto eterno de condenar indivíduos.
Humphreys reúne ainda os sentidos que o Novo Testamento dá à predestinação: o verdadeiro eleito é Cristo, e as pessoas são eleitas quando estão nele (Efésios 1:3-4); Deus escolhe grupos, e não indivíduos isolados, como pode ser o caso de Jacó e Esaú; Deus decreta que quem crê será salvo e quem não crê não será; Deus conhece de antemão quem vai crer e predestina estes à salvação (Romanos 8:28-30); e Deus escolhe pessoas para um serviço, como Paulo (Gálatas 1:15-16). A palavra “predestinação”, conclui, não precisa significar o que os calvinistas dizem. Do outro lado estão textos que dizem com naturalidade que Deus quer que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:1-4; 2 Pedro 3:9), e sobre a expiação limitada ele considera 1 João 2:2 decisivo.
A parte mais original do ensaio descreve o impasse. Há na Bíblia um grupo de textos que favorece os calvinistas e outro que favorece os batistas tradicionais. Cada lado lê o seu grupo pelo valor de face e interpreta o outro. Os dois erram quando dizem que o adversário não tem nada na Bíblia. Por que cada um escolhe o seu ponto de partida? Os calvinistas, pensa Humphreys, querem afirmar a soberania de Deus da forma mais plena e supõem, equivocadamente, que isso exige que Deus preordene tudo o que acontece. Os batistas tradicionais partem de João 3:16: Deus ama o mundo inteiro, e não só os eleitos, e por isso nunca predestinaria alguém à perdição.
Ele recusa reduzir a disputa a soberania contra liberdade. “Se eu tivesse de escolher entre a soberania divina e a liberdade humana, escolheria a soberania divina”, escreve. A pergunta verdadeira é se Deus ama todas as pessoas e quer salvá-las. Com Wesley, de Predestinação calmamente considerada, ele pergunta como o Deus amoroso e misericordioso trataria assim uma alma que fez. Concorda com a conclusão de Wesley e discorda do caminho, porque não acha que um grupo crê na Bíblia e o outro não.
God So Loved the World desenvolve o mesmo argumento para os leitores das igrejas. Os autores avisam que não escreveram o livro para calvinistas nem como polêmica. Querem explicar o calvinismo com clareza, dizer que ele não é mau e mostrar que os batistas tradicionais não precisam adotá-lo. “Os batistas tradicionais não creem que Deus preordena tudo o que acontece”, escrevem, e o que mais os incomoda no calvinismo é que ele “não diz com clareza e força que Deus ama o mundo”. Do lado calvinista, o pastor Greg Gilbert resenhou o livro em 2010 e contestou a leitura que os autores fazem de João 6:37 e de Romanos 9:22-23.
Prática, avivamento e graça
Humphreys também observa como a prática molda a doutrina. Num artigo de 2000 na revista Baptist History and Heritage, “Baptists and Their Theology”, ele mostra que os primeiros batistas gastaram as forças defendendo o batismo de crentes, a igreja separada e a liberdade religiosa, e que a questão do calvinismo logo virou disputa interna. Aponta ainda o risco do avivalismo, que tende a se inclinar “numa direção arminiana ou mesmo pelagiana”, com a sugestão implícita de que as pessoas se salvam pela própria escolha. A frase usa “arminiana” no sentido popular, mas o alerta é o mesmo que o arminianismo clássico faz: a salvação não começa na decisão humana. A graça preveniente responde a esse perigo dizendo que Deus age antes e liberta a vontade para crer; no ensaio sobre Romanos, o argumento de Humphreys parte do amor de Deus pelo mundo e não dessa doutrina.
A cruz como perdão que custa
Em The Death of Christ, Humphreys propõe o modelo que chama de “perdão cruciforme”: Deus, em Cristo, aceitou o sofrimento como o seu modo de perdoar as pessoas cujos pecados o fizeram sofrer, e o que Cristo passou mede o custo do perdão divino. Ele afirma que todos os modelos bíblicos da cruz são verdadeiros (sacrifício, resgate, propiciação, Cordeiro pascal), mas acha imprudente buscar uma “necessidade” para a cruz, porque Deus agiu livremente, por amor. Diante de Patterson admitiu que Isaías 53 descreve uma substituição penal e manteve que ela é um modelo entre outros.
Aqui está a diferença maior com a nossa declaração de fé, que vê na cruz uma satisfação penal substitutiva: Cristo levou sobre si a pena do pecado, como ensinaram Armínio e Wesley. Humphreys não nega a substituição, mas a põe ao lado de outras imagens e não a coloca no centro. A outra distância é de linguagem: ele escreve como batista do Sul, e o seu vocabulário é o da tradição batista, e não o dos decretos de Armínio. No essencial da controvérsia, o amor universal de Deus, a eleição em Cristo e a recusa da reprovação incondicional, ele está do mesmo lado que o arminianismo, ao lado de outros batistas como Dale Moody e Bert Dominy.
Obras principais
- Thinking About God: An Introduction to Christian Theology (Insight Press, 1974; 3.ª ed.).
- The Death of Christ (Broadman, 1978).
- “Salvation: A Southern Baptist Perspective”, Review and Expositor 79, n. 2 (1982).
- A Dictionary of Doctrinal Terms (Broadman, 1983, com Philip Wise).
- Nineteenth Century Evangelical Theology (Broadman, 1983), organizador.
- The Nature of God (Broadman, 1985). Em espanhol: La naturaleza de Dios (Casa Bautista de Publicaciones, 1987).
- The Way We Were: How Southern Baptist Theology Has Changed and What It Means to Us All (1994; ed. revista pela Smyth & Helwys).
- “Baptists and Their Theology”, Baptist History and Heritage 35 (2000).
- God So Loved the World: Traditional Baptists and Calvinism (Insight Press, 2000, com Paul E. Robertson).
- Fundamentalism (Smyth & Helwys, 2004, com Philip Wise).
- I Have Called You Friends (New Hope, 2005).
- A Personal History (Insight Press, 2022).
Para aprofundar
- Fisher Humphreys, “Calvinism and the Bible”, Center for Baptist Studies, Universidade Mercer.
- Jason G. Duesing, “Humphreys/Patterson-1987: A Southern Baptist Debate on the Atonement”, Midwestern Journal of Theology 16, n. 2 (2017), p. 112-135.
- Samford University, “Samford Divinity School Professor Writes Book on Traditional Baptists and Calvinism” (2001).
- Samford University, “Fisher Humphreys to Present Holley-Hull Lectures” (2018).
- The Alabama Baptist, “Volume of essays written in Humphreys’ honor” (2008).
- Mercer University, “Lecture on Baptists and Calvinism” (2002).
- Greg Gilbert, “Book Review: God So Loved the World”, 9Marks (2010).
- John D. Pierce, “Countless Lessons From Fisher Humphreys”, Good Faith Media (2023).
- Dwight A. Moody, “A Personal History”, The Meeting House (2022).
- Smyth & Helwys, The Way We Were.
- Jim Maples, The Point of the Southern Baptists’ Departure from the Doctrines of Calvinism (dissertação de mestrado, Reformed Theological Seminary, 2007), que cita “Baptists and Their Theology”.
- American Cancer Society Cancer Action Network, “Fisher Humphreys”, perfil.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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