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Francis Hodgson: O polemista metodista que separou o arminianismo da Nova Divindade
Neste texto
Em 13 de julho de 1854, trinta e seis homens da Filadélfia assinaram uma carta ao pastor Francis Hodgson. Tinham ouvido na igreja metodista de St. George’s os seus sermões sobre “os decretos divinos” e pediam que ele os publicasse, porque isso “seria de grande serviço à causa da verdade”. No ano seguinte o livro saiu com um título sem rodeios: The Calvinistic Doctrine of Predestination Examined and Refuted (“A doutrina calvinista da predestinação examinada e refutada”). O primeiro sermão desfazia a ideia de que os metodistas tinham horror da palavra predestinação: “Não temos objeção à palavra”, disse Hodgson; “cremos firmemente na doutrina”. A briga dele era com uma maneira de entender a predestinação, e boa parte da sua vida foi gasta em mostrar que maneira era essa.
Vida
De Driffield à Pensilvânia
Francis Hodgson nasceu em 13 de fevereiro de 1805, em Driffield, no condado de York, no norte da Inglaterra, filho de pais metodistas wesleyanos. Ainda jovem atravessou o Atlântico com a família, que se estabeleceu em West Chester, na Pensilvânia.
Em 1828 foi admitido como pregador itinerante na Conferência de Filadélfia da Igreja Metodista Episcopal e enviado ao circuito de Dauphin. Naquele ano pregou na casa de Edwin Atley, em Lebanon, o primeiro culto metodista de que se tem memória na cidade. Seguiram-se Elkton, em Maryland, a igreja de St. George’s, na Filadélfia, e Harrisburg, onde foi nomeado pastor em 1834, quando a congregação, com 175 membros, deixou o circuito e passou a ter pastor próprio. Em 1835 foi para Columbia, às margens do rio Susquehanna.
Nova York e a Nova Divindade
Em 1836 foi transferido para a Conferência de Nova York: serviu nas igrejas das ruas Vestry e Mulberry e, em Connecticut, em Middletown, Hartford e New Haven. Os presbiterianos acabavam de se dividir, em 1837, entre a Old School, fiel à Confissão de Westminster, e a New School, próxima da “teologia de New Haven” de Nathaniel Taylor e da pregação de avivamento de Charles Finney. Corria o boato de que pregadores calvinistas famosos tinham abraçado o arminianismo, porque ofereciam a salvação a todos com a mesma insistência dos metodistas.
Hodgson não acreditou no boato e foi estudar o assunto. Num exemplar do Philadelphian, jornal de Ezra Stiles Ely, leu o sermão de Albert Barnes sobre “o caminho da salvação” e o protesto que ele provocou no presbitério da Filadélfia, e daí em diante guardou tudo o que encontrava sobre a New School. Em Nova York teve acesso a livros e revistas que antes não alcançava e publicou no Christian Advocate and Journal, o semanário da igreja, mais de trinta artigos assinados apenas “F. H.”. As conferências de Michigan, da Geórgia e de Nova Jersey pediram que virassem livro. Em 16 de maio de 1839 ele assinou o prefácio de An Examination of the System of New Divinity; or, New School Theology (“Exame do sistema da Nova Divindade, ou teologia da New School”), de 416 páginas, publicado pela editora metodista. Reconhecia ali a dívida com The Calvinistic Controversy, de Wilbur Fisk, e dizia que o seu livro queria mostrar a New School como um sistema completo.
De volta à Filadélfia
Em 1845 voltou à Conferência de Filadélfia. Foi pastor da igreja Trinity, de Salem, de novo de Harrisburg, de St. Paul’s, em Wilmington, no Delaware, outra vez de St. George’s, da igreja Union, de Lancaster e da rua Fifth, e presbítero presidente do distrito do sul da Filadélfia.
Foram os anos de maior produção. Em dezembro de 1845 começou a publicar artigos em defesa do governo metodista, e em 1847 a Conferência de Filadélfia pediu que os reunisse em livro: The Ecclesiastical Polity of Methodism Defended saiu em 1848. No mesmo ano ele respondeu a um ataque vindo do Sul. O Sínodo do Tennessee tinha relançado em 1846 a Calvinistic Magazine, com o propósito declarado de combater o avanço metodista, e um dos editores, o presbiteriano Frederick A. Ross, publicou ali a série “The Great Iron Wheel” (“A grande roda de ferro”), que comparava a igreja metodista aos jesuítas e a um despotismo militar e chamava a reunião de classe de confessionário romano. Amasa Converse reproduziu os artigos num jornal presbiteriano da Filadélfia. Hodgson respondeu ponto por ponto, e a reunião de pregadores metodistas da cidade recomendou a resposta pelo seu “espírito cavalheiresco e cristão”. O texto virou o livro The Great Iron Wheel Reviewed (1848).
Em abril de 1860, quando a igreja voltava a discutir a entrada de leigos nas suas conferências, Hodgson escreveu contra a proposta na Methodist Quarterly Review. Lembrou que a primeira campanha pela representação leiga tinha terminado, uns trinta anos antes, na saída dos fundadores da Igreja Metodista Protestante, que somava então cerca de setenta mil membros, enquanto as igrejas metodistas episcopais tinham ganhado mais de um milhão. A causa que ele combatia venceu em 1872, quando a Conferência Geral recebeu os primeiros delegados leigos.
Últimos anos
Em 1868 foi transferido para a Conferência do Centro da Pensilvânia e serviu em Danville, Lewisburg e Chambersburg. Com a saúde em declínio, passou a supranumerário e voltou, a pedido dela, à Conferência de Filadélfia. Aposentou-se em 1876 e morreu na Filadélfia em 16 de abril de 1877, depois de quase cinquenta anos de ministério.
A Cyclopaedia of Methodism, editada pelo bispo Matthew Simpson, o descreveu como homem de grande força mental, lógica incomum, piedade profunda e dedicação inabalável à igreja. Em 1878, na festa dos 77 anos da igreja Union, um poema o lembrou curvado sobre os livros antigos, polemista “mais que páreo para os homens mais poderosos”, a quem a vitória levou a adorar e a grandeza fez de novo criança.
Pensamento
Hodgson era metodista wesleyano e chamava a doutrina da sua igreja pelo nome: “tal é, como a entendo, a doutrina metodista, ou arminiana, dos decretos divinos” (1855). Pertence à geração que defendeu o arminianismo nos Estados Unidos depois de Nathan Bangs e Wilbur Fisk, ao lado de Asa Shinn e antes de Albert Bledsoe e Daniel Whedon.
Nem incapacidade sem graça, nem capacidade natural
O livro sobre a Nova Divindade gira em torno de uma palavra: capacidade. A New School queria pregar a salvação a todos sem abrir mão da eleição incondicional, e para isso distinguia dois tipos de capacidade. Todo ser humano teria a capacidade natural de se arrepender e crer, isto é, as faculdades necessárias; faltaria a ele a capacidade moral, a disposição, que só a graça especial dada aos eleitos produz. Hodgson mostrou que quem não é eleito continua sem saída, e que a capacidade natural, levada a sério, faz o pecador depender de si e não do Espírito: “Como pode um homem sentir-se dependente de Deus para aquilo que, a qualquer momento, está ao alcance da sua capacidade natural?”
O metodismo, explicou, se opõe tanto à incapacidade total de fazer qualquer coisa pela salvação, como a ensinava a Old School, quanto à capacidade natural de obedecer a Deus, “como a sustentam os da New School, e os pelagianos em geral”. E resumiu: “Sustentamos que, embora nenhum homem tenha por natureza a capacidade de se arrepender e crer no evangelho, a graça de Deus é concedida a todo homem para capacitá-lo a dar os passos necessários à sua salvação”. É a doutrina da graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. Finney zombava da expressão “capacidade graciosa”: se Deus manda, deve por justiça dar o poder, e então não haveria graça. Hodgson respondeu que “graça” também significa a influência do Espírito Santo no coração, e que, chame-se como se chamar, o ser humano deve a essa influência “a sua capacidade de obedecer ao evangelho”.
O pecado como doença
Taylor e Finney ensinavam que todo pecado é ato voluntário e que uma depravação herdada seria “física”, sem culpa possível. Hodgson recusou a alternativa com a imagem que a própria Escritura usa, a da doença. A doença do corpo se instala nos órgãos e desarranja o seu funcionamento sem ser um deles, e quando sai o corpo continua com as mesmas partes. Assim é a depravação: “algo que se prende à nossa constituição moral e causa um funcionamento desarranjado dos seus poderes”. Com isso ele defendeu o pecado original ensinado pelos padrões metodistas. A frase fez carreira: em 1903 o pregador da santidade J. A. Wood a citou em Purity and Maturity para mostrar que o pecado interior precisa ser purificado por Deus e não desaparece com o simples crescimento.
O Espírito, a oração e os meios de graça
Se a regeneração fosse um único ato da vontade, ao alcance do pecador a qualquer hora, bastaria persuadi-lo. Daí, mostrou Hodgson, a tese de autores da New School de que o Espírito Santo age apenas por persuasão, apresentando motivos à mente. E daí uma consequência que tocava o coração da prática metodista: Finney chamava de “falso conforto” dizer ao pecador que orasse por um coração novo, e George Duffield via no esforço do pecador para buscar a Deus um modo de fomentar a rebelião. Hodgson respondeu em cinco capítulos. Deus pôs a oração entre os caminhos do perdão, como pôs a confissão: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Romanos 10:13). Quem ora por perdão não tenta tornar Deus disposto a salvar; faz o que Deus mandou. Sob a graça, quem ainda não crê pode ir à igreja em vez do teatro, ouvir a pregação e ler a Bíblia, e por esses meios Deus vai minando a depravação e formando nele a disposição de obedecer. A declaração de fé do site diz o mesmo dos meios de graça: eles não têm poder em si mesmos, mas são os canais que Deus escolheu para agir.
A predestinação em Cristo
Nos sermões de 1854, Hodgson citou longamente Calvino e a Confissão de Westminster, para não ser acusado de caricatura, e atacou a tese de que Deus decretou tudo o que acontece. Depois expôs o que os metodistas creem. Deus previu, sem determinar, a queda; decretou a expiação pela morte do Filho, em favor de todos, porque Cristo provou a morte “por todos” (Hebreus 2:9); decretou que a fé seria a condição para ser aceito; e predestinou à adoção e à semelhança com Cristo aqueles que previu que se arrependeriam e creriam (Romanos 8:29; Efésios 1:5). É a eleição condicional, em Cristo, segundo a presciência, como Armínio a formulou na Declaração de Sentimentos. Essa doutrina dava firmeza ao pecador aflito: Deus nunca predestinou o pecado, ordena a todos que se arrependam e o que exige dos homens “ele os capacitará a fazer”.
Dois pontos o afastam um pouco do site. Ao falar da cruz, Hodgson usa a linguagem do governo moral: a expiação vindica as reivindicações do governo divino e funda os atos de misericórdia de Deus. Era o vocabulário comum do metodismo americano do século XIX, que John Miley transformaria mais tarde numa teoria governamental; o guia doutrinário do site afirma a substituição penal. O outro ponto é de tom: o segundo sermão enfileira as consequências que ele tirava do calvinismo, como fazer de Deus o autor do pecado, num estilo de polêmica próprio da época, e o site prefere descrever o calvinismo como os próprios calvinistas o entendem.
A igreja itinerante
No livro de 1848 Hodgson comparou a itinerância metodista, em que o bispo nomeia e muda os pastores, com a escolha do pastor pela congregação. Para ele a itinerância evitava as disputas de eleição, as igrejas sem pastor e os pastores sem igreja, distribuía melhor os dons e o sustento dos ministros e levava o evangelho a lugares que nenhuma congregação sozinha sustentaria.
Legado
Em 1883, o volume Methodism and Literature o apresentava como o metodista que levou a controvérsia com o calvinismo aos estados do centro, depois de Fisk na Nova Inglaterra, e a editora metodista ainda o vendia. Randy Maddox o incluiu entre as primeiras apologias metodistas americanas contra o calvinismo, obras que quase não citavam John Wesley. Hodgson percebeu cedo que pregar a salvação para todos não bastava para ser arminiano: a diferença decisiva estava na fonte da capacidade de crer, que para ele é a graça de Deus, dada a todos e capaz de ser recusada. A mesma divisão presbiteriana aparece, pelo lado de dentro, no texto sobre Hodge e Finney, e a doutrina, no capítulo sobre os decretos de Deus e a predestinação.
Obras principais
- An Examination of the System of New Divinity; or, New School Theology (Nova York: T. Mason e G. Lane, 1839; 416 p.; reimpresso em 1840).
- The Ecclesiastical Polity of Methodism Defended: A Refutation of Certain Objections to the System of Itineracy in the Methodist Episcopal Church (Nova York: Lane & Scott, 1848; nova edição, Carlton & Phillips, 1853).
- The Great Iron Wheel Reviewed: or, A Defence of the Methodist E. Church against the Calumnious Assaults of Rev. F. A. Ross and Rev. A. Converse (Filadélfia: Thomas Stokes, 1848).
- The Calvinistic Doctrine of Predestination Examined and Refuted (Filadélfia: Higgins and Perkinpine, 1855).
- “Lay Representation”, Methodist Quarterly Review 42 (abril de 1860), p. 228-245.
Para aprofundar
- Hodgson, Francis, D.D., McClintock and Strong Biblical Cyclopedia (baseado nas Minutes of Annual Conferences, 1878, p. 75).
- Matthew Simpson (org.), “Hodgson, Francis, D.D.”, Cyclopaedia of Methodism (Filadélfia: L. H. Everts, 1880), com os verbetes sobre Columbia, Harrisburg e Lebanon.
- Services Commemorative of the Seventy-Seventh Anniversary of the Union Methodist Episcopal Church, Philadelphia (Filadélfia: J. B. Lippincott, 1878).
- F. A. Archibald (org.), Methodism and Literature (Cincinnati: Walden and Stowe, 1883), capítulos sobre teologia e sobre governo da igreja.
- Randy L. Maddox, Respected Founder/Neglected Guide: The Role of Wesley in American Methodist Theology, Methodist History 37 (1999), p. 71-88.
- J. A. Wood, Purity and Maturity (1903), cap. 7.
- Francis Hodgson, An Examination of the System of New Divinity (1839), no Internet Archive.
- Francis Hodgson, The Ecclesiastical Polity of Methodism Defended, no Internet Archive.
- Francis Hodgson, The Great Iron Wheel Reviewed (1848), no Internet Archive.
- Francis Hodgson, The Calvinistic Doctrine of Predestination Examined and Refuted (1855), no Projeto Gutenberg.
- Francis Hodgson, “Lay Representation”, Methodist Quarterly Review, vol. 42 (1860).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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