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Don Thorsen: o metodista livre que pôs Calvino e Wesley frente a frente
Neste texto
Quando saiu de casa para fazer a faculdade, Don Thorsen passou a frequentar uma grande igreja independente. Num domingo, uma mulher subiu ao púlpito para apresentar um ministério da igreja, e o pastor ficou de pé ao lado dela o tempo todo, sem dizer uma palavra. Depois do culto, o rapaz perguntou o motivo e ouviu que uma mulher não podia ficar sozinha no púlpito falando a uma congregação com homens presentes. A regra não fazia sentido para ele. Na igreja da sua infância, pregadoras, evangelistas e missionárias falavam do púlpito, e uma tia sua, Naomi, foi ordenada ministra na denominação daquela igreja e era para ele um modelo de pregação e de conhecimento da Bíblia. Thorsen conta essa cena num livro de 2020, e ela resume bem o teólogo que ele se tornou: alguém que compara tradições cristãs com cuidado, pergunta de onde vem cada costume e defende, sem agressividade, a herança wesleyana em que foi criado.
Vida
Califórnia e formação
Donald A. D. Thorsen nasceu em 1955 em Turlock, no vale central da Califórnia. Passou a infância entre a igreja e os acampamentos de verão com a família no Parque Nacional de Yosemite, de que guarda a lembrança das formações rochosas escavadas pelas geleiras. Ele mesmo conta que aquelas paisagens criaram cedo uma tensão: o que aprendia na escola sobre a idade da Terra não combinava com o que ouvia na igreja, que não tinha posição oficial sobre o assunto, mas pressupunha uma Terra jovem. As respostas dos adultos lhe pareciam vagas, e mais tarde ele escreveria que respostas assim fazem mal à fé e à ciência.
Estudou religião na Universidade Stanford, onde se formou bacharel. Ali, numa universidade secular, leu As variedades da experiência religiosa, de William James, e diz que o livro o ajudou a avaliar com sobriedade as próprias experiências religiosas. Depois fez o mestrado em divindade no Asbury Theological Seminary, de tradição wesleyana, o mestrado em teologia sistemática no Princeton Theological Seminary, de tradição reformada, e o doutorado na Drew University, concluído em 1988. Asbury e Princeton lhe deram contato direto com as duas tradições que ele compararia a vida inteira.
Asbury e Azusa Pacific
De 1985 a 1987 foi professor visitante de teologia em Asbury. Em 1988 começou a ensinar na Azusa Pacific University, universidade cristã de tradição wesleyana na região de Los Angeles, e ali ensina há quase quatro décadas, nos cursos de mestrado e doutorado do seminário, a Haggard Graduate School of Theology. Foi chefe do departamento de teologia e ética e coordenador dos programas avançados. É membro da Igreja Metodista Livre, a denominação de santidade fundada em 1860 por B. T. Roberts, e foi editor colaborador da revista dela, Light and Life, além de Christianity Today e Christian Scholar’s Review. No conselho editorial desta última, nos anos 1990, conheceu Roger Olson, de quem ficou amigo.
O primeiro livro saiu em 1990: The Wesleyan Quadrilateral (O Quadrilátero Wesleyano), sobre o modo como John Wesley usava a Escritura, a tradição, a razão e a experiência para decidir questões de fé. A obra foi reeditada em 2005 e ganhou uma versão introdutória em 2018. Em 2008 veio An Exploration of Christian Theology, um manual que apresenta as posições das várias tradições cristãs sem tomar partido de saída. Seguiram-se livros sobre os evangélicos, escritos com o colega Steve Wilkens, sobre ética cristã e sobre espiritualidade. Os livros dele já passam de vinte, e alguns foram traduzidos para seis línguas.
O Manifesto da Santidade
Em 2003, Kevin Mannoia, então diretor da escola de teologia da Azusa Pacific, propôs às denominações wesleyanas e de santidade um estudo conjunto sobre a santidade bíblica no século 21. O Wesleyan Holiness Study Project durou de 2004 a 2006 e reuniu administradores, professores e pastores da Igreja do Nazareno, da Igreja Metodista Livre, do Exército de Salvação, da Igreja de Deus (Anderson) e de outras igrejas de santidade, e depois também de igrejas pentecostais, como a do Evangelho Quadrangular. Thorsen fez parte da comissão que planejou o projeto, ao lado de Mannoia, David Bundy, Donald Dayton, Lisa Dorsey e Bill Kostlevy.
O fruto principal foi o Holiness Manifesto (Manifesto da Santidade), concluído na Azusa Pacific em fevereiro de 2006, escrito por mais de quarenta participantes. O texto tem três partes, a crise que enfrentamos, a mensagem que temos e a ação que tomamos, e começa com um diagnóstico duro: as igrejas trocaram a mensagem pela busca do método mais eficiente e ficaram parecidas com a cultura ao redor. Mannoia e Thorsen organizaram em 2008 a coletânea The Holiness Manifesto, com o texto do documento e ensaios sobre ele. Ao apresentá-lo, Thorsen reconheceu que o documento trazia os limites do contexto norte-americano.
Trabalho ecumênico
Thorsen representa a Wesleyan Theological Society há mais de vinte anos na mesa de Fé e Ordem do Conselho Nacional de Igrejas de Cristo nos Estados Unidos e há mais de dez anos na mesa de diálogo inter-religioso, onde também é um dos coordenadores do diálogo entre hindus e cristãos. Integrou o grupo de teólogos que redigiu a declaração “Os perigos do nacionalismo cristão nos Estados Unidos”, adotada pelo conselho em 20 de abril de 2021. Em agosto de 2024 levou ao Oxford Institute of Methodist Theological Studies um texto sobre os perigos do nacionalismo religioso no mundo, em que diz que a formação wesleyana e metodista foi decisiva para esse trabalho. Em 2025, quando o Concílio de Niceia completou 1.700 anos, organizou um livro sobre o concílio e o seu credo.
Pensamento
Um teólogo wesleyano
Thorsen é wesleyano, e diz isso com todas as letras. Metodista livre, membro da Wesleyan Theological Society, ele dedicou um livro inteiro a defender que a visão de Wesley serve melhor à igreja de hoje do que a de Calvino. Roger Olson o chamou de “um bom teólogo wesleyano” ao recomendar esse livro. Na sua obra aparecem os pontos centrais do arminianismo: eleição condicional, expiação por todos, graça resistível e uma perseverança que depende de permanecer na fé.
Calvino e Wesley
Calvin vs. Wesley: Bringing Belief in Line with Practice (Calvino versus Wesley: alinhando a crença com a prática, 2013) compara os dois em oito temas, entre eles a soberania e o amor de Deus, a autoridade da Bíblia, a predestinação, a graça, a expiação e a santificação. Em cada capítulo, Calvino fala primeiro, citado das próprias obras, e Wesley vem depois. A comparação tem um texto próprio no site, Por que John Wesley rejeitou o calvinismo?.
A tese do livro está no subtítulo. Thorsen observa que muitos cristãos que se dizem calvinistas vivem a fé de um modo mais próximo de Wesley do que de Calvino, como se as suas decisões fizessem diferença diante de Deus. O último capítulo se chama “Mais ACURA que TULIP”. TULIP é a sigla em inglês dos cinco pontos do calvinismo: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Thorsen propõe outra sigla para a visão wesleyana: All are sinful (todos são pecadores), Conditional election (eleição condicional), Unlimited atonement (expiação ilimitada), Resistible grace (graça resistível) e Assurance (certeza da salvação). O primeiro ponto mostra que ele não troca a depravação humana por otimismo: todos são pecadores e ninguém se salva por si. O último lembra a doutrina wesleyana do testemunho do Espírito (Romanos 8:16), pela qual o crente pode saber que é filho de Deus.
Os resenhistas, inclusive os reformados, destacaram o tom respeitoso. Thorsen reconhece que Wesley disse não diferir de Calvino “nem um fio de cabelo” sobre a justificação pela fé e elogia práticas e ideias de Calvino, sem fazer caricatura do adversário. O livro foi recomendado por Olson, Kenneth Collins, Amos Yong e Stephen Gunter.
A graça que começa, sustenta e completa
No livro What’s True about Christianity? (O que é verdade sobre o cristianismo?, 2020), uma introdução à fé organizada em torno de João 3:16, Thorsen escreve que “a salvação é um dom de Deus: é iniciada pela graça divina, sustentada pela graça divina e completada pela graça divina”. A salvação vem pela graça, mediante a fé, e não pelas obras (Efésios 2:8-9). Ele explica a graça preveniente, a graça que vem antes da nossa resposta, com uma imagem: Deus estende o presente da salvação na palma da mão, convida a pessoa a recebê-lo e a ajuda a pegá-lo, mas não fecha a mão dela à força. Na visão calvinista, Deus dirige a mão da pessoa para que ela pegue o presente. Thorsen admite que essa visão é atraente na teoria, mas observa que “na prática, porém, os cristãos agem como se as suas decisões fizessem diferença”.
Para situar essa posição na história, Thorsen usa o termo semiagostinianismo. Agostinho ensinou que a graça é irresistível e a predestinação, incondicional; Cesário de Arles e o Concílio de Orange afirmaram com ele que a graça vem antes de tudo, mas condenaram a predestinação ao mal e admitiram que a graça pode ser recusada. Nessa segunda linha Thorsen coloca católicos, ortodoxos, anglicanos, arminianos, metodistas e pentecostais. O termo distingue essa posição do semipelagianismo, em que o ser humano dá o primeiro passo: no semiagostinianismo, como Thorsen o descreve, a salvação continua sendo dom que a pessoa recebe por iniciativa de Deus.
Aqui há uma diferença de ênfase com a declaração de fé do site. Thorsen descreve a graça preveniente como “cooperação sinérgica” entre a pessoa e o Espírito e chega a falar da salvação como esforço colaborativo entre Deus e o ser humano. A declaração prefere outra linguagem: a graça preveniente liberta uma vontade incapaz, e a fé recebe o presente sem acrescentar nada a ele. Thorsen afirma que todos são pecadores e que Deus inicia, sustenta e completa a salvação, mas a sua linguagem dá mais peso à parceria do que a de Armínio, que descrevia a vontade caída como “perdida” antes da graça. Sobre a perseverança, ele afirma que o cristão precisa continuar a exercer fé, esperança e amor para manter a relação reconciliada com Deus, o que coincide com a perseverança condicional da declaração do site. O tema tem um estudo próprio no site, Arminianismo: É Tudo Sobre a Graça.
Escritura, tradição, razão e experiência
O Quadrilátero Wesleyano é o nome, cunhado por Albert Outler, para o modo como Wesley decidia questões de fé: a Escritura como autoridade principal, lida com a ajuda da tradição da igreja, da razão e da experiência. Thorsen combate duas leituras erradas dele. A primeira faz das quatro fontes autoridades iguais, como se a experiência pudesse corrigir a Bíblia; para ele, a Escritura sempre tem a primazia. A segunda opõe o quadrilátero ao princípio da Reforma de sola Scriptura, “somente a Escritura”. Num artigo de 2006 no Wesleyan Theological Journal, ele argumenta que os dois são “princípios complementares, e não contraditórios, de autoridade religiosa”, porque os próprios reformadores liam a Bíblia com a ajuda da tradição e da experiência. Também defende a leitura das fontes primárias, porque todo princípio usado “de segunda mão” corre o risco de virar enfeite ou ingenuidade. A ideia está resumida no texto do site Introdução ao Quadrilátero Wesleyano.
Num artigo de 2008 no Asbury Journal, Thorsen mostra como quatro ideias de Wesley moldam as suas aulas: o quadrilátero, que lembra aos alunos quantos fatores formam as suas crenças; a “religião experimental”, que testa crenças e práticas na experiência; o “espírito católico”, que apresenta com justiça as tradições protestante, católica e ortodoxa; e a santidade social, que pergunta pelas consequências sociais do texto bíblico.
Santidade, igreja e mundo
A santidade social explica boa parte do trabalho público de Thorsen. Ele defende o ministério feminino, que conheceu na igreja da sua infância, critica o nacionalismo cristão como uma leitura falha da fé bíblica e trabalha pela unidade dos cristãos. Em What’s True about Christianity? afirma também que a criação e a evolução biológica não se excluem e lamenta a negação da ciência em parte das igrejas. O Manifesto da Santidade resume o centro dessa visão: a santidade é a natureza de Deus e o chamado de todos os cristãos a uma vida transformada.
Obras principais
- The Wesleyan Quadrilateral: Scripture, Tradition, Reason and Experience as a Model of Evangelical Theology (1990; nova edição, 2005).
- An Exploration of Christian Theology (2008; 2ª ed., 2020).
- The Holiness Manifesto, organizado com Kevin Mannoia (2008).
- Everything You Know about Evangelicals Is Wrong (Well, Almost Everything), com Steve Wilkens (2010).
- What Christians Believe about the Bible, com Keith H. Reeves (2012).
- Calvin vs. Wesley: Bringing Belief in Line with Practice (2013).
- Twelve Great Books that Changed the University, organizado com Steve Wilkens (2014).
- Christian Ethics and Moral Philosophy, com Craig A. Boyd (2018).
- The Wesleyan Quadrilateral: An Introduction (2018).
- Pocket Dictionary of Christian Spirituality (2018).
- What’s True about Christianity? An Introduction to Christian Faith and Practice (2020).
- Jesus’ Best Friend: A Novel (2023).
- Nicaea: The Council and Creed That Defined Christianity, organizador (2025).
Livros em português
- Calvino versus Wesley (Carisma, 2017). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Don Thorsen, What’s True about Christianity? An Introduction to Christian Faith and Practice, Claremont Press, 2020 (texto completo, acesso aberto).
- Don Thorsen, “The Holiness Manifesto: An Ecumenical Document”, Holiness and Unity.
- Don Thorsen, “The Dangers of Religious Nationalism”, Oxford Institute of Methodist Theological Studies, 2024.
- Don Thorsen, “The Wesleyan Impulse in Teaching”, The Asbury Journal, v. 63, n. 2, 2008.
- Fred Sanders, “Sola Scriptura and the Wesleyan Quadrilateral”, Scriptorium Daily, sobre o artigo de Thorsen no Wesleyan Theological Journal, v. 41, n. 2, 2006.
- Brian LePort, “Calvin vs. Wesley (Book Review)”, Seedbed, 2014.
- Roger E. Olson, “Excellent New Book about Calvin and Wesley”, Society of Evangelical Arminians.
- Resenha de Calvin vs. Wesley, The Gospel Coalition.
- “Don Thorsen, PhD”, Azusa Pacific University.
- “Don Thorsen”, Friendship Press.
- Don Thorsen, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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