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HistóriaTeólogos arminianos6 de 176

Everett Cattell: o quacre da santidade que pensou a missão a partir de Cristo

Diego Gonçalves12 min de leitura2.449 palavras

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Neste texto

Em 1943, depois de sete anos na Índia, Everett Cattell preparou com cuidado uma série de reuniões evangelísticas no Bundelkhand. Ele e os colegas vinham jejuando e orando, e esperavam vitórias. A resposta do povo foi duramente negativa. Cattell escreveu depois que tinha chegado ao fundo: sempre tinha conseguido olhar para o lado bom das coisas, e desta vez caiu na escuridão. Prostrado diante do Senhor, descobriu, nas suas palavras, “o que é a fé, a fé pura e nua, sem o apoio do otimismo natural”, e viu que as promessas de Deus continuavam lá, intactas. Esse missionário quacre, formado no movimento de santidade, voltaria da Índia para presidir uma faculdade cristã em Ohio e escrever um livro sobre a santidade e outro sobre a missão da igreja.

Vida

Um filho da Ohio Yearly Meeting

Everett Lewis Cattell nasceu em 1905, em Kensington, Ohio, e cresceu na Ohio Yearly Meeting, a associação das igrejas dos Amigos (os quacres) com sede em Damascus, Ohio, o ramo evangélico do quacrismo americano que no século XIX abraçou o movimento de santidade e a pregação da inteira santificação no molde de John Wesley. Cattell dizia ter sido “criado na santidade”. A ênfase da assembleia no ministério pastoral e missionário era tão forte na sua infância que, segundo ele, quase se confundia com a própria espiritualidade. Abaixo apenas do pai, quem mais o marcou foi Walter R. Williams, missionário na China e superintendente da Ohio Yearly Meeting.

Ainda adolescente, fez diante da assembleia anual uma palestra com o título “Como a Ohio Yearly Meeting pode dar um passo adiante?”. Estudou no Marion College (hoje Indiana Wesleyan University), escola dos metodistas wesleyanos, onde já tirava exemplos da Índia nas suas falas, e fez o mestrado em filosofia na Ohio State University, com a dissertação The Conception of Ethics When Mind Is Repudiated (1929). Em 1927 casou-se com Catherine DeVol, de Marengo, Ohio, nascida na China, filha de médicos missionários. Ela seria a parceira de trabalho de toda a vida.

Durante nove anos ele foi pastor de três igrejas dos Amigos, em Springfield, Columbus e Cleveland, e professor adjunto no Cleveland Bible Institute, a escola que se tornaria o Malone College. Em 1926, numa conferência de ministros, apontou um dado incômodo: o número de membros crescia enquanto o de missionários ativos caía.

Vinte e um anos na Índia

Em 1936 o casal partiu para o Bundelkhand, no centro da Índia, onde os Amigos de Ohio trabalhavam desde 1896. A obra tinha começado como orfanato e ganhara escolas, um hospital em Chhatarpur e pequenas congregações. Um mês depois de chegar, Cattell já acompanhava os evangelistas indianos em reuniões entre os chamares, o maior grupo da população na região. Escreveu para casa que um só convertido firme, capaz de suportar a perseguição, daria vida nova à missão inteira, e que, se Deus quisesse que esperassem por anos magros, esperava ir com ele pacientemente.

Os anos foram magros. Cattell montou uma lista de cem livros sobre missões para a equipe ler e debater. No meio do primeiro período quase morreu de uma doença e passou seis meses na Austrália para se recuperar. Ao presidente da junta missionária escreveu que não podia esquecer que tinha ido à Índia pelo texto do grão de trigo (João 12:24). O primeiro convertido pelo qual orava levou cinco anos para aparecer. Nessa época nasceram dois hábitos que manteve a vida inteira: levantar-se às cinco da manhã para estar com Deus e reunir a equipe uma vez por mês para estudar a Bíblia e orar até os problemas se resolverem. Depois de 1943, o otimismo do começo deu lugar a outra disposição, e em 1951 ele aconselhava os missionários novos a dirigir a obra não pelo relógio nem pelo calendário, mas “pelo fardo e pela voz de Deus”.

Por vinte anos Cattell foi superintendente da missão dos Amigos, e se adiantou ao seu tempo ao entregar a liderança aos indianos: primeiro ao lado dos missionários, depois à frente deles. Em 1956 as igrejas do Bundelkhand formaram a sua própria assembleia anual, reunida pela primeira vez em Chhatarpur.

O trabalho dele foi além da missão quacre. Clyde Taylor, da Evangelical Foreign Missions Association, disse-lhe que ele era o homem para liderar a cooperação entre os evangélicos do país, e Cattell se tornou secretário executivo da Evangelical Fellowship of India (Comunhão Evangélica da Índia). Em 1952 a comunhão promoveu uma conferência que acendeu um avivamento em todo o país, com missionários e obreiros indianos pedindo perdão uns aos outros. O primeiro projeto foi o Union Biblical Seminary, em Yavatmal, que Cattell considerava o passo mais estratégico que os evangélicos podiam dar na Índia, e ele foi o primeiro presidente do seu conselho diretor. Era também membro da comissão executiva do National Christian Council of India. Em 1956 o indiano I. Ben Wati, de Nagaland, estava pronto para assumir a liderança da comunhão. Para a historiadora da missão E. Anna Nixon, encontrar, inspirar e encaminhar esses líderes foi a maior contribuição de Cattell à Índia.

Superintendente e reitor

De volta aos Estados Unidos em 1957, ele foi superintendente geral da Ohio Yearly Meeting até 1960. Naquele ano assumiu a presidência do Malone College, em Canton, Ohio, e ficou doze anos no cargo. A sua gestão é lembrada como a época do credenciamento acadêmico: em 7 de abril de 1964 o Malone foi aceito como membro pleno da North Central Association of Colleges and Secondary Schools. A biblioteca da faculdade, aberta em 1972, ano em que ele deixou o cargo, leva o nome dele.

Nesses anos presidiu por cinco anos a World Evangelical Fellowship (Comunhão Evangélica Mundial) e participou da direção da National Association of Evangelicals. Recebeu doutorados honorários do Asbury Theological Seminary e do George Fox College. Entre os quacres, trabalhou para aproximar os ramos afastados e, em 1970, foi um dos três oradores principais da conferência “What Future for Friends?”, em St. Louis.

Everett Cattell morreu em 2 de março de 1981, aos 75 anos, e foi sepultado no cemitério de Alum Creek, em Marengo, Ohio, onde Catherine também seria enterrada em 1986. O livro em que vinha trabalhando havia anos, Christian Mission: A Matter of Life, estava no prelo e saiu naquele mesmo ano.

Pensamento

Onde ele fica no arminianismo

Cattell pertence à vertente wesleyana do arminianismo, no ramo dos Amigos evangélicos marcado pelo movimento de santidade: formou-se numa assembleia de santidade e numa faculdade metodista wesleyana, defendeu a inteira santificação num livro que a editora nazarena Beacon Hill reeditou e a Casa Nazarena traduziu para o espanhol (El Espíritu de Santidad, 1975), e falou em 1968 na conferência sobre santidade do Asbury Theological Seminary. Dos quacres herdou a recusa da predestinação calvinista: a Apologia de Robert Barclay (1676) ensina que Cristo morreu por todos e que Deus dá a todos uma luz salvadora, e Cattell falou com aprovação desse argumento, observando que Barclay o escreveu sobretudo contra a doutrina de Calvino da expiação limitada e da dupla predestinação.

A santidade sem atalhos

The Spirit of Holiness (1963) nasceu de uma luta pessoal. Ainda jovem, Cattell sentia uma distância entre a pregação de santidade que ouvia e a sua própria tentativa de viver uma vida santificada, e foi estudar o assunto na Bíblia e na experiência. O livro sustenta a inteira santificação como segunda crise depois da conversão. Na tradição wesleyana, ela é a obra da graça, recebida pela fé, em que Deus purifica o coração e o enche de amor. Em Cattell, o crente se rende a Deus, é purificado, e o Espírito Santo passa a governar a vida, mas o perigo de recair numa vida carnal continua, e por isso o livro dá muito espaço à disciplina diária. Um crítico reformado, que rejeitava a segunda crise, viu nessa ênfase na autodisciplina a maior contribuição do livro.

Cattell queria corrigir os excessos do próprio movimento. Na Índia, criticou no diário uma santidade “barata e fácil”, feita de emoção e de cultos agitados, “divorciada da vida e estranha à cruz”. Em “Revival and the Holy Spirit” (1961) levou a mesma desconfiança para o avivamento. Contra Charles Finney, para quem o avivamento obedece a leis que funcionam quando as condições são cumpridas, lembrou que o Espírito Santo governa com soberania as marés da história e a disposição dos povos para responder. O primeiro passo é “abandonar a noção de que podemos arranjá-lo, precipitá-lo, manipulá-lo ou administrá-lo”, porque o avivamento “tem de vir de Deus e não do homem”. Entre as atitudes que atrapalham o Espírito, a primeira da lista é confiar numa experiência passada de santificação em vez de examinar o coração em busca da vitória de hoje. Outra é confundir avivamento, que é para a igreja, com evangelização, que é para o mundo.

A missão começa em Cristo

O pensamento missionário dele amadureceu da palestra Shrewsbury de 1963 até Christian Mission: A Matter of Life (1981). O ponto de partida é a Grande Comissão, que para ele atravessa toda a Escritura, e a chave é João 20:21-22: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”, seguido de “Recebei o Espírito Santo” (ARA). Para Cattell, “Cristo é o coração, o modelo, a motivação e a encarnação da missão”. Da comissão ele tira cinco princípios: mobilidade (ide), penetração (a todas as nações), comunicação (ensinando), conversão (batizando) e autoridade (toda a autoridade me foi dada).

Daí a expressão “missões sem adjetivos”, de um artigo de 1965: todo discípulo é enviado, em casa ou no estrangeiro. Ele é embaixador de um rei com autoridade absoluta, mandado a um reino em rebelião com um chamado ao arrependimento e à reconciliação (2 Coríntios 5:20). Por trás disso está uma antropologia clássica: o pecado é rebelião contra a autoridade de Cristo e desfigurou a imagem de Deus no ser humano sem destruí-la. Quanto aos que nunca ouviram, Cattell afirmava, com Romanos 2:12-18, que Deus decide o destino de cada um e não rejeita ninguém arbitrariamente por não ter ouvido o nome de Cristo, e nunca fez dessa esperança motivo para parar de enviar missionários.

A missão tem para ele três funções ligadas, que tomou da conferência missionária de Willingen (1952): o kerygma (o anúncio), a diakonia (o serviço) e a koinonia (a comunhão). Numa conferência em Landour, em 1951, usou a cena de Atos 3, de Pedro e João diante do coxo, para perguntar se os missionários jovens não estavam se cansando de distribuir prata e ouro sem levar algo de Cristo capaz de fazer o coxo andar. E escreveu que “nenhuma teologia do serviço é adequada se não estiver profundamente enraizada na cruz e, por isso, na expiação”. A koinonia era o remédio contra a igreja que se confunde com a sua estrutura: a igreja é um povo de arrependidos que recebem a sua ética do Reino de Deus, e não da cultura em volta.

O futuro dos Amigos

Cattell amava a sua tradição sem idolatrá-la. Em “The Future of Friends” (1966), julgou impossível a fusão de todos os ramos quacres, porque para unir humanistas e evangélicos um dos lados teria de abrir mão da própria fé. Deixou ali uma frase que resume o seu lugar entre os Amigos: “Sou um Amigo evangélico por causa das minhas convicções sobre Jesus Cristo, e não porque acredite pertencer a um partido de sucesso”. Lembrou que Deus usou George Fox no seu tempo e, um século depois, achou o seu canal nos Wesley. Os Amigos precisavam buscar onde o Espírito de Deus estava agindo e se entregar a essa obra, e talvez o futuro deles fosse o do grão de trigo que morre para dar uma nova colheita.

Pontos de contato e de diferença

A teologia de Cattell está perto da declaração de fé do Diego em quase tudo: o pecado como rebelião que desfigura a imagem de Deus, a salvação pela fé em Cristo, a esperança de que Deus age também onde a pregação ainda não chegou, que combina com o que o site ensina sobre a graça preveniente, a inteira santificação como segunda obra da graça e a missão da igreja como anúncio, serviço e comunhão. A diferença está na autoridade das Escrituras. Cattell criticava os evangélicos que abrem as suas declarações de fé defendendo a Bíblia como “a nossa autoridade final e única”; para ele toda autoridade vem de Cristo, a cabeça da igreja, e a Escritura, a tradição, a razão e a experiência funcionam como partes de um só organismo sob ele. A declaração do Diego afirma a Bíblia como autoridade final em matéria de fé e prática, preservada de erro nos escritos originais.

Obras principais

  • The Self-Giving Missionary (Evangelical Fellowship of India, 1951)
  • Ways of Evangelism (Christian Literature Society, 1957)
  • “Revival and the Holy Spirit” (Evangelical Friend, 1961)
  • “An Appraisal of the Keswick and Wesleyan Contemporary Positions”, em Insights into Holiness (Beacon Hill Press, 1962)
  • The Spirit of Holiness (Eerdmans, 1963; Beacon Hill Press, 1977; edição revista pela Barclay Press, 2015)
  • The Christian Mission (Shrewsbury Lecture, John Woolman Press, 1963)
  • “The Future of Friends” (Quaker Religious Thought, 1966)
  • Christian Mission: A Matter of Life (Friends United Press, 1981)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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