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HistóriaTeólogos arminianos27 de 176

David W. Bercot: O advogado que foi perguntar aos cristãos antes de Niceia

Diego Gonçalves14 min de leitura2.750 palavras

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Neste texto

Em 1985, um advogado texano de 35 anos comprou os dez volumes dos Ante-Nicene Fathers, a coleção dos escritos cristãos anteriores ao Concílio de Niceia (325), e reduziu o trabalho no escritório para lê-los. Na igreja evangélica de David W. Bercot, ensinava-se que o crente verdadeiro jamais perde a salvação e que o cristão pode ir à guerra pelo seu país, e os pastores lhe garantiam que essa era a fé histórica da igreja. Depois de um ano de leitura, Bercot concluiu que os cristãos dos três primeiros séculos pensavam de outro modo sobre esses pontos e sobre muitos outros. Dali saiu o seu primeiro livro, Will the Real Heretics Please Stand Up (1989), e uma mudança de rumo na sua vida e na sua igreja.

Retrato de David W. Bercot
David W. Bercot numa palestra sobre a Trindade e a igreja antiga, 2024. Quadro de vídeo de Anabaptist Perspectives. CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Ancião das Testemunhas de Jeová

David W. Bercot nasceu em 13 de abril de 1950, em Anchorage, no Alasca. Passou três anos da infância na Inglaterra e cresceu no Texas, onde morou até 2004. Ele e Deborah, com quem se casou em 1972, foram Testemunhas de Jeová desde crianças, e ele chegou a ancião de um Salão do Reino.

A Torre de Vigia tinha levado os fiéis a esperar o fim do mundo por volta de 1975. Quando nada aconteceu, Bercot leu os escritos de Charles Taze Russell, o fundador do movimento, e concluiu que ele fora um homem sincero, mas um falso profeta, por causa das datas que anunciou. Em 1976, aos 26 anos, deixou o cargo e o movimento; Deborah saiu pouco depois.

Advogado e professor de escola dominical

Só então entrou na universidade. Formou-se em 1978 pela Stephen F. Austin State University, com summa cum laude, e em direito, em 1980, pela Universidade Baylor. Especializou-se no exame de títulos de propriedade e trabalhou nessa área para a maior empresa de serviços públicos do Texas.

O casal passou a frequentar a Westminster Bible Church, no leste do Texas, uma igreja evangélica ligada ao Seminário Teológico de Dallas, onde Bercot dava aulas na escola dominical. Ele atribui ao pastor e à esposa dele a recuperação da sua fé, mas dois ensinos o incomodavam: a segurança eterna incondicional e o entusiasmo pela guerra. Foi para conferir esses pontos que ele foi aos pais pré-nicenos.

A leitura que mudou a casa

Bercot chama essa leitura de virada da sua vida. Encontrou apoio para as suas objeções, mas também descobriu que a maior parte das crenças e do modo de vida dos primeiros cristãos diferia dos seus, e concluiu que o Novo Testamento ensinava o mesmo que eles. Deixou de levar pessoas aos tribunais (1 Coríntios 6:1-8) e reduziu a advocacia a dois dias por semana. A família abandonou a televisão e adotou roupas modestas e o véu das mulheres na oração (1 Coríntios 11:2-16).

O primeiro livro e a Scroll Publishing

Amigos que se reuniam com ele aos sábados o animaram a escrever. Gene Edwards elogiou o manuscrito, mas não podia publicá-lo; a Bethany House pediu mudanças que, para o autor, comprometiam a mensagem. Bercot criou então a Scroll Publishing, uma editora familiar e sem fins lucrativos, e lançou o livro em 1989. A primeira tiragem se esgotou em seis meses, e as vendas passaram de 100 mil exemplares.

Elmo Stoll, da Pathway Publishers, resenhou o livro na revista amish Family Life, e começaram a chegar cartas de anabatistas, entre eles os German Baptist Brethren, que apresentaram a Bercot comunidades de que ele nunca ouvira falar.

Em busca de uma igreja

Em 1992, Bercot ajudou a formar a Tyler Early Christian Fellowship, uma igreja nos lares em Tyler, no Texas, e passou cerca de dez anos em igrejas domésticas, examinando menonitas da Conferência Geral, quacres e os Irmãos da Graça. A busca passou também pela Igreja Anglicana. Ele estudou teologia na Universidade de Cambridge e foi ordenado presbítero anglicano, convencido pelo argumento da sucessão apostólica, segundo o qual a autoridade dos bispos vem dos apóstolos por uma cadeia ininterrupta de ordenações. Nessa fase aceitava o batismo de crianças. Novas leituras dos pré-nicenos o levaram a abandonar as duas convicções e o sacerdócio.

O grupo mais próximo do que ele lia eram os anabatistas conservadores, mas a igreja menonita conservadora da região exigia mudanças culturais e o fechamento da editora. Em 2004 a família se mudou para o vale de Amberson, na Pensilvânia, e entrou na Shippensburg Christian Fellowship, que permitia manter a Scroll. Hoje frequenta a Chambersburg Christian Fellowship, igreja irmã da de Shippensburg, da qual Bercot é presbítero.

Escritor e conferencista

Em 1998 a Hendrickson publicou A Dictionary of Early Christian Beliefs, a obra mais lida de Bercot: mais de 7 mil citações de escritores como Clemente de Roma, Inácio, Justino, Irineu e Tertuliano, organizadas em mais de 700 temas, com volume e página dos Ante-Nicene Fathers. Ray Laird, na Evangelical Review of Theology, disse que Bercot prestou à igreja “um grande serviço” ao abrir uma porta de entrada acessível a esses escritos.

Seguiram-se, entre outros, uma biografia romanceada de Patrício (1999), The Kingdom That Turned the World Upside Down (2003), sobre o reino de Deus, Will the Theologians Please Sit Down (2009), In God We Don’t Trust (2011), sobre a fundação dos Estados Unidos, e, em 2024, um comentário a Romanos lido como antes de Agostinho e de Lutero. Entre 1992 e 2020 gravou cerca de duzentas palestras; falou em Harvard em 2012 e debateu em Boston, em 2014, se o cristão pode ir à guerra. Os seus livros saíram em espanhol, romeno e português, e entre os que estudaram com ele a igreja antiga está o ministro menonita Dean Taylor. Bercot está aposentado da advocacia.

Pensamento

Onde ele fica no arminianismo

Bercot é um anabatista conservador, e o seu método é perguntar o que criam os cristãos anteriores a Niceia. Ele não parte da Reforma nem de Jacó Armínio, mas, nos pontos que separam calvinistas e arminianos, chega às conclusões arminianas e as defende com os pais da igreja: rejeita a predestinação incondicional, afirma que Deus conhece o futuro sem causá-lo, sustenta que a graça pode ser recusada e ensina que o crente pode perder a salvação. Por isso o situamos com os anabatistas, ao lado de Menno Simons e Balthasar Hubmaier, e não com o arminianismo clássico, do qual se afasta no pecado original e na justificação.

Salvação em dois tempos

Em Will the Real Heretics Please Stand Up, Bercot resume o que leu: “os primeiros cristãos criam que a salvação é um dom de Deus, mas que Deus dá o seu dom a quem ele escolhe. E ele escolhe dá-lo aos que o amam e lhe obedecem”. A salvação tem, para ele, dois tempos. No primeiro, a pessoa é salva pela graça, por meio da fé, do arrependimento e do batismo, e os pecados passados são lavados sem obra nenhuma que os mereça. No segundo, essa salvação é mantida por uma relação de amor, fé e obediência a Cristo até o fim. O livro parte de que os primeiros cristãos criam que “a nossa fé e a nossa obediência contínuas são necessárias para a salvação” e cita Irineu advertindo contra pecar depois de conhecer a Cristo (p. 65). Numa aula, Bercot concluiu: “a nossa salvação final não é decidida até morrermos, porque podemos perder a nossa fé”.

Uma queda isolada, explica ele, não rompe a relação com Cristo; a impenitência persistente rompe. A imagem é a da videira de João 15: “sem mim nada podeis fazer”, e o ramo que não dá fruto é cortado. Ele chama isso de “terceiro caminho” anabatista, entre a salvação por méritos e a fé sem obediência, e resume: “se ele não é o nosso Senhor, não é o nosso Salvador”. O verbete do Dictionary sobre a possibilidade de o salvo se perder reúne cinco páginas de citações, que o arminiano Steve Witzki usou contra o “uma vez salvo, salvo para sempre”.

Predestinação, Agostinho e Romanos

No capítulo sobre predestinação e livre-arbítrio, Bercot contrapõe a predestinação dos reformadores aos cristãos antigos, para quem Deus prevê o futuro sem determiná-lo, e mostra como Orígenes lia Romanos 9. Em outro capítulo, aponta Agostinho de Hipona como “o cristão mais influente de todos os tempos”, por cujos olhos o Ocidente passou a ler os apóstolos, e como quem se afastou do ensino anterior sobre graça, livre-arbítrio e guerra.

O comentário a Romanos desenvolve a tese. Até cerca do ano 400, diz Bercot, a igreja lia a carta de modo uniforme: Paulo responde a judeus cristãos que queriam pôr os gentios debaixo da lei de Moisés e mostra que judeus e gentios estão em pé de igualdade diante de Deus. Agostinho lia em latim, e a tradução latina de Romanos 5:12, “em quem todos pecaram”, deu origem à ideia de uma culpa herdada de Adão. Na controvérsia com Pelágio, ele teria chegado à fórmula que Bercot resume como “100% da salvação é Deus, 0% é humano”, com uma salvação decidida antes da criação. Bercot vê aí uma novidade e a raiz do calvinismo, passada a Lutero, cujo “todo o fundamento foi construído sobre Agostinho”. A Reforma, no seu juízo, foi uma volta apenas parcial ao cristianismo antigo; os anabatistas chegaram mais perto dele.

Doutrinismo, reino e não resistência

Will the Theologians Please Sit Down abre com Caspar Zacher, acusado de heresia em 1562 e absolvido quando os vizinhos mostraram, pelo mau comportamento dele, que não podia ser anabatista. O caso ilustra o que Bercot chama de Doctrianity, o “doutrinismo” que deixou de medir a fé pelos frutos e passou a medi-la pela teologia correta.

O centro da obra posterior é o reino de Deus. Jesus pregava “o evangelho do reino”, e o Sermão do Monte traz mandamentos, “não recomendações nem sugestões”. O cristão obedece às autoridades, mas a sua lealdade última pertence ao reino, e por isso o irmão na China pesa mais que a pátria. Daí a não resistência: “a guerra não é o caminho dos cristãos”, que também não buscam o poder político. Para Bercot, nenhum país é o país de Deus senão o próprio reino. O site trata dessa herança em Anabatistas de 1525 e em Calvino x anabatistas: o cristão pode ir ao tribunal?.

Críticas

O historiador R. A. Baker escreveu que Bercot escolhe nos pais as passagens que confirmam a sua tese e lembrou que os escritores do século II defendiam posições que o próprio Bercot rejeitaria. O apologista James Holding observou que a proximidade com os apóstolos não garante acerto, já que também havia hereges antigos. Bercot responde que os cristãos do século II estavam a uma geração dos apóstolos, e nós estamos a dezenove.

Pontos de contato e de diferença

Com a declaração de fé deste site, Bercot concorda em pontos que importam: Deus quer salvar a todos, a graça é resistível, a eleição não é decreto arbitrário e a perseverança é condicional, com a mesma imagem do ramo na videira (João 15:4-6), tema do capítulo sobre a perseverança dos santos. As diferenças também são reais. O site afirma o pecado original e a depravação total: nascemos sob condenação e incapazes de nos salvar, e só a graça preveniente liberta a vontade para crer. Armínio e John Wesley afirmaram essa incapacidade com a mesma força de Agostinho, e para eles a obra da salvação é toda de Deus. O site afirma ainda a justificação somente pela fé, pela justiça de Cristo imputada, e vê a obediência como fruto da graça, e não como condição somada à fé. E entende o batismo como testemunho que segue a conversão, enquanto Bercot, com os pré-nicenos, o liga ao perdão dos pecados e ao novo nascimento. O debate de fundo aparece em Wesley entre agostinianos e pelagianos.

Obras principais

  • Will the Real Heretics Please Stand Up: A New Look at Today’s Evangelical Church in the Light of Early Christianity (Scroll, 1989)
  • The Pilgrim Road (Scroll, 1991)
  • Common Sense (Scroll, 1992)
  • A Dictionary of Early Christian Beliefs (Hendrickson, 1998)
  • Let Me Die in Ireland: The True Story of Patrick (Scroll, 1999)
  • The Kingdom That Turned the World Upside Down (Scroll, 2003)
  • Plain Speaking: How to Preach and Teach Effectively (Scroll, 2007)
  • Will the Theologians Please Sit Down (Scroll, 2009)
  • In God We Don’t Trust: A Look at the Founding of America in the Light of Jesus’ Teachings (Scroll, 2011)
  • Secrets of the Kingdom Life (Scroll, 2014)
  • Romans: How Romans Was Understood Before Augustine and Luther (Historic Faith Commentary Series, 2024)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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