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David W. Bercot: O advogado que foi perguntar aos cristãos antes de Niceia
Neste texto
- Vida
- Ancião das Testemunhas de Jeová
- Advogado e professor de escola dominical
- A leitura que mudou a casa
- O primeiro livro e a Scroll Publishing
- Em busca de uma igreja
- Escritor e conferencista
- Pensamento
- Onde ele fica no arminianismo
- Salvação em dois tempos
- Predestinação, Agostinho e Romanos
- Doutrinismo, reino e não resistência
- Críticas
- Pontos de contato e de diferença
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 1985, um advogado texano de 35 anos comprou os dez volumes dos Ante-Nicene Fathers, a coleção dos escritos cristãos anteriores ao Concílio de Niceia (325), e reduziu o trabalho no escritório para lê-los. Na igreja evangélica de David W. Bercot, ensinava-se que o crente verdadeiro jamais perde a salvação e que o cristão pode ir à guerra pelo seu país, e os pastores lhe garantiam que essa era a fé histórica da igreja. Depois de um ano de leitura, Bercot concluiu que os cristãos dos três primeiros séculos pensavam de outro modo sobre esses pontos e sobre muitos outros. Dali saiu o seu primeiro livro, Will the Real Heretics Please Stand Up (1989), e uma mudança de rumo na sua vida e na sua igreja.
Vida
Ancião das Testemunhas de Jeová
David W. Bercot nasceu em 13 de abril de 1950, em Anchorage, no Alasca. Passou três anos da infância na Inglaterra e cresceu no Texas, onde morou até 2004. Ele e Deborah, com quem se casou em 1972, foram Testemunhas de Jeová desde crianças, e ele chegou a ancião de um Salão do Reino.
A Torre de Vigia tinha levado os fiéis a esperar o fim do mundo por volta de 1975. Quando nada aconteceu, Bercot leu os escritos de Charles Taze Russell, o fundador do movimento, e concluiu que ele fora um homem sincero, mas um falso profeta, por causa das datas que anunciou. Em 1976, aos 26 anos, deixou o cargo e o movimento; Deborah saiu pouco depois.
Advogado e professor de escola dominical
Só então entrou na universidade. Formou-se em 1978 pela Stephen F. Austin State University, com summa cum laude, e em direito, em 1980, pela Universidade Baylor. Especializou-se no exame de títulos de propriedade e trabalhou nessa área para a maior empresa de serviços públicos do Texas.
O casal passou a frequentar a Westminster Bible Church, no leste do Texas, uma igreja evangélica ligada ao Seminário Teológico de Dallas, onde Bercot dava aulas na escola dominical. Ele atribui ao pastor e à esposa dele a recuperação da sua fé, mas dois ensinos o incomodavam: a segurança eterna incondicional e o entusiasmo pela guerra. Foi para conferir esses pontos que ele foi aos pais pré-nicenos.
A leitura que mudou a casa
Bercot chama essa leitura de virada da sua vida. Encontrou apoio para as suas objeções, mas também descobriu que a maior parte das crenças e do modo de vida dos primeiros cristãos diferia dos seus, e concluiu que o Novo Testamento ensinava o mesmo que eles. Deixou de levar pessoas aos tribunais (1 Coríntios 6:1-8) e reduziu a advocacia a dois dias por semana. A família abandonou a televisão e adotou roupas modestas e o véu das mulheres na oração (1 Coríntios 11:2-16).
O primeiro livro e a Scroll Publishing
Amigos que se reuniam com ele aos sábados o animaram a escrever. Gene Edwards elogiou o manuscrito, mas não podia publicá-lo; a Bethany House pediu mudanças que, para o autor, comprometiam a mensagem. Bercot criou então a Scroll Publishing, uma editora familiar e sem fins lucrativos, e lançou o livro em 1989. A primeira tiragem se esgotou em seis meses, e as vendas passaram de 100 mil exemplares.
Elmo Stoll, da Pathway Publishers, resenhou o livro na revista amish Family Life, e começaram a chegar cartas de anabatistas, entre eles os German Baptist Brethren, que apresentaram a Bercot comunidades de que ele nunca ouvira falar.
Em busca de uma igreja
Em 1992, Bercot ajudou a formar a Tyler Early Christian Fellowship, uma igreja nos lares em Tyler, no Texas, e passou cerca de dez anos em igrejas domésticas, examinando menonitas da Conferência Geral, quacres e os Irmãos da Graça. A busca passou também pela Igreja Anglicana. Ele estudou teologia na Universidade de Cambridge e foi ordenado presbítero anglicano, convencido pelo argumento da sucessão apostólica, segundo o qual a autoridade dos bispos vem dos apóstolos por uma cadeia ininterrupta de ordenações. Nessa fase aceitava o batismo de crianças. Novas leituras dos pré-nicenos o levaram a abandonar as duas convicções e o sacerdócio.
O grupo mais próximo do que ele lia eram os anabatistas conservadores, mas a igreja menonita conservadora da região exigia mudanças culturais e o fechamento da editora. Em 2004 a família se mudou para o vale de Amberson, na Pensilvânia, e entrou na Shippensburg Christian Fellowship, que permitia manter a Scroll. Hoje frequenta a Chambersburg Christian Fellowship, igreja irmã da de Shippensburg, da qual Bercot é presbítero.
Escritor e conferencista
Em 1998 a Hendrickson publicou A Dictionary of Early Christian Beliefs, a obra mais lida de Bercot: mais de 7 mil citações de escritores como Clemente de Roma, Inácio, Justino, Irineu e Tertuliano, organizadas em mais de 700 temas, com volume e página dos Ante-Nicene Fathers. Ray Laird, na Evangelical Review of Theology, disse que Bercot prestou à igreja “um grande serviço” ao abrir uma porta de entrada acessível a esses escritos.
Seguiram-se, entre outros, uma biografia romanceada de Patrício (1999), The Kingdom That Turned the World Upside Down (2003), sobre o reino de Deus, Will the Theologians Please Sit Down (2009), In God We Don’t Trust (2011), sobre a fundação dos Estados Unidos, e, em 2024, um comentário a Romanos lido como antes de Agostinho e de Lutero. Entre 1992 e 2020 gravou cerca de duzentas palestras; falou em Harvard em 2012 e debateu em Boston, em 2014, se o cristão pode ir à guerra. Os seus livros saíram em espanhol, romeno e português, e entre os que estudaram com ele a igreja antiga está o ministro menonita Dean Taylor. Bercot está aposentado da advocacia.
Pensamento
Onde ele fica no arminianismo
Bercot é um anabatista conservador, e o seu método é perguntar o que criam os cristãos anteriores a Niceia. Ele não parte da Reforma nem de Jacó Armínio, mas, nos pontos que separam calvinistas e arminianos, chega às conclusões arminianas e as defende com os pais da igreja: rejeita a predestinação incondicional, afirma que Deus conhece o futuro sem causá-lo, sustenta que a graça pode ser recusada e ensina que o crente pode perder a salvação. Por isso o situamos com os anabatistas, ao lado de Menno Simons e Balthasar Hubmaier, e não com o arminianismo clássico, do qual se afasta no pecado original e na justificação.
Salvação em dois tempos
Em Will the Real Heretics Please Stand Up, Bercot resume o que leu: “os primeiros cristãos criam que a salvação é um dom de Deus, mas que Deus dá o seu dom a quem ele escolhe. E ele escolhe dá-lo aos que o amam e lhe obedecem”. A salvação tem, para ele, dois tempos. No primeiro, a pessoa é salva pela graça, por meio da fé, do arrependimento e do batismo, e os pecados passados são lavados sem obra nenhuma que os mereça. No segundo, essa salvação é mantida por uma relação de amor, fé e obediência a Cristo até o fim. O livro parte de que os primeiros cristãos criam que “a nossa fé e a nossa obediência contínuas são necessárias para a salvação” e cita Irineu advertindo contra pecar depois de conhecer a Cristo (p. 65). Numa aula, Bercot concluiu: “a nossa salvação final não é decidida até morrermos, porque podemos perder a nossa fé”.
Uma queda isolada, explica ele, não rompe a relação com Cristo; a impenitência persistente rompe. A imagem é a da videira de João 15: “sem mim nada podeis fazer”, e o ramo que não dá fruto é cortado. Ele chama isso de “terceiro caminho” anabatista, entre a salvação por méritos e a fé sem obediência, e resume: “se ele não é o nosso Senhor, não é o nosso Salvador”. O verbete do Dictionary sobre a possibilidade de o salvo se perder reúne cinco páginas de citações, que o arminiano Steve Witzki usou contra o “uma vez salvo, salvo para sempre”.
Predestinação, Agostinho e Romanos
No capítulo sobre predestinação e livre-arbítrio, Bercot contrapõe a predestinação dos reformadores aos cristãos antigos, para quem Deus prevê o futuro sem determiná-lo, e mostra como Orígenes lia Romanos 9. Em outro capítulo, aponta Agostinho de Hipona como “o cristão mais influente de todos os tempos”, por cujos olhos o Ocidente passou a ler os apóstolos, e como quem se afastou do ensino anterior sobre graça, livre-arbítrio e guerra.
O comentário a Romanos desenvolve a tese. Até cerca do ano 400, diz Bercot, a igreja lia a carta de modo uniforme: Paulo responde a judeus cristãos que queriam pôr os gentios debaixo da lei de Moisés e mostra que judeus e gentios estão em pé de igualdade diante de Deus. Agostinho lia em latim, e a tradução latina de Romanos 5:12, “em quem todos pecaram”, deu origem à ideia de uma culpa herdada de Adão. Na controvérsia com Pelágio, ele teria chegado à fórmula que Bercot resume como “100% da salvação é Deus, 0% é humano”, com uma salvação decidida antes da criação. Bercot vê aí uma novidade e a raiz do calvinismo, passada a Lutero, cujo “todo o fundamento foi construído sobre Agostinho”. A Reforma, no seu juízo, foi uma volta apenas parcial ao cristianismo antigo; os anabatistas chegaram mais perto dele.
Doutrinismo, reino e não resistência
Will the Theologians Please Sit Down abre com Caspar Zacher, acusado de heresia em 1562 e absolvido quando os vizinhos mostraram, pelo mau comportamento dele, que não podia ser anabatista. O caso ilustra o que Bercot chama de Doctrianity, o “doutrinismo” que deixou de medir a fé pelos frutos e passou a medi-la pela teologia correta.
O centro da obra posterior é o reino de Deus. Jesus pregava “o evangelho do reino”, e o Sermão do Monte traz mandamentos, “não recomendações nem sugestões”. O cristão obedece às autoridades, mas a sua lealdade última pertence ao reino, e por isso o irmão na China pesa mais que a pátria. Daí a não resistência: “a guerra não é o caminho dos cristãos”, que também não buscam o poder político. Para Bercot, nenhum país é o país de Deus senão o próprio reino. O site trata dessa herança em Anabatistas de 1525 e em Calvino x anabatistas: o cristão pode ir ao tribunal?.
Críticas
O historiador R. A. Baker escreveu que Bercot escolhe nos pais as passagens que confirmam a sua tese e lembrou que os escritores do século II defendiam posições que o próprio Bercot rejeitaria. O apologista James Holding observou que a proximidade com os apóstolos não garante acerto, já que também havia hereges antigos. Bercot responde que os cristãos do século II estavam a uma geração dos apóstolos, e nós estamos a dezenove.
Pontos de contato e de diferença
Com a declaração de fé deste site, Bercot concorda em pontos que importam: Deus quer salvar a todos, a graça é resistível, a eleição não é decreto arbitrário e a perseverança é condicional, com a mesma imagem do ramo na videira (João 15:4-6), tema do capítulo sobre a perseverança dos santos. As diferenças também são reais. O site afirma o pecado original e a depravação total: nascemos sob condenação e incapazes de nos salvar, e só a graça preveniente liberta a vontade para crer. Armínio e John Wesley afirmaram essa incapacidade com a mesma força de Agostinho, e para eles a obra da salvação é toda de Deus. O site afirma ainda a justificação somente pela fé, pela justiça de Cristo imputada, e vê a obediência como fruto da graça, e não como condição somada à fé. E entende o batismo como testemunho que segue a conversão, enquanto Bercot, com os pré-nicenos, o liga ao perdão dos pecados e ao novo nascimento. O debate de fundo aparece em Wesley entre agostinianos e pelagianos.
Obras principais
- Will the Real Heretics Please Stand Up: A New Look at Today’s Evangelical Church in the Light of Early Christianity (Scroll, 1989)
- The Pilgrim Road (Scroll, 1991)
- Common Sense (Scroll, 1992)
- A Dictionary of Early Christian Beliefs (Hendrickson, 1998)
- Let Me Die in Ireland: The True Story of Patrick (Scroll, 1999)
- The Kingdom That Turned the World Upside Down (Scroll, 2003)
- Plain Speaking: How to Preach and Teach Effectively (Scroll, 2007)
- Will the Theologians Please Sit Down (Scroll, 2009)
- In God We Don’t Trust: A Look at the Founding of America in the Light of Jesus’ Teachings (Scroll, 2011)
- Secrets of the Kingdom Life (Scroll, 2014)
- Romans: How Romans Was Understood Before Augustine and Luther (Historic Faith Commentary Series, 2024)
Livros em português
- Que falem os primeiros cristãos: uma análise da igreja moderna sob a luz do cristianismo primitivo (Monte Sião). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Dicionário das crenças dos cristãos primitivos (Monte Sião). Ver na Amazon
- O reino que alvoroçou o mundo (Monte Sião). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Que se assentem os teólogos (Monte Sião). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Scroll Publishing, David Bercot.
- David Bercot, página pessoal, com a lista dos livros e as notícias do ministério.
- The Historic Faith, David W. Bercot: Books, Sermons & Biography e About Our Teachers.
- ChannelC² Experiences, David Bercot.
- Hope for Wondering Amish, The Story of David Bercot, abril de 2026 (transcrição de palestra de Bercot).
- Anabaptist Perspectives, An Anabaptist View of Salvation (ep. 78), I Became an Anglican Priest. Here’s Why I Left (ep. 209, 2024) e Why We’ve Misunderstood the Book of Romans Since 430 AD (ep. 256, 2025).
- Strength to Strength, The Kingdom That Turned the World Upside Down, by David Bercot, entrevista de julho de 2023.
- David Bercot, What the Early Christians Believed about Salvation, aula da Scroll Publishing.
- The Historic Faith, Will the Real Heretics Please Stand Up: curso e audiolivro.
- Steve Witzki, The Inadequate Historical Precedent for “Once Saved, Always Saved”, Society of Evangelical Arminians.
- Mike Atnip, resenha de Will the Theologians Please Sit Down, The Heartbeat of the Remnant, fevereiro de 2010.
- Fred W. Anson (org.), Countering the Error of David Bercot, Beggar’s Bread, 2021, com as críticas de R. A. Baker e James Holding.
- Wikipédia, David Bercot.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
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- Personagens
- Anabatistas