
HistóriaTeólogos arminianos16 de 125
Barton W. Stone: O pregador de Cane Ridge que enterrou o próprio presbitério
Neste texto
No outono de 1798, diante do Presbitério de Transilvânia e de uma grande congregação, no Kentucky, um pregador de 25 anos ouviu a pergunta de praxe: recebia e adotava a Confissão de Westminster como o sistema de doutrina ensinado na Bíblia? Antes do culto ele tinha pedido aos líderes do presbitério que adiassem a ordenação, porque a consciência o impedia de subscrever a Trindade e a eleição como a Confissão as formulava. Eles perguntaram até onde ele aceitava o documento, e a resposta lhes bastou. Na hora da pergunta oficial, Barton Warren Stone respondeu em voz alta: “Recebo, até onde a vejo de acordo com a palavra de Deus”. Ninguém objetou, e ele foi ordenado. Cinco anos depois, quando o Sínodo do Kentucky o suspendeu, ele lembrou que nunca tinha recebido a Confissão de outro modo.
Vida
Infância na fronteira e conversão
Stone nasceu em 24 de dezembro de 1772, perto de Port Tobacco, em Maryland, o caçula de John Stone e Mary Warren. O pai morreu quando ele era muito pequeno. Em 1779, em plena guerra de independência, a mãe mudou-se com a família para o condado de Pittsylvania, na Virgínia, perto do rio Dan.
Com a partilha da herança do pai, decidiu estudar para ser advogado. Em 1º de fevereiro de 1790 começou o latim na academia de David Caldwell, em Guilford, na Carolina do Norte, que vivia um avivamento sob a pregação do presbiteriano James McGready. Stone quis mudar de escola para fugir daquilo, mas um colega de quarto o levou para ouvir McGready, e ele saiu dali decidido a buscar a salvação. Seguiu-se um ano de angústia. A pregação da época ensinava que o pecador, totalmente incapaz, devia esperar que o Espírito o regenerasse no tempo soberano de Deus, e Stone esperou até quase desesperar.
A virada veio numa reunião em Alamance, quando um jovem pregador, William Hodge, falou sobre o texto “Deus é amor” (1 João 4:8). Stone foi para o mato com a Bíblia, leu, orou e se rendeu. Anos depois resumiu o que aprendeu naquela noite: “um pobre pecador tinha tanta autorização para crer em Jesus no começo quanto no fim”. Toda a sua teologia posterior parte dessa frase: Deus ama o pecador agora, e o chamado para crer vale agora.
Ministério e o avivamento de Cane Ridge
Em 1793 tornou-se candidato ao ministério no Presbitério de Orange e estudou teologia com o próprio Hodge. O tratado de Witsius sobre a Trindade o deixou tão confuso que já não sabia orar, e o de Isaac Watts lhe trouxe alívio. Desanimado, foi para a Geórgia, onde deu aulas de línguas numa academia metodista a partir de 1795. Recebeu licença para pregar em 1796, numa cerimônia em que um velho pastor entregou aos candidatos a Bíblia, e não a Confissão.
No fim de 1796 fixou-se como pregador das congregações de Cane Ridge e Concord, no condado de Bourbon, no Kentucky. Numa viagem a Charleston em 1797 viu escravos acorrentados ao trabalho e com colares de ferro, e escreveu que ali começou o seu abandono da escravidão. Na época do avivamento libertou os próprios escravos, “preferindo a pobreza com a boa consciência”.
Depois da ordenação vieram anos de crise. Stone pregava que o homem era tão depravado que nada podia fazer até que o Espírito, por um poder físico e todo-poderoso, o regenerasse, e logo em seguida chamava esse homem a crer. A contradição o paralisava no púlpito. Depois de dias de agonia, saiu convencido pela leitura das Escrituras de que Deus ama o mundo inteiro e de que os homens se perdem porque não recebem o testemunho que Deus deu do seu Filho (João 20:31).
Na primavera de 1801 foi ao condado de Logan ver o avivamento de McGready e voltou certo de que aquilo era obra de Deus. Em 2 de julho casou-se com Elizabeth Campbell. Em agosto veio a grande reunião sacramental de Cane Ridge, que durou seis ou sete dias e reuniu, pelo cálculo de militares presentes, entre vinte e trinta mil pessoas. Stone admitiu que houve fanatismo nas quedas e nos “solavancos”, mas nunca deixou de defender o conjunto como obra de Deus, porque levava as pessoas a confessar e abandonar o pecado. Foi nesse avivamento que Peter Cartwright se converteu.
O Testamento de Springfield
O avivamento uniu as denominações por pouco tempo. Em 1803, quando o Sínodo do Kentucky julgou Richard McNemar por pregar contra a Confissão, Stone, McNemar, John Thompson, John Dunlavy e Robert Marshall redigiram um protesto e saíram da jurisdição do sínodo. O velho David Rice, enviado para trazê-los de volta, argumentou que quem deixa o calvinismo passa ao arminianismo, depois ao pelagianismo, ao deísmo e ao ateísmo. O sínodo os suspendeu, e os cinco formaram o Presbitério de Springfield e publicaram em 1804 uma Apologia, cuja segunda parte, Visão compendiosa do evangelho, é de Stone. Diante das suas congregações, ele rasgou o compromisso de salário que elas tinham assinado e foi trabalhar na roça.
Em 28 de junho de 1804, em Cane Ridge, o presbitério publicou o seu Último desejo e testamento, pedindo que aquele corpo “morra, seja dissolvido e se una ao corpo de Cristo em geral”, que cada igreja escolhesse o seu pregador e que o povo tomasse a Bíblia como único guia. O grupo adotou o nome de “cristãos”. Vieram anos duros: missionários shakers levaram McNemar, Dunlavy e Matthew Houston, e Marshall e Thompson voltaram aos presbiterianos. Dos cinco, só Stone ficou. Nesse período ele passou à imersão dos crentes.
Em 1809 morreu o seu único filho, e em 30 de maio de 1810 morreu Elizabeth, deixando quatro meninas. Stone viajou pregando pelo Ohio, pelo Kentucky e pelo Tennessee com Reuben Dooley, também viúvo. Em 31 de outubro de 1811 casou-se com Celia Wilson Bowen, prima da primeira mulher. Para viver, ensinou em Lexington e dirigiu a Rittenhouse Academy, em Georgetown, onde fundou uma igreja que chegou a duzentos ou trezentos membros.
Campbell, a união de 1832 e os últimos anos
Stone conheceu Alexander Campbell em 1824 e viu pouca diferença entre o que ele pregava e o que os cristãos pregavam havia vinte anos, exceto o batismo para remissão dos pecados e a ceia semanal. Em 1826 lançou o Christian Messenger, que editou até a morte. No fim de 1831 promoveu encontros em Georgetown e Lexington, e em 1º de janeiro de 1832 as congregações dos dois movimentos passaram a comungar juntas em Lexington. Stone chamou essa união de “o ato mais nobre da minha vida”.
Em 1834 mudou-se para Jacksonville, no Illinois, estado livre, também para poder libertar os escravos que a mulher tinha herdado, o que a lei do Kentucky não permitia. Em agosto de 1841 sofreu um derrame que o deixou parcialmente paralisado. Em 1843, num culto de despedida em Cane Ridge, leu com a voz embargada o adeus de Paulo aos presbíteros de Éfeso (Atos 20:17-38). Pregou pela última vez em outubro de 1844, no Missouri, e morreu em 9 de novembro de 1844, em Hannibal, na casa do genro Samuel A. Bowen. Pouco antes, disse a Jacob Creath que eles tinham algumas opiniões erradas, “mas no principal estamos certos”. Em 1847 seus restos foram levados para Cane Ridge, onde um obelisco o chama de “distinto reformador do século XIX”.
Pensamento
Stone é um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano clássico. Nos pontos que separam calvinistas e arminianos ele fica do lado arminiano: Deus ama o mundo inteiro, Cristo morreu por todos, a eleição e a reprovação incondicionais contradizem o caráter de Deus revelado em Jesus, e a fé é a condição para receber a salvação. Os presbiterianos o acusaram de arminianismo, e ele previu o rótulo na Apologia: “por alguns seremos provavelmente considerados antinomianos; por outros, arminianos”. Recusou, porém, o nome de qualquer partido, e em pontos centrais se afastou de Armínio e de Wesley.
O amor de Deus para todos
O argumento de Stone contra o calvinismo nasce da experiência pastoral e de João 3:16. Se Deus ordena a todos que creiam e condena os que não creem, então Cristo foi dado a todos, porque ninguém pode ser condenado por não crer numa promessa que nunca lhe foi feita. Na Apologia, com João 3:17 e Hebreus 2:9, ele conclui que todo pecador tem garantia suficiente para crer. Na autobiografia chamou o calvinismo de “uma montanha escura entre o céu e a terra”, mas reconheceu “milhares de santos preciosos” nesse sistema. Para o teólogo John Mark Hicks, Stone só encontrou segurança da salvação quando entendeu que o amor de Deus alcança todos, e nisso o seu movimento compartilha a convicção arminiana.
Fé, Palavra e Espírito
Aqui está a maior distância em relação ao arminianismo clássico. Stone afirmava a depravação humana: o homem está “morto em delitos e pecados”, e só Deus regenera. Mas negava que o pecador precisasse de uma obra interior do Espírito antes de crer, e chamou a depravação total de “primeiro elo” do calvinismo. Para ele, Deus regenera pela Palavra, e a Palavra age quando é crida. A fé é “admitir o testemunho pela autoridade de quem testifica”, e depende da força do testemunho, suficiente para produzir fé em quem o ouve. Deus trata o homem como criatura racional: “ele poderia transformar uma pedra num anjo com uma palavra, mas não o fará”. O Espírito, prometido aos que creem, vem depois da fé.
Armínio e Wesley ensinavam que o pecador está tão morto que não pode sequer querer o bem, e que Deus o alcança com a graça preveniente, uma obra do Espírito que vem antes de qualquer resposta, liberta a vontade e torna a fé possível sem forçá-la (ver a Declaração de Sentimentos de Armínio). Stone chegou à mesma conclusão prática, de que todos podem crer, por outro caminho: a suficiência do testemunho bíblico. Esse acento o aproxima de autores do mesmo movimento, como B. W. Johnson e Jack Cottrell. Mas Stone foi também filho do avivamento: perguntou com que autoridade se podia negar que houvesse dons miraculosos no presente e criticou os reformadores do grupo de Campbell que rejeitavam até a oração do pregador pedindo a ajuda de Deus.
Expiação e Trindade
Em 1804 Stone passou a duvidar da expiação como satisfação penal. Se Cristo pagou como substituto a dívida de todos, raciocinava, todos estariam salvos; se pagou só a de alguns, voltava-se à eleição calvinista. Rejeitou também a explicação metodista de que a cruz reconciliou o Pai conosco, porque a Escritura nunca diz que a morte de Jesus mudou Deus. Entendia a expiação como at-one-ment, tornar um: o pecado separou Deus e o homem, e Cristo refaz essa união quando nos salva do pecado e nos torna santos, sem nenhuma mudança em Deus. É uma leitura próxima da teoria da influência moral, distante da substituição penal de Armínio e Wesley e da teoria governamental de Grócio.
Na Trindade, seguiu Watts e rejeitou a formulação de Westminster. Ensinava que Cristo é o Filho de Deus, da mesma natureza do Pai mas não da mesma substância. Os adversários o chamaram de ariano e sociniano disfarçado; ele negou esses rótulos e o de unitarista, e chamou muitas dessas disputas de “guerra de palavras”.
Unidade sem credos e o Reino que virá
O tema que atravessa a vida de Stone é a unidade dos cristãos. Ele via os credos humanos como a principal causa das divisões, porque transformam opiniões em testes de comunhão. Daí o Testamento de Springfield, o nome “cristão”, a recusa de fazer da imersão uma condição para receber membros e a união de 1832. Era pré-milenista: esperava que Cristo voltasse, derrubasse os governos humanos e reinasse com os santos. Por isso ele e seus seguidores se recusaram a votar, a ocupar cargos e a servir no exército.
As diferenças com a declaração de fé deste site são claras: o site confessa a Trindade de três pessoas consubstanciais, a depravação total com a graça preveniente antes da fé, o sacrifício de Cristo como satisfação pelos pecados e o amilenismo. Em comum com Stone ficam o amor universal de Deus, a expiação por todos, a graça que pode ser recusada e o desejo de que os crentes vivam como um só corpo.
Obras principais
- An Apology for Renouncing the Jurisdiction of the Synod of Kentucky (1804), com os demais membros do Presbitério de Springfield; a segunda parte, A Compendious View of the Gospel, é de Stone.
- The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery (1804), assinado com os demais membros.
- Atonement: The Substance of Two Letters Written to a Friend (1805).
- The Christian’s Hymn Book (1805).
- An Address to the Christian Churches in Kentucky, Tennessee and Ohio on Several Important Doctrines of Religion (2ª ed., 1821).
- Letters to James Blythe, D.D. (1824).
- The Christian Messenger (periódico, 1826-1844).
- The Biography of Eld. Barton Warren Stone, Written by Himself (1847), editada por John Rogers.
Para aprofundar
- Barton W. Stone, The Biography of Eld. Barton Warren Stone, Written by Himself, com acréscimos de John Rogers (Cincinnati, 1847). Inclui a Apologia do Presbitério de Springfield.
- D. Newell Williams e Douglas A. Foster, “No name but the name of Christ”, Christian History, n. 106 (2013).
- Richard Hughes, “Reading the Bible to enjoy the God of the Bible” e “Freedom’s ferment”, Christian History, n. 106 (2013).
- William S. Powell, “Stone, Barton Warren”, Dictionary of North Carolina Biography (University of North Carolina Press, 1994), via NCpedia.
- Scott Harp, “Barton Warren Stone”, History of the Restoration Movement.
- Winfred E. Garrison, An American Religious Movement: A Brief History of the Disciples of Christ, capítulo “Disciples and Christians” (CCEL).
- John Mark Hicks, “Assurance, Stone-Campbell History, and Calvinism” (2008).
- Illinois State Historical Society, marco histórico “Barton Warren Stone (1772-1844)”, Jacksonville (2005).
- “Barton W. Stone”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens