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HistóriaTeólogos arminianos16 de 125

Barton W. Stone: O pregador de Cane Ridge que enterrou o próprio presbitério

Diego Gonçalves12 min de leitura2.471 palavras

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Neste texto

No outono de 1798, diante do Presbitério de Transilvânia e de uma grande congregação, no Kentucky, um pregador de 25 anos ouviu a pergunta de praxe: recebia e adotava a Confissão de Westminster como o sistema de doutrina ensinado na Bíblia? Antes do culto ele tinha pedido aos líderes do presbitério que adiassem a ordenação, porque a consciência o impedia de subscrever a Trindade e a eleição como a Confissão as formulava. Eles perguntaram até onde ele aceitava o documento, e a resposta lhes bastou. Na hora da pergunta oficial, Barton Warren Stone respondeu em voz alta: “Recebo, até onde a vejo de acordo com a palavra de Deus”. Ninguém objetou, e ele foi ordenado. Cinco anos depois, quando o Sínodo do Kentucky o suspendeu, ele lembrou que nunca tinha recebido a Confissão de outro modo.

Retrato de Barton W. Stone em gravura do século XIX
Barton W. Stone, detalhe da gravura Pioneiros da grande reforma religiosa do século XIX, de J. C. Buttre sobre desenho de J. D. C. McFarland, 1885. Biblioteca do Congresso. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Infância na fronteira e conversão

Stone nasceu em 24 de dezembro de 1772, perto de Port Tobacco, em Maryland, o caçula de John Stone e Mary Warren. O pai morreu quando ele era muito pequeno. Em 1779, em plena guerra de independência, a mãe mudou-se com a família para o condado de Pittsylvania, na Virgínia, perto do rio Dan.

Com a partilha da herança do pai, decidiu estudar para ser advogado. Em 1º de fevereiro de 1790 começou o latim na academia de David Caldwell, em Guilford, na Carolina do Norte, que vivia um avivamento sob a pregação do presbiteriano James McGready. Stone quis mudar de escola para fugir daquilo, mas um colega de quarto o levou para ouvir McGready, e ele saiu dali decidido a buscar a salvação. Seguiu-se um ano de angústia. A pregação da época ensinava que o pecador, totalmente incapaz, devia esperar que o Espírito o regenerasse no tempo soberano de Deus, e Stone esperou até quase desesperar.

A virada veio numa reunião em Alamance, quando um jovem pregador, William Hodge, falou sobre o texto “Deus é amor” (1 João 4:8). Stone foi para o mato com a Bíblia, leu, orou e se rendeu. Anos depois resumiu o que aprendeu naquela noite: “um pobre pecador tinha tanta autorização para crer em Jesus no começo quanto no fim”. Toda a sua teologia posterior parte dessa frase: Deus ama o pecador agora, e o chamado para crer vale agora.

Ministério e o avivamento de Cane Ridge

Em 1793 tornou-se candidato ao ministério no Presbitério de Orange e estudou teologia com o próprio Hodge. O tratado de Witsius sobre a Trindade o deixou tão confuso que já não sabia orar, e o de Isaac Watts lhe trouxe alívio. Desanimado, foi para a Geórgia, onde deu aulas de línguas numa academia metodista a partir de 1795. Recebeu licença para pregar em 1796, numa cerimônia em que um velho pastor entregou aos candidatos a Bíblia, e não a Confissão.

No fim de 1796 fixou-se como pregador das congregações de Cane Ridge e Concord, no condado de Bourbon, no Kentucky. Numa viagem a Charleston em 1797 viu escravos acorrentados ao trabalho e com colares de ferro, e escreveu que ali começou o seu abandono da escravidão. Na época do avivamento libertou os próprios escravos, “preferindo a pobreza com a boa consciência”.

Depois da ordenação vieram anos de crise. Stone pregava que o homem era tão depravado que nada podia fazer até que o Espírito, por um poder físico e todo-poderoso, o regenerasse, e logo em seguida chamava esse homem a crer. A contradição o paralisava no púlpito. Depois de dias de agonia, saiu convencido pela leitura das Escrituras de que Deus ama o mundo inteiro e de que os homens se perdem porque não recebem o testemunho que Deus deu do seu Filho (João 20:31).

Na primavera de 1801 foi ao condado de Logan ver o avivamento de McGready e voltou certo de que aquilo era obra de Deus. Em 2 de julho casou-se com Elizabeth Campbell. Em agosto veio a grande reunião sacramental de Cane Ridge, que durou seis ou sete dias e reuniu, pelo cálculo de militares presentes, entre vinte e trinta mil pessoas. Stone admitiu que houve fanatismo nas quedas e nos “solavancos”, mas nunca deixou de defender o conjunto como obra de Deus, porque levava as pessoas a confessar e abandonar o pecado. Foi nesse avivamento que Peter Cartwright se converteu.

O Testamento de Springfield

O avivamento uniu as denominações por pouco tempo. Em 1803, quando o Sínodo do Kentucky julgou Richard McNemar por pregar contra a Confissão, Stone, McNemar, John Thompson, John Dunlavy e Robert Marshall redigiram um protesto e saíram da jurisdição do sínodo. O velho David Rice, enviado para trazê-los de volta, argumentou que quem deixa o calvinismo passa ao arminianismo, depois ao pelagianismo, ao deísmo e ao ateísmo. O sínodo os suspendeu, e os cinco formaram o Presbitério de Springfield e publicaram em 1804 uma Apologia, cuja segunda parte, Visão compendiosa do evangelho, é de Stone. Diante das suas congregações, ele rasgou o compromisso de salário que elas tinham assinado e foi trabalhar na roça.

Em 28 de junho de 1804, em Cane Ridge, o presbitério publicou o seu Último desejo e testamento, pedindo que aquele corpo “morra, seja dissolvido e se una ao corpo de Cristo em geral”, que cada igreja escolhesse o seu pregador e que o povo tomasse a Bíblia como único guia. O grupo adotou o nome de “cristãos”. Vieram anos duros: missionários shakers levaram McNemar, Dunlavy e Matthew Houston, e Marshall e Thompson voltaram aos presbiterianos. Dos cinco, só Stone ficou. Nesse período ele passou à imersão dos crentes.

Em 1809 morreu o seu único filho, e em 30 de maio de 1810 morreu Elizabeth, deixando quatro meninas. Stone viajou pregando pelo Ohio, pelo Kentucky e pelo Tennessee com Reuben Dooley, também viúvo. Em 31 de outubro de 1811 casou-se com Celia Wilson Bowen, prima da primeira mulher. Para viver, ensinou em Lexington e dirigiu a Rittenhouse Academy, em Georgetown, onde fundou uma igreja que chegou a duzentos ou trezentos membros.

Campbell, a união de 1832 e os últimos anos

Stone conheceu Alexander Campbell em 1824 e viu pouca diferença entre o que ele pregava e o que os cristãos pregavam havia vinte anos, exceto o batismo para remissão dos pecados e a ceia semanal. Em 1826 lançou o Christian Messenger, que editou até a morte. No fim de 1831 promoveu encontros em Georgetown e Lexington, e em 1º de janeiro de 1832 as congregações dos dois movimentos passaram a comungar juntas em Lexington. Stone chamou essa união de “o ato mais nobre da minha vida”.

Em 1834 mudou-se para Jacksonville, no Illinois, estado livre, também para poder libertar os escravos que a mulher tinha herdado, o que a lei do Kentucky não permitia. Em agosto de 1841 sofreu um derrame que o deixou parcialmente paralisado. Em 1843, num culto de despedida em Cane Ridge, leu com a voz embargada o adeus de Paulo aos presbíteros de Éfeso (Atos 20:17-38). Pregou pela última vez em outubro de 1844, no Missouri, e morreu em 9 de novembro de 1844, em Hannibal, na casa do genro Samuel A. Bowen. Pouco antes, disse a Jacob Creath que eles tinham algumas opiniões erradas, “mas no principal estamos certos”. Em 1847 seus restos foram levados para Cane Ridge, onde um obelisco o chama de “distinto reformador do século XIX”.

Pensamento

Stone é um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano clássico. Nos pontos que separam calvinistas e arminianos ele fica do lado arminiano: Deus ama o mundo inteiro, Cristo morreu por todos, a eleição e a reprovação incondicionais contradizem o caráter de Deus revelado em Jesus, e a fé é a condição para receber a salvação. Os presbiterianos o acusaram de arminianismo, e ele previu o rótulo na Apologia: “por alguns seremos provavelmente considerados antinomianos; por outros, arminianos”. Recusou, porém, o nome de qualquer partido, e em pontos centrais se afastou de Armínio e de Wesley.

O amor de Deus para todos

O argumento de Stone contra o calvinismo nasce da experiência pastoral e de João 3:16. Se Deus ordena a todos que creiam e condena os que não creem, então Cristo foi dado a todos, porque ninguém pode ser condenado por não crer numa promessa que nunca lhe foi feita. Na Apologia, com João 3:17 e Hebreus 2:9, ele conclui que todo pecador tem garantia suficiente para crer. Na autobiografia chamou o calvinismo de “uma montanha escura entre o céu e a terra”, mas reconheceu “milhares de santos preciosos” nesse sistema. Para o teólogo John Mark Hicks, Stone só encontrou segurança da salvação quando entendeu que o amor de Deus alcança todos, e nisso o seu movimento compartilha a convicção arminiana.

Fé, Palavra e Espírito

Aqui está a maior distância em relação ao arminianismo clássico. Stone afirmava a depravação humana: o homem está “morto em delitos e pecados”, e só Deus regenera. Mas negava que o pecador precisasse de uma obra interior do Espírito antes de crer, e chamou a depravação total de “primeiro elo” do calvinismo. Para ele, Deus regenera pela Palavra, e a Palavra age quando é crida. A fé é “admitir o testemunho pela autoridade de quem testifica”, e depende da força do testemunho, suficiente para produzir fé em quem o ouve. Deus trata o homem como criatura racional: “ele poderia transformar uma pedra num anjo com uma palavra, mas não o fará”. O Espírito, prometido aos que creem, vem depois da fé.

Armínio e Wesley ensinavam que o pecador está tão morto que não pode sequer querer o bem, e que Deus o alcança com a graça preveniente, uma obra do Espírito que vem antes de qualquer resposta, liberta a vontade e torna a fé possível sem forçá-la (ver a Declaração de Sentimentos de Armínio). Stone chegou à mesma conclusão prática, de que todos podem crer, por outro caminho: a suficiência do testemunho bíblico. Esse acento o aproxima de autores do mesmo movimento, como B. W. Johnson e Jack Cottrell. Mas Stone foi também filho do avivamento: perguntou com que autoridade se podia negar que houvesse dons miraculosos no presente e criticou os reformadores do grupo de Campbell que rejeitavam até a oração do pregador pedindo a ajuda de Deus.

Expiação e Trindade

Em 1804 Stone passou a duvidar da expiação como satisfação penal. Se Cristo pagou como substituto a dívida de todos, raciocinava, todos estariam salvos; se pagou só a de alguns, voltava-se à eleição calvinista. Rejeitou também a explicação metodista de que a cruz reconciliou o Pai conosco, porque a Escritura nunca diz que a morte de Jesus mudou Deus. Entendia a expiação como at-one-ment, tornar um: o pecado separou Deus e o homem, e Cristo refaz essa união quando nos salva do pecado e nos torna santos, sem nenhuma mudança em Deus. É uma leitura próxima da teoria da influência moral, distante da substituição penal de Armínio e Wesley e da teoria governamental de Grócio.

Na Trindade, seguiu Watts e rejeitou a formulação de Westminster. Ensinava que Cristo é o Filho de Deus, da mesma natureza do Pai mas não da mesma substância. Os adversários o chamaram de ariano e sociniano disfarçado; ele negou esses rótulos e o de unitarista, e chamou muitas dessas disputas de “guerra de palavras”.

Unidade sem credos e o Reino que virá

O tema que atravessa a vida de Stone é a unidade dos cristãos. Ele via os credos humanos como a principal causa das divisões, porque transformam opiniões em testes de comunhão. Daí o Testamento de Springfield, o nome “cristão”, a recusa de fazer da imersão uma condição para receber membros e a união de 1832. Era pré-milenista: esperava que Cristo voltasse, derrubasse os governos humanos e reinasse com os santos. Por isso ele e seus seguidores se recusaram a votar, a ocupar cargos e a servir no exército.

As diferenças com a declaração de fé deste site são claras: o site confessa a Trindade de três pessoas consubstanciais, a depravação total com a graça preveniente antes da fé, o sacrifício de Cristo como satisfação pelos pecados e o amilenismo. Em comum com Stone ficam o amor universal de Deus, a expiação por todos, a graça que pode ser recusada e o desejo de que os crentes vivam como um só corpo.

Obras principais

  • An Apology for Renouncing the Jurisdiction of the Synod of Kentucky (1804), com os demais membros do Presbitério de Springfield; a segunda parte, A Compendious View of the Gospel, é de Stone.
  • The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery (1804), assinado com os demais membros.
  • Atonement: The Substance of Two Letters Written to a Friend (1805).
  • The Christian’s Hymn Book (1805).
  • An Address to the Christian Churches in Kentucky, Tennessee and Ohio on Several Important Doctrines of Religion (2ª ed., 1821).
  • Letters to James Blythe, D.D. (1824).
  • The Christian Messenger (periódico, 1826-1844).
  • The Biography of Eld. Barton Warren Stone, Written by Himself (1847), editada por John Rogers.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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